O aríete e a espia sedutora

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Parece que foi há meia-dúzia de dias mas já lá vão quase nove anos. Nessa altura, num país muito parecido com o nosso, numa cidade em tudo semelhante à nossa, vivia um senhor que tinha herdado uma enorme fortuna. Um filão de ouro, prata, diamantes, rubis e iPads que lhe apareceram nas mãos vindos de outras menos hábeis e capazes. Esse senhor, um largo e destemido mestre da diplomacia e da arte da guerra, conhecedor dos pontos fortes e fracos do seu exército e desejoso de conquista e de expansão. A vontade de derramar sangue levava-o a investir contra as armadas oponentes, com a força de milhares de homens condensada na sua reduzida mas sequiosa unidade de combate. Os ataques eram constantes contra os redutos inimigos, com aríetes (fui confirmar, tem mesmo acento no i) a estamparem-se contra os pesadíssimos portões que guardavam os preciosos bens do adversário perante as incessantes avançadas do nobre e autocrático lorde. Dezenas de setas voavam quase na vertical enquanto que os oponentes lutavam com todas as forças para evitar o massacre, mas os bravos guerreiros aguentavam, cediam terreno na sua zona recuada, deixando-a fértil a tácticas de guerrilha e de blitzkriegs pelos flancos desprotegidos, arriscando a alma e a família na demanda da conquista. No final, com mais feridos que mortos, a vitória era certa e a conquista assegurada.

Este era o modelo do Co. Um modelo que me ia pondo cardíaco e que sempre que a bola passava para o nosso meio-campo…olhava para trá só vendo o Pepe e o Paulo Assunção a recuar…enervava um bocadinho, vá.

Lopetegui é diferente. É um bar no fundo de uma rua escurecida pela guerra. Um Rick’s Café escondido no meio de suor e mesas quadradas e whiskey velho. É um ponto de encontro de almas, de interacção entre homens e mulheres, de delicadeza no toque, na troca de olhares, na fugaz reincidência da procura de uma fuga para a frente, na confiança entre camaradas de armas, todos sabendo que vão cair perante uma qualquer espia de combinaçao negra deitada entre lençóis de cetim no pequeno quarto das traseiras.

Hoje, olhando para Lopetegui, o modelo é tão díspar que nem consigo estabelecer comparações. E devo dizer que apesar da estratégia estar em ajustes, dos jogadores estarem em adaptação e das rotinas estarem a ser criadas…gosto muito mais. E o meu coração também.

Baías e Baronis – Arouca 0 vs 5 FC Porto

20141025  - FC AROUCA - FC PORTO

Acho que ninguém esperava um jogo tão fácil como este. É certo que o Arouca não é o Bilbao, que Bruno Amaro não é titular do Zenit ou do Shakhtar e que o David Simão, no alto da sua arrogância nojenta que dá vontade de cuspir em cima, não tem o talento de um Pirlo cego e paralítico. Mas esperava ao mesmo tempo mais do Arouca e menos do FC Porto. Foi uma vitória tornada fácil pela eficácia do nosso ataque, que andava tão fugida nos últimos jogos. Quintero no centro, Brahimi e Tello nas alas mas especialmente Jackson na frente estiveram muito bem e tornaram simples algo que às vezes parece tão complicado. E um cincazero é sempre giro e traz memórias engraçadas, como devem compreender. Vamos às notas:

(+) Jackson. Trabalha como poucos pontas-de-lança vi a trabalharem em todos os plantéis do FC Porto, mantendo as características de um ponta-de-lança que trabalha fundamentalmente na área. Houve Pena, Derlei, Lisandro, entre outros, mas nenhum deles era um Jardel, um Falcao. Jackson, em dias bons, combina as qualidades dos dois tipos de avançado: a mobilidade e progressão em drible dos jogadores que não são tão vocacionados para jogarem na área; o oportunismo e a capacidade de desmarcação que dão nome a um matador. Somemos a isto uma excelente capacidade para reter a bola em zonas mais recuadas enquanto aguarda pela subida dos companheiros…e vendemo-lo no final da época por 35 milhões a qualquer clube. Mesmo com 29 anos.

(+) Quintero. Dez. Dez. E talvez Dez. É esta a posição que Juanfer Quintero deveria sempre ocupar em campo quando estivesse ao serviço do FC Porto. Na selecçao colombiana podem pô-lo a jogar como defesa direito, durmo bem na mesma, mas colocá-lo na linha para flectir na diagonal interior não é a mesma coisa que vê-lo a levantar a cabecinha e a projectar as trajectórias que podem levar a um golo que parece fácil. Vai falhar muitos mais passes, inventar até levar o povo ao desespero. Mas uma vez, de vez em quando…pode dar a vitória à equipa com um singelo toque na bola. A continuar.

(+) Casemiro, finalmente. Um bom jogo de Casemiro, que até incluiu um golo e tudo, de cabeça depois de um canto. E para quem achar que estou a tentar incluir o maior número de conceitos claramente falsos sobre o FC Porto 2014/2015, asseguro-vos que tudo aquilo aconteceu ontem em Arouca. Ao fim de vários jogos com produção claramente negativa, finalmente o brasileiro mostrou-se estável no meio-campo, a tapar bem a dupla de orcs que compõem a zona central da equipa adversária, com Bruno Amaro e David Simão ambos a caírem perante a superioridade evidente de Casemiro e até de Herrera (meu Deus, os eixos inverteram-se!). Bom jogo, espero que continue.

(+) O gesto de Aboubakar para Quaresma depois do golo. Acabou de marcar o primeiro golo ao serviço do clube no campeonato. Celebra rapidamente e faz o quê logo a seguir? Vai cumprimentar Quaresma e acena para o público congratular o Ricardo pela assistência, como que dizendo: “sem ele este golo não entrava!”. Esperto, o nosso Vincent, heim?

(-) Os contínuos erros defensivos. Como se atravessassem um campo de minas de tacões altos. Como se estivessem a pescar num lago gelado no início de Junho. Como se tentassem atravessar uma linha de combóio sem guarda de linha enquanto vendados e com os pés atados. Assim foram os primeiros quinze, vinte minutos da equipa. Como se acabassem de saltar de um avião sem confirmar se o pára-quedas não tinha buracada. Tivemos sorte que o Arouca estava em dia não, porque aqueles momentos de passes mal guiados, recepções duvidosas, sobre-complicadices na defesa e pontapés para a frente directos aos pés de um adversário…continuamos com grandes problemas na saída da bola da defesa e o meio-campo pareceu melhor mas ainda sem conseguir uma produção consistente. A eficácia no ataque ajudou a mascarar as contínuas dificuldades na construção de jogo e a excessiva dependência em jogadores como Brahimi e Tello para impôr velocidade. Só quando o adversário está desgastado e desposicionado é que conseguimos fazer com que Danilo e Alex Sandro subam em apoio ao ataque e se até agora tem corrido razoavelmente bem e de uma forma produtiva…o jogo torna-se aborrecido e pouco agradável de seguir. Futebol bonito…ainda vai demorar a ser regular. Por agora, só a espaços.


Continuamos a evoluir. Devagarinho, sem pressões, é o que precisamos para criar uma estrutura que nos permita lutar pelo zénite (o outro) até Maio. Com alguma sorte, com mais alguns cincazeros destes.

Ouve lá ó Mister – Arouca

Señor Lopetegui,

Anda tudo louco. Tudo. Louco. Um empate, dois empates, três. Uma derrota, uma vitória, mau. O mundo parece convencido que uma equipa se forma de um dia para o outro, que as empatias e sinergias que decorrem do trabalho em conjunto, da harmonia que se cria durante meses (raios, durante anos!) de convívio, de espírito comum e objectivo partilhado, tudo isso aparece automagicamente do ar. Não é verdade e se as pessoas pensarem um bocadinho, vão perceber que nada é obra do acaso e tudo se trabalha para que os frutos apareçam. A não ser que sejas o Scolari, nesse caso é mandar as bolas para os Ro-Ros e siga a rusga.

Hoje vai ser um bom teste a essa capacidade crescente de harmonizar um grupo de talentos e de o consolidar como uma equipa em condições, capaz de enfrentar equipas temíveis por essa Europa fora ou alguns adversários de menor nome aqui pelo burgo. E o Arouca, que incluo no segundo grupo por motivos que deverão ser óbvios para o comum dos mortais, pode ser uma boa prova a essa mesma capacidade. O Pedro, teu companheiro de profissão e aquele gajo que de vez em quando podes ver da VCI quando os écrãs gigantes estão virados para a estrada, vai ver se te lixa a vida e a vida de todos nós, depois de tanto nos ter dado quando por cá esteve. São as matizes da vida, Julen, e podes ter a certeza que a mordidela no traseiro vai aparecer quando menos esperas. Hoje, vendo a convocatória, reparo que estás a levar dezoito garbosos moçoilos, prontinhos a sair de lá com três pontinhos no saco. Não te peço mais, só gostava de te pedir duas coisas: aposta no Quaresma para aproveitar a pica do rapaz…e decide de uma vez o que vais fazer com o meio-campo. Queres uma dica? Cá vai: Ruben, Herrera e Quintero. Tau. Assim, sem trocos, obrigado, siga a sua viagem.

Ganha lá o jogo. Nem sei se consigo ver em directo mas garanto que se não conseguir ou se vir a espaços, quando chegar a casa vejo o jogo todinho para te dizer das minhas. Boas ou más. Boas. Sim, vamos acreditar que serão boas.

Sou quem sabes,
Jorge

Leitura para uma sexta-feira tranquila

 

Baías e Baronis – FC Porto 2 vs 1 Athletic Bilbao

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O primeiro camelo que me vier dizer que os jogos da Champions’ (bem mais que os da Europa League) não são diferentes dos outros vai levar com um insulto customizado. Há qualquer coisa no ambiente, fora e dentro do estádio, na forma como o público encara o espectáculo, nos adeptos contrários (que hoje estavam em grande número…e bem dispersos pelo estádio…vale tudo para meter notas ao bolso, não é, malta?), na emoção do resultado e dos outros resultados por essa Europa fora…há uma electricidade, um tremor, uma vida que se ganha nestas partidas que só em clássicos se consegue neste nosso desterro da bola. Ganhámos, e ganhámos bem…mas também ganhámos mais uma meia-hora de susto pelas falhas que se repetem, ainda por cima em jogos grandes. Safou-nos o 7. E de que maneira. Vamos a notas:

(+) A entrada de Quaresma. É curiosa esta dicotomia da relação de Quaresma com os adeptos. Um rapaz que saiu do FC Porto corrido a assobios para voltar como grande símbolo do clube e da identificação da massa associativa com a sua imagem e com o espírito do rapaz. É caso para análise freudiana (ou jungiana, talvez) à qual voltarei mais tarde. Entrou cheio de força e foi exactamente o que a equipa precisava para aquele último empurrão para a vitória, conseguida pelos seus pés, onde Ricardo mostrou que quando quer, quando está empenhado no jogo e na equipa, é uma mais-valia para qualquer clube do Mundo. O remate foi feliz, sim, mas a tentativa, a busca incessante pela bola e pelo resultado fizeram dele um herói improvável numa altura em que o panorama era sombrio. Obrigado, rapaz, volta assim.

(+) Tello. Só tem um problema, este estupor: é ineficaz no remate. Corre imenso, posiciona-se muito bem para receber a bola e é um perigo constante para os laterais pela aceleração que consegue quando se coloca no 1×1. Hoje, mais uma vez, mostrou que é um elemento essencial no ataque (continuaria a apostar em Brahimi/Jackson/Tello) pela diferença que exibe em relação a qualquer outro jogador do plantel, com a excepção talvez de Ricardo, que deveria ser o seu understudy e não um pseudo-adaptado a lateral. Se fosse mais eficaz a rematar à baliza…provavelmente não tinha vindo para cá.

(+) Os laterais. Não me esqueço das correrias de Danilo e Alex Sandro no apoio ao ataque, mas a forma como estão a ser colocados em campo, partindo de trás em vez de se colarem imediatamente à linha como faziam com Vitor Pereira, faz com que seja muito mais exigente a sua utilização em termos físicos porque percorrem mais relva durante o jogo. Tenho de confirmar as estatísticas, mas é o que me parece. E Danilo está num momento alto de forma e moral, a jogar prático, simples, sem inventar mas acima de tudo sem desistir. Alex foi rijo a defender pelo chão e pelo ar e só não atacou mais porque foi obrigado a tapar os buracos deixados por Brahimi e Quintero. Ambos estiveram muito bem.

(+) Herrera. Não estou louco, fica já aqui assente. Gostei do jogo de Herrera. Depois do jogo recebi um sms a dizer: “O Herrera correu 12 kms!” e não contesto as estatísticas. O problema de Herrera nunca foi a movimentação, nunca foi a forma como se desloca para receber a bola e como se coloca de frente para o jogo para perceber o que melhor pode fazer. O seu problema é sempre o que faz depois de a receber e o timing leeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeento com que executa. Hoje foi mais rápido, mais inteligente com a bola nos pés e lutou até não poder mais, acabando a pressionar Iraizoz. Marcou o primeiro golo numa excelente jogada entre Quintero (muito bem na primeira parte) e Tello. Espero que mantenha o nível.

(-) Casemiro. Não me lembro de um jogo bom dele. E lembro-me bem dos jogos maus. Este é mais um deles, em que passou quase o tempo todo fora da posição defensiva, sem pressionar o adversário, sem criar linhas de passe (viu várias vezes Herrera…HERRERA a passar por ele com a bola, sem se mexer), sem se colocar no local certo, sem obstaculizar a progressão do oponente…sem futebol. Foi um zero. Ruben, na sua posição, só perde na força, porque seria perfeito para funcionar como um “regista” mandão. Tivesse mais um ou dois aninhos e umas dezenas de jogos nas pernas e Casemiro tinha de trabalhar para ser titular. Como assim não é, continuamos a ver Casemiro a arrastar-se pelo campo e a falhar passes. Algo tem de mudar na atitude do brasileiro.

(-) Mais um golo oferecido. Shakhtar: dois golos oferecidos. Sporting: um golo oferecido, um auto-golo. Guimarães: um golo oferecido. Hoje: um golo oferecido. Começa a ser um handicap enorme estar todo o jogo a procurar o melhor entendimento possível quando de um momento para o outro conseguimos atirar à lama todo o trabalho com um erro que é quase sempre evitável. Hoje foi Herrera (que, note-se, até fez um bom jogo) com um passe mal medido para Casemiro, que foi (mais uma vez) lento demais para interceptar a bola antes dela chegar aos pés do adversário. Não pode ser, minha gente, não podemos continuar a ter este tipo de erros. A época passada chegou e sobrou para isso e a malta não se esquece.

(-) Os assobiadeiros. Mais uma vez fui obrigado a levantar a voz no meio daquela corja de pseudo-portistas que assobiaram a equipa e dizer, do alto do meu 1,69m: “ASSOBIAR AO CARALHO, PÁ!”. E não fui o único porque ouvi estas palavras (ou outras com a mesma temática) a serem proferidas por diversas pessoas na minha bancada, numa manifestação de solidariedade (ou enfado com esta merda desta moda) com os jogadores que já tremiam sem capacidade para subir no terreno e receio natural depois de mais uma falha. Portistas. De. Merda. É o que vocês são.


Vi o jogo com cinco bascos à minha frente. Malta porreira, tranquila, fomos conversando no intervalo e trocando algumas opiniões durante o jogo. Inimigos sim, mas com cordialidade. Enfim, vão com mona pesada para Bilbao. Eu, vou dormir descansadinho e com um sorriso bem grande.