Ouve lá ó Mister – Athletic Bilbao

Señor Lopetegui,

Que trezentos tigres brancos me penetrem se eu não saí do Dragão com uma broa enorme no passado sábado, caríssimo! Não foi um jogo bonito, não foi uma tarde bonita, não foi um fim-de-semana bonito, e tudo por culpa tua e dos teus. Ninguém gosta de perder, mas acho que não entendeste o que significa perder contra o Sporting, especialmente no Dragão. Pior, pior, só contra o Benfica. Acredita que não vais querer enfrentar essa patada nas têmporas, Julen.

Todos os que estiveram a ver o jogo no sábado estão à espera de uma revanche de proporções bíblicas para o próximo jogo em que nos encontremos. É assim que sabemos viver a vida de um portista, meu caro, e se ainda não percebeste isso, não estás no clube certo. Mas eu acredito que estás e acredito que vais conseguir colocar o teu nome num galarim de honra que faça com que sejas o primeiro espanhol em condições desde que o Fernández agradeceu aos deuses, ao Nuno e ao Pedro Emanuel o facto de lhe terem ofertado a Taça Intercontinental. E acredito que o vais fazer porque o futebol que queres pôr em prática agrada-me imenso, as trocas entre os jogadores, as incisões cirúrgicas na área, a troca de bola entre gajos cheios de talento…salivo-me todo ao pensar nisso. Mas ainda não estás lá…raios, estás muito longe de estar sequer perto de lá chegar! E entretanto há jogos destes contra equipas destas, tramadas, lutadoras, com a sua quota-parte de talento que nos quer alfinetar as nádegas e clisterizar o esfíncter.

Sei que estes moços são da tua terra. Ou perto, não sei em que cidade nasceste, deixo isso para um dia quando visitar o Museu e lá estiveres todo fofinho com uma placa ao teu lado. Mas para lá chegares, tens de ganhar a todos, incluindo aos teus conterrâneos. Começa a reconquistar o povo hoje, Julen. Uma vitória. É o que te peço.

Sou quem sabes,
Jorge

Terça-feira demora muito?

Detesto perder. Fico insuportável, com umas trombas do tamanho do maior elefante que possam imaginar. As pessoas falam na minha direcção e hesito em responder logo ou respirar fundo antes que me saia uma torrente de diatribes contra um ou outro jogador, o relvado, o treinador, o Mundo. Não consigo pensar, o raciocínio mais simples e frugal transforma-se numa impossibilidade técnica porque todas as sinapses disparam com a memória de uma tarde ou noite que deixam marcas profundas que se apagam só ao fim de várias semanas de carpideirismo de alto nível e meia-dúzia de vitórias convincentes. Custa-me perder, não estou habituado e apesar da idade me trazer uma experiência que não tinha quando comecei a ver o FC Porto a jogar, numa altura em que uma derrota já não era natural mas continuava a ser uma facada no lombo, a verdade é que sinto esses momentos como se a minha filha me dissesse: “não gosto de ti, és um gordo nojento e não te posso ver à frente! vou fugir com o Adérito!”. E eu nem conheço o Adérito, até deve ser um gajo porreiro, mas neste momento é um monte de estrume. Desculpa, rapaz, mas não vou à bola contigo.

Ontem, num dia bonito depois de tantos dias tristes e chuvosos, andei com as beiças de um puto que não pôde ir à piscina num quente dia de Verão. E só fico à espera que o final da tarde de amanhã chegue rápido para limpar toda esta sujidade que me invade os poros e me desfaz a moral.

Nunca mais é terça-feira.

Baías e Baronis – FC Porto 1 vs 3 Sporting

20141018 - FC PORTO - SPORTING CP

Não vou mentir, esta doeu. Perder um jogo dói sempre, rompe o coração e rasga a moral do pouco cabelo que tenho às unhas dos pés, que calçam um 42 bem medido para se transformarem num qualquer sapatinho de criança, à medida que me encolho e me resigno que não fomos melhores. Fomos acanhados, tristes, desorganizados e desorientados. Perdemos antes de começarmos a tentar ganhar, por algum experimentalismo do treinador que continua a achar que os rapazes em breve vão conseguir o que ainda não mostraram em três meses. Continuo a acreditar nestes putos, mas hoje levámos uma boa lição de como jogar um jogo grande: prático, feio, eficaz. Não fomos nenhuma das três. Vamos a notas:

(+) Danilo. Foi das poucas notas positivas da equipa, pela forma como nunca desistiu e tentou sempre cascar em cima dos rapazes de verde e branco (e verde, este ano) na defesa e no ataque. Arrisco muito ao dizer que está a ser dos jogadores mais consistentes do FC Porto 2014/2015, porque disse o mesmo de Maicon, com o resultado que hoje se vê. Penitencio-me, à vossa frente. Ainda assim estou a gostar muito da evolução mental deste brasileiro e nota-se em campo.

(+) A assistência de Quintero para o golo… é um dos motivos porque aquele cabrãozinho tem de aprender a ganhar corpo e ser mais inteligente em construção. Se assim fosse seria titular indiscutível. Fuck me, eu nem na bancada consegui discernir a linha de passe!

(-) Imaturidade competitiva e o depósito de confiança que se esvazia. This is the big one. É esta a principal razão pela qual não conseguimos manter uma exibição em condições de início a fim de uma partida. O facto da equipa ser nova, do treinador ser novo, da estratégia ser nova, de tudo parecer arrancar de um zero negativo em vez de um zero optimista, todos esses factores são importantes. Mas é a pornográfica imaturidade dos rapazes que estão actualmente com as nossas camisolas que mais fundo me escavaca o coração e que me deixa apreensivo sem fim à vista. E se eu consigo perdoar alguns truques parvos do Óliver ou atrapalhações do Tello, não consigo perdoar o facto de depositarmos confiança em três jogadores que acabam por nos minar a vida, de uma forma ou de outra: Jackson, Herrera e Maicon. Para lá dos laterais, são os três jogadores mais experientes da equipa titular do FC Porto (um conceito cada vez mais nebuloso) e se Jackson continua a marcar em jogo corrido, já nos tramou em Guimarães e este penalty falhado mostra mais uma vez que não pode ser ele o marcador de serviço. Herrera já há algumas semanas que perdeu a confiança do público e só mantém a do treinador porque aposto que é o homem obediente que todos os gestores gostam de ter nas suas equipas. Faz o que lhe pedem, mas nunca o faz bem. É para Lopetegui o que Jorginho era para Adriaanse, ou Mariano para Jesualdo. Quanto a Maicon, que desde o jogo contra o Boavista que não acerta uma bola em condições, seria ele o responsável por manter a defesa estanque, por dar fé e calma à zona recuada e por ajudar a compôr a mente e alma de uma equipa de putos. E está a mostrar, mais uma vez, mais uma puta duma inqualificável vez, que treme demais perante oposição pressionante. Cede como uma folha única de papel higiénico molhada e arrasta a equipa consigo. A culpa do segundo golo é sua, a culpa de duzentas bolas que tenta enviar directamente para Jackson em vez de gritar para o meio-campo recuar para construir com tino, com paz de espírito, com inteligência. O resto? O resto é uma amálgama infeliz de miúdos que têm nome mas pouco jogo, que têm talento a rodos mas a quem falta fibra, inteligência competitiva e que se dobram como uma mão de poker em frente a um jogador medroso. Os passes, que podiam ser orientados pelo talento daqueles rapazes que poucos têm em Portugal e pelo mundo fora, saem tortos e pouco tensos. As combinações de ataque, dispersas e individualistas. A tomada de decisão, lenta e previsível. Os remates, fracos e inconsequentes. A pressão…a pressão não existe. Há uma letargia que os possui, uma incapacidade crónica de antecipar o movimento do adversário e de se moverem como uma equipa (ver nota de baixo), e está a contagiar elemento após elemento até que tudo colapsa num conjunto de sal e sangue e fezes. Tanto talento. Tanta desorganização. Tão pouca fé. Tão pouco futebol. Tão pouco.

(-) É a rotação, amigos. Mantenho o que já disse várias vezes: a rotação é gira e tal mas não ajuda a equipa numa fase tão incipiente da sua criação como um grupo coeso e que se quer estruturado e com automatismos. Pode parecer conversa de curso de formação de treinadores, mas na verdade não é. Vi Herrera e Ruben a calcar o mesmo naco de relva enquanto se movimentavam, todos direitinhos, cada um para o…mesmo lado. Apreciei quando Tello pensou várias vezes que Danilo ia para o centro quando o rapaz flectia para a linha. Casemiro nunca sabia a quem passar a bola porque ninguém se movimentava da forma que o brasileiro imaginava que iria fazer. Imaginem que estão em campo a jogar e não fazem ideia quem é que vai aparecer ao vosso lado, se devem ir para a direita ou para a esquerda, onde vai estar o extremo, QUEM É O EXTREMO QUE LÁ VAI ESTAR…há tanta mini-variável que se pode questionar na formação da equipa, do onze e da estratégia em campo, mas o facto de nunca lá estarem os mesmos gajos não pode ajudar. Não pode. Pode fazer com que todos tenham mais pernas em fases mais adiantadas da época, mas para os jogos do “agora”, do “já”, é uma bela duma trampa.


Uma já foi. Esqueçamos esta. Outra, bem mais importante, joga-se já na terça-feira, no mesmo estádio, com outros intérpretes. Esperemos que o desfecho seja diferente.

Ouve lá ó Mister – Sporting

Señor Lopetegui,

Há muitos anos que vejo Portos-Sportingues. Desde o início comecei a manter uma lista de todos os jogos que tinha visto ao vivo e apesar de a ter deixado de actualizar porque sou um gajo que raramente leva um projecto até ao fim, o Sporting estava lá no topo, com os infiéis à cabeça. Sou do tempo do Valckx, do Marco Aurélio, do Sá Pinto, do Ouattara, do Iordanov, do Balakov, do César Prates, do Mpenza, do Acosta, do Oceano, do Vidigal, do Juskowiak, do Van Wolfswinkel, do Paulo Bento, do Liedson. Sou desses tempos todos, unidos por um fio condutor que nos arrasta pelo passar do grande cronómetro como os miseráveis putos que envelheceram à custa destes jogos. Taças, campeonatos, uns atrás dos outros, puxaram-nos para as Antas e agora para o Dragão à procura de noventa fugazes minutos que nos pudessem alegrar no final, depois do proverbial sofrimento que os vinte e tal rapazes nos fazem atravessar nestas partidas.

Hoje é mais uma dessas. Quando a bola começar a rolar, ninguém vai querer saber das conversas imbecis antes da partida, das claques, dos alheios ao jogo ou da polícia. Só vamos querer olhar lá para dentro, ver os rapazes de azul-e-branco e gritar os nomes deles, gritar o nome do clube, gritar vitória e gritar por todos que gritam por nós. É nestes jogos que o povo tem de estar unido e perceber que nem sempre dá para ganhar. É preciso apoio, é preciso alinhar todos os remos para o mesmo lado e forçar os cabrões como o Ben-Hur foi forçado naquele estúpida galé romana. Hoje não há assobiadelas, não há merdices de bocas para os defesas ou para o guarda-redes, não há críticas exageradas ao Herrera nem ao Quaresma.

Hoje há Porto. E vamos ganhar.

Sou quem sabes,
Jorge

O memorável FC Porto vs Sporting da Liga de 1998

Curtas notas sobre este jogo:

  • Doriva, mais um nessa década de grandes rematadores de longe. Para lá dos Koemans e dos Robertos Carlos, tivemos por cá o Barroso, o Heitor, o Isaías ou o Sánchez. Bons tempos.
  • Mais um jogo onde jogadores do Sporting que passaram pelos dois clubes marcam ao FC Porto. No post anterior, tinha sido Izmaylov e Liédson a marcar aos futuros patrões. Aqui, uma menina lourinha a marcar num estádio onde foi tão feliz. Maldição.
  • Jardel tenta algo parecido com o que Jackson consegue fazer apenas 14 anos mais tarde. Se Jackson chegasse ao número de golos que Super Mário marcou, seria um bom tributo. Note-se também Beto aos papéis a tentar marcar o nosso ponta-de-lança. Como de costume.
  • Comparando os nossos dois guarda-redes num espaço de 16 anos, Rui Correia e Fabiano fazem o “casal” mais díspar que me lembro de ver com luvas nas mãos.
  • Saber, Delfim, Beto e Vidigal. Titulares. Num jogo de futebol. Há coisas que não se explicam.
  • Doriva era o anti-Herrera. Rematava de qualquer lado e em qualquer posição, quase sempre com perigo.
  • Foi fartar vilanagem neste jogo, para os dois lados. O Sporting foi mais prejudicado mas cada decisão era coreografada com assobiadela geral da bancada. O que na altura se fazia quase em exclusivo para o árbitro faz-se agora para os defesas centrais da própria equipa.
  • Capucho. Era só isso.
  • Reparem na repetição do segundo golo do FC Porto e relembrem a enormidade da distância desde a linha de golo até ao pegão que segurava a rede. Estimo em dois, três quilómetros.
  • Heinze. O Rojo dos noventas. Um gajo com nome de marca de ketchup e talento correspondente. Um dos jogadores que mais odiei antes do Sérgio Ramos começar a jogar à bola.

Mais uma vez, não peço isto tudo no sábado. O livre do Doriva pode ser marcado pelo Brahimi em jeito e o Jardas pode dar lugar ao Jackson. Ou ao Aboubakar. Don’t matter none. É só ganhar.