Baías e Baronis – Académica vs FC Porto

Enquanto jantava, rodeado de amigos em convívio bem humorado, ia espreitando de vez em quando o jogo. Na altura fiquei com a nítida impressão que era um jogo que nunca se devia ter realizado, porque simplesmente não foi um jogo, foi uma batalha. Uma luta contra o terreno, contra a relva, contra a piscina em que o campo se transformou. Quando cheguei a casa e vi os 90 minutos por completo, confirmei a ideia que tinha. Um jogo destes só pode ser resolvido por um azar ou por um lance de inspiração individual. Valeu-nos o segundo. Venham as notas:

(+) Todos os jogadores do FC Porto e Académica Todos eles são pequenos heróis. Uma espécie de Aquamen, pronto, que não estando ao nível de um Batman ou de um Homem-Aranha, estão inscritos na Ordem dos Super-Heróis na mesma. Jogar 90 minutos nestas condições é muito difícil, cansativo, propenso a erros e pode levar a lesões graves. Quase todos se viram perante este cenário de chuva intensa, de inclemente temporal e certamente olharam para o relvado, pensando: “Que se lixe, vamos a isso, rapazes!”. Todos os jogadores mostraram que ser jogador de futebol numa equipa de topo significa ser conhecido na rua pelos adeptos, é ter uma vida financeiramente confortável, é fazer o que se gosta. Mas é também um sacrifício físico, um extenuante exercício de luta, esforço, alma e profissionalismo. Puxando a brasa à nossa sardinha, vendo Álvaro a deslizar pela água, Sapunaru a deitar-se para impedir um remate adversário, Hulk a tentar acelerar e quase caminhar sobre as águas, Falcao a falhar remates e a escorregar sozinho, Helton a agarrar bolas impossíveis enquanto espremia (sim, espremia) as luvas…fica a ideia que foi cruel obrigar estes rapazes a fazer este esforço.

(+) Belluschi Se houve um jogador que se destacou pela positiva ao nível do futebol praticado, foi ele. A capacidade técnica acaba por não ser a principal arma de um jogador nestas condições, mas Belluschi foi dos primeiros a conseguir perceber que a única maneira de avançar com a bola de uma forma mais eficiente era levando-a pelo ar com pequenos toques depois de a levantar “à futebol de praia”. Foi o melhor jogador do FC Porto e nem preciso de falar do espírito de sacrifício e de luta, mas há que enaltecer a forma como arrastou a equipa para os locais que eram precisos. Moutinho esteve igualmente bem mas Belluschi foi brilhante.

(+) Varela Um golo perfeito, na altura perfeita, marcado por um jogador que tem pouco de perfeito mas muito de lutador e empenhado. Este jogo só podia ser resolvido por um lance destes e Varela esteve lá para picar o ponto e dar três importantíssimos pontos na luta pelo título. Obrigado pela inspiração, rapaz.

(+) Os adeptos do FC Porto Só se ouviam três coisas pela transmissão da TVI: a chuva, o irritante anti-portismo do Valdemar Duarte e os Dragões nas bancadas. O apoio foi constante durante todo o jogo e a forma como os jogadores foram dedicar o triunfo à malta que estava também ela à chuva e ao frio e ao vento (e à espera que começassem a chover calhaus, sei lá) é sintomática da união que neste momento se sente entre equipa e adeptos. E é um orgulho.

(-) Duarte Gomes Sem falar de qualquer lance, nem do penalty marcado e do não marcado, de algumas faltas bem ou mal marcadas, uma referência ao shôr árbitro. Não consigo entender como é que Duarte Gomes permite que este jogo se realize. Não sendo um conhecedor profundo das leis do futebol, sempre tive presente que o árbitro era o principal decisor no que diz respeito à avaliação das condições para que uma partida se possa efectuar, e a de ontem não as reunia. Não entro em teorias de conspiração, apenas me parece uma decisão imprudente e um risco enorme para a integridade física dos jogadores, porque se em condições normais já há hipóteses dos rapazes se magoarem seja em que lance fôr, essa probabilidade aumenta imenso quando o terreno está no estado que se viu ontem. Até para si é prejudicial, porque qualquer carrinho, qualquer mini-empurrão pode dar origem a faltas que não fáceis de avaliar! Uma má decisão, de qualquer maneira que a queiram ler.

(-) S.Pedro Se Deus é do Boavista, como vi ilustrado em vários estádios por este país quando o clube do Bessa ainda aparecia na televisão, parece-me que o Seu porteiro não gosta muito da bola. Não sei se o estádio tem um sistema de drenagem bem instalado e se estava a funcionar, mas parece-me que com a quantidade de chuva que caiu ontem, acho que nem com um campo inclinado a água tinha saído.

É complicado fazer uma análise honesta e tecnicamente correcta sobre um espectáculo como o que ontem se viu em Coimbra. Vencemos e não se pode dizer que jogamos bem porque era impossível. Ainda assim, pela luta e entrega dos jogadores e pelo talento de Varela, saímos de Coimbra com as roupas encharcadas e os três pontos no saco, que no fundo era o que mais importava. Venha o Besiktas. E por favor que não chova tanto.

2 comentários

  1. Vejo futebol há mais de 40 anos e nunca vi um jogo ser disputado nas condições em que foi disputado o Académica/F.C.Porto. Ou melhor, vi um, mas foi interrompido ao intervalo, o F.C.Porto/Anderlecht no ano de 1978. Que o futebol é um jogo de Inverno, é verdade, mas tem de ser disputado num terreno de jogo em condições mínimas. E hoje, no Municipal de Coimbra, o campo estava impraticável, sem as mínimas condições, parecia uma piscina, que a cada lance colocava em perigo a integridade física dos jogadores. Saiu a lotaria à equipa portista, é verdade, mas também é verdade que o estado do terreno prejudicou mais o conjunto de André Villas-Boas, mais tecnicista, com um futebol mais apoiado, mais trabalhado e que atacava mais na procura da vitória. Somos uma boa equipa de futebol, mas e hoje ficou claramente demonstrado, não somos uma boa equipa de Pólo Aquático.

    Ganhamos, era o mais importante, porque é ganhando estes jogos que se ganham campeonatos, mas mesmo tendo ganho, não posso deixar de colocar algumas perguntas: porque se realizou o jogo naquelas condições? Porque deixou Duarte Gomes que o jogo se efectuasse, com o campo num estado que não permitia que a bola rolasse, propício a choques, que poderiam resultar em lesões graves? Não terá Fernando sido vítima, das circunstâncias em que se realizou o encontro? O que esperava o juíz de Lisboa, ao permitir que o jogo se realizasse? Tenho uma teoria, mas o futebol precisa de tranquilidade, de paz e por isso não digo, o que me apetecia dizer, sobre as razões que levaram o moranguito sem açucar, a não adiar o jogo.

    Como entendo que o jogo não se devia ter realizado, não vou falar de mais nada, nem sequer da monstruosa exibição de Belluschi, nem do belíssimo golo de Varela que valeu os 3 pontos, mas não posso deixar de dizer e para terminar, que bicada de bicho não faz mossa.

    Um abraço

  2. E foi uma sorte não terem saído dali três ou quatro jogadores lesionados. Havia mais água neste relvado do que no antigo campo do Guimarães.

Deixar uma resposta