E começam as imbecilidades – versão 2014/2015

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Recupero um post que publiquei em Agosto de 2010, quando André Villas Boas pegava então no leme da equipa. Na altura, depois de duas derrotas no Torneio de Paris e alguns jogos menos conseguidos no resto da pré-época, uma imensa minoria de portistas insurgiu-se contra os métodos, os jogadores, as opções tácticas, a juventude do treinador, a careca de Pinto da Costa, os óculos de Antero e a tonalidade do relvado do Dragão. Aqui o tem: leiam para se recordarem.

Hoje, ao intervalo do jogo contra o Venlo, comecei a ver o reaparecimento desses abutres. Sem sequer ver o jogo para lá de um play-by-play num ou noutro site da especialidade, vi dezenas de tweets de portistas (sim, carago, de portistas, porque de adeptos de outros clubes nem se fala e nem interessa falar) a rirem-se do treinador, das contratações e das estratégias para o futuro. Houve um ou outro que disse qualquer coisa como: “Afinal o Tello não era tão bom e é para isto que veio?”. Numa palavra: patético.

Esqueçam lá essas tretas, deixem os homens trabalhar e julguem os resultados daqui a uns meses. Até lá, acompanhem a pré-época como eu tenho vindo a fazer, com um misto de excitação e desconfiança típicas de quem vê bons nomes a chegar mas não conhece o treinador que vai lidar com eles. Sigam estas fases preliminares com vontade de apoiar o clube e de incentivar jogadores e treinadores que representam as vossas cores, deixem os cinismos e os juízos antecipados de lado e tenham calma.

A seu tempo, tanto os grunhos e os racionais farão as suas análises. Com mais ou menos verborreia.

To trinco or not to trinco

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Volto à conversa dos trincos. Com a saída de Fernando, parece ressurgir a conversa dos médios defensivos aos pares, mesmo depois da experiência do ano passado ter sido uma bela duma borrada. É verdade que os treinadores são diferentes e nada indica que a próxima forma de tentar resolver esse problema tenha o mesmo fim, mas urge perceber se os actuais médios que temos podem servir para uma estrutura que permita uma reorganização do meio-campo.

Numa palavra: não. Ou melhor: eu não acredito. Muitos anos de ver um único “6″ naquela zona deixaram-me cínico, incapaz de acreditar que uma alteração tão fundamental de paradigma possa ter efeito. Para lá dessa renitência histórica, o rotundo falhanço do ano passado, apesar de treinador e jogadores marquem uma mudança grande com o passado recente, tornam-me ainda mais descrente para o que pode ser uma alteração importante na forma de jogar da equipa. Face a isto, pergunto-me: será que podemos aguentar uma mudança menos intensa? Em vez de dois médios recuados, que tal um harmónico mais estável com um médio ligeiramente mais recuado e outros dois mais volantes? Ou um zigue-zague no meio-campo em vez de um triângulo?

Não sei. Não conheço Lopetegui a nível táctico para lá do cliché e do dogma que todos acreditamos ser a mentalidade do nosso novo treinador. Seria falacioso começar a comentar sobre o trabalho ainda por realizar e por isso deixo a minha análise para outros tempos. Uma coisa é certa: não vai ter trabalho fácil. O plantel está a renovar-se. E a mentalidade?

O Mundial acabou. Viva o Mundial!

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Acompanhei o Mundial desde os primeiros momentos em que Brasil e Croácia deram arranque ao certame. E ao longo destas semanas vi-me envolvido a um nível quase sanguíneo pelos jogos, pelas exibições do Chile e da Colômbia, pelo espírito da Argélia, pelas corridas do Robben e pelos cortes do Vlaar, pelos golos do James e pelos passes do Cuadrado, pela solidez do Schweinsteiger e pelo instinto do Müller. Sofri com a Itália, defendi o Suaréz, critiquei o Matuidi, desiludi-me com a Bélgica e incentivei a Costa Rica. Vivi o Mundial como deve ser vivido, sem prisões a idealismos bacocos e a parcialidades tacanhas. E não tendo sido um dos melhores de sempre a nível do futebol praticado, foi um dos mais vivos, mais dinâmicos e emocionantes de que tenho memória, que se estende até ao México em 1986. Entusiasmei-me ao ponto de quase esquecer que Portugal esteve presente.

Acompanhei o Mundial em directo e em diversos locais e horários. Vi jogos com amigos, com família ou sozinho. Vi-os durante a tarde, à hora de jantar e pela noite dentro, naqueles jogos às 23h que tanta boa disposição me trouxeram. Segui montanhas de jogos pelo Twitter, onde percebi o diferente pulsar das emoções por esse mundo fora e compreendi que muita gente vê o jogo de uma forma diferente da minha. Conversei com pessoas que não conhecia, troquei ideias com outras que partilham a minha visão. Adorei o lirismo de Freitas Lobo, o sentido prático de Carlos Manuel e a ironia de Pedro Henriques, numa das melhores coberturas que me lembro de ver na Sport TV. Li dezenas de comentários de analistas estrangeiros, argentinos, colombianos, ingleses, mexicanos e americanos. Universalizei-me durante um mês e ganhei uma bagagem de cultura futebolística que me vai ajudar, sem qualquer dúvida, a fazer da próxima época um pouquinho mais pobre quando comparada a este Mundial que agora termina.

Parabéns à Alemanha, que tinha sido a minha primeira opção em termos das candidatas para vencer o Mundial. Parabéns à Colômbia e à Costa Rica pelas diferentes emoções que me deram. Parabéns à Holanda e à Argélia pelo espírito de luta. Parabéns aos jogadores do FC Porto, os antigos e os novos, que fizeram com que apoiasse um poucochinho mais as suas selecções. Não queria que este Mundial acabasse…mas se assim não fosse, onde ficava o FC Porto?

PS: Ah, e parabéns a todos que verdadeiramente amam o futebol. #LFL

Fernando, ou a prova que os nossos melhores trincos só usam um nome

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Vi Fernando a chegar no Verão de 2007, com cara de puto. Não o conhecia, apenas tinha ouvido falar do rapaz algumas semanas antes aquando do torneio sul-americano de Sub-20, que servia como qualificação para o Mundial sub-20 e para os Jogos Olímpicos de 2008. No torneio (onde partilhava o balneário com Pato, Willian ou…Leandro Lima), em jogo contra o Chile, Fernando tinha sido expulso por agredir o árbitro. Um bom arranque, portanto. Chegou, fez a pré-época (como lateral direito na maioria dos jogos) e foi recambiado para o Estrela da Amadora, onde passou a época 2007/2008 em bom plano. Voltou em 2008, com Jesualdo a colocá-lo em campo em pleno Estádio da Luz, no dia da estreia. Depois de vários anos com Paulo Assunção a comandar o meio-campo, todos temíamos a sua ausência, apesar do ódio que gerou entre a malta com a forma como geriu a sua saída. Fernando limpou qualquer problema que pudéssemos ter em relação a isso.

Ao longo destes últimos seis anos, Fernando disputou quase 250 jogos pelo FC Porto. Não estarei a ser exagerado se disser que na grande maioria deles foi um dos melhores em campo. Incontáveis intercepções, duzentilhões recuperações de bola, milhentos cortes de carrinho e uma inegável presença no nosso meio-campo, tornando-se essencial mesmo com a passagem de vários treinadores com diferentes métodos e opções para a mesma posição. Fernando secava tudo à sua volta, imperando na sua zona como poucos tinham feito nos últimos anos, transmitindo segurança à defesa e consistência na transição defesa/ataque. Não é o melhor do Mundo com os pés, nunca pensou ser. É um destruidor, um varredor no meio-campo, um homem que trabalha para que os outros produzam, um jogador que se esforça para que outros não precisem de o fazer.

Vejo-o a sair com um misto de emoções. Por um lado é uma figura que se perde, um marco que sai do clube e que cumpriu até ao fim com as suas obrigações. Podia ter saído em Janeiro. Não o fez. Acabou por sair, “à Deco”, alguns meses mais tarde, com contrapartidas financeiras e de bem com os adeptos e com o clube que lhe deu fama no mundo da bola. Fica uma imagem: o Fernando do FC Porto vs Sporting em 2012, no último jogo caseiro da época, quando foi expulso e saiu a brincar com os adeptos nas bancadas debaixo de uma enorme ovação. Escrevi na altura:

O maior. Foi uma simbiose perfeita com os adeptos, que cantam o seu nome depois de um início de temporada que enervou toda a gente pelo desconhecimento da sua permanência ou não no plantel. Para quem não viu ou não reparou, depois de Fernando ser expulso (bem, apesar do primeiro amarelo ser completamente escusado pelos protestos exagerados) mandou um pontapé na bola para a bancada e procedeu a sair de campo a incentivar o público para continuar a gritar e a apoiar, gesticulando como se estivesse a dançar com uma data de miúdos num ATL. Brincou, o nosso Fernando, ao contrário do que fez em campo, onde fez mais um bom jogo, firme e seguro contra um meio-campo adversário bem mais dinâmico e mexido. Aplaudi-o de pé. Mereceu.

Que sejas feliz, caríssimo. Fizeste por honrar o teu nome e o facto de usares apenas o primeiro, na tradição de grandes trincos da história recente do clube (André, Doriva, Paredes, Costinha, para dar alguns exemplos). Fizeste-me torcer um bocadinho mais pelo City na próxima temporada.