Baías e Baronis 2012/2013 – O treinador

Falar de jogadores é fácil. Todos nós já entrámos num campo da bola, maior ou mais pequeno, com ou sem chuteiras, a pontapear um esférico de couro para trás e para a frente, sem nos preocuparmos imensamente com problemas tácticos ou nuances posicionais. É só chutar a bola para o próximo gajo ou directamente para a baliza, se a bola lá conseguir chegar. Ninguém se preocupava com treinos, preparação física, palestras antes dos jogos, gritos de incentivo das laterais tingidos com as adequadas correcções dos movimentos dos jogadores, o alinhamento dos nomes para a ficha de jogo, as decisões das convocatórias, a atitude perante dezenas de jornalistas sedentos de sangue. Nenhum de nós teve de lidar com amuos, imperfeições, lutos, azares ou falhas humanas. E também nenhum teve de acalmar nervosismos, de travar excessos de confiança, de consolar jogadores que falharam penalties e de motivar os que os vão marcar a seguir, ao mesmo tempo que tem de manter uma equipa em níveis de topo para vencer todos os jogos que se lhe aparecem à frente. Por isso fica o disclaimer: que ninguém pense que ser treinador do FC Porto é um trabalho fácil. Passemos à frente.

A época foi épica. Mas quem acompanhou o desenrolar da temporada percebe que nem tudo correu bem, logo desde o início. Vitor Pereira, sem dúvida nenhuma o grande vencedor da campanha, teve uma vida difícil muito à imagem do que tinha acontecido no primeiro ano. Mas notaram-se diversas melhorias especialmente no ponto de vista táctico, em que os jogadores pareceram assimilar muito melhor as ideias do treinador depois de uma época inteira a viver, sejamos honestos, da vida de Hulk e do que ele conseguia ou não fazer no decorrer de um jogo. A presença de um homem de área, que tinha sido talvez o elemento fundamental para que a táctica de rotação de bola em constante posse não tivesse resultado em pleno no ano passado, foi determinante. E foi decisiva a entrada de Jackson para que houvesse alguém em quem colocar a bola e que conseguisse funcionar muito para lá da mobilidade torpe de Kléber ou da estatura física de Janko, servindo como pivot quando era necessário, de costas para a baliza, ou para aparecer na área na altura certa e na posição certa para marcar. Jackson foi o garante do funcionamento da táctica que Vitor tentou durante dois anos implementar na mente dos jogadores que mais trabalhavam para a fazer resultar, nomeadamente Moutinho, Lucho e James. E funcionou durante largos períodos, com um futebol bonito, atraente, posses de bola na percentagem dos sessenta e muitos, e que apesar de criar poucas oportunidades de golo em virtude do que seria expectável dada a enorme diferença de tempo em que tínhamos a bola em nosso poder, lá ia aparecendo o passe perfeito para a finalização correcta. Funcionou bem, a espaços. O jogo em Guimarães, juntamente com os confrontos europeus contra PSG e Málaga no Dragão talvez tenham sido os zénites da aplicação prática de uma enfatização teórica que atravessou as nossas mentes desde Agosto. Quando a equipa jogava com confiança, quando Fernando tapava atrás, Lucho e Moutinho rodavam no meio, James descaía da ala para o centro e Jackson marcava, tudo corria bem. Mas houve alturas em que a posse de bola era entediante, o jogo demasiado recuado e pausado, onde parecia que os jogadores estavam demasiado despreocupados em acabar com a partida cedo e deixavam tudo para segundas-partes que nem sempre eram tão calmas como as primeiras, onde o nervosismo ia começando a baixar a moral e a transtornar as bancadas e onde quase tudo parecia perdido. Foram jogos como o Olhanense no Dragão, o Marítimo na Madeira ou o Rio Ave em Vila do Conde, onde a equipa simplesmente não parecia funcionar como um todo. E perdemos pontos vitais com esta mentalidade tão lusa, esta constante procrastinação que o treinador não controlava e se alheava de comentar nas conferências de imprensa depois dos jogos. Tudo estava bem na cabeça e nas palavras de Vitor Pereira, quando era visível que esse não era o caso.

Na gestão do plantel, Vitor fez o que pôde. Casos como os de Kléber ou Iturbe, possuídos de uma tal inoperância competitiva que tornaram a sua utilização inviável, associados a um curto plantel e ainda mais curtas opções para certas posições, foram cansando peças-chave e tornando a vida do treinador mais difícil. Danilo e Atsu renderam abaixo do previsto, Varela foi um nado-morto em determinada altura da época e não fosse a excelente primeira volta de Lucho, intercalado com a participação sempre activa de Defour e o aparecimento de um Mangala em grande (e Abdoulaye a espaços) a colmatar as ausências de Maicon por culpa da lesão e Rolando por culpa própria. E o que dizer de Jackson, que Vitor “obrigou” a fazer a época toda quase sem sair da relva, com um Liedson que o treinador não via como opção mas recebeu-o como “prenda” da SAD sem muito poder dizer ou fazer? Foram muitos problemas para um homem lidar, mas Vitor nunca desistiu, deu a cara pelo grupo e pelos seus rapazes e teve a sorte que fez por merecer. Fez de Mangala um jogador completo, melhorou as já grandes potencialidades de Alex Sandro, motivou Kelvin para que pudesse entrar e jogar os minutos necessários para criar uma imagem indelével na cabeça dos adeptos, evoluiu Fernando para um quase-box-to-box, manteve Moutinho como líder com a bola e Lucho sem ela e deu a conhecer Jackson a meia-Europa. E notou-se a evolução até do ponto de vista do seu próprio visual e atitude, longe do parolinho que apareceu em Julho de 2011 a apresentar-se aos jornalistas como comandante de um dos melhores clubes do Mundo. Está melhor, com mais nível, nunca perdendo a personalidade que sempre teve de homem simples mas adaptando-se melhor a um mundo novo que é mais exigente, mais analítico e acima de tudo bastante mais cínico.

Mas…e há sempre um mas nestas coisas…nunca foi forte. Nunca pareceu forte, isto é. Quando um naco enorme dos próprios adeptos pedem a sua cabeça por cansaço em ver jogos consecutivamente sofríveis, Vitor virou o discurso para fora e tentou atirar com as culpas para outros, em mind-games óbvios e que só resultaram porque a soberba alheia tolhia o pensamento e abafava as verdades. As eliminações da Taça e da Champions caíram mal, especialmente a segunda, pela forma infeliz com que a equipa se abafou sozinha e onde o treinador foi culpado de não conseguir convencer os “seus” que eram capazes de dar a volta por cima. E a final da Taça da Liga, por muito que admitamos que não interesse por aí fora, é mais uma marca de que é preciso ser forte, ser rijo quando é preciso, e Vitor raramente o fez, pelo menos para fora. Nunca conseguiu reunir um apoio inequívoco dos adeptos, que querem a vitória mas começam a ficar cansados do que têm de atravessar para que ela chegue. E o síndroma do number-two-becomes-one (ou de Peter, como quiserem) pareceu uma espada de Dâmocles em constante perigo de cair, não fosse o final aprazível para a malta. Não caiu e Vitor Pereira sai da temporada em alta, com cartas na mão para usar e a opção de poder continuar, presumo que à espera de melhores condições para continuar a implementar a sua visão, os seus métodos, a sua identidade.

Bottom line: Vitor Pereira é honesto, não duvido. Portista de alma, coração e outros órgãos aleatórios, acredito sem questionar. Tem estatísticas ao nível de poucos, com uma derrota em sessenta jogos e nenhuma nos últimos quarenta e três. Valorizou jogadores e já deu muito dinheiro a ganhar ao clube. Apanhou de tudo e de todos sem se vergar e conseguiu vencer com mérito. E se tiver condições para pôr a equipa jogar bem e continuar a vencer…que mais podemos pedir?

VITOR PEREIRA: BAÍA

6 comentários

  1. Excelente texto. Basicamente é a minha opinião escrita por outras pessoa. Só acrescentaria o facto de as derrotas terem sido sempre com um jogador a menos (Defour na Champions, Abdoulaye na Taça da Liga, Castro na Taça) e a dificuldade de gerir um plantel com 13 jogadores válidos a curto prazo.

  2. “E se tiver condições para pôr a equipa jogar bem e continuar a vencer…que mais podemos pedir?”

    Aqui entre nós, que ninguém nos ouve: Começa por Rui e acaba em Faria, ou começa em Domingos e acaba em Paciência…

    Um pouquinho de excitação nos jogos… não ver 40 000 pormenores técnicos falhados (os passes meu Deus os passes.) Não estar sempre de coração nas mãos quando sofremos um golo antes. Não sentir a equipa totalmente impotente a jogar com 10…

    Ah, e ganhar um campeonato em que os outros (vermelhos no caso) não o percam, se é que me faço entender.

  3. Eu gosto do Vítor Pereira. Desde o seu primeiro grande teste, na supertaça europeia contra o Barcelona, que mostrou que não é um daqueles treinadores “borrados” que nos jogos grandes joga à defesa ou sente uma necessidade tal de inventar que transmite logo à equipa um sentimento de inferiorade que, invariavelmente, termina em derrora. Como já tivemos o Jesualdo ou o Benfica tem agora o Jesus.
    O Porto de Vítor Pereira é um Porto corajoso que, tal como fez nesse jogo com o Barça, vai a jogo sempre para dominar e mostrar que é melhor. Ou pelo menos tenta fazê-lo.

    Depois, o treinador já mostrou também coragem nas decisões que toma já em jogo, a partir do banco. E sem inventar muito.
    Os dois títulos de campeão foram conseguidos, em grande parte, por duas alterações feitas em jogos contra o Benfica e que só um treinador “de tomates” as poderia fazer:
    – No ano passado, em pleno estádio da luz, assume que o jogo é para ganhar (e o empate nem era mau de todo), tira o lateral direito e coloca Djalma a fazer todo o corredor direito, para ter mais um avançado;
    – Este ano, no Dragão, substitui Danilo por Liedson.
    Poderão dizer que, principalmente este ano, não havia nada a perder porque o empate praticamente garantia o título ao Benfica. Certo, mas corria-se o risco do Benfica marcar e ser campeão no nosso estádio. Um treinador “borrado” certamente nao teria corrido esse risco; o nosso correu e foi recompensado por isso.

    Concordo que os períodos piores do Porto esta época deveram-se à falta de soluções no plantel para lidarmos com o cansaço, lesões ou quebras de forma de alguns jogadores.
    Mas aqui já acho que o treinador tem alguma responsabilidade. Parece-me difícil, por exemplo, que tenha sido da exclusiva responsabilidade da direcção ter decidido despachar 3 dos 4 laterais direitos do plantel, para ficarmos só com 1, e que é uma adaptação! Se o afastamento do Fucile até se percebe (apesar de gostar bastante do moço), já o de Sapunaru custa a aceitar.
    E esta é outra coisa em que me parece que Vítor Pereira falha. Se dizes, e bem, que valorizou alguns jogadores também acho que poderíamos falar daqueles que se desvalorizaram. E todos eles por conflitos como treinador: Fucile, Sapunaru, Rolando, Álvaro Pereira são só alguns exemplos.
    Se os jogadores poderão ter grande parte da culpa nos casos, também me parece que os mesmos poderiam ter sido geridos de melhor forma. Jogadores amuados sempre houve e haverá, mas não me parece normal o número de jogadores que tivemos a treinar à parte no Olival com este treinador.

    Resumindo, até porque isto já vai muito longo:
    Baía para Vítor Pereira, sem dúvida! Se deveria continuar como treinador? Sim, mas por favor com um melhor planeamento do plantel. Caso contrário, a nossa forma de jogar vai continuar a falhar algures durante a época quando os recursos ficarem curtos.
    Se sair, gostaria que viesse um dos nossos, como o Domingos ou Jorge Costa.

  4. Tudo bem, mas falta-lhe uma coisa: confiar mais nas capacidades de decisão dos jogadores. VP tem amordaçado talentos como James ou Defour na sua “rodoma” táctica e se ganha em controlo, perde em criatividade.

    Não quero dizer que controlar os acontecimentos do jogo seja algo indesejável, muito pelo contrário, mas tem de haver equilíbrio entre as directrizes do treinador e a capacidade do próprio jogador de decidir por si o melhor rumo a dar à bola.

    Se calhar é este trabalho “invisível” que diferencia os treinadores esforçados dos treinadores geniais

  5. Ontem tentei comentar, mas o comentário evaporou-se algures na nuvem…
    Bem aqui vai de novo: seja VP ou outro qualquer , terá de dar um salto em frente. Isto é terá de – como disse o Rui Moreira- ter mais mundo. Ou como aqui comentou o hmocc : dar aos jogadores a ideia de que são eles que vão definir os jogos. – Acho que com tanta proteção, os jogadores deixam de sentir a responsabilidade na definição dos jogos.
    O que aconteceu com Kelvin é paradigmático: só um rebelde convencido de si (ou um doido, como disse o Sapunaru) marcaria aquele golo naquele momento!…
    E, isso é que precisamos num treinador agora. Que jogue nos jogos europeus como se estivesse a jogar contra o benfica, e não se assuste com as câmaras, a projeção e os comentários nos jornais internacionais…

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