Dois ao burro

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Vi o “LXderby” a espaços, mas pareceu-me que sempre que olhava para a televisão estavam os tipos de verde com a bola. Os mesmos que nos plantaram três batatas no focinho em pleno Dragão, a jogar uma espécie de futebol triste e sem incisividade, com tantas situações de perigo como as que podem ser contadas pela mão de um serralheiro alcoólico. Do outro lado, um grupo de tipos de vermelho que estiveram todo o jogo a tentar empatar. E conseguiram. Os mesmos que vieram ao Dragão e estiveram todo o jogo a tentar empatar. E ganharam.

Por outro lado, se nós, que sem querer com muita força mostrámos mais futebol no sábado em Moreira de Cónegos que estes dois juntos ontem à noite, estamos quatro pontos atrás de um e três à frente de outro. Assim como quem não quer a coisa, não acham que temos tudo para, com algum niquinho de sorte, mandar ambos à fava e ganhar esta treta? Se não o conseguirmos, sem acusações parvas nem apontar de dedos, só podemos atirar a culpa para o nosso lado.

Baías e Baronis – Moreirense 0 vs 2 FC Porto

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Um jogo com menos história que um pastor apanhado com as calças em baixo atrás de uma ovelha na borda de um precipício. A vitória nunca esteve em questão, e deu a ideia que mesmo que a equipa tivesse começado a jogar de samarra e de pantufas com cãezinhos peludos para se resguardar do fresquinho, um ou dois golos entravam lá para dentro com maior ou menos dificuldade. Houve vários destaques, mas mesmo entre o empenho de Quaresma e a qualidade de jogo colectivo de Casemiro, somados à solidez de Marcano e (finalmente!) ao bom jogo de Alex Sandro, a viagem a Moreira de Cónegos foi, numa palavra, olvidável. Vamos às notas:

(+) Casemiro. Um dos responsáveis pela quase completa ausência de jogo interior do Moreirense (o exterior também não foi nada que mereça um telefonema para a mamã, mas enfim…), porque o brasileiro esteve em todo o lado e recuperou montes de bolas na nossa zona defensiva. Um golo merecido pelo trabalho que fez durante a partida, pela forma como soube ser inteligente e usar o corpo para facilitar a sua própria tarefa. Sempre que Ruben Neves cresce num jogo, Casemiro aparece melhor no jogo seguinte. Não me parece coincidência.

(+) Quaresma. Decalco com algumas alterações, o que escrevi sobre ele no jogo contra o Marítimo: “Foi inconformado com o resultado do início ao fim e nunca deixou de tentar furar a barreira defensiva do Marítimo Moreirense pelo ar ou pela relva. Nem sempre bem na decisão final dos lances, foi pelos seus pés que nasceram algumas das mais perigosas jogadas de ataque e só por algum azar (e um excelente dia de Salin) (e a insistência nas trivelas) não conseguiu marcar assistir pelo menos um golo.”

(+) Maicon e Marcano. O espanhol raramente concedeu um milímetro pelo ar e foi sempre um jogador firme e seguro na intercepção de bolas potencialmente perigosas para Fabiano. Já o brasileiro pareceu bem melhor que noutros jogos com o mesmo coeficiente de dificuldade (ou seja, quase nulo) e soltou a bola com maior assertividade, menos brincadeira e maior sentido prático. Não sei se a dupla se vai manter durante muitas semanas, mas gostei do entendimento entre os dois.

(+) Alex Sandro. Firme na subida pelo flanco, fez um jogo bem acima do colega do outro flanco, que parece estar num imenso decréscimo de forma nos últimos jogos. Apoiou sempre bem Quaresma ou Tello (ou Óliver ou Brahimi…) e nunca baixando o nível físico e de arrogância positiva, foi um dos elementos mais em destaque. Tenho saudades de ver um remate dele à baliza.

(-) Chuta…oh pá, chuta…CHUTA A BOLA! Brahimi, que não é conhecido pela sua simplicidade de processos e sentido prático, aí dois segundos e meio depois de ter entrado em campo estava a mandar uma biqueirada para ver se conseguia marcar. Entretanto, já Herrera e Tello tinham desperdiçado oportunidades de remate em posições que podiam dar golo, optando sempre por fintar mais uma vez ou por procurar lateralizar quando a baliza estava ali prontinha para receber uma bolinha de couro nas redes. Acontece tantas vezes que começo a achar que os rapazes não cortam as unhas dos pés e têm medo de as partir se rematarem muitas vezes em força.

(-) Passes longos, mais uma vez. Devemos ser a única equipa do mundo com simultaneamente mais posse de bola e maior número de passes longos. Não entendo a quantidade de passes longos que se continuam a ver nos jogos do FC Porto. E se percebo a necessidade de o fazer quando o jogador está apertado e em risco de a perder, custa-me mais assistir a estas inglesices quando há jogadores no meio-campo que podem continuar a jogada com a bola na relva e a transição com menos velocidade mas mais precisão. Espanta-me como Óliver e Herrera optaram várias vezes por essa alternativa (falhando alguns dos passes longos que tentaram), se têm terreno à sua frente para onde podem progredir. Podem achar que é uma forma de variar o tipo de jogo e de criar desequilíbrios rápidos. Eu chamo-lhe preguiça.


Três pontos, mais algum tempo para descansar e um domingo para ver o derby lá de baixo no sofá. Vitória para o Benfica é mau. Empate é meh. Vitória do Sporting é jeitosa. Lagartagem, vamos lá ser amigos cá do povo!

Ouve lá ó Mister – Moreirense

Señor Lopetegui,

Se não te importas e para variar um bocadinho vou escrever esta missiva de uma forma diferente do habitual. Por isso, hoje apresento-te o fluxograma para a vitória! Sem mais demoras, aqui está ele:

Untitled Diagram

Sou quem sabes,
Jorge

Na estante da Porta19 – Nº18

9780713679281

Um must-have para todos os coleccionadores de camisolas de futebol, como o rapaz que vos escreve estas linhas. “True Colours: Football Kits from 1980 to the Present Day“, é uma obra da autoria de John Devlin, dividida por dois volumes que juntos chegam quase às 500 páginas repletas da história do futebol vista através de uma das formas mais visuais e fáceis de identificar: as camisolas oficiais dos clubes. Um inventário extenso (de 1980 a 2006) com todas as camisolas principais, alternativas e alternativas às alternativas!) dos principais clubes da Premier League inglesa e de muitos outros clubes ingleses que fizeram história num dos campeonatos mais emblemáticos da história do futebol, bem como um historial completo das selecções das ilhas britânicas. Uma viagem ao passado que vale bem a pena…e uma espécie de catálogo para os doentes. Como eu.

Sugestões de locais para compra do volume 1:

Sugestões de locais para compra do volume 2:

The greatest scarf in the sky

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Tive a sorte de estudar no Porto, perto da família, dos amigos e daqueles pedaços de nada que damos como garantidos e sem os quais sentimos que algo está mais distante, ausente do coração e da convivência diária dos lugares-comuns que nos trazem o conforto que precisamos nas piores alturas. E tive também a sorte de poder começar a trabalhar fora da minha zona de conforto, seguindo para fora do país, regressando mais tarde à base de onde saí e que tanto me deu. E em todo esse percurso já feito e tanto que ainda por aí há-de vir, houve muita gente que me marcou pela forma de ser ou pelo simples facto de ter estado no sítio certo no lugar certo.

Uma dessas muitas pessoas (outras poderão ter referências mais tarde ou mais cedo aqui na roulotte) foi um professor que tive na faculdade. Aulas práticas de uma disciplina que fazia parte integrante do curso mas que me aprazia tanto como receber um remate do Hulk nos dentes à queima-roupa, e da qual tentava a todo o custo desenrascar uma miserável nota que me permitisse dizer adeus à incansável fome por jovens repetentes nos obscuros meandros da mediocridade universitária que aquela disciplina em particular parecia exibir a cada semestre que passava. Ou era eu que estudava pouco e não atinava com aquilo, vá-se lá procurar razões ao esfíncter do mundo. Esse titã da academia era facilmente identificável pela sigla que todos os professores recebiam e que os representava em horários, anúncios públicos ou endereços de email ou de sites pessoais. E marcou-me durante muitos anos a forma coloquial com que tratava os alunos, sem distinção de classe ou categoria, onde todos caíam na sua teia de vernáculo bem apurado desde o primeiro segundo em que colocavam tentativamente os pés dentro da sua sala de aula. Era uma personagem, nunca perdida nos corredores das memórias que levamos connosco para todo o lado e à qual recorremos sempre que nos dá para a nostalgia.

Encontrei-o mais tarde, alguns anos depois de sair com o diploma bem agarrado nas mãos que na altura já trabalhavam e que pouco se preocupavam com os temas que aprendi enquanto estive sob a alçada do homem de que vos falo. E entrei em contacto com ele por culpa do FC Porto. Um dado dia estava a fazer umas pesquisas e descobri um site sobre cachecóis do FC Porto, onde uma honrosa colecção estava disponibilizada para qualquer visitante poder vasculhar binariamente e deliciar-se com os pequenos nacos de história e memória que por ali iam sendo publicados. E, para meu espanto, era mantido e actualizado pelo meu professor. Tinha na altura diversos cachecóis antigos e não tendo grande uso para eles, decidi enviar-lhe um email para nos encontrarmos e para o poder presentear com mais algumas valiosas adições à sua então extensa colecção. Marcámos encontro para um café na Constituição, perto do campo que continuará a ter o seu nome mesmo com mil parcerias comerciais a tolharem-lhe a tradição. Reconheceu-me mal entrei. “Você foi meu aluno!”. “É verdade”, respondi, “mas pensei que não se fosse lembrar de mim, Professor. Éramos tantos naquela cadeira!”. “Eu tenho uma memória de elefante, caralho, entra e não sai!”. Assim. Logo assim, a seguir ao “boa tarde” coma vírgula que nos destaca dos mortais tugas nervosos por pecar mais pela palavra que pelos actos. Este, do Porto, clube e cidade, viveu os anos do pré-e-pós-Pedroto, falou-me do golo do Ademir e da estúpida explosão de loucura que se viveu nas Antas. Falámos de Sevilha e Viena, de Gelsenkirchen e de Basileia, pedaços da história que guarda para ele e partilha com quem ouve e quem gosta de ouvir. Ofereci-lhe os cachecóis, agradeceu amavelmente e fizemos planos de um dia voltarmos a dar duas de treta. Nunca mais o vi e estes planos desaparecem tão depressa nestes dias que tanto correm sem se saber muito bem para quê nem para onde.

Semana passada tive notícias da sua morte. Perdeu-se um portista, um bom professor e um bom homem. Do mal o menos: o céu ganhou uma nova colecção e está mais azul-e-branco. Com lã ou acrílicos estampados.