Ouve lá ó Mister – BATE

Señor Lopetegui,

Mais uma estreia. É hoje que vai sentir o que é entrar em campo na principal prova de clubes do Mundo, superior a qualquer campeonato ou taça que se disputa por esse planeta fora. Hoje, mais que na pré-eliminatória contra o Lille, é que se começa a distinguir a qualidade dos executantes e a valia que os clubes mostram para estar a este nível durante seis difíceis jogos que arrastam multidões e criam aquele nervoso miudinho que mais nenhuma competição consegue criar no nosso estômago.

E bem-vindo também às tradicionais noites de Outono na Invicta, caríssimo! Esta promete ser mais uma inclemente jornada nocturna, com as tradicionais entradas com aguaceiros, seguidas pelo primeiro prato de chuvinha no lombo e terminando com uma carga de trovoada e relâmpagos como sobremesa para levantar as almas ainda mais alto na sonoridade e beleza de uma noitada de vitórias europeias! Quem não se lembra de jogos à chuva como contra a Lázio ou das saraivadas contra o Áustria de Viena? É que essa conversa de verão já lá vai, por isso toca a calçar as galochas e a vestir a gabardine porque o Porto está como sempre esteve: molhado.

E as galochas também servem como metáfora para este jogo. Não conheço o BATE tão a fundo como o meu caro amigo, mas tenho a certeza de uma coisa: se jogarmos com a intensidade a meio-campo que fizemos no Domingo em Guimarães, bem podemos estar tramados com F grande porque não acredito que estes bielocoisos venham cá brincar ao futebol. Isto é malta de barba bem rija, uma espécie de Brian Wilson em cirílico que nos vai lixar se tiver a mínima hipótese. Fecha bem o centro do terreno e faz lá um favor à malta, tira o Herrera e mete o Evandro e aposta em mais estrutura e menos parvoíce. E aposta no Quaresma ou no Adrián numa das alas. É malta com calo nestas coisas e pode equilibrar a inexperiência dos outros putos do meio-campo.

Bate no BATE. É impossível fugir desta piada, Julen.

Sou quem sabes,
Jorge

Dicas para os jornalistas que vão cobrir os nossos jogos na Champions

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Para os jornalistas desportivos que parecem adquirir um estupendo amadorismo nalgumas circunstâncias (anteontem vi o resumo dos jogos na TVI. Trocaram o emblema do Dortmund pelo outro Borussia, o de Mönchengladbach e não tinham em arquivo o do Malmö nem do Ludogorets. E a televisão oficial da Champions League resolveu não googlar o raio dos logotipos e espetou lá o da prova em vez dos verdadeiros. Enfim.) e que vão ter a árdua tarefa de acompanhar o FC Porto na Champions League 2014/2015, ficam algumas dicas:

BATE Borisov – Esta é mais para os que escrevem e menos para os que falam: o clube chama-se BATE, não é Bate. BATE é uma sigla (Borisov Works of Automobile and Tractor Electric Equipment, que tem mais pinta de soviético que um bigode à Estaline) e não um verbo no imperativo. Não são toscos, não são “ilustres desconhecidos” nem são estreantes na Europa, aparecem nesta vida há onze anos seguidos, espetaram 3-1 no Bayern do Heynckes há dois anos (exactamente, o mesmo que ganhou a prova) e têm mais experiência recente que o Sporting.

Athletic – Não os confundam com os outros. Big faux-pas. As camisolas não são as mesmas do Atlético de (cuspir para o chão e pronunciar qualquer diatribe em basco) Madrid mas sim do Southampton, porque em milnovecentosetrocaopasso o clube pediu a um puto que estudava em Inglaterra para comprar uma data de roupa e a única quantidade de camisolas iguais que o rapaz arranjou foram estas. Sim, as histórias das origens das camisolas dos clubes por vezes são anedóticas. Deal with it. Move along.

Shakhtar - Por favor tentem mencionar a guerra o menor número de vezes possível. A sério. A não ser que vejam algum jogador do Shakhtar a entrar em campo de metralhadora em riste, o que interessa aqui é futebol. Nem se ponham a lamentar os coitadinhos. São gajos com calo, que andam aqui há muitos anos, tem mais brasileiros que nós e uma invulgar capacidade de contratar médios-centro chamados Fernando. E vão-nos fazer a vida negra.

Qualquer dúvida, perguntem. É melhor que fazerem figuras tristes.

Grupos possíveis para o sorteio de hoje

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Algumas ideias:

  • Grupo “montem-se num pino laranja dos que se põem na estrada, ninguém tem tanto azar”

FC Porto, Borussia Dortmund, Liverpool, Roma

  • Grupo “já estou farto de jogar sempre com os mesmos”

FC Porto, Shakhtar Donetsk, Olympiacos, APOEL

  • Grupo “bamos bencer balentes bês”

FC Porto, Basileia, Bayer Leverkusen, BATE Borisov

  • Grupo “tour pelas capitais da Europa”

FC Porto, Paris Saint-Germain, CSKA Moscovo, Roma

  • Grupo “todos às risquinhas, que bonito”

FC Porto, Juventus, Olympiacos, APOEL

  • Grupo “frio. muito frio.”

FC Porto, Shakhtar, CSKA Moscovo, Malmö

  • Grupo “não foram estes que nos encavaram aqui há uns anos?”

FC Porto, Schalke 04, Liverpool, Anderlecht

  • Grupo “FCP alumni reunion!”

FC Porto, Manchester City, Olympiacos, Mónaco

  • Grupo “abaixo as siglas”

FC Porto, PSG, CSKA, APOEL


Estou como Portugal se chegar ao Conselho de Segurança das Nações Unidas: já estou contente por cá estar, aconteça o que acontecer.

Baías e Baronis – FC Porto 2 vs 0 Lille

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foto retirada de desporto.sapo.pt

Um final de tarde de Nov…Agosto, bem à maneira de um jogo europeu. A chuva miudinha não incomodava, até ajudava a refrescar o corpo e a mente durante a partida, que foi tensa e complicada, também à maneira dos confrontos na Europa. E a vitória assenta-nos bem porque somos e fomos a melhor equipa em campo, mas também porque soubemos crescer nos momentos certos e acertar na baliza quando era necessário. Tudo graças a um jogo inspirado de Brahimi e ao grande ponta-de-lança que temos e que nem sempre é apreciado como devia, tanto cá como lá fora. Pouco há a reter do jogo a não ser o golão do argelino e a confirmação do apuramento de uma equipa ainda verdinha mas que tem tanto talento que parece cruel ainda não conseguir colocá-lo em campo. Early times, my friends. Vamos a notas:

(+) Brahimi. Há um lance em que faz uma “vírgula” num espaço de vinte ou trinta centímetros que deixou o estádio babado para ver mais. E apesar do jogo o ter obrigado a um papel mais defensivo, que aposto não desempenha com particular agrado, foi na frente que se mostrou eficaz, com um golo de livre directo a fazer lembrar Diego e uma assistência perfeita para Jackson enfiar lá dentro o segundo. É muito talentoso com a bola nos pés e é a sair de situações complicadas que mais brilha e põe o povo em chama. Fintar uma equipa numa cabine telefónica? Brahimi consegue isso com a bola controlada e os olhos vendados, amigos!

(+) Jackson. Esteve estupendo a receber a bola e ainda melhor a rodá-la para os colegas. Só tenho pena que tivesse de recuar tantas vezes até ao meio-campo para a poder receber, mas o jogo do FC Porto ainda não se estica como deveria para que Jackson possa ficar mais tempo em zonas de tiro, à espera que a bola lhe vá lá cair redondinha. E o golo que marcou é daqueles dignos de ponta-de-lança, recebendo “en passant” de Brahimi e fuzilando Enyeama com um remate cruzado de pé esquerdo. Excelente jogo e mais um visto na lista dos marcadores deste ano. 3 golos em 4 jogos, metade dos golos da equipa. Os números não mentem: neste momento, Jackson é essencial no FC Porto.

(+) A entrada de Evandro. Ruben parecia cansado e apesar de conseguir fazer aos 17 o que Raul Meireles fazia aos 27 (jogar meia-hora e ser substituído, certinho como um relógio atómico nas substituições de Jesualdo), notava-se que a frescura mental não era a mesma, os passes saíam mais tortos e menos inteligentes. Evandro ajudou a equilibrar o meio-campo, pausando o jogo e temporizando na altura certa para medir bem os passes e ajudar a segurar o centro do terreno que contava com Herrera em modo crazy-time e Casemiro ancorado um pouco mais atrás. E se tivesse tido pernas para ultrapassar Rozehnal, o Otamendi checo (o homem passou meio jogo a fazer carrinhos…), podia mesmo ter marcado. Fica para a próxima, rapaz.

(-) Jogo horizontal em demasia. Discutia no final do jogo os hábitos que se vão criando na estrutura de jogo e a necessidade de ir corrigindo erros para que não se tornem…habituais. A forma como a equipa começa a construção de uma jogada de ataque faz com que o jogo se torne excessivamente horizontal, com pouca vontade de avançar com a bola controlada em direcção à baliza. E isso nota-se mais em jogadores como Óliver ou Ruben Neves, mais rápidos a decidir e que começavam quase sempre por olhar para a lateral em vez de perceber se havia uma melhor linha de passe à sua frente. É com a posse de bola que melhor jogamos, não contesto, mas manter a bola entre nós sem tentar furar enquanto se espera por um erro do adversário pode levar a que em muitos jogos onde sejamos menos eficientes, especialmente no campeonato, comecemos a ficar nervosos e tomemos decisões arriscadas e rápidas demais para acelerar em altura de desespero. Espero para ver a evolução da equipa nos próximos tempos.

(-) O nervosismo do final da primeira parte. A equipa é nova mas não só em termos de contratações e estrutura. Os rapazes que lá estão também são jovens e se podemos salivar com a perspectiva da evolução de tanto talento em campo até que formem um colectivo consistente, também teremos de aguentar alguns jogos em que as decisões não são as melhores e onde há alguma tremideira em determinados momentos em que nada parece correr bem. Os últimos dez minutos da primeira parte foram uma sucessão de más escolhas para o passe, movimentações erradas e um mal-estar generalizado que parecia contagiar as bancadas, que agora parecem cheias de filhos únicos mimados a quem lhes tiraram os brinquedos por meio minuto. Cabe ao treinador acalmar as tropas e o arranque da segunda parte pareceu mais tranquilo (o golo ajudou e muito), mas vão haver jogos em que esses dez minutos podem ditar a diferença entre um bom resultado e uma catástrofe…

(-) Os assobios a Lopetegui. Ainda vou escrever sobre isto mais tarde (a ideia é esta, por isso se não acontecer, fica aqui registado que era este o meu intuito original!) mas só há uma coisa a dizer a esta montanha de unhas encravadas: se querem que as substituições ocorram sempre como suas excelências desejam, mesmo que essa substituição não seja adequada ao que o jogo está a mostrar, fica uma sugestão: vão a uma loja e comprem uma cópia do Football Manager e já podem meter o Quaresma sempre que vos apetecer. Até lá espero que se calem e deixem de pressionar a equipa, de insultar a inteligência do treinador e de lixar a cabeça dos vossos colegas de bancada. Ou então não apareçam, que tal?


O sorteio é na próxima quinta-feira, a meio da tarde. E lá estaremos, pela 19ª vez, a ver as bolinhas a serem sacadas por uma qualquer figura do futebol mundial, à espera do papelinho que diz “FC Porto”. Com mérito.

Ouve lá ó Mister – Lille

Señor Lopetegui,

Parece que ainda aqui estivemos, neste mesmo sítio, a dizer as mesmas palavras, aqui há uma semana. O título era idêntico e tudo, já viste?! Mas a disposição, essa está um bocadinho diferente. Não para pior, não penses isso, apenas mais confortável do que estava na semana passada, porque aquele golinho do Herrera pode ter ajudado e muito a colocar a malta na fase de grupo da Champions e limpou-te a primeira gota de suor “à animé” que podias pensar em verter da tua testa. Mas o trabalho ainda não está terminado, meu caro, por isso mãos à obra e vamos perceber o que temos de enfrentar hoje.

Os gajos são rijos. Já viste isso na semana passada, gostam muito da pisadela e do empurrão, são daqueles que a malta gosta de mandar abaixo com estrondo, se percebes o que quero dizer. E vi os teus moços com calma suficiente para perceberem que era essa a táctica do adversário e que não precisavam de baixar a esse nível. Continuaram a jogar o que sabem e lá marcaram e lá ganhámos e isso é que importa. Não interessa nada se os gajos são melhores que nós – neste caso, não são mesmo – mas mesmo que sejam, a mentalidade é que é preciso estar sempre em modo-vencedor. Hoje, quando entrarem em campo, lembrem-se dos jogos contra franceses no nosso passado. Da vitória em Lyon, a outra nas Antas contra o Marselha, naquele jogo sofrido com o Drogba a ganhar tudo que era bola aérea nos últimos vinte minutos. Mas lembrem-se do Nantes, que nos deu água p’la barba, e do Paris Saint-Germain, esses estupores que já nos lixaram várias vezes. Já sei que a malta não tem grande experiência (afinal, quando vi o primeiro jogo do FC Porto ao vivo contra uma equipa francesa, o Nantes, em 1995, o Ruben Neves era um brilho nos olhos do pai e o Óliver ainda andava de fraldas…), mas é preciso começar a meter-lhes na cabeça que aqui não há empatanços. É sempre, mas sempre para ganhar.

Tenham noção da nossa história e foquem-se em ganhar o jogo. Porque as minhas 3ªs e 4ªs têm de levar hino de Champions e o FC Porto tem de lá estar. E eu. E todos nós. E vocês também.

Sou quem sabes,
Jorge