Ouve lá ó Mister – Braga

Companheiro Nuno,

Um dos meus companheiros de bancada tem uma frase que repete desde há vários anos e que se tornou uma espécie de imagem de marca das nossas viagens até às Antas (que se transferiram para o Dragão quando fizemos esse upgrade de instalações que acarretou o downgrade de alma) e que era proferida por mim ou por ele, dependendo de qual de nós se lembrava primeiro. Era qualquer coisa como isto: “Tenho frio…tenho fome…foda-se.”. Esta frase, ou sequência de frasiúnculas se quiseres, é nossa. É uma representação daquilo que sentíamos durante aqueles longuíssimos jogos invernais onde se jogava mal, onde os passes eram fracos ou fortes demais, onde o vento que uivava a partir dos topos se abatiam sobre nós com a inclemência de um professor primário à antiga. E nós, miúdos, encontrávamos aí a forma de usar o vernáculo à vontade sem vigia de adultos, ao mesmo tempo que mostrávamos a nossa frustração pelo jogo não estar a corresponder às expectativas. Mas saindo de lá, tristes ou não, imediatamente fazíamos planos para voltar no próximo jogo, com a alegria da juventude e as faces ruborizadas de excitação por vermos o nosso clube.

Hoje em dia, a frase é parecida. Graças ao meu compincha, que transformou aquele conjunto de palavrinhas em algo um pouco mais composto e bem mais adulto, para não dizer idoso. Cá vai, sempre com vernáculo: “Oh meus amigos, não fodam mais esta merda porque fodido já está que chegue!”. É neste ponto que estamos. Com lamentos e sem desistências. Com infelicidades e sem miserabilizações. Com amor pelo clube e sem pena do clube. Com vontade de chegarmos ao dia seguinte com menos três pontos de distância para o líder e a lutar para lá chegarmos ainda mais depressa. E só depende de ti, Nuno. Só.

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – Belenenses 0 vs 0 FC Porto

372497_galeria_belenenses_x_fc_porto_liga_nos_2016_17_campeonato_jornada_11-jpg

Quarto empate consecutivo em todas as competições. Terceiro jogo fora sem marcar golos. E sem grande esperança que as coisas mudem, sendo que aqui está o grande problema. Algo não vai bem quando uma equipa corre mais do que fazia desde há três anos e não consegue produzir uma fracção do que podia e devia. Demasiada indecisão, absurda falta de sentido prático na frente (a contrastar com o que acontece na zona recuada) e uma sensação de que o barco anda à deriva e não há muito que possamos fazer para contrariar a maré. Notas abaixo:

(+) Marcano. Pelo ar ou pela relva esteve sempre impecável e quase que marcava um belo golo de cabeça, não fosse a perna direita do defesa esquerdo do Belém a salvar a bola de entrar, obrigando-me a enfiar de novo no bolso o grito que estava pronto a dar pela quebra do enguiço dos golos. A braçadeira de capitão não me pareceu mal entregue, francamente. É estranho, mas é a verdade.

(+) Casillas. Esteve razoável fora dos postes mas muito bem entre eles, a safar a equipa depois de algumas falhas na zona central, onde Danilo não conseguiu ser omnipresente ao ponto de evitar overloads de dois ou três jogadores a entrarem pela área dentro. Ficou na memória uma saída a fazer a mancha a Sturgeon, fazendo-o tremer depois de um lance complicado pelo ar.

(+) As tareias físicas que temos levado não se têm notado. Os últimos jogos têm sido complicados. Benfica no Dragão é sempre complicado (mau era), seguiu-se o Chaves com 120 minutos de jogo contra uma equipa que gostava muito de acertar nas pernas. Em seguida, Copenhaga contra vikings duros como os cornos dos históricos capacetes (aparentemente falsos mas ainda assim queriduchos de imaginar) e agora um jogo contra a chuva, contra o batatal/relvado e contra uma equipa que sua sempre mais um bocadinho contra camisolas azuis e brancas, ou neste caso, amarelas. E através disso tudo continuo a ver André Silva a correr, Danilo a lutar e Felipe e Marcano a voarem pelo ar. A equipa parece bem fisicamente, apenas mal tecnica e psicologicamente.

(-) É só isto que temos? A sério, é só isto que temos? Uma equipa que joga a um ritmo lento e previsível; extremos que não conseguem furar; laterais que se posicionam como médios-ala mas que não conseguem auxiliar os seus colegas da frente; avançados que parecem ter perdido o bom entendimento de aqui há umas semanas; dois médios que não ajudam atrás nem provocam desequilíbrios na frente, longe das zonas de perigo e ainda mais longe dos colegas. É, no fundo, uma equipa desgarrada, que corre muito mais e produz oh-tão-menos do que deve. Nuno não está a conseguir tirar o melhor dos melhores que coloca a jogar (e não tenho grandes dúvidas que são, uma ou outra excepção aparte, os melhores que tem – ver comentário dois Baronis abaixo) e está a desgastar os jogadores de uma forma que não lhe tem trazido frutos. Sure, estamos com algum azar em frente à baliza. Claro, o Capela gamou-nos profundamente em Setúbal. Mas não chega. Há que marcar golos e para isso temos de ser mais eficientes, mais intensos e muito mas muito mais práticos.

(-) Jota. Não está a atravessar um bom momento e essa baixa de forma não podia ter vindo em pior altura. Longe do jogo, inconsequente sem a bola e incapaz de integrar os ataques de uma forma que se faça notar que não é um jogador mediano. E não é, por isso este abaixamento ainda se faz notar mais numa equipa que tanto precisa de apoio para André Silva e raramente o tem conseguido. E garanto que não é Depoitre que o vai dar, pelo menos não de uma forma deliberada.

(-) As opções no banco. Olho para o banco e provavelmente terei a mesma ideia que Nuno: “What the fuck am I going to do with these dudes?!”. Talvez em português em vez dos meus adorados anglicanismos, mas a ideia que passa é a mesma. Não pode ser com Varela ou Evandro, Depoitre ou André² que vamos conseguir mudar muita coisa num jogo que está emperrado como os últimos jogos têm estado. Já se tinha percebido que a profundidade do plantel era curtinha logo depois do final do mercado e se aquela parvoíce de “ah e tal vamos buscar gajos à B quando for preciso” é tão inútil que nem mereceu comentário na altura e continua a não merecer comentário agora. É preciso mais e melhor. Muito mais e definitivamente muito melhor.


E lá vão mais dois pontos para o Sporting. Mais dois, provavelmente, para o Benfica. E na próxima jornada, o Braga no Dragão. Está bonito, está.

Ouve lá ó Mister – Belenenses

Companheiro Nuno,

 

Tudo me parece uma metáfora, rapaz. Enquanto me sento para começar a escrever esta missiva, chove imenso lá fora e é uma tristeza, uma calamidade ver tantos remates das nuvens a acertarem no alvo de uma forma tão natural. E quando vinha a caminho de casa tentava racionalizar o facto das mudanças entrarem tão suavemente no carro que quase nem era preciso trabalhar para que elas funcionassem de facto como uma máquina bem oleada. Ou o jantar que degustei com prazer, feliz na percepção que a carne foi escolhida com critério, colocada na brasa com experiência e levou a bom fim o seu destino, conquistando o meu palato com mestria.

Um sonhador, é o que eu sou. Um gajo que gostava muito que a sua equipa desse lições a todas as outras e que não se acanhasse perante montanhas humanas ou talentos indescritíveis. Mas ainda não estamos lá, pois não? Longe disso, meu caro, por isso cada passo que damos tem de ser um passo em frente e não para o lado. Temos de continuar a lutar como temos vindo a fazer mas precisamos de marcar golos porque as últimas partidas têm sido uma miséria em frente à baliza. Estou a contar que hoje seja diferente e seja quem for que consiga quebrar esse enguiço, que festeje como se fosse o último golo da vida dele…e marque outro logo a seguir. Acima de tudo vence o jogo porque os que aí vêm…amigo, são bem mais duros que este.

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – FC Porto 1 vs 1 Benfica

368568_galeria_fc_porto_x_benfica_liga_nos_2016_17_campeonato_jornada_10-jpg

Naquele que foi um dos jogos contra o Benfica em que melhor estivemos nos últimos anos, o resultado é uma valente trampa. E ninguém que foi ao Dragão esperaria que tal acontecesse depois de um jogo em que estivemos quase sempre por cima do adversário, soçobrando perto do minuto K (bonito este murro no estômago, não?) e acabando com as mãos na cabeça. A razão? Muito simples: pensar e continuar a pensar pequeno. Vamos a notas:

(+) A equipa em campo. Não há quase nada a apontar aos jogadores e nem quero individualizar porque estiveram todos bem. Sim, o Corona por vezes falhou na decisão e tremeram-lhe as pernas. Certo, o Otávio podia ter sido mais prático nalgumas situações. Maxi não conseguiu cortar todas as bolas nem Telles cruzar com acerto. Mas houve empenho, entrega máxima, luta até cair para o lado que não teve um final correspondente por algum azar, más decisões do banco (voltaremos a elas em baixo) e uma excelente exibição de Ederson. André, Jota, Óliver, Danilo e todos os colegas lutaram até à exaustão e não mereciam este resultado depois de um jogo em que dominaram o Benfica durante largos períodos e mostraram um futebol interessante, prático até ao último terço e sem grandes invenções, distracções nem paralizações. Ões foram eles. Grandalhões, apesar da estatura. Mereciam, como já disse, outro resultado e mostraram que a montanha-russa de exibições não pára mas fez uma pausa neste jogo. Encararam o jogo como um clássico e estiveram à altura dele.

(+) O público do Dragão. Se houve jogo em que todos estiveram do lado da equipa, foi este. Apoio de princípio a fim, vozes calibradas, músicas moderadamente afinadas mas cantadas em voz alta e forte, o estádio esteve sempre a empurrar a equipa para que conseguisse ficar com os três pontos no bolso. Aplausos estrondosos para os substituídos, gargantas elevadíssimas no golo e uma vibração constante a ser transmitida para dentro de campo. Fosse sempre assim e nunca haveria assobiadores que resistissem.

(-) Liderança fraca. Numa equipa de futebol o principal responsável pela forma como se apresenta em campo é o treinador. Se os jogadores não correm, é ele que não os motiva, seja lá por que método for. Se os homens correm muito, é ele que os incentiva. Se jogam em posse, é por ordem dele e se a forma de jogar passa pelas transições rápidas ou pelo jogo directo, também é o treinador que os ordena a tal. Há sempre um ou outro que não segue as indicações e vai sendo corrigido em jogo ou numa das suas pausas. É ele que coordena a táctica, a estratégia e a disposição em campo que vai mudando durante a partida. Tudo isto para dizer uma coisa: a culpa do empate e de termos perdido dois pontos é de Nuno. Não é do Herrera que chutou a bola em vez de a segurar (foi ele como podia ter sido outro, tal foi o desespero injectado na equipa), não é do Casillas que não conseguiu defender o remate de cabeça, não é de André Silva que falhou a baliza uma ou duas vezes e nem é de Jota que “só” marcou um. É do treinador. E é dele porque transmitiu aos jogadores que é preferível segurar um golo de vantagem em vez de ir à procura do segundo. A culpa é dele porque fez três substituições defensivas num jogo em casa contra um rival que, apesar do jogo ser de tripla, pouco fazia para tentar sequer recuperar o golo sofrido. É dele porque a presunção da solidez defensiva cai por terra num fortuito lance de bola parada ou num ressalto que trai o guarda-redes. É dele porque as opções que toma dizem aos jogadores que não confia neles para conseguir dar a marrada nas têmporas do adversário e talvez seja melhor ficarem à espera que nos rebentem os dentes com uma bigorna que eventualmente cai do céu. A culpa é dele porque empurra a equipa para trás com as entradas de Layun e Herrera em vez de a manter na frente com Brahimi ou Depoitre. A atitude de um treinador é mais importante que a dos jogadores porque não é individual mas colectiva. Porque transmite aos jogadores que está com medo do que o adversário possa fazer e por muito que o adversário não tenha criado grande perigo em noventa minutos (aquele chouriço do Eliseu e o remate do Samaris que Iker defendeu para canto foram as únicas oportunidades decentes), acaba por acreditar e não desiste. Para terminar, a culpa é dele porque deixa a sorte decidir o que o nosso talento poderia ter decidido. E isso, aos meus olhos, não tem perdão.


Entramos a cinco pontos, saimos a cinco pontos. Ainda falta muito mas perdemos uma grande oportunidade de ficarmos a dois. E não vão haver muitas melhores que esta.