Baías e Baronis – Paços de Ferreira 0 vs 1 FC Porto

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Ao contrário do que dizia Freitas Lobo, no final da partida, não acho que tenha sido um grande jogo de futebol. Foi um jogo sofrível, com uma equipa a jogar na retranca durante 45 minutos enquanto que outra, ainda a atravessar uma fase de construção que vai durar meses até chegar a porto seguro, tentava tudo o que podia, com calma mas empenho, para furar os onze mânfios que jogavam em 30 metros. O golo foi o momento alto de uma partida que não deixa saudades mas que vencemos com mérito apesar de praticarmos um futebol que, a espaços, fez lembrar o segundo ano de Vitor Pereira. Chato, mas eficaz. Três pontos, é o que interessa. Vamos a notas:

(+) Casemiro. Posicionamento impecável na saída da bola a partir da defesa, nunca será um trinco à antiga (definindo “antiga” como: desde os anos 90) mas talvez seja exactamente o que precisamos para aquela posição de arranque de lances ofensivos. Ruben é melhor em posse mas Casemiro dá mais corpo e uma acuidade defensiva mais acertada, apesar de raramente aparecer nos últimos trinta metros com a bola controlada, preferindo rodá-la para os flancos sempre que possível. Excelente técnica, bom nos passes longos, mostra um discernimento acima da média e entende-se já bem com os centrais, essencial para garantir boa cobertura do terreno. Ah, e parece estar todo o jogo a sorrir. Kinda creepy.

(+) Evandro. Às vezes, as coisas mais simples são as mais interessantes e as mais eficientes. Evandro mostrou isso mesmo, já depois de Ruben Neves o ter feito em Lille, que não é preciso jogar cheio de fintas e corridas loucas para mostrar que um jogo de futebol é 10% inspiração e 90% transpiração. Pelo menos na sua zona do terreno e para a grande maioria dos jogadores. Foi sóbrio, prático, com sentido de conjunto e a trabalhar para que a equipa pudesse jogar sem que notasse a sua presença. Lembrou-me um pouco do que Defour poderia ser, se tivesse a cabeça no sítio durante a maioria dos jogos que por cá fez…

(+) O lance do golo. Impensável de acontecer em 2013/2014, apesar dos três intervenientes terem feito parte do plantel no ano passado. Três jogadores com técnica acima da média, três toques de pé esquerdo, três excelentes componentes de um lance que tem tanto de simples como de estupendamente bem executado. A bola é atrasada para Alex Sandro que sem a dominar coloca na direita para Quintero, o puto recebe a bola na perfeição, adianta-a meio metro e cruza para o outro lado da área onde Jackson encosta de primeira para a baliza. Faz lembrar o puto que responde à tradicional pergunta do “2+2=?” com 4, ao que a professora responde: “Muito bem”, para receber a resposta do miúdo: “Muito bem, nada. Perfeito!”.

(+) A multiplicidade de escolhas. Sai Tello, entra Quintero. Sai Evandro, entra Óliver. Sai Ruben, entra Herrera. Quaresma e Danilo nem foram convocados e Brahimi ficou no banco. A quantidade de opções à disposição de Lopetegui assusta em termos de qualidade (uns mais que outros, é verdade, mas nenhum destes nomes pode ser considerado fraquinho) e se a rotação pode ter arrancado um pouco cedo, a verdade é que podemos estar relativamente descansados em termos de quem pode ou não jogar. É que ao forçar este tipo de escolhas, Lopetegui está ostensivamente a mostrar aos jogadores que todos vão poder jogar numa ou noutra altura e que todos têm de estar preparados para ficar no banco ou na bancada de vez em quando. Ou, pelo menos, foi assim que li as decisões do treinador.

(-) A condição física, principalmente dos “velhos”. Vi um Alex Sandro que parecia cansado ao fim de quarenta minutos, um Herrera que pareceu entrar sem força e com os tradicionais blackouts que marcaram a época passada, um Quintero a abanar demasiado a cabeça a meio da segunda-parte e um Adrián sem poder de explosão nem capacidade de arranque. A pré-época foi dura, com muitos dias a terem três treinos e as cargas físicas foram, ao que parece, bem pesadinhas. Compreendo que se comece a rodar o plantel mas quero acreditar que as pernas dos rapazes vão aguentar até chegarmos à fase de grupos da Champions, porque aí ninguém vai pensar na pré-época e nos três treinos por dia. Aí, é a doer, e se a rotação pode servir para ajudar, não explicará se os rapazes não correrem por falta de pernas…

(-) Mais uma vez, pouco jogo na área e poucos remates. Sim, o Paços enfiou dois comboios cheios de gado nos últimos vinte metros. Certo, o nosso meio-campo ainda não está oleado. Ok, os extremos eram ambos novos, um deles esteve off e o outro estourou-se ao fim de meia-dúzia de minutos. Mas a bola chegou poucas vezes a Jackson em condições de remate, Quintero preferia quase sempre fintar mais um, Ruben agarrou-se em demasia à bola e Casemiro parece ter medo da baliza. Há que trabalhar mais e melhor para colocar a bola na área com maior eficiência, ou pelo menos para assustar mais o guarda-redes contrário.

(-) Adrián. Muito pouco para um nome tão grande. Passou muito ao lado do jogo e nas poucas oportunidades que teve, não mostrou capacidade no 1×1, não se entendeu muito bem com Alex Sandro e raramente foi perigoso para a baliza adversária. É certo que ainda é cedo e que vai haver muitas oportunidades para jogar e brilhar, mas para um homem com tanto talento fazer recordar tempos de Mariano González…não terá sido o melhor arranque, fico-me por aqui.


Dois jogos do campeonato, duas vitórias, zero golos sofridos. Em Agosto, não peço mais.

Ouve lá ó Mister – Paços de Ferreira

Señor Lopetegui,

Vai aí um rebaubau-pardais-ao-ninho que mais parece que anda tudo numa alcovitice doida. Bocas sobre avançados, porque o Jimenez afinal não vale os dez milhões e o Clasie se calhar já não vem ou até já o vi a comprar uma casa em Valadares mas o Aboubakar chumbou nos testes porque lhe fizeram o carbono-14 e afinal tem a idade de uma sequóia adulta, mais o Quaresma que chamou anão estúpido ao Rui Barros ou afinal não foi nada disso mas parece que até foi e nem sei se houve cena ui parece que andaram todos ao molho como é que sabes isso sei lá não vi o que se passou mas disseram-me e olha que é um gajo que até sabe das coisas…e por aí fora.

Don’t care. O que me interessa é a bola e devo-te dizer que gostei do jogo com o Lille. Gostei da organização e da mentalidade, apesar do futebol ter sido fraquinho e com poucas oportunidades, mas ainda assim o que interessa nestes jogos é mesmo um gajo chegar-se à frente e entrar em campo com a cabeça no sítio e focada no resultado. E hoje tem de ser a mesma coisa, porque começar a perder pontos tão cedo no campeonato é uma atitude de sportinguização que não me assenta mesmo nada bem. E independentemente da convocatória e das tuas escolhas, acredito que estamos todos convencidos que o resultado vai cair para o nosso lado. Mas deixa-me que te diga (comecei a tratar-te por tu, espero que não leves a mal) que a ausência do Quaresma, seja lá por que motivo possa ter sido, não me incomoda muito. A do Danilo, sim, essa acho estranha. Já está cansado, o rapaz? É que usar o Ricardo a defesa direito devia ser uma solução alternativa de última hora, daquelas que se fazem a meio da época quando o titular está de rastos e o suplente lesionado ou castigado ou parecido…fazer isso no segundo jogo do campeonato parece-me exagerado, mas tu é que sabes.

Acima de tudo, como disse, é preciso entrar com a cabeça no sítio. E depois meter a bola no Jackson. O Jackson resolve. Acredita.

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – Lille 0 vs 1 FC Porto

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Ao intervalo, vantagem de cá. E uma vantagem completamente merecida, depois de um jogo em que apesar do onze inicial poder indicar que fomos a França jogar para o empate, a verdade é que estivemos sempre com o jogo controlado e raramente houve problemas para a nossa defesa de uma forma consistente. E foi com a bola em nossa posse que estivemos em campo quase todo o jogo, com uma estratégia diferente do habitual (as alas mais recuadas com os laterais em apoio e dois médios de pensamento mais defensivo e estruturante) mas adequada à competição e à importância da mesma no desenrolar da época. Em suma: foi um jogo chatinho mas os três pontos assentam bem. Vamos a notas:

(+) Ruben Neves. Não quero começar a entrar para a carneirada que elogia o rapaz a cada toque que dá na bola. Mas a inteligência é inegável e se o primeiro teste a sério (a estreia absoluta) foi muito positivo, o segundo teste a sério (estreia na Champions) foi ainda mais positivo, com o jovem portista a fazer um jogo quase perfeito, com bom posicionamento a meio-campo e uma excelente capacidade de rotação de bola no momento certo para o sítio certo. Técnica acima da média, consciência adequada ao ritmo que o jogo vai apresentando e a noção de risco fazem dele um Gerrard em potência. Se continuar a jogar assim nem sequer chega a calçar na equipa B.

(+) Alex Sandro. Um jogo a fazer lembrar o “velho” Alex de 2011/2012. Rápido pela linha, sempre muito atento às subidas dos franceses pelo flanco e quase sempre bem a dobrar no centro (perdeu no posicionamento num cabeceamento de Corchia e não me lembro de mais nenhuma falha), foi sempre superior aos adversários, jogando bem com o corpo e apoiando bem o ataque sempre que era preciso. Mas foi precisamente na defesa que o rapaz mais brilhou, a transmitir segurança aos colegas com uma atitude prática, simples, de jogador feito. Finalmente. Danilo esteve bem do outro lado mas o colega de selecção (parabéns, malta!) foi superior.

(+) Um conjunto que promete. Não há nem pode haver qualquer dúvida acerca do talento que Lopetegui tem à sua disposição. Mas é também na articulação das peças, especialmente do meio-campo para a frente, que as grandes mais-valias do FC Porto 2014/2015 podem aparecer em grande e trazer a estrutura forte que desejamos, especialmente em jogos grandes. O adversário é mais físico? Bota Ruben ao lado de Casemiro, espeta Óliver/Quintero/Brahimi nas alas. O adversário só joga em contra-ataque pelas alas? Crava Brahimi ao meio, Quaresma e Tello na linha. Há uma variedade enorme de opções e alguma facilidade em rodar os “mecos” para agilizar a estratégia da equipa e traduzir o futebol da forma mais produtiva. Só precisamos que haja uma boa gestão individual, de egos e vontades…

(-) O exagerado recurso ao jogo directo. Continua a obsessão de Maicon com as bolas longas. Desde Zé Carlos que não temos um central que consiga colocar bolas longas com precisão mas a demanda continua e Maicon (com Indi a somar-se e Casemiro também a não querer ficar atrás) insiste em posicionar-se de lado para lançar bolas para Jackson…ou neste caso também para Óliver e Brahimi, que quais hobbits ficavam a ver a banda passar, incapazes de reter a posse de bola. Com tanto talento no meio-campo não é necessário recorrer a estes lances.

(-) Lille. Mas que belo bando de brutinhos que me saíram estes fulanos. Se é isto que o terceiro classificado do campeonato francês tem para oferecer à Champions League, começo a considerar uma questão de honra eliminá-los. Pancada a rodos no meio-campo, facilidade tremenda em usar os braços para empurrar (ou para puxar, como no penalty que ficou por marcar a nosso favor) e um tremendo cagaço em sair do meio-campo defensivo a não ser em três ou quatro oportunidades de contra-ataque quando o FC Porto facilitou um bocadinho na cobertura defensiva. Mantenho o que sempre disse: todas as equipas francesas têm de ser consideradas elimináveis, excepto o PSG.

(-) Quaresma. Quando vi a equipa que ia jogar pensei que o Lopetegui estava maluco. Tirar Quaresma é uma decisão interessante, de um gajo que os tem no sítio, metaforica e fisicamente, porque o Ricardo é menino para lhe dar um pontapé nos ditos se entrar em modo amuadinho. Entrou aos 88 minutos. Andou a passear em campo, não passou a bola a ninguém, fez uma falta e mais nada. Não o vi sequer a agradecer aos adeptos (pode ser culpa da reportagem televisiva) e ficou-me a ideia que estava a fazer um favor a todos. Depois do jogo simpático contra o Marítimo, Quaresma mantém-se bipolar. O último a ter mão nele foi Adriaanse, espero que Lopetegui consiga colocá-lo a jogar para o grupo e não para o seu próprio umbigo. É que este ano há muito mais opções válidas e não me choca mesmo nada se Quaresma for colocado de lado se não souber aprender a ser um jogador de conjunto. Não me choca. Mesmo. Nada.


Está tudo bem alinhado para um jogo tranquilo no Dragão, mas nunca fiando. A defesa ainda não está com a estabilidade necessária e um erro pode deitar tudo a perder…e em jogos de Champions, mesmo contra equipas fracas como o Lille, um erro pode ser fatal.

Ouve lá ó Mister – Lille

Señor Lopetegui,

Isto é que está a ser uma semana de estreias, heim? Foi o primeiro jogo competitivo, o primeiro para o campeonato, o primeiro no Dragão…e agora segue-se o primeiro na Champions! Se houvesse uma praxe por cada um desses eventos, o meu caro amigo já estava mais carimbado que um passaporte de espião! Mas esta é diferente, oh se é. É uma daquelas sensações que se passa pela primeira vez e nunca mais o deixa, por muito que seja “apenas” uma pré-eliminatória, lá no fundo já vai ter a noção que está numa das provas mais importantes do Mundo, a jogar com os grandes, ombro-a-ombro com os Chelseas, os Bayernes e os Barcelonas desta vida. E está a 180 minutos de deixar de os ver ao longe, amarrados por um nagalho que quase não se distingue no meio da névoa de uma noite de quarta-feira com bola, onde só precisa de puxar com força suficiente para que entrem todos pela mesma porta, para as mesmas salas, com as mesmas armas.

O jogo não vai ser fácil, tire daí a cabeça. Afinal, o Lille ficou em terceiro no campeonato e tendo em conta que os primeiro foram PSG e Mónaco, não foi feito pequeno. Os gajos são lutadores, esforçam-se imenso e não dão uma bola por perdida, por isso é preciso ter cuidado nesse seu novo meio-campo, que não parece feito para combates rijos, de modo a tapar os buracos certos na altura certa. Não sei se a aposta em Ruben Neves vai continuar mas espero que o puto esteja pronto para isto. É outro nível, como sabe, por isso não convém deixar nada ao acaso especialmente neste arranque, onde não há espaço para falhas. Os extremos que ajudem a defender, os laterais que se acalmem nas linhas e os centrais que não hesitem quando receberem a bola. E tu, Fabiano, é bola para o quintal se for preciso!

Não querendo fazer do Lille um Real Madrid, o que me bate cá dentro é que vai ser complicado. Cabe-vos a vocês deixar a minha cabecinha descansada e tranquila, para poder passar um Outono agradável enquanto que vocês se preparam para várias semanas com jogos de três em três dias. Ah, que bom que é estar na Europa…

Sou quem sabes,
Jorge