É para ganhar, mister?

A garra nunca é sobrevalorizada. Nunca. Por muito que olhemos para os enquadramentos tácticos de uma estrutura como a nossa, com um meio-campo que ainda não se entende na perfeição, extremos que se balanceiam com hesitações e medos perante as subidas dos laterais ou com avançados que trabalham mas que vêem os esforços pender muitas vezes para o lado errado, muitas das vezes é a garra e a vontade de vencer que fazem a diferença entre um meio-resultado e uma conquista incontestável. E essa garra, essa vontade de vencer que nos pauta o dia-a-dia e faz de nós um clube temido internacionalmente tem de ser recuperada a qualquer preço. Não falo de dólares, mas de dentes cerrados e força férrea que manda abaixo qualquer adversário, bem ou mal intencionado.

Lopetegui está a começar a segunda temporada e fá-lo de novo com uma equipa em construção. Não sei quanto mais tempo vai levar a criar os automatismos necessários para que a equipa consiga criar um futebol fluido, dinâmico e produtivo. E não estou preocupado quanto à sua valia ou em relação ao talento que tem à sua disposição. Preocupa-me apenas alguma falta de audácia, essa vontade de vencer que apenas vi a espaços na Madeira. Lembro-me da época de AVB e do seu arranque tremido no campeonato depois do brilharete na Supertaça. Lembro-me dos inícios de época de Jesualdo, sempre com uma ou duas baixas mas a manter um nível exibicional aceitável. E lembro-me ainda melhor de Robson, onde os rapazes corriam que se fartavam mas não sabiam muito bem para onde. Quero estrutura. Quero táctica. Quero futebol. Mas quero, acima de tudo, vencer. E temo que essa mentalidade ainda não esteja bem vincada na cabeça dos nossos rapazes.

O campeonato ainda agora começou e temos tempo para limar arestas. Como se viu ainda ontem, perder dois pontos pode não ser muito grave quando se fizerem as contas finais. Mas se esses dois pontos se transformarem em múltiplos de dois, vamos começar a ter problemas, de dentro para fora.

Baías e Baronis – Marítimo 1 vs 1 FC Porto

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imagem retirada do MaisFutebol

 

Mais um ano, mais pontos perdidos na Madeira. Podemos atribuir o empate ao azar da cabeçada do Maxi não ter batido na trave e a bola não ter sido desviada para dentro; podemos dizer que Cissokho faz Alex Sandro parecer um Deus olímpico; podemos aventar que se Varela não tivesse tijolos em vez de pés podíamos ter criado mais perigo; podemos insinuar que o Marítimo é uma equipa de arruaceiros e que tivemos sorte de não ter tido gajos expulsos. Mas o que não podemos dizer é que fomos competentes. Não fomos. Este não era um jogo de dificuldade máxima, Julen. Era só mais um dos dezatais jogos que vais ter no campeonato: relvado merdoso, adversário merdoso e futebol merdoso. E mais uma vez não conseguimos ser menos merdosos que os outros. Seguem as notas:

(+) Maicon e Marcano. Sem culpa no lance do golo, estiveram bem durante toda a partida, impedindo que os avançados do Marítimo entrassem na área com grande perigo. Marcano em particular esteve bem no duelo contra Marega (bom jogador, este rapaz), com alguns cortes importantes e acima de tudo a aparência que os lances estavam quase sempre controlados. Indi no banco parece-me cada vez mais acertado.

(+) Maxi. Excelente nas subidas pelo flanco, especialmente no apoio a Tello, foi muitas vezes o elemento mais perigoso a aparecer perto da área do Marítimo e só não marcou por acaso. Lutador, não desistiu de qualquer lance apesar de não me parecer em grande forma fisicamente. Os lançamentos são usados ad nauseam mas um destes dias podem mesmo dar um golo, que hoje quase acontecia.

(+) O controlo emocional. Perante o equivalente do exército de Átila em versão ponta-e-mola, não sei como é que alguns rapazes se aguentaram firmes e não desataram à estalada em frente ao árbitro. Maicon e Osvaldo ainda começaram a cair na esparrela dos contactos e das mini-pseudo-agressões, mas o resto da malta esteve firme e focada na conquista dos três pontos. Não sei se conseguia manter a cabeça fria todo o jogo, porque era notório o ar de Briguelice daquela corja, por isso louvo a capacidade dos nossos moços.

(-) Cissokho. Que nervosinho que tu estavas, Aly, e podes ter a certeza que te culpo pelo golo deles. Não que Alex não tenha feito algumas do género (no Annus Horribilis Fonsecus teve uma ou duas destas ou piores) mas pareceste tão desfasado da realidade do posto que vais ocupar, tanto nível moral como táctico, que só peço que te acalmes um bocadinho e percebas que isto é a tua vida agora. Deixaste saudades quando saíste mas estiveste cá tão pouco tempo que nem deu para perceber se eras o gajo certo para o lugar. Ainda acredito que sejas, mas não podes ter jogos como o de hoje, a tremer sempre que o adversário te aparece pela frente e a colocar as mãos na cabeça quando perdes um lance. Melhora, rapaz, e fá-lo rápido.

(-) As bolas paradas ofensivas Quando um lançamento cria 300% mais perigo que um canto, algo vai mal. Constantemente apontados ao primeiro poste e constantemente alvos de corte fácil por parte do adversário, é uma insistência que não compreendo e que parece entranhada na filosofia de treino e jogo da nossa equipa com os resultados que temos visto. Não sei o que fazer, não sei por onde a bola deve ir, mas não é por ali. Garanto.

(-) Os arruaceiros do Marítimo Enquanto escrevo estas palavras, há uma pessoa a passar por baixo da minha varanda de t-shirt amarela a ouvir Bon Jovi aos berros e a cantar juntamente com a música. Posso com toda a certeza afirmar que é menos anormal que a grande maioria dos jogadores do Marítimo que hoje nos defrontaram. A enormidade de saltos para a relva, insinuações de pancadaria, queixumes constantes, voos para cima dos nossos jogadores e AQUELA PUTA DAQUELA MANIA DE PEGAR NA BOLA PARA ATRASAR O JOGO DEPOIS DE LHES SER MARCADA UMA FALTA. Enerva-me saber que este tipo de equipas acaba o jogo com mais de oito ou nove jogadores em campo e não são corridos a amarelos por conduta anti-desportiva, anti-humanizante e anti-darwiniana. São símios, só pode.


Seria utópico pensar que poderíamos passar o campeonato sem perder pontos. E talvez seja melhor perdê-los cedo (e fora) do que em casa. Mas perder estes dois pontos contra um bando de insurrectos que só dão luta com os braços é uma enorme frustração.

Ouve lá ó Mister – Marítimo

Señor Lopetegui,

Reparei, pelo que fui lendo da tua conferência de imprensa antes deste jogo, que permaneces com a vontade férrea de dizer que todos os jogos são de dificuldade máxima. E compreendo que este em particular, com toda a carga emocional que lhe está amarrada tendo em conta a performance do ano passado em jogos disputados na Madeira, até admito que entre para essa lista de “equipas que assustam todos os cães da rua mesmo os grandalhões que olham para mim como se fosse um pernil fumegante”. E não quero com isto dizer que o jogo não será complicado, longe disso, mas acho que estamos em altura de começar a normalizar os “máximos”. Se este é máximo, se calharmos contra o PSG na Champions será o “maior máximo”? E o Bayern? “Mega máximo”? E o Barça? “Supercalifragilisticespialidocious máximo”? O discurso está a colocar mais pressão nos teus rapazes, ou a minha percepção é que está a ficar afectada, também pode ser disso.

De qualquer forma, retórica aparte, vai ser tramado como sempre é. Há qualquer coisa naquele ar que por este ponto se começa a transformar numa profecia auto-realizável (tive de ir ver como é que esta merda se diz em português, achas bonito?). Se os jogadores acreditarem que se vão ver à rasca, é bem possível que se vejam à rasca. Por isso há que tirar pressão da cabeça deles e colocar na dos outros. O Danilo não era dos melhores que eles lá tinham? Pois, agora é nosso. E vai jogar o Patrick Vieira do lado deles? Diz-lhes que em branco não é a mesma coisa. E o Briguel? Vai jogar o Briguel? Mete logo o Bueno para lhe rebentar a boca. Pouco mais será necessário.

Limpa a imagem do ano passado e traz os três pontos para podermos ver o sorteio da Champions descansadinhos, sem pensar no que nos pode vir a lixar o Outono!

Sou quem sabes,
Jorge

O vazio

alex-sandro

Detesto quando tenho de substituir uma peça da mobília. Os hábitos são perenes e criam-se ao longo de alguns anos a olhar para o mesmo naco de madeira que ali permanece estóico, fiel, duradouro ao ponto de pensarmos que será nosso para sempre, mint condition como quando entrou pela primeira vez pela porta, arrastando consigo todo o fausto de uma perspectiva sem presente nem passado, só com futuro. O adorno perfeito, para ser um dia legado aos seguintes, aos que por aí ainda virão. Mas há pedacinhos que se vão lascando, raspas que se vão retirando, a marca da uma etérea garrafa de tinto que foi deixada sem preocupações constantes de limpeza ou asseio e que fazem dela um bocadinho mais especial, mais presente, mais nossa.

Lembro-me quando comprámos esta peça em particular. Tínhamos outro móvel mais antigo que serviu firme durante anos e que fez com que a sala tivesse outra luz, outro fulgor depois de anos sem rei e com poucos roques. Durante três anos vivemos o enobrecimento de uma peça que mostrou a sua valia e que…oh foda-se, acaba lá com a metáfora, Jorge, já chega.

Alex Sandro é mais um numa longuíssima lista de bravos. Claro, enervava-me até à ponta dos cabelos que não tenho, chateava-me a atitude displicente em jogos de menor cartaz, aborrecia-me nas subidas pelo flanco quando nem sempre teria o seu próprio rabo protegido, arreliava-me tanto (TANTO!) quando se mandava em dribles consecutivos pelo centro sem olhar para o que conseguiria fazer em seguida. Eras um sacana, Alex. Eras um bom sacana, Alex. Eras e continuarás a ser um estupor dum defesa de valia mundial, que como tantos outros só vamos valorizar quando já cá não estiveres. E já não estás. Como Deco ou Drulovic ou Lucho ou Hulk, a tua saída deixa um pequeno vazio que vamos tentar encher.

E o mundo continua. Para cada Falcao há um Jackson, para cada Assunção há um Fernando e até um Helton para um Baía. Há muitos e muitos. E este ano há um Maxi pós-Danilo, um Danilo pós-Casemiro ou, no caso em questão, um Cissokho pós-Alex. Vou sentir falta das incursões pelo centro, das fintas no umpraum e das corridas pelo flanco. E desse sorriso que vai ser substituído por outro mais honesto mas menos maroto. Boa sorte, puto e desculpa qualquer coisinha. Um gajo chateia-se com pouco quando não tem mais nada com que se entreter.

O percurso é sempre o mesmo

Olho para as sapatilhas enquanto o pensamento voa a velocidades parvas, com sinapses a disparar pelo cérebro fora e penso: está na hora. Não há árbitro? Onde estão as equipas? Está na hora? Já está, cheguei aqui há mais de vinte minutos e já vi o Imbula a mandar uma bola prá bancada e o Alex a cruzar para o fim do mundo e até o Varela parece com vontade. Está bonito, está. Está na hora? Está quase.

Os momentos que antecedem um jogo do FC Porto são habitualmente joviais nestes primeiros jogos da temporada. Conversa-se para aqui enquanto as nádegas se vão reconfortando à cadeira que é nossa durante umas horas de um final de tarde de sábado. Uma hora ou coisa antes, saio do café de camisola no lombo, calorzinho na nuca e sorriso no rosto e começo a navegação automática que me leva ao Dragão. Já houve tempos em que fazia o mesmo percurso a caminho das Antas, anos depois de me fazer homem e de tomar café no mesmo sítio, com a mesma companhia e os mesmos tiques e nervosismos. Andava a passo apressado pelos meandros das ruas em que o estádio se via ao longe, percorria as ladeiras dos campos de treino e atravessava o apertado corredor a caminho da bancada que ficava mesmo por cima do relvado onde os rapazes aqueciam para o jogo que se seguiria. Outrora João Pinto, Semedo ou Capucho, agora Maxi, Imbula ou Brahimi. A nacionalidade muda mas o espírito permanece, sempre com força, sempre com brio.

Vejo muita gente a caminho, iguais a mim, diferentes de mim, altos e baixos, gordos e magros, barbudos e barbeados, sorridentes e sisudos, conversadores e mudos. Vamos todos para lá. Vamos continuar a ir todos para lá.