Ouve lá ó Mister – Bayern Munique

Señor Lopetegui,

Se Dexter Morgan (ou Michael C.Hall, como te servir melhor) se encontrasse hoje nas imediações da Invicta, a icónica frase com que arranca a sua série epónima estaria adequada ao momento em questão. Tonight is the night. *Tonight* is the night. Tonight *is* the night. Tonight is *the* night. Coloca a tónica onde quiseres porque este é daqueles jogos que coloca todos os outros em perspectiva e nos faz sentir mais integrados num mundo que parece tão ligeiramente longínquo e inacessível que qualquer chegada a esta plateau deve ser tratada com a importância que ele merece. Não adianta fingirmos que estamos habituados a estas andanças porque a verdade é que não andamos e o facto de termos já vencido esta prova por duas vezes não retira a vital importância de uma noite que marca a história do clube com mais uma página de ouro. Sim, chegar cá já foi bom.

E continuar? E agora? O que vem por aí?

Nem tudo depende de ti, Julen. Os rapazes do outro lado consta que são jeitosinhos e até sabem um bocadinho do que é isto de andar a correr atrás de uma bola em cima da relva. E vieram sem alguns dos titulares mas não quer dizer que estejam mais fracos, não entres nessa ladaínha. São onze matulões (vá, dez mais o Bernat e o Götze) que sabem bem o que querem e o que querem é ganhar. E se entrares para o jogo a pensar que eles são mais fortes e com medo deles vais levar no toutiço. O que importa nestes jogos não é o futebol bonito, é ganhar. E nesta fase temos de tentar ganhar, de fazer tudo para que seja qual for o resultado possas sair do campo a caminho do balneário, mamar uma ou duas pastilhas de mentol e dizer ainda rouco aos microfones da imprensa: “Fizemos tudo o que podíamos. Não sobrou nada.” Caso contrário é como dar água das pedras a uma gata com o cio: engraçado para contar aos amigos, mas com poucos resultados práticos.

Estarei lá a ajudar a encher o estádio. Vence por ti e por nós. Repete 1987!!! (mas sem o golo sofrido que francamente não dá jeito nenhum)

Sou quem sabes,
Jorge

Pressão? Extra? Venha ela!

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A recente onda de lesões do Bayern é má para eles mas também é má para nós. Explico.

Jogar nos quartos-de-final da Champions não é para todos. Há um nível de exigência alto, uma consciência que a equipa a que pertencemos está a aproximar-se do zénite do futebol europeu e que está a cinco miseráveis jogos de espetar com a bandeira lá no topo. Ninguém fica indiferente a isso, cá fora e muito menos lá dentro. E por muito que pensem que os nossos rapazes são fortes e rijos e resistem a tudo, se os virem como seres humanos acaba por ser como uma entrevista de emprego em que todos os outros candidatos são mais altos, mais fortes e com melhor retórica que Churchill depois de dois copos de brandy. E se o CV interessar para alguma coisa, a conversa lá dentro conta muito mais. Falo por experiência, fiquem na escola, miúdos, acabem o curso e aprendam a ser inteligentes, o resto vem por arrasto. De volta ao jogo.

Esta quantidade inusitada de alemães no estaleiro (curiosamente só um alemão “high-profile” é que está fora, o resto é um francês, um espanhol, um holandês, um austríaco e um marroquino…) faz com que a pressão seja ainda maior do nosso lado. Se uma vitória frente a um Bayern na máxima força seria um feito estupendo, a falta de algumas peças-chave como Robben e cª fazem com que um resultado positivo na primeira mão se torne vital por forma a podermos ter alguma esperança quando formos a Munique. Uma situação “win”/”win” (vencer seria genial e perder seria natural) acabou de perder um dos wins e tem o potencial de ser um enorme “lose”. Pensem na pressão que Brahimi, Indi ou Aboubakar estarão neste momento a sofrer nos ombros, sabendo que têm de substituir (em nome e em actos) a presença de três titulares na equipa que estavam em boa forma e marcar a diferença pela positiva contra um Bayern do mais fragilizado que se viu em dois anos do ponto de vista das opções do treinador. As nossas ausências serão tão grandes como as ausências deles? Jackson, talvez, Marcano até um certo ponto, Tello menos. O Bayern é forte sem os seis rapazes que cá vão faltar, mas não é tão forte como poderia ser. E apesar de parecer jogar a nosso favor, estou convencido que será ao contrário.

Estarei só a ser o pessimista do costume? Gostava de saber o que pensam. Quem é que acha que amanhã ganhamos aqueles gajos?

Baías e Baronis – Rio Ave 1 vs 3 FC Porto

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O difícil torna-se fácil quando se quer. Particularmente quando se fala de uma equipa como o FC Porto, que tem tanto de bipolar como de notável na capacidade de criação de lances perigosos, já que os cria mas para os concretizar parece encontrar uma parede mental que os impede de rematar à baliza no momento certo. Quando o faz, como Danilo fez hoje com grande nível, é normal marcar mais golos e criar mais perigo. Mas insistimos no lance até à baliza, na finalização com a sola e no passe de morte que se quer sempre que saia perfeito. Nem sempre é preciso, meus caros. O jogo acabou por valer pela boa primeira parte e pelos eternos cálculos vilacondenses para determinar onde é que as bolas altas vão cair. Raio de terra. Vamos a notas:

(+) Os flancos. Com pouco trabalho defensivo, foi do meio-campo para a frente onde se mostraram sempre muito activos e a procurar não só acompanhar a equipa na criação de lances de desequilíbrio mas em particular na construção das jogadas, onde Alex/Brahimi e Danilo/Quaresma (vai ser uma pena partir a parceria agora que se entendem tão bem) voavam pelos corredores como pares de bailarinos olímpicos com trajes de camuflagem e ajudaram a desfazer a fraca resistência do Rio Ave. Destaco particularmente o bom jogo de Alex Sandro, que parece estar fisicamente melhor que no ano passado por esta altura.

(+) Quaresma. Continua a ser importante na forma como é o primeiro a querer atacar e o primeiro a ajudar na defesa. E continuo a achar tão estranho dizer isto e fazê-lo com seriedade e sem sarcasmos idiotas, porque aqui há meia-dúzia de anos era impossível ver este mesmo número sete a sprintar atrás dos adversários quando perde a bola e a auxiliar os colegas na pressão. Parece ter amadurecido mesmo na altura em que a parte física arranca o seu inevitável declínio, por isso é aproveitá-lo enquanto dura. Tem de ser mais eficaz nos cruzamentos, no entanto, porque só um em cada quatro ou cinco é que causam verdadeiro perigo.

(+) A pressão alta, especialmente na primeira parte. A equipa entrou cheia de garra e vontade de acabar com o jogo cedo e quase que marcava nos primeiros dez minutos, não fosse o fiscal de linha estar com qualquer problema de visão ao longe para ver um fora-de-jogo a Brahimi que ninguém percebeu. Ninguém se deixou afectar e continuaram a pressionar em cima do meio-campo do Rio Ave, contra o vento e um Ederson em bom plano, chegando ao dois-zero de uma forma natural, até esperada. Óliver, Casemiro mas também Quaresma e Aboubakar ajudaram defensivamente de uma forma inteligente e aguerrida. E espero que descansem bem para quarta-feira…

(-) Herrera. Consistente, sem dúvida. Falhou quase todos os passes, perdeu várias bolas em zona proibida e como cereja em cima do monte de esterco ainda fica na memória um atraso para Fabiano quase do meio-campo com a bola a saltar como doida e o nosso guarda-redes, já de si complicadinho que chegue no jogo de pés, ainda teve de se ver com essa. Hector, puto, tens de subir o nível, na quarta-feira mal recebas a bola vão-te cair alemães em cima tão depressa como na Polónia em 39!!!

(-) Jebor. Houve alguma disputa de bola em que o rapaz estivesse envolvido e que não resultou numa falta, assinalada ou não? Um fartote de braços no ar, atropelos na correria, parvoíce na finalização. Juro que foi dos piores pontas-de-lança titulares que vi a jogar desde que me lembro. E eu sou do tempo do Baroni e do Vinha.

(-) Alguém se lembrou do 2-2 há duas épocas? Eu lembrei-me. Era natural que baixássemos o ritmo e que não continuássemos a correr como doidos e ninguém com massa encefálica pensaria que íamos galgar relva como Traveller, o cavalo do General Lee. Mas a ineficácia que fez com que falhássemos dois ou três golos fáceis fez com que as más memórias daquela ridícula noite de Setembro de 2012 (também num jogo pré-Champions, curiosamente) onde uma vantagem de dois golos se transformou, culpa de Tarantini (sempre o mesmo estupor), num pesadelo que fez da segunda época de Vitor Pereira um…bem, quase pesadelo. Hernâni tratou de me acalmar mas já estava pronto para um chorrilho de disparates caso houvesse um daqueles resultados que faz com que a equipa de limpeza nos escritórios da Bola e do Record tenham de fazer horas extraordinárias a limpar sémen da parede. Vá lá.


Agora, é respirar e colocar a passadeira vermelha para a entrada de uma das maiores equipas do Mundo. E depois, quando o árbitro apitar para começar o jogo, ganhar-lhes.

Ouve lá ó Mister – Rio Ave

Señor Lopetegui,

Belo fartote de golos semana passada, caro Julen! A malta até ficou satisfeita mas não posso deixar de pensar que as coisas ainda estão bastante tremidas no campeonato porque apesar de dependermos de nós, a tarefa não vai ser fácil. Gostava de te dizer que estou completamente confiante e que vamos enfiar três dildos do tamanho da Torre dos Clérigos nos esfíncteres da vermelhagem mas não consigo. Falta-me a convicção, a força mental que me força a elevar o espírito e a acreditar em ti e nos teus com a garra com que acreditei, por exemplo, nos putos do Villas-Boas aqui há uns anos ou na maturidade dos homens do Mourinho. Fui perdendo essa confiança nos últimos jogos porque sinto os teus rapazes lentos, com poucas pernas, sem aquela fibra que é preciso ter nestes e em todos os momentos em que não chegam os 100% do suor e do empenho, é preciso subir a fasquia para níveis Robsónicos e além! É preciso entrar em campo com a intensidade de mil Andrés (ou quinhentos filhos dele, se o rapaz sempre vier para cá no próximo ano) e a pujança física de quarenta Maniches magros, degolando inocentes e apontando os nomes para mais tarde questionar os motivos de colocarem o escalpe perante a lâmina. E todos os jogos têm de ser assim até ao fim, Julen, todos, porque os outros podem não dar margem nenhuma e obrigar-nos a ir lá ganhar por três. Era bonito, mas não vamos contar com isso.

Assim sendo, hoje tens mais uma oportunidade de mostrar ao povo que os teus pupilos estão com ganas de ganhar o campeonato e não estão já com a cabeça na próxima quarta-feira. Desde o momento em que a bola comece a rolar em Vila do Conde, ficam a faltar 5865 minutos até o jogo contra o Bayern. E os mais importantes são os primeiros noventa.

Sou quem sabes,
Jorge

Cabeça ou coração

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Fiquei surpreendido, como tantos outros portistas no estádio e fora dele, ao ver Fabiano a regressar à baliza no jogo contra o Estoril. Tinha criado a imagem na minha mente do regresso de Helton, da triunfante entrada em campo seguida da tradicional deslocação no sentido das redes, erguendo os braços em agradecimento aos adeptos na Superior Sul do Dragão como faz há tantos anos. O rapaz que lá ficou, porém, apesar de partilhar a nacionalidade, tem tanta coisa que o difere daquele que defendeu as nossas cores desde que chegou e que se tornou um nome tão consensual como querido do povo que o amou e ainda ama.

Não quero com isto desprezar Fabiano, um rapaz com talento e qualidade suficiente para defender a nossa baliza perante perigos e sarilhos que já nos bateram à porta e que nos vão continuar a bater. Quem não se lembra do fenomenal jogo em Alvalade para a Taça da Liga ou na eliminatória da Europa League em Nápoles, onde foi o singular responsável pela obtenção de resultados positivos? As defesas complicadas, os voos elásticos para o relvado e os apurados reflexos fizeram dele a escolha número um de Lopetegui desde o início da temporada numa altura em que Helton estava ainda encostado com a lesão que sofreu a meio da época passada, mas falta sempre qualquer coisa. Algo que Helton trabalhou para obter, a boa-vontade dos adeptos que o criticaram em 2005 quando Adriaanse o escolheu para substituir Baía e apuparam em 2009 quando Beto, pelas mãos de Jesualdo, passou a escolha número um depois de uma série de más exibições.

Falta-lhe carisma.

Para lá do jogo de pés inferior, da menor capacidade de controlo da zona aérea, da aparente dificuldade de comunicação com os defesas (invisível a olho nu mas notada perante as evidências) ou das hesitações nas saídas pela relva, há algo que Fabiano ainda não tem e não sei se virá a ter. A capacidade que Helton tem de moralizar os colegas, de transmitir confiança para a defesa e para o público e a facilidade com que coloca a bola em jogo da forma mais indicada e sem a tremideira que temos visto.

Mas compreendo a opção de Lopetegui. Afinal os números não mentem e apesar de me deixar sempre apreensivo na bancada quando vejo a bola a dirigir-se para ele, a verdade é que temos a melhor defesa do campeonato e o guarda-redes nem sempre é o mais apreciado do sector mas tem mantido a baliza limpa. Sim, comete os seus erros, como Helton já cometeu, mas as contas jogam a seu favor. E compreendo ainda mais a opção de Lopetegui em manter as escolhas consistentes e em premiar o trabalho de Fabiano dando-lhe de novo a titularidade. Afinal, é uma dezena de anos mais novo que Helton e ainda pode progredir durante muito tempo na nossa baliza, pelo menos até Gudiño evoluir um pouco mais (bela pérola que ali temos, ouçam o que vos digo) e chegar à primeira equipa, porque Kadú está em contra-ciclo ainda sem conseguir confirmar as credenciais de aqui há dois ou três anos e Andrés Fernandez parece mesmo ter sido uma aposta sem grandes frutos.

Se Lopetegui retirasse Fabiano da equipa, dando razão à vasta maioria dos adeptos que preferem ver Helton entre os postes (ainda que grande parte do tempo fora deles), não acredito que houvesse uma revolução no balneário, mas perdia-se um jogador. Fabiano seria sempre subalternizado perante Helton e talvez nunca mais conseguisse recuperar a centelha de esperança este ano. A não-destruição da moral de um jogador versus a escolha de um homem mais experiente. Homem versus equipa, parte versus todo. Lopetegui abdicou da grande oportunidade que teria de o fazer de uma forma correcta, com factos que o suportariam sem problemas e que podia levar a uma simples conversa “Fabiano, guapo, és um gajo porreiro mas aquela borrada contra o Arouca, rapaz…tsc tsc…vais ter de sair”, que podia ou não ser compreendida pelo jogador e pelo grupo, por muito carinho que possam ter por Helton.

Falo demais sem factos que me suportem. Não conheço os rapazes e não sei como reagiriam. Mas Lopetegui tomou a opção dele e como tantas outras vai ter de viver com ela. Espero que não se arrependa. Espero que nenhum de nós se arrependa.