Domingo é cedo demais. Mas também é tarde.

Começo a ficar um bocadinho farto de ler críticas às contratações do FC Porto, tanto por escribas de outras cores como de autores que partilham a mesma afeição. E se qualquer contratação é vista sob o olhar de quem a escreve, que se supõe equilibrado da cabeça e sem problemas a condicionar o raciocínio e a tolher a mente, o mesmo não parece acontecer nas palavras que vão brotando dos dedos de tanta malta que escreve por esta internet fora.

Volto a afirmar o que digo há semanas: há muito talento no FC Porto 2014/2015. Se esse talento se vai traduzir em campo numa equipa sólida, construtiva, com rotinas bem formadas, trocas de bola bem feitas, bons overlaps entre extremos e laterais…remains to be seen. E se me preocupa o meio-campo, com a ausência de um fio condutor e mesmo de sequer um nome que seja afirmado como titular absoluto (Casemiro/Ruben? Oliver/Quintero? Herrera/Brahimi?), não deixo de ter a confiança que sempre tive num treinador novo, com uma equipa nova: zero, até que me provem o contrário. Não quero com isto dizer que Lopetegui não me merece respeito e a confiança que vai trabalhar para levar a equipa a bom porto. Mas até agora, em fase de treinos, não ouso começar a comparar o trabalho com outros treinadores ou aquilatar o que o jogador A pode fazer agora que o jogador B não está no clube. É muito cedo e se pensarem bem, chegarão às mesmas conclusões que eu.

Dito isto, estou com alguma ansiedade pelo jogo de Domingo. Falta muito pouco tempo para a Champions.

Baías e Baronis – FC Porto 0 vs 0 Saint-Étienne

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Não foi uma estreia em grande, longe disso. Ficou a ideia que há muito talento na equipa, muito mais que no ano passado, mas que ainda vai demorar um bocadinho até podermos dizer que temos uma equipa que possa lutar para ser campeã em Portugal. Que há mais talento é evidente (então naquele meio-campo…upa upa), mas as rotinas ainda não existem, acumulam-se espaços vazios e zonas com mais densidade populacional que Tóquio, para que esta análise seja minimamente importante para o que aí vem daqui a poucas semanas. Só isso me assusta, para vos ser sincero: estamos a três semanas da estreia…e ainda há muito trabalho pela frente. Mas que me aguçou a curiosidade para perceber o que podemos fazer, isso aguçou. Vamos a notas:

(+) Maicon. Seguro na defesa, sem inventar (apesar de abusar dos passes longos) e a mostrar tranquilidade e bom posicionamento perante os adversários. Está no plantel há tempo suficiente para ser um dos “antigos” (é verdade. pensem nisso. pois.) e parece que este ano será um ano em que vai ser determinante a sua condição física e acima de tudo psicológica, porque ao ver a linha defensiva a jogar quase no meio-campo…vai ser assustador perceber que terá de haver uma sintonia quase perfeita entre os jogadores do sector recuado. Maicon pode ajudar, com a experiência que tem, a unir esse grupo.

(+) Fabiano. Várias defesas de diferentes graus de dificuldade, a mostrar que na baliza é um jogador excelente. A sair de lá…not so much. Algumas hesitações não mancham uma boa exibição e a garantia que temos a baliza bem guardada. Parece mais inteligente a jogar com os pés mas só o tempo dirá se mantém o lugar perante a iminente chegada de mais um guarda-redes.

(+) Brahimi. É talvez o reforço que mais expectativa me cria (juntamente com Tello) porque já o vi jogar montes de vezes na liga espanhola e sempre gostei da forma como rompe por entre os defesas em drible constante e no tempo do proverbial coçanço de olho do chifrudo consegue arrastar a equipa para uma situação de golo. Hoje fê-lo por duas ou três vezes e mostrou que pode ser muito importante em tantos e tantos daqueles jogos em que a posse de bola não parece ter fim e só precisávamos de um gajo que acelerasse o jogo. Brahimi pode ser esse homem.

(+) Óliver. Estupendo controlo da bola e noção perfeita da saída de espaços com ela controlada e a rodar para o sítio certo. Não sei se será titular (talvez não seja o melhor na cobertura defensiva) mas em muitos jogos pode trazer uma clarividência em posse que nos pode ser muito útil.

(+) Lopetegui a não jogar para o público. Fiquei surpreendido com a quantidade de alterações na equipa mas acima de tudo na insistência em assumir que este é um jogo de treino. E Lopetegui pareceu indiferente aos assobios das bancadas, o que me deixou agradado e me deu alguma confiança. Teremos, pois, um treinador que sabe o que quer e como o quer, que entende que o plantel está ainda verde e que tem muito trabalho pela frente. Não se preocupou em ganhar o jogo a qualquer custo mas a perceber quais são as melhores alternativas para os lugares-chave do plantel. A experiência dos três defesas podia ter corrido mal, mas Julen não quis saber. Treino? Treino. Não interessa onde. Não sei se manterá esta arrogância positiva mais lá para a frente, quando inevitavelmente houver um ou outro jogo que não corra bem, mas gostei do primeiro impacto, apesar do jogo não ter sido positivo.

(-) Carlos Eduardo. Estranho que fique no plantel porque há tantos jogadores que ficam de fora e se continua a ter esta quantidade de passes falhados e intervenção negativa em campo, ainda percebo menos porque é que ainda por cá está. Não joga bem a 10. Não joga bem a 6. É marginalmente melhor a 8. So what? Josué podia fazer o mesmo, Evandro pode fazê-lo bem melhor. Ou então sou eu que estou a embirrar com o moço.

(-) Casemiro. Já sei que o rapaz entrou na equipa há meia-dúzia de dias, mas o ritmo que mostrou foi demasiado lento para ser aceitável. Tem bom toque de bola mas precisa de trabalhar com afinco para ter um nível físico decente no arranque do campeonato. É que Ruben Neves está já aí prontinho a calçar…

(-) Novamente, os imbecis do assobio. Já começa a ser tradicional ouvir esta cáfila nos jogos que o FC Porto disputa no Dragão e nem é novidade aparecerem em amigáveis de pré-época. Mas enerva, oh se enerva, perceber que é esta cambada de idiotas que se diz portista e que começa a pressionar a equipa antes sequer de os rapazes se conhecerem pelo primeiro nome. Insisto: se não querem ver o jogo, vão embora. Xô. Andor violeta. Ninguém precisa de vos ter aqui, ninguém vos QUER ter aqui. Deixem as cadeiras vazias mas não enervem o resto da malta com a vossa atitude.


Os jogos em Inglaterra são já daqui a uma semana e aí já vamos poder perceber o que valemos. Acima de tudo, interessa saber quem são as primeiras escolhas de Lopetegui. Há muito nome de onde escolher…

Ouve lá ó Mister – Saint-Étienne

Señor Lopetegui,

Em nome de todos que vão estar hoje no Dragão, deixe-me dar-lhe as boas vindas. Sei que já o fiz no jogo contra o Genk, mas hoje é um dia especial para si porque este estádio onde hoje vai estar presente será a sua casa durante os próximos tempos. E como qualquer pessoa que se muda para um novo domicílio, convém entrar com o pé direito, com as superstições todas associadas a esse arranque que se quer tranquilo e bem humorado. É um dia diferente para todos os portistas que lá vão estar e que já não vêem a sua equipa a jogar no seu estádio há meses. MESES, meu caro! Custou, garanto-lhe.

E hoje é um dia especial para tantos outros que aparecem pela primeira vez para jogar no clube e que vão pela primeira vez mostrar o que valem em frente aos adeptos. O meu caro amigo ainda não sabe porque ainda não passou por isso, mas estes tolinhos de azul-e-branco que logo o vão aplaudir não são os mesmos que o vão acompanhar durante a época. É um dia especial porque as apresentações são sempre rodeadas de grande fausto, uma festa com dragões “verdadeiros” em campo, naquele habitual cerimonial de purgar os maus-olhados e as vibes negativas que ainda possam estar entranhadas depois da época passada e que todos queremos esquecer rapidamente. Por isso vai ser uma festarola cheia de famílias, malta simpática e bem-disposta, que estava disposto a apostar que na maioria dos casos nem sabe quem é o Brahimi e pensa que o Ricardo já foi guarda-redes do Sporting. Não leve a mal, aposto que é assim em todos os clubes grandes e nós não fugimos à regra. Mas também lá vão estar os dementes como eu, que vão abandonar a família às sextas-feiras à noite em dias de chuva para o ver a si e aos seus rapazes em jogos contra os Moreirenses e Rios Aves deste campeonato. Esses, meu caro, são os que servirão como juízes em causa própria daqui a uns meses.

Mas hoje, como já disse, hoje é uma rebaldaria de boa disposição. Uma vitória é sempre porreira mas o que interessa mais são as camisolas novas, as botas dos novos e os penteados dos antigos. Perceber se o treinador gosta de estar sentado no banco ou grita para o relvado de cinco em cinco segundos. Se faz substituições a qualquer altura ou se espera até ao último minuto. Esteja descansado porque ninguém lhe vai tirar a pinta hoje. Só queremos ver o FC Porto a jogar. It’s been too long.

Sou quem sabes,
Jorge

Era o nosso número 10

Portugal's midfielder Deco aknowleges th

Foi uma noite de memórias, de viagens ao passado e de sorrisos. Enormes sorrisos como o de McCarthy ou Baía, ao lado de enormes panças como a de Jorge Andrade ou Secretário e de enormes talentos como Alenichev ou Deco. E foi no relvado onde todos vimos grandes alegrias que estes homens passearam a classe que sempre tiveram e que colocam em perspectiva qualquer dos rapazes que agora vemos a jogar nesse mesmo relvado, com camisolas semelhantes, e que comparamos sem misericórdia com as recordações que nos marcaram a mente há tantos anos e que ficarão sempre na nossa cabeça.

Cada toque, cada delicada carícia na bola, cada passe bem medido ou finta bem inventada, cada desmarcação e cada remate, qualquer um desses lances levaram-me para um passado que parece tão distante e que está tão perto no arquivo futebolístico das minhas memórias. São indeléveis, tão impossíveis de desaparecer como o nascimento de um filho ou um primeiro beijo na esquina de qualquer prédio na cidade onde nascemos. O chutinho de Jorge Andrade a Deco, que me leva a essa meia-final contra o Corunha num Dragão cheio até aos cabelos; Derlei, a marcar da zona de penalty, como em Corunha na outra meia-final que nos levou a Gelsenkirchen; as diagonais de Sérgio Conceição, que traz memórias de jogos dos 90s com Oliveira no comando; o passear de Alenichev pelo campo com o estupendo controlo da bola e do adversário, a arrastar-me numa espiral de memórias dos anos dourados de Mourinho; as defesas de Baía e o jogo com os pés, a puxar à memória dos tempos em que os guarda-redes ainda agarravam atrasos de bola com as mãos; o golo de Jankauskas, a trazer memórias de um hat-trick que fez em Braga, para a Taça; McCarthy, que mesmo falhando um cabeceamento a dez centímetros da baliza me trouxe imagens de um cabeceamento extraordinário contra o Manchester United; Secretário, que rezei para que não entregasse a bola a um avançado contrário como fez em Alvalade…mas também rezei para que marcasse um golão como em Bremen; Maniche a entrar duro sobre um adversário, a mostrar que quem sabe (bater) nunca esquece e que um guerreiro nunca dá um lance por perdido; Paulo Ferreira, a fazer a lateral como se fosse o mesmo puto de vinte e poucos anos que chegou no Verão de 2002…

E Deco, por tudo. Por aquele chapéu magnífico a lembrar o golo a Moreira nas Antas; pelas incontáveis vezes que passou por defesas, médios, avançados, guarda-redes, treinadores adjuntos e aguadeiros. Pelo talento que colocou em campo ao serviço do FC Porto e que me fez ir até ao estádio tantas e tantas vezes para o ver, incauto da quantidade de vezes que iria comparar os que o seguiram com o que ele nos tinha mostrado. “É bom, mas não é o Deco”, uma frase que se repetiu tantas vezes na minha boca que preferia ter gravado o soundbyte para não gastar saliva quando o proferisse. E hoje, ao ver em campo novamente aquele que foi o melhor meio-campo de sempre do FC Porto (opinião de quem vos escreve, discutível como todas), Costinha-Maniche-Deco, com as alternativas Pedro Mendes-Alenichev, com Baía a comandar aquela que foi uma das melhores linhas defensivas de sempre do FC Porto e um ataque que, não tendo sido o melhor, é dos que melhores resultados obteve…fui, juntamente com cinquenta mil almas, invadido pela nostalgia que é tão própria e inadequadamente precoce de alguém que vê futebol há alguns anos e recorda momentos, flashes, pedacinhos de história como se tivessem acontecido ontem.

Obrigado, meus caros. Obrigado por me fazerem dar um passeio pelos meandros da minha memória e por me terem feito tão feliz. E parabéns, caro Anderson. O que fizeste ficará para sempre na nossa memória. Tentámos devolver-te a simpatia. Espero que tenhamos tido sucesso.