Vender é o melhor remédio

Mantorras.

Antes que os leitores portistas expludam em comentários à fraca qualidade das dobradiças do angolano e os benfiquistas rebentem em fúria porque mais um blog portista está a falar do Benfica, creio que o tema merece alguma análise.

Pedro Mantorras, na distante temporada de 2001/02, parecia desfazer tudo o que lhe aparecia à frente. Era rápido, ágil, forte, com boa técnica e remate potente. Era uma versão jovem de George Weah a falar um Português razoável. Jogava que se fartava e tanto o fez que por todo o mundo começaram a ecoar vozes que mostravam interesse na sua contratação. Luís Filipe Vieira, na altura homem forte do futebol da direcção de Manuel Vilarinho, espetou um rótulo de 18 milhões de contos (qualquer coisa como 90 milhões de euros) nas brevemente-frágeis pernas de Mantorras, como se fosse uma cláusula de rescisão astronómica para a altura, que seria replicada e até melhorada alguns anos mais tarde, quando Hulk viu o valor da sua própria cláusula marcado em 100 milhões na mesma moeda.

Mantorras, entretanto, lesionou-se gravemente. O futuro ficou comprometido e Pedro viu-se impedido de praticar a sua actividade profissional e acaba este fim-de-semana de anunciar o seu abandono da competição. Não sinto pena do rapaz a nível financeiro porque já deverá ter ganho o suficiente para se suster até um futuro bem longínquo, muito embora seja um benemérito para o povo angolano e merece o meu respeito por isso. Apesar do folclore mediático que o rodeou, é das figuras benfiquistas pelas quais nutro alguma simpatia porque parece ser um ilhéu de sanidade num oceano de arrogância e pedantismo que povoa aquela gente.

Mas toda a situação que rodeou esta triste notícia, todos os anos em que Mantorras esteve pouco mais que encostado a uma reforma prematura leva-me a pensar nas vendas que os clubes têm obrigatoriamente de fazer, especialmente os lusitanos que ano após ano não conseguem manter-se à tona sem “despachar” algumas das suas pérolas por vários milhões. Será que vale a pena aguentar um jogador que vale muito dinheiro em vez de o rentabilizar e fazer entrar dinheiro fresco para suportar a compra do next-big-thing? Vale a pena, para bem da qualidade de jogo de uma equipa, não colocar o dinheiro em caixa para permitir um futuro mais estável para o clube? Será que o Benfica, caso tivesse vendido Mantorras (não por 90 milhões mas talvez por 15 ou 20) na altura que recebeu ofertas, não estaria hoje um clube mais forte e estável financeiramente?

Nunca saberemos. Não estou a advogar a venda de Hulk, Falcao, Rolando ou Álvaro no final da temporada, longe disso. Mas o que é certo é que nunca se sabe o que o amanhã pode trazer e uma lesão grave, como quase acontecia com Anderson em 2006 ou Hulk em 2008, pode ditar o final da carreira de um grande jogador e com ele o prejuízo do clube tanto financeira como futebolisticamente…

2 comentários

  1. Concordo! De facto o timing para a venda de jogadores é crucial. Ao ler o artigo lembrei-me também do Miguel Veloso… Mas em relação ao Mantorras julgo que o facto de nunca o terem vendido, revela também o assumir de alguma culpa em todo o processo de (não) recuperação fisica do jogador. No fundo o SLB assumiu o papel da Seg.Social e não creio que se o tivessem vendido estariam melhor financeiramente, porque entretanto já tinham comprado outro qualquer. Quanto às vendas, em geral, é a realidade do país e do futebol, temos todos os anos que garantir receitas extraordinárias, e mesmo assim, viver com a corda ao pescoço. E falando do nosso FCP, não sei até que ponto a situação financeira é totalmente transparente…

  2. Mantorras tinha tudo para ser um daqueles jogadores que garante uma grande transferência (20-30 milhões de Euros) mas infelizmente faltou-lhe sorte no departamento clínico.

    Também não tenho a certeza se a sua relação com L.F.Vieira desde os tempos do Alverca o ajudou ou se pelo contrário o prejudicou. Ainda hoje a sua transferência para o slb causa alergias a muita gente.

    Quanto aos jogadores, desde que optámos pela via do “entrepostismo comercial” para os milionários clubes da Europa – não que tivessemos grandes alternativas como assim o sugere o caso do Sporting – que a única saída é para a frente, tentando arrecadar o máximo lucro de passagem, para que talvez um dia, quem sabe, possamos investir a sério num progama de formação de jogadores como o do Barcelona, e contratar apenas cirurgicamente e não aos contentores de Sul-Americanos.

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