Pass imprecise

  • Primeiro cenário: Otamendi tem Maicon ao lado direito, na posição natural que ocupam durante todo o jogo, todos os jogos. Vê Moutinho a trinta metros, com um adversário à sua frente. O argentino olha para as peças em campo, avalia o fluxo mental que lhe permite uma melhor probabilidade de sucesso e decide passar pelo ar. A bola sai alta e longa demais, o português não chega mas bate palmas ao esforço, Otamendi levanta o braço e pede desculpa. Bola para o Gil Vicente.
  • Segundo cenário: Danilo sobe pela linha, correndo como o papa-léguas a fugir do imbecil do coiote. Chega a um certo ponto em que vê que não vai conseguir avançar mais no terreno sem ter de se transformar em Hulk e fintar sete adversários que estão imediatamente à sua frente, olha para o lado, recua um pouco e pesa as opções. Opta então por uma lateralização para Varela, que está então no flanco oposto, e envia a bola como se tivesse sido possuído temporariamente pelo espírito sempre presente de Guarín, acertando no esférico com a força de mil titãs e rodando como os pneus do carro do Alonso em Silverstone. A bola sai alta e longa demais, o português não chega mas bate palmas ao esforço, Danilo levanta o braço e pede desculpa. Bola para o Guimarães.
  • Terceiro cenário: Maicon dirige-se para a lateral, encurtando o espaço e o tempo para tomar uma decisão. Olha para cima, vê Atsu a sessenta metros, decide enviar-lhe a bola numa mudança de flanco que faria inveja a Beckenbauer. A bola sai alta, o ganês não chega mas bate palmas ao esforço, Maicon levanta o braço e pede desculpa. Bola para o Olhanense.

Experimentem trocar os intervenientes e o adversário. O resultado é o mesmo. Há semanas, meses, anos que o resultado é persistentemente o mesmo na vasta maioria de circunstâncias que decorrem mais ou menos como estas que acima descrevi. E o adepto, o que joga a bola aos sábados e fá-lo por carolice em vez de o fazer por um ordenado, tem aquela sensação estúpida que lhe ultrapassa a mente e o discernimento e só pensa: “Porque raio é que não meteste a bola no teu colega do lado?!”. Não sou jogador de futebol, nem sequer tenho contacto directo com alguém que o seja, por isso é complicado para mim conseguir penetrar na psique de muitos destes rapazes. Mas se há uma coisa que nunca vou conseguir entender é a necessidade que tantos têm de fazer o mais difícil só porque na altura lhes pareceu a melhor opção.

E é por isso que admiro cada vez mais jogadores como Xavi, Pirlo ou Moutinho. Porque sabem que a opção mais simples é sempre a melhor. E se Robson pedia “pass precise” em todos os treinos, não faço a menor ideia do que Vitor Pereira lhes pede. Mas não podem ser as mesmas coisas.

2 comentários

  1. Boas Jorge,

    Subscrevo na integra as tuas interrogações. Fim de semana após fim de semana e normalmente quando o Otamendi tem a bola e começa a olhar para a frente, que eu digo para os meus botões … lá vamos perder a bola. Depois de perdida como é habitual penso … se eu fosse treinador de futebol e mesmo sem perceber nada de nuances tecnico / taticas chamava o rapaz e mostrava-lhe as imagens e perguntava (em castelhano)… “ó Nico, que te passa pela “mona” quando vais fazer um passe em profundidade …? ” depois de ouvir as explicações ou ouvir um “qué ?” dizia-lhe para a proxima não penses e limita-te a atirar a bola para fora das quatro linhas o mais rapido possivel que assim não perdemos tanto tempo.

    Brincadeira á parte não entendo como não entendo os lançamentos laterais sempre para a cabeça de alguem que acaba por ser mais uma perda de bola … mas se calhar o mal está em mim que não tirei o curso de treinadores .

    Um abraço

    http://fcportonoticias-dodragao.blogspot.pt/

  2. Boa tarde,

    visitei o Azul24 e sinceramente talvez volte a visitar, mas uma coisa é certa não volto a tentar registar um comentário. Nunca percebi a necessidade de digitar uns carateres indecifráveis fiz 20 tentativas até desistir. Se a dificulade nos sites de fimes fosse igual mais valia ir ao clube de vídeo

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