Ouve lá ó Mister – Braga

Companheiro Nuno,

Um dos meus companheiros de bancada tem uma frase que repete desde há vários anos e que se tornou uma espécie de imagem de marca das nossas viagens até às Antas (que se transferiram para o Dragão quando fizemos esse upgrade de instalações que acarretou o downgrade de alma) e que era proferida por mim ou por ele, dependendo de qual de nós se lembrava primeiro. Era qualquer coisa como isto: “Tenho frio…tenho fome…foda-se.”. Esta frase, ou sequência de frasiúnculas se quiseres, é nossa. É uma representação daquilo que sentíamos durante aqueles longuíssimos jogos invernais onde se jogava mal, onde os passes eram fracos ou fortes demais, onde o vento que uivava a partir dos topos se abatiam sobre nós com a inclemência de um professor primário à antiga. E nós, miúdos, encontrávamos aí a forma de usar o vernáculo à vontade sem vigia de adultos, ao mesmo tempo que mostrávamos a nossa frustração pelo jogo não estar a corresponder às expectativas. Mas saindo de lá, tristes ou não, imediatamente fazíamos planos para voltar no próximo jogo, com a alegria da juventude e as faces ruborizadas de excitação por vermos o nosso clube.

Hoje em dia, a frase é parecida. Graças ao meu compincha, que transformou aquele conjunto de palavrinhas em algo um pouco mais composto e bem mais adulto, para não dizer idoso. Cá vai, sempre com vernáculo: “Oh meus amigos, não fodam mais esta merda porque fodido já está que chegue!”. É neste ponto que estamos. Com lamentos e sem desistências. Com infelicidades e sem miserabilizações. Com amor pelo clube e sem pena do clube. Com vontade de chegarmos ao dia seguinte com menos três pontos de distância para o líder e a lutar para lá chegarmos ainda mais depressa. E só depende de ti, Nuno. Só.

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – FC Porto 0 vs 0 Belenenses

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Perguntaram-me durante a tarde quanto achava que ia ficar. A resposta foi fácil: zerazero. O jogo foi tão pobre que tenho de fazer alguma coisa para animar, por isso sigam as notas com uma tentativa de equivaler a exibição a uma figura do passado portista. Tentativa que pode ou não fazer muito sentido para todos. Ou para mim. Bear with me, please:

(+) André². Söderstrom. Lutador, a arrastar a bola para a frente e a procurar ser prático sempre que possível.

(+) Inácio. Esquerdinha quando chegou. Rápido, ágil, agressivo. Um pouco limitado no 1×1 e demasiados saltos.

(+) Brahimi. Deco em 1998. Extraordinário talento, produtividade suficiente. Merecia mais oportunidades e a equipa agradeceria.

(-) Depoitre Roberto Mogrovejo, para não dizer Baroni. Recepções horríveis, pouco entrosamento e a sensação geral que não está com grande vontade de melhorar.

(-) Varela. Semedo na última época. Sem pernas, sem cabeça, sem futebol suficiente para fazer parte do plantel.

(-) Qualidade do futebol. José Couceiro em 2005. Demasiado fraquinho. Só para relembrar que estivemos a jogar contra dez durante quase uma hora. E quase que posso garantir que da maneira que a equipa tem vindo a jogar, nem com os onze titulares conseguíamos marcar um golo. Inelasticidade na subida para o ataque, indecisão na entrada da área, muita correria e pouco discernimento.


Sábado à noite temos mais uma prova à capacidade do treinador. Dos jogadores, sim, mas principalmente do treinador. Porque começo a ter pouca paciência para ver tanta ausência de construção de jogo e de evolução futebolística.

Ouve lá ó Mister – Belenenses

Companheiro Nuno,

Não vou ao jogo. Vou jantar a casa dos meus pais, em família, para a minha filha passar tempo com os avós que bem merece e eles também. Após o repasto, vou meter-me no carro e sigo para casa, trato das higienes todas que a canalha requer e espero, de dedos cruzados à puto, que ela se digne a adormecer cedo. Depois desse trabalho chega então a altura em que posso ver o jogo em diferido (ou em semi-directo, se me despachar ainda a maio da partida) e fá-lo-ei no conforto do meu lar. Sabes porquê? Porque um jogo às 21h15 numa terça-feira à noite não lembra ao cu de Azrael e acho que nem o Nuno Luz ia ver o Mourinho se ele jogasse a essa hora. É sinal de clube vendido à televisão, onde o que interessa não são os adeptos de bancada mas os de sofá. E hoje, ganharam, porque não vou ser o habitual portista da Porta (coiso). Ganharam. Ptooey.

Quanto ao jogo, não posso falar muito mais sem saber quem é que vais escolher para jogar. Se houver rotação de equipa, é giro para ver os “novos”. Se optares por usar os mesmos fulanos, sei lá no que pode dar. Outro zero-zero? Oh, the humanity!

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – Belenenses 0 vs 0 FC Porto

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Quarto empate consecutivo em todas as competições. Terceiro jogo fora sem marcar golos. E sem grande esperança que as coisas mudem, sendo que aqui está o grande problema. Algo não vai bem quando uma equipa corre mais do que fazia desde há três anos e não consegue produzir uma fracção do que podia e devia. Demasiada indecisão, absurda falta de sentido prático na frente (a contrastar com o que acontece na zona recuada) e uma sensação de que o barco anda à deriva e não há muito que possamos fazer para contrariar a maré. Notas abaixo:

(+) Marcano. Pelo ar ou pela relva esteve sempre impecável e quase que marcava um belo golo de cabeça, não fosse a perna direita do defesa esquerdo do Belém a salvar a bola de entrar, obrigando-me a enfiar de novo no bolso o grito que estava pronto a dar pela quebra do enguiço dos golos. A braçadeira de capitão não me pareceu mal entregue, francamente. É estranho, mas é a verdade.

(+) Casillas. Esteve razoável fora dos postes mas muito bem entre eles, a safar a equipa depois de algumas falhas na zona central, onde Danilo não conseguiu ser omnipresente ao ponto de evitar overloads de dois ou três jogadores a entrarem pela área dentro. Ficou na memória uma saída a fazer a mancha a Sturgeon, fazendo-o tremer depois de um lance complicado pelo ar.

(+) As tareias físicas que temos levado não se têm notado. Os últimos jogos têm sido complicados. Benfica no Dragão é sempre complicado (mau era), seguiu-se o Chaves com 120 minutos de jogo contra uma equipa que gostava muito de acertar nas pernas. Em seguida, Copenhaga contra vikings duros como os cornos dos históricos capacetes (aparentemente falsos mas ainda assim queriduchos de imaginar) e agora um jogo contra a chuva, contra o batatal/relvado e contra uma equipa que sua sempre mais um bocadinho contra camisolas azuis e brancas, ou neste caso, amarelas. E através disso tudo continuo a ver André Silva a correr, Danilo a lutar e Felipe e Marcano a voarem pelo ar. A equipa parece bem fisicamente, apenas mal tecnica e psicologicamente.

(-) É só isto que temos? A sério, é só isto que temos? Uma equipa que joga a um ritmo lento e previsível; extremos que não conseguem furar; laterais que se posicionam como médios-ala mas que não conseguem auxiliar os seus colegas da frente; avançados que parecem ter perdido o bom entendimento de aqui há umas semanas; dois médios que não ajudam atrás nem provocam desequilíbrios na frente, longe das zonas de perigo e ainda mais longe dos colegas. É, no fundo, uma equipa desgarrada, que corre muito mais e produz oh-tão-menos do que deve. Nuno não está a conseguir tirar o melhor dos melhores que coloca a jogar (e não tenho grandes dúvidas que são, uma ou outra excepção aparte, os melhores que tem – ver comentário dois Baronis abaixo) e está a desgastar os jogadores de uma forma que não lhe tem trazido frutos. Sure, estamos com algum azar em frente à baliza. Claro, o Capela gamou-nos profundamente em Setúbal. Mas não chega. Há que marcar golos e para isso temos de ser mais eficientes, mais intensos e muito mas muito mais práticos.

(-) Jota. Não está a atravessar um bom momento e essa baixa de forma não podia ter vindo em pior altura. Longe do jogo, inconsequente sem a bola e incapaz de integrar os ataques de uma forma que se faça notar que não é um jogador mediano. E não é, por isso este abaixamento ainda se faz notar mais numa equipa que tanto precisa de apoio para André Silva e raramente o tem conseguido. E garanto que não é Depoitre que o vai dar, pelo menos não de uma forma deliberada.

(-) As opções no banco. Olho para o banco e provavelmente terei a mesma ideia que Nuno: “What the fuck am I going to do with these dudes?!”. Talvez em português em vez dos meus adorados anglicanismos, mas a ideia que passa é a mesma. Não pode ser com Varela ou Evandro, Depoitre ou André² que vamos conseguir mudar muita coisa num jogo que está emperrado como os últimos jogos têm estado. Já se tinha percebido que a profundidade do plantel era curtinha logo depois do final do mercado e se aquela parvoíce de “ah e tal vamos buscar gajos à B quando for preciso” é tão inútil que nem mereceu comentário na altura e continua a não merecer comentário agora. É preciso mais e melhor. Muito mais e definitivamente muito melhor.


E lá vão mais dois pontos para o Sporting. Mais dois, provavelmente, para o Benfica. E na próxima jornada, o Braga no Dragão. Está bonito, está.

Ouve lá ó Mister – Belenenses

Companheiro Nuno,

 

Tudo me parece uma metáfora, rapaz. Enquanto me sento para começar a escrever esta missiva, chove imenso lá fora e é uma tristeza, uma calamidade ver tantos remates das nuvens a acertarem no alvo de uma forma tão natural. E quando vinha a caminho de casa tentava racionalizar o facto das mudanças entrarem tão suavemente no carro que quase nem era preciso trabalhar para que elas funcionassem de facto como uma máquina bem oleada. Ou o jantar que degustei com prazer, feliz na percepção que a carne foi escolhida com critério, colocada na brasa com experiência e levou a bom fim o seu destino, conquistando o meu palato com mestria.

Um sonhador, é o que eu sou. Um gajo que gostava muito que a sua equipa desse lições a todas as outras e que não se acanhasse perante montanhas humanas ou talentos indescritíveis. Mas ainda não estamos lá, pois não? Longe disso, meu caro, por isso cada passo que damos tem de ser um passo em frente e não para o lado. Temos de continuar a lutar como temos vindo a fazer mas precisamos de marcar golos porque as últimas partidas têm sido uma miséria em frente à baliza. Estou a contar que hoje seja diferente e seja quem for que consiga quebrar esse enguiço, que festeje como se fosse o último golo da vida dele…e marque outro logo a seguir. Acima de tudo vence o jogo porque os que aí vêm…amigo, são bem mais duros que este.

Sou quem sabes,
Jorge