Ouve lá ó Mister – Tondela

Companheiro Nuno,

 

Ora viva mais uma vez. Rica trampa o jogo de quarta-feira, não foi? Foi, pois. Apesar dos gajos não serem nenhumas espingardas fantásticas para a Champions, lá nos roubaram dois pontinhos que nos podem vir a fazer muita falta mais tarde e se não conseguimos vencer um dos dois jogos mais fáceis do grupo, quem nos garante que vamos conseguir ganhar os mais complicados? Pois é, rapaz, eu sei que são jogos difíceis e que o Copenhaga não é nenhum Tondela, mas as coisas complicam-se quando deviam ser simples e tens de arranjar maneira de resolver isso na próxima jornada, em Inglaterra. Cavaste o poço, agora sai dele. Mas hoje a conversa é diferente.

Estes filhos de mãe incerta, liderados pelo seu treinador que foi durante vários anos uma das figuras mais desprezadas que jogou em Portugal, pelo menos do nosso ponto de vista, vieram no ano passado gamar três pontos no Dragão. E ainda estou a espumar um bocadinho de revolta e com vontade de os empalar num prumo cheio de rebites, por isso deposito toda a minha confiança em ti e nos teus muchachos para conseguires sair da terra deles com o mesmo saco cheio que eles levaram em 2015/16. Acredito que vais conseguir e só te dou um conselho: luta. Oh pá, convence-os de que maneira quiseres que o meio-campo vai funcionar, os laterais vão estar atentos e práticos e que os avançados estarão eficazes e prontos a enfiar a bola na baliza. Seja o Depoitre, o André ou até o Felipe a ponta-de-lança, quero lá saber. Só me interessa é ganhar o jogo para voltarmos a estar confiantes e prontos para a próxima jornada que é de derby e que também quero ganhar com todas as forças. Vamos lá continuar a quebrar a má tradição amarela do ano passado. Abaixo e adiante!

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – FC Porto 1 vs 1 Copenhaga

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Se há uma coisa que podemos tirar da surpreendentemente amena noite de hoje no Dragão é que ainda não estamos lá. Talvez ainda consigamos chegar lá, mas ainda não estamos. Lá. E onde é “lá”? Lá é um patamar de futebol consistente onde a bola se mexe mais que os jogadores e onde as posições são ocupadas em conveniência perante as dificuldades da partida, onde as rupturas acontecem sem pensar e as movimentações são fluidas e naturais. Como vimos, ainda não estamos lá. Estamos a caminho, mas com muitas curvas e poucas rectas. Vamos a notas:

(+) Danilo. Dos poucos que jogou a um nível superior esta noite, foi um dos principais responsáveis pelo combate no meio-campo e nunca se alheou dessa responsabilidade. Apesar do golo ter surgido depois de se deslocar da sua posição para lutar pelo ar contra um dinamarquês, pareceu-me que a culpa não lhe pode ser imputada porque não houve (mais uma vez) cobertura adequada para a sua ausência e Danilo tem recebido críticas que na minha opinião são injustas exactamente por isso: falta de cobertura dos colegas. Foi rijo, foi físico e foi o único a fazê-lo. Um dos únicos que consegue, é certo, mas fez o que pôde.

(+) O lance do golo. Recuperação de bola adiantada? Check. Bola para o avançado? Check. Tabelinha de costas para o médio que aparece em zona de remate? Check. Pum cá vai disto mete a mão ó guarda-redes se conseguires? Check. Would that it were so simple…

 

(-) A estratégia de acordo com a capacidade física. Não tenho dúvidas que Nuno sabe o que tem e o que não tem. Sabe que tem um meio-campo com enorme talento e potencial para trocar a bola como uma equipa grande. Sabe que os laterais podem ajudar a fornecer largura quando o jogo se tornar demasiado concentrado no miolo. Sabe que tem um avançado ágil e inteligente que se mexe bem entre as linhas e que busca a desmarcação com instintos Inzaghianos. Sabe também que o médio de cobertura é o único elemento com capacidade para lutar contra adversários fisicamente mais fortes e que sabem usar essa força. Isto para dizer que percebo a estratégia de abdicar da pressão alta e de permitir que o adversário troque a bola até os últimos 30/35 metros em frente à nossa baliza. Nuno assume que se tiver de lutar com hobbits contra orcs, os grandalhões vão levar tudo e não pagam a conta, por isso há essa atitude mais passiva de não tentar com todas as forças recuperar a bola porque os rapazes são pequenos e não tão combativos quanto isso. O jogo do FC Porto só funciona, em condições normais, quando a equipa tem a bola na sua posse. Aí sim, podemos rodá-la entre os homens do meio-campo com o apoio do(s) avançado(s), sejam dois na frente ou o tridente de hoje, acompanhados dos laterais. É o que consigo entender da forma passiva como o FC Porto 2016/2017 olha para o jogo: se não consegues bater-lhes no jogo deles, espera que falhem e aproveita. É conservador e até um pouco humilhante para um clube habituado a outros voos, mas é a forma como Nuno conseguiu contornar o problema de não ter elementos rijos no meio-campo. Mas a equipa não pode ser tão passiva. Não pode depender do adversário para pautar o seu jogo, tem de ser mais solidária na pressão, tem de ocupar mais espaços e fazê-lo de uma forma mais consistente e planeada. Não pode recuar depois de marcar um golo e jogar continuamente na espera das jogadas de ruptura para aparecer em 1×1 contra o guarda-redes contrário. Vendo o FC Porto assumir esta postura não me dá garantias de qualidade. Só me dá a imagem de um treinador que faz o que pode com o que tem. E o que tem, pelo menos por agora, é curto.

(-) Os laterais. Um jogo para esquecer de Layún e Telles, que não só tiveram de defender a dobrar pela pouca ajuda que Otávio e Corona lhes prestaram, mas especialmente porque a abertura de jogo pelos flancos fez com que estivessem em evidênvia pela incapacidade de construir jogo em condições e de cruzar a bola acertadamente para a área durante todo o jogo. Pareceu-me que tinham instruções para não bombear a bola à louco e assim cair na armadilha dos bisontes escandinavos mas a forma indecisa como Layún chegava perto da área e tentava o 1v1 quase sempre com maus resultados ou como Telles cruzava larguíssimo para o segundo poste ou directamente para as pernas dos defesas a cobrir o primeiro foram enervantes.

(-) A (natural) falta de rotinas. Há uma jogada na primeira parte que mostra bem do que falo. A bola está do lado direito, em Herrera (mais um belo jogo para emoldurar e enviar abaixo da sanita) ou Layún e aparece Corona e André Silva a fazerem diagonais…ao mesmo tempo, para o mesmo lado. Se André não tem culpa por ter o mexicano a fazer o mesmo nas suas costas, também Corona não pode ser culpado porque estava a deslocar-se para o “seu” sítio. Mas ainda falta muita comunicação entre sectores e ainda se nota mais quando essa comunicação não parece existir no mesmo sector. Tempo, precisa-se de tempo para os homens se entrosarem e é coisa que não há para gastar à toa.


Uma parte de mim acha que o empate se deveu ao facto de não ter tido tempo de tomar café no Bom Dia porque o trânsito estava impossível e cheguei mesmo em cima da hora ao estádio. Não é uma grande parte mas existe. Sim, sou tolinho, é o que temos.

Ouve lá ó Mister – Copenhaga

Companheiro Nuno,

Descobri uma coisa recentemente e quando digo recentemente é coisa de vinte segundos: sou disléxico a escrever o nome da cidade de onde vêm estes moços que hoje jogam contra nós. Tenho de pensar bem e olhar para o que estou a escrever para não sair, e não estou a brincar: Compenhaga. O dedo desloca-se ali para o “m” como se fosse uma gaja boa no cinema e estivesses a tentar açambarcar o encosto do braço ao mesmo tempo que ela. Mais dedo menos braço, a verdade é que não consigo escrever o nome em condições. Vou atribuir a este comportamento o facto de não ser um hábito escrever o nome da cidade (nem do clube) porque, convenhamos, nem um nem outro estarão habitualmente nas bocas do mundo.

Mas essa é uma atitude arrogante que temos de saber contrariar, por muito que possa parecer natural tendo em conta a diferença de histórico. Porque já houve vários Artmedias no nosso passado e foram suficientes para percebermos que nada é ganho à partida e que tens de fazer pela vida para conseguires desfazer estes e os outros que por aí virão. Sejam dinamarqueses, bretões, gauleses, hunos ou powatan. Entrar em campo com mentalidade de vitória, cabeça focada no desafio e noção que pelo menos no arranque são todos iguais. Ódespois os resultados terão de ditar as diferenças.

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – FC Porto 3 vs 0 Guimarães

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A vitória é incontestável e surgiu de forma relativamente tranquila e sem grandes preocupações. Mas…a verdade é que os golos foram obtidos num lance de bola parada, num remate com ressalto fortuito e num auto-golo, tudo depois de um golo anulado porque um mocho pousou numa lâmpada em Middle Earth e rezou sete Avé Verums o que fez com que Jorge Sousa visse algo que mais ninguém viu. Magia, só pode. Ainda assim houve futebol interessante a espaços e a noção que há ali muito talento para ser trabalhado, múltiplas opções tácticas e aparentemente pouca necessidade de extremos puros em grande parte dos jogos. Em suma: há material de qualidade, falta criar uma equipa. Notas aqui em baixo:

(+) Óliver. É uma diferença enorme ver Óliver a controlar a bola e a rodá-la para os colegas e ver Herrera a esforçar-se para conseguir progressão no terreno. Ocupando sensivelmente as mesmas zonas, o espanhol consegue transmitir uma confiança muito alta a um meio-campo que precisa da bola para poder impôr o seu jogo (mais sobre isto em baixo) e quando estiver em forma pode ser vital para o que a equipa consiga ou não fazer em campo. Raios, nem está em forma e já foi o que se viu! Bom primeiro jogo a titular.

(+) Danilo. Quando a equipa entrou em campo, organizada num 4-4-2 diferente, sem extremos mas com médios construtores e que se pretende que troquem a bola entre eles com facilidade, é natural que a equipa se incline para a frente e permita alguns espaços na rectaguarda. É aí que aparece Danilo, impondo a força física que os outros não têm e marcando a diferença por isso. Continua a precisar de uma melhor leitura dos espaços que tem de tapar mas é uma peça importante na equipa e sem substituto à altura para as mesmas características. Ou seja, se Danilo sair da equipa, o esquema pode ter de mudar para sobreviver.

(+) Marcano. Bom jogo do central, com um golo e várias boas intercepções, subindo sempre que necessário e ajudando a equipa nas bolas paradas. Parece confiante e apesar de já lhe conhecermos o histórico (a primeira falha raramente morre sozinha) está na equipa para ficar, o que é um bom sinal para o futuro próximo. Tens de esperar um bocadinho, Boly.

(+) Aquele contra-ataque do André Silva. Que prazer me deu ver aquilo. André Silva, a meio da segunda parte, recebe a bola depois de um ataque do Guimarães (canto? já não me lembro) e parte para o contra-ataque pelo lado esquerdo. Pela sua direita aproxima-se um autocarro de vestes negras em toda a velocidade em rota de colisão. KABOOM, vai o autocarro contra André, que sofre o impacto e logo se levanta para prosseguir a investida em rotação cada vez mais elevada, acabando por passar a bola para um colega que sofre falta para amarelo. É esta a garra que quero ver em todos os jogadores! Que se lixem as entradas a medo, André²! Para trás, Corona, quando não meteres o pé! Afasta-te Herrera quando perdes uma bola dividida! Olhem para o puto e lutem como ele. Nunca serão assobiados se o fizerem.

(-) Pressão alta ineficiente. Lembram-se dos tempos do Fonseca, em que o guarda-redes e os defesas ficavam sem saber muito bem o que fazer quando eram pressionados? Pois o Guimarães optou pela mesma estratégia, a troca de bola entre keeper, centrais e laterais como forma de construir pausadamente e apenas soltando-se da pressão dariam início ao ataque. Acontece que tínhamos lá dois homens a fazer pressão, Depoitre e André Silva, com André², Otávio e Óliver a espaços a subirem pouco mais para lá do meio-campo. Não chegou e nunca chegaria porque eram poucos para muitos. A pressão cansou-nos e não trouxe absolutamente nada de produtivo para o nosso jogo. Nuno, se é para fazer pressão então por favor, mete-os todos na frente! Ou em alternativa podes permitir que a outra equipa leve o jogo até à linha central e depois não passa nada. Ficar a meio é que não.

(-) Demora a entrar no jogo. A táctica era diferente, mais uma vez. Táctica não, talvez a disposição das peças em campo, porque não havia extremos mas os laterais estavam bem subidos, os dois médios mais recuados tinham funções diferentes e os outros dois na sua frente (Otávio e André², cognonizado como “capitão capitão” por um amigo na cadeira ao lado) iam vagueando pelo campo à procura de espaços que raramente apareciam. A tendência de bolas longas da parte dos centrais, aproveitando a presença de Depoitre, pareceu exagerada e pouco produtiva e a forma como se previria que o Guimarães reagisse às incursões pelo centro, fechando-se e criando espaços nas alas, nem sempre funcionou. Houve demasiada lentidão nos processos e um jogo demasiado previsível e com passes errados a rodos, com o resultado prático a ser a criação de lances perigosos apenas por bolas paradas e aéreas. Na segunda parte, depois do segundo golo, o futebol teria de ser diferente e acabou por ser, com um jogo bem mais rasteiro, inteligente e com boas trocas de bola. Mas não podemos perder tanto tempo até chegar a uma posição de conforto, dando ideia que navegamos uma maré que não somos nós a criar. Eu quero criar a maré, pronto.


A melhor resposta possível depois da derrota de Alvalade e numa altura em que já se sabiam os resultados dos “grandes”. O caminho faz-se caminhando, yadda yadda, vitórias em casa sempre e tal. Quarta-feira há mais do mesmo.