Na estante da Porta19 – Nº20

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Um dos verdadeiros livros de mesinha de café (soa tão mal quando comparado com o original “coffee-table book“, mas é o que temos), “Football Graphics” mostra-nos um imenso festim visual do vasto leque de design, colorido e excentricidade criativa que está envolvida desde há dezenas de anos no futebol a nível mundial. Podem imaginar o que aconteceria se Don Draper fosse contratado para criar uma campanha para dinamizar o gosto pela vertente mais estética do futebol e do mundo que o rodeia e teriam aqui um bom exemplo do que podia ser produzido pelo guru do marketing e publicidade que tanto amamos odiar (ou odiamos amar, depende da forma como o virem). De bilhetes a cartazes promocionais, passando por camisolas e cromos de colecção, dos gráficos televisivos às bolas usadas em diversas competições, é um buffet enorme de brilho, cor e genialidade. Para ver, não para ler.

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Olha, ganhamos!!!

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Acho que ainda não caiu bem a ficha, mas parece que toda a gente anda a dizer que somos campeões europeus. E somos, pelo menos pelas palavras da minhas filha quando viu Ronaldo a erguer o troféu e me disse, com os olhos ensonados ainda que tingidos por um brilho especial (ou assim o vi): “a caneca é nossa?”. Sim, filha, a caneca é nossa. E foi nossa não porque tenhamos sido melhores que os outros a nível da qualidade do futebol. Mas fomos lutadores e assumimos um papel estranhíssimo que ainda não consigo perceber muito bem como conseguimos lá chegar: eficazes. Não é mentira, fomos mesmo eficazes.

Os meus parabéns a todos mas a quatro fulanos em particular: ao Éder, pelo golo que pode fazer dele o Kelvin da Selecção; ao Rui Patrício por um Europeu sem mácula; ao Pepe por ter sido o melhor jogador da selecção durante a competição; e ao Ronaldo, pelo papel que desempenhou principalmente quando esteve fora de campo. Foi um capitão de banco nesta final e já o tinha sido nos oitavos, nos quartos e nas meias. Poucos merecerão mais que ele.

Campeões da Europa. Realmente a minha geração de Portistas portugueses já viu os seus a vencerem quase tudo. Só falta o Mundial. Só.

É cair em cima deles

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França. Esses cabrões. Os mesmos que me deixaram inebriado com fúria assassina em 2000 e que me fizeram chorar rios de lágrimas numa terra distante em 2006. Esses mesmos. Agora é cair em cima deles como uma gorda em cima de um Jon Hamm bêbedo. É desfazer rins, torcer pescoços, morder gémeos e pisar tornozelos. É a altura de, talvez pela única vez na minha vida, lançar toda a vontade de vingança por cima de onze fulanos de azul. Que se lixe o Eliaquim, no Domingo tudo que jogue de azul é inimigo.

É ganhar para fazer com que os grandes filhos de sete pais incógnitos e doze cabras viçosas percebam o que é organizar um torneio e cair na final contra uma equipa inesperada. Chorai, estupores. Chorai. Ué.

Por arrasto mas com agrado

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É no mínimo curioso que Portugal chegue à final do Europeu num ano em que estou muito menos entusiasmado do que é costume com a Selecção. Não me perguntem porquê porque não sei se conseguirei explicar, mas todo este circo montado à volta da equipa parece finalmente ter chegado a um zénite de estupidez e parolada que me desliga a vontade de me preocupar muito com isso. Não deixo de sentir o jogo e vivo as partidas com alguma dose de fanatismo partidário de quem apoia o seu país, mas estou muito mais focado no clube que na nação. Censurem o que quiserem, é o que é.

No entanto, o trajecto tem sido interessante. Empates a rodos e vitórias magras com futebol de qualidade duvidosa e opções técnicas a condizer (apesar dos inúmeros problemas físicos que condicionam as escolhas, é certo) acabam por levar a equipa a uma final que merece ma non troppo. Sinto-me como um grego em 2004, no fundo, com a vantagem de não ter de olhar para o cabrão do Rehhagel no nosso banco e o Charisteas Almeida na frente de ataque. Mas olho para o grupo e vejo-o unido. Vejo uma vontade de vencer que também vi noutros anos, com a vantagem de termos aplicada uma fortíssima dose de realfootballik ao barulho, abdicando do brilho em favor da simplicidade e com resultados para mostrar. É uma equipa que começou desorganizada e que se tornou, ao longo do torneio, num adversário complicado de bater com poucos jogadores em grande forma (Patrício e Pepe, até agora os homens mais seguros do torneio) e o “just enough” a chegar para eliminar adversário atrás de adversário.

Vi o jogo contra Gales rodeado de mulheres, pizza e vinho. À minha volta, três adultas e uma infante, cada uma com os seus tiques e as suas idiossincrasias, algumas boas garrafas de branco (maduro e verde, take your pick) e queijo que o Wisconsin não produz num mês. E senti-me contagiado pelos comentários, pelas boas vibes que emitiam, tanto as crescidas como a pequena, que a dada altura assustou-se com os golos mas não hesitou quando em conversa telefónica com a avó, desatou a gritar “Po-tu-gá!”.

É uma sensação que raramente tenho cá em casa, esta união de mentes e vontades para o bem de um só clube, de uma só cor e de um só hino. Sabe bem, devo dizer.