Ouve lá ó Mister – Académica

Camarada José,

Um jogo às quatro da tarde. Senhor da Pedra me perdoe e me unte todo com manteiga de amendoim se eu me lembro de um jogo do campeonato do nosso FC Porto a essas horas. E já sei que alguém me vai dizer: “Ó parolo, então não te lembras do jogo contra o Atlético dos Coveiros, quando jogámos com 10 durante três minutos e meio enquanto o Tarik era assistido?! Começou às 15h12!!! ÉS UMA VERGONHA!!!”, mas já estou habituado a hipérboles deste género, que se lixe, continuo o meu caminho.

E esta partida é só mais uma neste degredo de época que nunca mais acaba. Ainda deve haver meia-dúzia de portistas com o proverbial pito aos saltos depois do jogo contra o Nacional, mas eu mantenho-me com níveis de infelicidade de um gajo que perdeu a lotaria por um algarismo. Estou em negação, pá, tantas vezes dou comigo a pensar que se calhar estou a sonhar e daqui a um bocadinho vai aparecer o vigilante do cemitério a dizer-me “oh amigo, ponha-se a andar que aqui não é sítio para andar a mijar em cima das begónias”. e a única coisa que me pode fazer despertar deste pesadelo é pensar que vamos ganhar à Académica. E depois ao Sporting. E o Rio Ave. E aquele clube medonho dos tigres paneleiros. E ao Braga no Jamor. E aí, depois desses jogos todos ganhos, talvez não sue tanto de noite até Agosto. E daí, para te ser sincero, se calhar vou suar na mesma.

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – FC Porto 4 vs 0 Nacional da Madeira

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Era bom jogar sempre assim, não era? Sem pressão, sem grandes preocupações defensivas, a trocar a bola com alguma liberdade, a rematar em força e com intuito de marcar e a rodar a bola entre a equipa para criar lances de ataque com consistência e alguma imaginação. Ao mesmo tempo, conseguir ouvir palmas da bancada enquanto se marca cedo para gerir com tranquilidade. Um jogo normal, como tantos outros não conseguiram ser. Já tinha saudades disto, só tenho receio que não esteja para durar. Notas aqui em baixo:

(+) Varela. Ah, Silvestre, se todos os teus jogos fossem ao nível destes primeiros 10/15 minutos que fizeste hoje no Dragão e estavas num ponto tal que ninguém sequer pensaria que não ias ao Europeu. Forte no 1×1, decidido no remate e prático no arranque e na forma como driblava com critério e com uma consciência de espaço e apoio na lateral como não o via a fazer há algum tempo, foi o principal motor da equipa na frente de ataque, jogando inclusive no meio-campo durante longos momentos do jogo, na altura em que a estratégia parecia ser fruto de um jogador de Football Manager que se tinha aborrecido com a sua táctica habitual e estava a testar combinações novas. Ah, ainda teve tempo para mais uma edição do “WTF VARELA!?” quando quase isolava o avançado do Nacional num passe atrasado sem o mínimo de nexo. Ainda assim, que tenhamos este Varela até ao final do ano, é o que peço.

(+) Herrera. Aparecia quase ao lado do avançado quando defendíamos, naquela espécie de 4-4-2 em que o mexicano pressionava de um lado enquanto que André Silva (também um bom jogo, muito trabalhador e quase 100% positivo, não fosse o guarda-redes do Nacional estar em dia bom), mas foi especialmente no centro do terreno onde passou grande parte do tempo, em permanente movimentação e busca do melhor passe para os (hoje) rápidos avançados do FC Porto. Continuo a insistir que quando Varela e Herrera são os melhores jogadores da equipa, algo não está bem, mas a verdade é que Herrera continua a exibir-se acima da média com a braçadeira posta. Só não consigo perceber o porquê de ter mudado a forma de escolher campo ou bola para o inverso do que costumava acontecer…coisas dele, só pode.

(+) Sérgio Oliveira. Mais um bom jogo do Sérgio que parece finalmente jogar com mais calma e com a cabeça mais no sítio. Boa rotação de bola e uma nota bem acima do seu colega do lado, a mostrar que nem sempre se conseguem adaptar dois jogadores semelhantes à mesma posição e esperar que corra sempre tudo bem. Precisa de meter mais vezes o pé em lances divididos.

(-) Ruben Neves. Pouco agressivo para a posição que ocupa, foi constante a falta de capacidade física para enfrentar os homens mais fortes do Nacional. Mas pecou ainda mais no passe, com diversos envios sem grande nexo para as costas dos defesas sem que houvesse um avançado por perto. Não desgosto de o ver a jogar com um homem a seu lado enquanto defendemos, mas tem de ser mais activo e acima de tudo mais agressivo.

(-) Corona. Inconsequente na grande maioria dos lances, parece estar contagiado de uma Brahimite que lhe tolhe os movimentos e o faz tomar quase sempre a decisão errada no último passe e hesitar em demasia antes de rematar. Fiquei com a ideia clara que sofreu um penalty na primeira parte (o tipo do Nacional fez uma tesoura para cortar a bola e levantou o mexicano pela raiz) mas enervaram-me as fintas excessivas sem produtividade e a forma como permitia os adversários passarem por ele como se estivesse lá apenas como um gnomo de jardim. Tem de fazer muito mais.


Proponho que haja eleições todas as semanas, preferencialmente em dia de jogo. Já sei que correlação não implica causa, mas em 2016 todos os jogos realizados em dia de eleição foram vitórias inequívocas! Da equipa, claro. O clube…já não tenho bem a certeza.

Ouve lá ó Mister – Nacional da Madeira

Camarada José,

Hoje é dia grande, rapaz. Ou melhor, seria um dia estupendo, recheado de pequenas conquistas e onde o povo poderia escolher quem lhe tocasse mais profundo na psique e na alma. Em dia de eleições, o FC Porto raramente se agiganta em relação a outros emblemas, mas hoje pode ser um dia ligeiramente diferente dos treze que se antecederam nestes moldes. Não sei ainda o que vai acontecer, mas algo está no ar e claramente não são pólens.

Por falar em sinais de primavera, a chuva que tem caído inclemente por estas bandas (ainda ontem houve uma tromba de água apocalíptica que vislumbrei mesmo quando estava a sair de um parque subterrâneo) pode estragar um bocado o espectáculo. O jogo no relvado, não o que se vai desenrolar na Porta 16, entenda-se. Nada que se compare ao nevoeiro enviado pelo Deus da Choupana, que não perde uma oportunidade para nos tentar lixar naquele campo de onde este ano saímos com uma vitória bem gostosa, com penalties por marcar contra nós e tudo, à grande. Mas hoje era engraçado mostrarem um bocadinho mais do que têm vindo a fazer nos dois últimos jogos, não achas? Repara que estes não jogam de amarelo e por isso serão um adversário teoricamente abatível, ao contrário de Paços e Tondela, esses titãs do futebol nacional. Estes, o Nacional, também serão um titã que cospe setas de ferro e mata percevejos com o olhar? Não creio. E vocês também não. Por isso dêem lá uma prendinha aos sócios que vão votar e a todos que puxamos para o mesmo lado ainda que de forma diferente…e ganhem o jogo. Não vos custa nada, aposto.

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – Paços de Ferreira 1 vs 0 FC Porto

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A proverbial pá sempre estava lá no poço. E nós, trabalhadores incansáveis na demanda de enterrar a nossa própria alma num local mais profundo, sempre mais profundo, logo tratamos de cavar a terra amolecida com as lágrimas dos adeptos e penetrar mais um recanto de tristeza que agora podemos trazer cá para fora sem qualquer problema. E mesmo hoje, num jogo em que estivemos aí uns doze mil pontos percentuais acima do que tínhamos feito contra o Tondela, acabámos por perder sem grande mérito para o adversário, apenas demérito nosso. No ataque, no meio-campo e mais uma vez na defesa. Suspiro por tempos melhores, só não sei é quando é que vão aparecer. Notas, abaixo:

(+) Sérgio Oliveira. Tentou construir quando os adversários procuravam destruir e conseguiu-o pela intensidade e empenho que colocou em cada lance em que esteve envolvido. Caiu de produção na segunda parte e muitas vezes parece proteger a bola com os olhos em vez de usar o corpo, mas quando pega na bola sabe o que fazer com ela e tenta fazê-lo bem. O facto da titularidade ter vindo num momento em que metade do meio-campo está no estaleiro não o ofuscou e continua a trabalhar com afinco. E só não marcou por algum azar porque tentou o golo mais vezes que o resto da equipa toda junta.

(+) Danilo. Foi dos poucos que mostrou ser rijo, mais uma vez. Parece um jogador tão diferente dos demais pela forma como usa o corpo para proteger a bola, pela maneira como procura arrastar o jogo da zona de construção defensiva e atirar a bola para os mais-que-mortais jogadores pela sua frente. Pena que haja poucos como ele no FC Porto 2015/16.

(-) A defesa de manteiga, seja por que lado for. Ou é Maxi fora da posição, ou Layún a cortar para os pés dos adversários, ou Chidozie a falhar a intercepção ou até Indi a ficar expectante nos lances aéreos. Não se aproveita um lance colectivo de uma defesa que não parece feita para jogos competitivos contra qualquer tipo de equipa que consiga trocar a bola e que apareça em zona de finalizar com o mínimo de oportunidade e vontade de marcar. O que outrora já foi o nosso ponto forte é agora um dos muitos pontos fracos. Talvez o maior.

(-) Ineficácia no ataque. Se somarmos o desnorte defensivo à incapacidade ofensiva temos uma receita para este triste terceiro lugar que ocupamos actualmente, que todos compreendem e ninguém pode dizer que é injusto. Porque criámos poucas oportunidades em condições, porque o futebol é pobre e triste e pouco envolvente, porque aparecemos mais vezes com os laterais na área que os médios e os extremos e porque, para ser muito directo, desaprendemos de marcar golos. Aboubakar ficou de fora para dar lugar a um Suk que está mais vezes em fora-de-jogo que McCarthy, com bem menor nível de álcool no sangue; um Corona que sabe tanto e mostra tão pouco; um Brahimi que só consegue uma ou duas das vinte fintas que procura durante o jogo e um Varela que…bem, que é tão Varela como foi nos últimos anos. Safou-se o André, que continua a entrar em campo nas piores alturas possíveis e que nem sorte tem tido apesar de se posicionar e movimentar bem melhor que qualquer um dos outros avançados que temos. Se isto não pede uma mudança radical no esquema de jogo ou nas peças a usar…não sei o que mais possa servir.

(-) Grande-área vs Meio-campo. Aquela imagem do Suk a ser agarrado vai-me ficar na memória algumas semanas. E pode ser verdade que um árbitro na Premier League não marcaria o penalty a não ser que o coreano fosse pontapeado nas têmporas, mas se um árbitro português, a apitar em Portugal, marca todas as faltinhas a meio-campo com o mesmo nível de agressividade, gostava tanto de saber porque é que não o faz quando a falta acontece dentro do rectângulo vital. Não compreendo, a sério que não.


Aparentemente qualquer equipa que nos defronte com mínimo pinguinho de amarelo na camisola tem uma excelente probabilidade de nos bater. Do Arouca ao Dortmund, passando pelo Tondela e agora o Paços. Dizem que o amarelo é a cor da loucura. Diria que está mais para o desespero.

Ouve lá ó Mister – Paços de Ferreira

Camarada José,

Depois do jogo da semana passada, fiquei sem conseguir acreditar muito bem na nossa capacidade de jogar futebol. E quando ia saindo do Dragão, a caminho do carro, só pensava: “juro que se fosse comigo, a lista de convocados mudava quase toda para Paços e levava os Bês!”, opinião partilhada por muitos portistas nas mesmas circunstâncias. E chamava-os todos, do José Sá ao André Silva, passando pelo Garcia e pelo Chico e pelo Tomás, o Ruben Macedo e o Graça, o Chikhaoui e o Palmer-Brown, o Omar e o Gleison…até o Cláudio e o Rodrigo era capaz de lá espetar na lista, só para veres o quão lixado estava. E ao ver a lista de convocados, acho que pecaste por defeito, mais uma vez. Se os As não querem, os Bs agradeciam a oportunidade. Mas se calhar sou eu que sou um lírico e pessimista ao mesmo tempo, combinação que não funciona muito bem mas são as linhas com que me coso. Más, mas minhas.

Podes achar que sou um parolo mas a última memória de um jogo nosso em Paços é da vitória lá por dois-zero num proto-penalty sobre o James e uma expulsão do Danilo que me enervou até ao final da partida, que se disputou uma semana depois da Kelvinadela no Dragão. E antes disso lembro-me do jogo de abertura da época 2009/2010, onde empatámos com um golo do Falcao depois de um jogo em que falhámos tantos golos que a temporada começou logo mal para acabar ainda pior. Gostava imenso de ficar com este jogo como uma memória positiva mas os últimos jogos da nossa equipa fazem-me temer que consiga esse objectivo mas pelos piores motivos. Já nem sei o que te possa dizer mais, rapaz. Só espero estar bem enganado.

Sou quem sabes,
Jorge