Vectores do potencial insucesso: táctico

O segundo vector que merece análise é o táctico. E aqui sou um dos defensores de Vitor Pereira desde que começou a introduzir o estilo que hoje pauta o jogo do FC Porto, pelo menos nos dias bons. Gosto de ver a equipa a pausar com a bola nos pés, a rodar pelo meio dos meios-campos adversários enquanto procura o espaço para o passe que devia ser constante mas certo, para a melhor opção, a melhor posição, a melhor oportunidade para maximizar o sucesso da aventura. E foi notória a mudança desde o estilo…em pânico do ano passado, com menos bom futebol e mais “atira a bola pró Hulk” que se viu em 2011/2012, que só resultou no campeonato graças à forma fantástica do brasileiro, bem apoiado por Moutinho e James, que com o regresso de Lucho viram o meio-campo estabilizado e mais fiel ao tipo de jogo que o treinador queria colocar a equipa a jogar. Este ano, livre do “refugo” visto pela SAD e pelo treinador como supranumerários, com nomes como Hulk, Janko, Fucile, Guarín, Belluschi e Álvaro a serem despachados com mais ou menos lucro, a filosofia foi assente em peças escolhidas a dedo, apostas arriscadas e versatilidade de posições e alternativas encontradas dentro do próprio plantel. Foi esse o “rationale” com que arrancámos a temporada.

Mas o estilo não agrada a todos. Há muita gente com quem falo que desgosta do jogo horizontalizado, com rotação de bola excessivamente lenta, com menos remates e mais posse, uma estrutura ofensiva baseada no centro do terreno com os laterais subidos ma non troppo, os extremos que não o são e os centrais a levar o jogo para a frente. Uma boa parte do povo vê-se no meio de uma máquina do tempo parada no mesmo, sem que o sumo que é espremido dos lances de construção arrastada possa saciar a gula ofensiva que pauta o ataque portista. Talvez por isso, juntamente com a crise e os jogos às sextas-feiras e domingos à noite, tenha servido para afastar a gente do estádio. Talvez. E a verdade é que o jogo só muito raramente agradou a todos e trouxe a alegria do futebol-espectáculo às massas.

E há mais.

Os jogadores não parecem gostar. Vejo-os tristes, resignados a um jogo de toque curto com movimentações tantas vezes infrutíferas, enredados em teias montadas por equipas hiper-defensivas que povoam o meio-campo com tantos homens quanto a lei lhes permite, tapando todos os buracos por onde a bola pode passar. E os próprios jogadores, alguns mais espertos que outros mas em grande parte lentos, com pouca aptidão física e mental para deambulações aparentemente sem rumo, muitas vezes parecem parar no relvado à espera que a bola lhes seja endossada para que possam participar do jogo. Vi tantas vezes o flanco direito sem o apoio que um lateral ofensivo poderia dar e que Danilo, por não o ser, não o faz. Izmailov, que chegou para ser um James quando James não estava, perde-se muitas vezes nas próprias simulações e é incapaz de recuperar a bola, o ânimo e a vontade. Jackson está tantas vezes sozinho que começo a questionar se não estará em formação para eremita. E nos últimos jogos temos visto os centrais, quer Mangala ou Otamendi, a arrastar o jogo com a bola nos pés, tentando criar o desiquilíbrio que os outros seis à sua frente são incapazes de gerar.

A táctica é ambiciosa mas tem falhas. Tem falhas por um motivo muito simples: é bonito querer jogar à Barcelona. É audacioso pensar que o podemos fazer. E é utópico pensar que o conseguimos facilmente ao fim de meia-dúzia de meses.

6 comentários

  1. Caro Jorge,

    Ninguem gosta da táctica porque não existe táctica, tão simples quanto isso.

    Temos um sistema de jogo que é baseado em posse, mas posse para fazer o quê ninguém sabe, nem os jogadores.

    O que se sabe (e os jogadores também) é que aquando da perda da bola pressionar o adversário para que ele não tenha hipotese de pensar o jogo e mandar um patardo para a frente.

    De seguida recuperar a posse para uma zona segura (rodar para o helton e iniciar daí)

    A partir deste momento nada mais está pensado ou programado a não ser uma séria de passes curtos de um lado para o outro e que os jogadores individualmente resolvam.

    O que eu quero dizer quando afirmo que não temos táctica e apenas um sistema de jogo?

    Por exemplo, não se vê o lucho fazer uma diagonal para a direita e ao mesmo tempo o James entrar na esquerda e o Jackson dar-lhe uma linha de passe mais à frente com o Varela a abrir na linha.

    Ou… não se vê o extremo ir para o interior para o lateral de dar a bola, devolver ao primeiro toque para a linha em profundidad, cruzamento de imediato com o Jackson, Lucho mais o ala do lado contrário a entrarem em 3 zonas destintas da área.

    Podia dar mais umas dezenas de jogadas combinadas, que provém do uso táctico simples do jogo e que não existem no nosso Porto.

    Nós temos um jogo baseado na pressão, recuperação da bola e posse segura, mas sem qualquer trabalho na vertente táctica do jogo, por isso é que seja contra que equipa for, os adeptos nunca estão confiantes no desfecho ou que sequer possamos marcar 1 golo, pois todos olhamos para o campo e vimos que a equipa é capaz de recuperar e ter bola, mas não sabe o que há-de fazer com ela.

    Eu joguei futebol federado e sei exactamente que sistema de jogo é aquele assim como sei o sistema de ataque e é simplesmente baseado no… “roda, roda, roda até se conseguir um espaço ou meter uma bola mais perigosa num combinação dois/trés toques e remate”.

    Obviamente estamos a falar de jogadores e equipas que sabem defender isto sem grandes dificuldades.

  2. Caro Jorge, a questão táctica tem muito que se lhe diga.

    Estamos num 4-3-3 barcelonista, sem interpretantes do mesmo nível.

    Para um futebol total, é necessário ter jogadores polivalentes. Têm de ter agressividade defensiva, desmarcar bem e rápido, rematar bem, passar bem, receber muito bem, e levantar a cabeça e ter visão de jogo (chip).

    O nosso plantel actual não tem disso. Uns rematam bem, outros correm muito, outros recebem bem, outros são muito agressivos, outros nem por isso. E isto é normal de acontecer quando o modelo negocial é determinado pelas oportunidades de mercado (negócios que aparecem e são interessantes como Danilo, Izmaylov, Alex Sandro, Reyes, Defour, etc…)

    Agora, penso que o FCPorto tem de decidir um maior equilíbrio entre modelo negocial e ideia de jogo…Porque o FCPorto neste momento não tem um desequilibrador de qualidade em forma.
    Temos o James que não está em forma, o Atsu pouco tem sido opção, o Iturbe não sabe defender e passar a bola, o Varela tem incapacidades técnicas, o Izmaylov é mais um distribuidor, o Hulk foi-se embora…

    Penso que estamos a pagar, um pouco, o facto de não apostarmos milhões no ataque, e apostarmos milhões na defesa (Danilo, Alex Sandro, Magala, Reyes, etc). Depois o meio campo neste momento está a estourar (Moutinho, Lucho, Fernando) devido à falta de alternativas.

    No entanto, devo enaltecer o trabalho feito por VP, que tem evoluído a nossa forma de jogar, para um estilo barcelonizado, do qual aprecio. Mas por favor, dêem ao pobre VP interpretantes a condizer, especialmente alternativas no meio campo, para rotação, e pelo menos um excelente extremo/avançado ao estilo de Hulk, Quaresma, Derlei, etc…ou então dois bons extremos, para evitar marcações individuais numa das alas como acontecia com o super heroi Hulk

  3. Penso que a nível táctico VP tem feito um bom trabalho , pois nota-se sistematização , coerência, o que requer alguém com principios (que VP tem) , o que acontece é que não se implementa este sistema em meia-duzia de meses ou em 1 ano é preciso mais tempo.
    Poderão dizer que VP está á quase 2 anos mas relembro que o ano passado foi muito conturbado com inúmeros atletas a quererem ser mais que o Porto que tudo lhes deu , dai a limpeza de Janeiro o que obviamente complicou a forma de trabalho de VP que se baseia no sistematizar , na persistência e sobretudo na corência!
    Peço desculpa de me repetir mas penso que VP está certo e o sistema táctico de VP requer muito mais trabalho e tempo do que até agora teve como exemplo temos o Barça e o Ajax , estas equipas e os seus resultados não apareceram do nada e o seu dominio a nível domestico e internacional estendeu-se por vários anos.
    Mas faltam meios ($$$$$$$$$$$$$$) e caso seja para continuar é preciso dar mais algum tempo para que esta forma de jogar dê todos os seus resultados.
    Lembro que no tempo de Sir Bobby Robson o futebol também não era muito espectacular mas era muito eficaz e ganhava jogos e muito simplesmente quem quer ver espectáculos que vá ao circo.

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