Dezanove dedos de treta com o Mestre de Cerimónias (oartistadodia.blogspot.pt)

Em semana de clássico…uma conversa com o inimigo. Um inimigo muito especial, autor de um dos blogs mais reconhecidos e de maior qualidade do nosso panorama futebolístico (e não só) nacional: “O Artista do Dia“. Usa o nom de plume “Mestre de Cerimónias” e tem uma cadência de escrita ao nível de uma aceleração do Hulk e uma sagacidade e inteligência na prosa que só se equipara a um Lucho em frente a um teclado. Decidi meter conversa com ele a poucos dias de distância de um dos jogos mais importantes do ano para perceber como pulsa o coração de um leão na véspera de se deslocar a um dos estádios mais complicados do país. Fica a conversa, comprida mas agradável, para lerem e imaginarem que o futebol também pode ser assim. Rivais durante o jogo, gente que sabe conversar fora dele. Siga a rusga:

Jorge: ora viva! como vai s/exa?
Mestre de Cerimónias: Olá Jorge! Bem, e o Dr.?
Jorge: Engº, faça favor, haja respeito
Mestre de Cerimónias: Peço desculpa, Engº.
Jorge: kidding, detesto essas merdas. títulos só no desporto.
Mestre de Cerimónias: Eu sou coerente, não quero nada com títulos em nenhuma faceta da minha vida.
Jorge: damn, acertei mesmo no sportinguista certo, és a personificação da imagem icónica que o resto do mundo tem
Mestre de Cerimónias: ahahah
Jorge: então comecemos pelo mais recente: que tal este mercado? mais fortes ou mais fracos?
Mestre de Cerimónias: Não acho que vá mudar grande coisa. O problema do Sporting não está no onze inicial, mas sim nas alternativas que (não) existem para certas posições. Em teoria, os regressos do Palhinha, do Podence e do Geraldes são positivos, mas a época do Sporting resume-se a apenas mais 15 jogos… logo, não me parece que existirão oportunidades suficientes para se notar a diferença em relação aos que saíram.
Jorge: mas há elementos em subrendimento que podem ser trocados e ajudar a preparar eventuais (certas) saídas
Mestre de Cerimónias: Sim, isso sem dúvida. Numa perspetiva de futuro, foram as movimentações certas.
Jorge: e dependendo do resultado no Dragão, não achas que essas alterações vão ser catalisadas? especialmente em caso de resultado negativo…
Mestre de Cerimónias: Não estou a ver o Jesus a mudar a estratégia em função do resultado de sábado, sinceramente. Será sempre a condição física e as suspensões a ditarem as oportunidades que os jogadores de banco terão. A não ser que existam instruções de cima, claro.
Jorge: e achas que ele cede a isso? mesmo com as eleições aí à porta? nunca me pareceu gajo para se deixar enredar nessas coisas
Mestre de Cerimónias: Depende da natureza das instruções, suponho. Quando falo em “instruções”, não me refiro a nada em específico, apenas em fazer ver ao treinador que é importante em recuperar o tempo perdido na valorização de determinados jogadores. Não me passa pela cabeça que alguém da estrutura faça imposições de quem tem que jogar. Já agora, como viste as movimentações de mercado do Porto?
Jorge: equilibradas. quem não tem dinheiro tem de abdicar dos vícios e foi um approach consistente. continuo a achar que nos faltam opções aos actuais desequilibradores, especialmente nas alas, mas estou moderadamente satisfeito com o plantel actual. curioso para ver como o Soares se vai safar nos próximos tempos. mas temos um plantel completamente diferente dos últimos que nos deram títulos, muito menos experiente, com muito e bom espírito de luta mas pouca fibra mental, pouco calo para grandes combates. temo o que pode acontecer contra a Juve, especialmente no jogo em itália.
Mestre de Cerimónias: Pois, nomeadamente lá na frente, só putos. Com muito potencial, mas putos. Para quem está habitado a Jacksons e Falcaos, é uma grande diferença.
Jorge: completamente de acordo. é um dos grandes problemas do FC Porto actual, este processo de desmame em relação aos planteis de luxo que tivemos. a malta está muito mal habituada mas já se vêem sinais de melhoria na relação dos adeptos com a necessidade de vencer depois de um período de seca
Mestre de Cerimónias: Nós, finalmente, decidimos abrir (e bem) os cordões à bolsa para a posição de ponta-de-lança. Os 10 milhões do Dost foram muito bem gastos.
Jorge: esse cabrão, pá. Jardel holandês, é o que é! espero que o Felipe o seque bem sequinho mas não vai ser fácil
Mestre de Cerimónias: O meu principal medo com o Felipe é quando ele for à nossa área.
Jorge: é um gajo jeitoso e está a evoluir muito. faltou-nos isso nos últimos anos, um central rijo que olha nos olhos e acerta se for preciso e que não se põe a brincar na defesa
Mestre de Cerimónias: O Sporting tem estado mal nas bolas paradas defensivas. Vocês estão on fire nas bolas paradas ofensivas. Até o Marcano já parece jogador.
Jorge: estamos on fire…kinda. foram só os últimos jogos, houve aí muito jogo com demasiados cruzamentos indecentes. o Marcano é um case study: gajo certinho, que inventa pouco, joga para o colectivo, para o grupo, nunca para ele…mas no ano passado viu-se que cede com facilidade à pressão que ele próprio coloca em cima dos ombros. desde aquele lance ridículo na Choupana, nunca mais foi o mesmo até acabar o ano.
Mestre de Cerimónias: Nunca imaginei no início da época que o Porto conseguisse ter uma defesa tão pouco batida. O Marcano não dava grandes garantias, o Boly foi uma contratação estranha e o Felipe a ter que se adaptar ao futebol europeu…
Jorge: tu e eu! o Danilo tem ajudado muito! esse gajo foi tão bem “roubado”!
Mestre de Cerimónias: Estou muito satisfeito com o meu 6. Não é tão forte a defender, mas dá outras coisas à equipa. Mas agora está em má forma, no entanto. Foi um dos sacrificados por não ter backup decente.
Jorge: e o Palhinha? devo dizer que me surpreendeu no Moreirense, está a ficar um jogador a sério. mais Katsouranis que William, mas com cabeça.
Mestre de Cerimónias: Já sigo o Palhinha desde o último ano de junior. Gosto muito dele. Um cavalão, muito agressivo na abordagem aos lances, e que sabe progredir com bola. Foi, provavelmente, o grande erro do Jesus nas dispensas que fez. Ainda bem que voltou. Há que o preparar para ser o 6 titular na próxima época.
Jorge: concordo, francamente. mas estreias em clássicos são sempre complicadas…ou achas que o miúdo se safa bem? ele já jogou com o Paços, mas num Dragão cheio…
Mestre de Cerimónias: Ele é um miúdo mentalmente forte. E deu-se bem nos jogos que fez com o Porto nesta época. Acho que se vai dar bem. O meu principal medo em relação ao Palhinha é a questão disciplinar. Mas o árbitro é o Hugo Miguel, que é um árbitro que poucas vezes puxa do cartão… isso pode favorecê-lo.
Jorge: ou seja, prevês um clássico dos bons, um jogo mais físico a meio-campo beneficia o Sporting, não tenho dúvida…
Mestre de Cerimónias: Vai ser interessante, é um jogo de tripla. Não é como há uns anos, em que o Sporting entrava no Dragão quase derrotado. As últimas vitórias que conseguimos aí foram importantes para atenuar essa desvantagem psicológica. Na minha opinião, o Sporting vai tentar (e conseguir) mandar no jogo, porque não sabe jogar de outra forma, mas há a questão psicológica: o Porto está moralizado e vai ser paciente, enquanto o Sporting está com dificuldades em dar a volta a situações adversas.
Jorge: esse é o meu medo. que o Nuno se deixe amedrontar no caso de ter de defender uma vantagem
Mestre de Cerimónias: Pode parecer paradoxal, mas acho que o Sporting tem mais hipóteses se não marcar cedo.
Jorge: essas dificuldades podem existir, mas quando o adversário permite que ocupes grande parte do terreno, a mobilidade e agressividade podem fazer o resto. ou então fiquei muito marcado pelo empate com o Benfica
Mestre de Cerimónias: Não sou grande apreciador do estilo do NES (nem quando está no banco, nem quando está à frente de um flipchart), mas por acaso acho que foi um pouco vítima das circunstâncias nesse jogo com o Benfica.
O anormal foi o Benfica ter empatado jogando o que jogou. As substituições do NES foram de marcha atrás, mas a verdade é que o Benfica é muito mais perigoso se tiver oportunidades de contra-ataque do que se tiverem a iniciativa de jogo. Percebi a ideia de fazer marcha atrás e convidar o Benfica a avançar no terreno.
Jorge: não estavas lá na bancada, caso contrário acho que mudavas de opinião. foi muito frustrante ver uma equipa a controlar o jogo e a ser obrigada a recuar pelo medo que lhes era transmitido do banco. acho que o Nuno melhorou desde esse jogo, está mais ousado, pode ter uma visão própria mas espero que não volte a esse estado. ainda assim…em clássicos…as coisas tendem a ser diferentes. a questão é que ele não precisava de o fazer, tinha o jogo na mão.
Mestre de Cerimónias: És um gajo ambicioso. Eu fico contente com um 0-1.
Jorge: neste momento só queria anular a vossa vantagem. ou seja, 1-0 chega. já vieste ao Dragão alguma vez?
Mestre de Cerimónias: Se nos ganharem, já não te precisas de preocupar com a vantagem dos confrontos diretos. Só fui uma vez ao Dragão, para ver o Portugal – Grécia no Euro. Correu bem. #not
Jorge: vá lá, se fosse a final tinha sido um murro maior.
Mestre de Cerimónias: Só fui ver dois jogos no Euro… esse e o seguinte, contra a Rússia, na Luz. Também foi a única vez que fui a esse estádio.
Jorge: na nova Luz só fui ver um único jogo, aquele em que o Rentería falhou de baliza aberta. no vosso estádio nunca entrei, acreditas? no antigo sim, mas o novo ainda não teve o ilustre prazer de me ver lá dentro.
Mestre de Cerimónias: Só fui ver o Sporting à Luz uma vez, à antiga Luz. Ganhámos 3-1 para a Taça, em 2000.
Jorge: esses jogos é que eu gosto. vocês e a vermelhagem a matar-se aos bocados! sentadinho, cerveja na mão, a apreciar!
Mestre de Cerimónias: Ahahahah, o sentimento é mútuo, quando vos vejo a jogar com eles. Eu e o balde de pipocas. Infelizmente, agora andam muito amigos, Sporting e Benfica.
Jorge: estes clássicos no Dragão são muito stressantes, pelo menos para mim, é daqueles jogos em que entro para o estádio, arranca a partida e eu só quero que acabe rápido. não há diversão nenhuma, só tensão.
Mestre de Cerimónias: Ahahah, comigo é igual. E o pior é quando os jogos são num domingo à noite, passa-se o raio do fim-de-semana num completo estado de nervos. Sendo ao sábado, para o bem ou para o mal, pode-se aproveitar o domingo com outras coisas.
Jorge: concordo absolutamente. há duas semanas tivemos um jogo às 16h. que prazer! estádio quase cheio, montes de gente bem disposta, fez lembrar os bons tempos das Antas.
Mestre de Cerimónias: Sim, é inevitável não recordar com saudade o horário dos jogos de há 20 anos. 15h no inverno, 17h perto do verão, não tinha nada que enganar.
Jorge: pá, tão bom, que saudades! nós, os tolinhos que lá vamos seja de tarde ou de noite, é que damos valor a isso
Mestre de Cerimónias: Pronto, havia o pequeno pormenor dos banhos que se levava quando chovia. Aposto que nisso sofreste mais do que eu.
Jorge: uff, tantos! chegar a casa ainda a pingar…
Mestre de Cerimónias: O velhinho Estádio de Alvalade tinha uma bancada coberta. Só fui para lá uma vez. Acho que foi num Sporting – Leça, chovia torrencialmente, o relvado parecia uma piscina, estavam meia-dúzia de gatos pingados a ver o jogo. Na altura o presidente era o Santana Lopes, disseram ao pessoal que se podia deslocar para debaixo da pala.
Jorge: lindo. lembro-me bem desses jogos, com equipas pequenas, onde estavam poucos milhares (se tanto). houve um Porto vs Braga em que toda a bancada reservada aos visitantes estava ocupada por um único gajo que andava para lá a saltar como um demente
Mestre de Cerimónias: Ahahah
Jorge: na altura que o Braga tinha gajos tipo Karoglan, Zé Nuno Azevedo e afins. nada de Mendesices.
Mestre de Cerimónias: Eheh, outros tempos. O Zé Nuno I e o Zé Nuno II. Isso é que eram nomes de jogadores.
Jorge: era um marco das cadernetas de cromos. só tinha pena do II, para marketing era uma treta…marketing no futebol português nos anos 80, olha o que me fazes dizer
Mestre de Cerimónias: Marketing? Sabiam lá o que era isso na altura.
Jorge: temos a visão tão deturpada actualmente
Mestre de Cerimónias: Mudou muita coisa. Algumas para melhor, algumas para pior. Hoje em dia os jogadores vivem numa redoma. Mete-me confusão a falta de contacto entre adeptos e jogadores… agora só com sessões de autógrafos, normalmente associados a uma marca, com zero de espontaneidade.
Jorge: sinal dos tempos, infelizmente
Mestre de Cerimónias: Sim, verdade seja dita, há mudanças que eram inevitáveis.
Jorge: mas isso é algo que nós, como adeptos, temos vindo a perder e não prevejo que recuperemos. dá-se demasiada importância ao nome, à aura do ícone e esquece-se a humanidade básica. os clubes só tinham a ganhar com isso, mas os jogadores são tratados como se fossem de cristal. “vais para o twitter se quiseres, não vás é tomar um café à baixa senão lixas-te”. é mais fácil de gerir.
Mestre de Cerimónias: É isso, e também a forma como os jogadores olham para o clube. É cada vez mais difícil surgirem símbolos, verdadeiros símbolos, jogadores que são efetivamente doentes pelo clube, que ficam tão ou pior que estragados por perderem como nós.
Jorge: aqui estamos a tentar voltar a esses tempos mas é complicado manter essa miudagem cá, especialmente quando há muito talento ao barulho. sabes que o Ruben Neves foi a Estoril no meio dos Super?
Mestre de Cerimónias: Não sabia.
Jorge: espero que não tenha sido ele a atirar os petardos
Mestre de Cerimónias: É normal que os jogadores se libertem desse sentimento de ser adepto. Com os agentes a fazerem-lhes a cabeça, com os próprios clubes ansiosos por terem lucros astronómicos com eles, é normal que também pensem mais na carreira deles do que noutra coisa.
Jorge: perfeitamente normal, não contesto isso. mas hoje em dia exijo que muitos desses miúdos tenham juízo e não se deixem enfeitiçar pelo primeiro vendedor de banha da cobra que lhes aparece à frente. temos de recultivar os valores, não só os financeiros
Mestre de Cerimónias: Concordo.
Jorge: ser um Buffon é muito mais importante que ser um Schmeichel, se me permites a comparação. claro que isto é lírico, mas há um equilíbrio que se pode tentar atingir.
Mestre de Cerimónias: Sim, percebo-te. Um Gerrard ficará para sempre na história. Outros do mesmo nível, não serão lembrados da mesma forma ao fim de alguns anos. Ou um Totti.
Jorge: exactamente
Mestre de Cerimónias: Pensas no Milan e ainda hoje é impossível não nos lembrarmos de um Maldini, de um Baresi.
Jorge:  exacto, mas ninguém se vai lembrar do Balotelli daqui a uns anos a não ser pelo enésimo Lambo que espetou contra um muro
Mestre de Cerimónias: Exato.
Jorge: rapaz, estava aqui a falar mais umas horas, mas não pode ser. para terminar: boa sorte para o ambiente e para o espectáculo, que ninguém se mate dentro de campo. quanto ao resto…fuck off
Mestre de Cerimónias: Ora bem! Que ganhe o melhor, e que o melhor seja o Sporting!


Bom jogo, Mestre. E já sabes, tens um fino à tua espera!

Baías e Baronis – Estoril 1 vs 2 FC Porto

Um jogo de futebol tem qualquer coisa como noventa minutos, com mais alguns adicionados em virtude do que vai sucedendo durante a partida. E este de hoje foi mais um numa série de jogos em que desses noventa minutos, o FC Porto opta por jogar em condições durante qualquer coisa como um terço, permitindo-se enredar numa incessante sequência de maus passes, decisões erradas e pobreza organizacional que dá sono a um tipo que acabou de enfiar doze Red Bulls no bucho. No final, a vitória é merecida mas podíamos e devíamos ter feito mais. Vamos a notas:

(+) André Silva. Regressou aos golos e às boas exibições com um penalty bem marcado depois de também bem sofrido e uma assistência com o peso certo para um bom golo de Corona. Foi o trabalhador do costume, voltando para o meio-campo para vir buscar a bola, ajudando os colegas na pressão subida e criando desequilíbrios pelo meio, pelas alas…esteja onde estiver! Belo jogo, puto, prepara-te para a semana fazeres o mesmo!

(+) Brahimi. FC Porto com Brahimi e sem ele são duas equipas diferentes. É absurdo pensar que conseguimos estar em campo com a equipa mais forte quando Yacine não está presente e a maneira como se envolve nos lances ofensivos do colectivo, seja da esquerda para o meio, pela linha ou simplesmente na ruptura pela zona central, o argelino está em boa forma e só podemos lucrar com isso.

(+) André². Talvez o melhor jogo do ano para o nosso carequinha, que esteve bem no meio-campo, muito lutador e combativo em frente a uma equipa que joga mais com os braços que os Golden State Warriors a defender o garrafão (ainda se usa este termo? juro que já não sei). Faltou rematar algumas vezes (lembro-me apenas de um remate ao lado depois de um bom passe de primeira de Alex Telles) mas foi um elemento importante na ligação defesa/ataque, mais até que Óliver.

(-) Jogo demasiado centralizado. Não sei se foi teimosia do treinador, vendo a má forma recente de Corona e a incerteza quanto à presença ou não de Brahimi para este jogo, mas a forma como a equipa esteve em campo foi aborrecida e focou-se em demasia no jogo pelo centro, com os únicos responsáveis por fazer as alas a serem os laterais. E se Alex Telles está cheio de moral depois das três assistências da semana passada, Maxi está em má forma e não consegue acompanhar a equipa na subida como precisávamos. Some-se um Óliver em dia mau, um Herrera a tomar boas decisões mas com timings completamente errados e um Jota distraído e temos uma equipa que não funciona. Foi entediante ver a equipa a jogar e quando estava pronto a louvar Nuno pela entrada de Brahimi…eis que o homem o coloca na zona central! Fiquei surpreendido, acho que todos ficamos, porque por muito que Yacine seja um desequilibrador, não era aí que precisávamos dele mas sim encostado à ala para abrir o jogo. Nuno decidiu apenas fazê-lo com o completo reboot da equipa depois da entrada de Corona e Rui Pedro e apenas aí começamos a criar algum perigo consistente para o adversário. Aos sessenta e tal minutos. Não foi tarde demais, felizmente.

(-) A merda dos petardos. Malta, eu percebo que se entusiasmem e que festejem a vida com todos os sentidos em alta e os braços erguidos a bater palmas, as gargantas afinadas ao limite do possível e as bandeiras a voar ao vento, ou no nosso caso, a boar ao bento. Mas essa merda dos petardos e das bombas de fumo tem de acabar. Não tem piada nenhuma, parecem uma cambada de crianças a estragar qualquer coisa em casa com os pais a verem e podem arranjar chatice da grande para o vosso clube. Não é para os outros, é para o vosso. E serve para quem se desloca centenas de quilómetros cá de cima ou para quem vive mesmo ali ao lado e apenas atravessa a rua para ir ao estádio, a bitola é a mesma: deixem de ser imbecis.


Safam-se os três pontos e se nos safarmos com três pontos de cada vez que jogarmos até ao fim do campeonato, nem me importo muito com o mau futebol que vamos mostrando em mais de metade das partidas. Primeiro ganhar, depois jogar em condições.

Ouve lá ó Mister – Estoril

Companheiro Nuno,

O último jogo antes de fechar a janela de transferências é sempre giro, seja no meio de um solarengo Verão ou durante um fresquinho Inverno que nos aperta os casacos e nos arrefece a alma. E mesmo que tenhamos já contratado um reforço e despachado pelo menos três elementos semi-activos do plantel, parece ainda faltar alguma coisa. Aquele rush de notícias absurdas parece nem se ter dignado a aparecer desta vez e vamos ter pouco tempo até que a porta se feche e apenas consigamos contratar dois ou três laterais esquerdos nigerianos, um ponta-de-lança canadiano de enorme potencial e quase pronto para jogar nos sub-19 e uma mulher de limpeza eslovaca que sabe passar a ferro e tudo. Opções para o meio-campo e acima de tudo para as alas é que nada, né? Pois.

Quanto ao jogo de hoje, é mais do mesmo. Prá semana temos um maravilhoso clássico e por isso temos de chegar lá com a moral em alta! É essencial continuar o trabalho de recuperação e ganhar o jogo no Estoril…em Estoril…(nenhuma me soa bem, francamente, talvez “na Amoreira” fique melhor) e voltar para a Invicta para preparar o confronto da próxima semana. Não deixes que a malta desanime mas talvez seja melhor acabar com o jogo cedo para ver se descansas um ou outro rapaz. Parece-me que começam a sentir os jogos nas pernas…

Ah, e se o Brahimi estiver em condições, enfia com o gajo em campo. Não me interessa quem vais tirar do onze, mas Yacine tem de estar lá! Por favor!

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – FC Porto 4 vs 2 Rio Ave

Uma equipa que depois de estar a ganhar sofre um golo cheio de azar ao fim da primeira parte e logo no arranque da segunda parte tem a infelicidade de ter um jogador a fazer uma partida horrível e a conseguir piorar a exibição com um penalty absurdo…e consegue dar a volta ao resultado com três golos consecutivos enquanto batalha contra o cansaço e um adversário muito bem estruturado…só nos pode encher de esperança para o futuro próximo. E preocupação, mas atravessemos essa ponte quando lá chegarmos. Por agora, aproveitemos o sorriso de uma excelente tarde de Sábado e vamos às notas:

(+) Os centrais, especialmente Marcano. Não quero exagerar ao dizer que temos uma excelente dupla de centrais. Há ainda algumas falhas de posicionamento, alguma fragilidade em vencer bolas aéreas e as coisas complicam-se quando é preciso sairem com a bola controlada ou em passes longos. Mas quando comparo estes dois com o que tínhamos desde há vários anos, há algo que se nota de diferente e que não via desde o entendimento quase perfeito de Rolando e Otamendi com AVB: cumplicidade. Ambos jogam um com o outro e um para o outro, em dobras, coberturas recuadas, atrasos ao guarda-redes com protecção, nota-se uma preocupação em serem um bloco em vez de dois elementos separados. Somando Danilo temos os marcadores dos três primeiros golos do FC Porto e talvez os homens mais consistentes do plantel até agora. Belo jogo.

(+) Telles. Três assistências em situações de bola parada. Três cruzamentos impecáveis. Três lances com o mesmo protagonista no arranque da jogada. Alex Telles? Alex Trelles!

(+) Herrera. Um jogo esforçado, multi-posicional e positivo daquele que foi o melhor mexicano em campo hoje no Dragão. É preciso inclinar para a direita e ajudar o Jota? Cá vou eu. Dava jeito chegar um bocadinho mais à frente e correr para pressionar o guarda-redes contrário? Arriba Arriba! Agora querem que venha para defesa direito porque o Miguel passou-se das ventas e não tarda nada vai prá rua? Andale Andale! Pode continuar a cometer muitos erros e a ser o homem errado para a posição onde joga, mas não lhe posso pedir para fazer coisas que não sabe. Hoje esteve bem, ao nível da braçadeira que usa.

(+) 43 mil adeptos no estádio. Ah, se as televisões não mandassem e não conseguissem atirar tanto dinheiro para os bolsos dos clubes…e teríamos bem mais jogos aos sábados à tarde, com um tempinho a ajudar e um ambiente agradável, cheio de famílias e malta que apareceu bem disposta e pronta para apreciar o seu clube a jogar no seu estádio. Aposto que se o jogo se tivesse disputado à hora “normal”, ou seja, quatro horas mais tarde, o número de pessoas presentes no estádio pouco passava dos trinta mil. É preciso continuar a incentivar esta cultura de futebol durante o dia, com luz natural, com vida e uma noite ainda para passar e apreciar! Raios, soube mesmo bem!

(-) Layún. Upa, rapaz, que hoje não vais dormir bem! De parvoíce em parvoíce até saíres, não foi, rapaz? Compreendo que não tenhas ritmo e que estás com vontade de mostrar serviço, mas hoje não foi o dia ideal para saíres da cama porque sempre que tocavas na bola lá havia de sair asneira. Então o penalty nem se fala, homem, porque tu viste bem o que fizeste e o teu sorriso de estupefacção perante a idiotice não engana ninguém. Nem a ti, obviamente. Agora deixa-te estar descansado, afasta-te de twitters e comentários ao jogo, fecha os olhos, arranja o mantra que quiseres e dorme. Amanhã vai ser um dia melhor, prometo.

(-) Inencaixabilidade do meio-campo. Posso estar a inventar uma palavra nova, mas é o termo certo. Continua a ser muito complicado enfrentar equipas que têm elementos fortes e dinâmicos no meio-campo. Com Danilo quase colado aos centrais e os laterais também surpreendentemente recuados, cabia sempre a Corona, André Silva e a Jota a primeira linha de defesa para tentar, como os aliados entrincheirados no Loire, afastar os boches que subiam facilmente pelos montes de terra virgem que apareciam pela sua frente. Atrás deles, Óliver e Herrera tentavam sem sucesso cobrir o terreno que o adversário e recuam porque não têm a capacidade moral nem a disponibilidade física para essas andanças. Não têm, ponto. Trocam a marcação, na busca de cobrir mais espaço mas não conseguem porque o adversário, bem preparado, rápido e acima de tudo prático, coloca pivots nos locais certos para fazer o jogo fluir como uma jogada de bilhar, passes angulares e trajectórias rectilíneas sem grandes floreados mas em incessante procura da lateral para enfiar a bola no meio. Ruben Rubeiro, muito bem entre linhas enquanto teve pernas (como já tinha feito no jogo do campeonato do ano passado no Bessa) e Tarantini no meio a construir fizeram do Rio Ave uma equipa que pôs a nu as nossas falhas, ampliando-as. E o meio-campo continua a ser uma das principais dores de cabeça para mim, especialmente na postura defensiva. E não tarda nada está aí a Juventus. Coisa pouca.


Mais dois pontos ganhos ao Sporting e a pressão mantém-se sobre o Benfica. Não terá uma tarefa fácil…psych!

Ouve lá ó Mister – Rio Ave

Companheiro Nuno,

Fechada que está a primeira metade do campeonato, não posso estar satisfeito. E era menino para estar triste ou entusiasmado mas estou cauteloso. Digamos que não atravesso a rua para nenhum desses lados e, como de costume, mantenho-me no meio. Arrisco-me a levar com um camião nos dentes se não me ponho à tabela, mas esta coisa de um gajo não querer ser dono da verdade nem propagar absolutos também tem problemas. É útil porque não me comprometo para não me chamarem flip-flopper, mas quem não se compromete cedo vê que lhe falta qualquer coisa, um objectivo final que quando atingido leva a que os punhos se ergam no ar, batendo com força no peito logo de seguida. Os que não se comprometem, como eu estou inclinado a fazer, ganham sempre nunca sabendo o que é ganhar. São fracos e incapazes de assumir uma postura e falta-lhes espinha. E eu não quero que digam que não ando direito. Nyah-huh.

Então vou assumir uma postura optimista. Neste arranque de segunda volta vou encarar o negativismo nos olhos, virar-me para ele e dizer: “Oh parolo, olha bem para mim porque não me vais voltar a ver tão cedo! Vou virar-te as costas sem medo e vou seguir o meu caminho, longe da tua intensa e terrível influência. Vou andar cheio de confiança e pronto para um triunfo que vai acontecer porque eu acredito nisso e vou fazer com que todos com quem falo acreditem nisto!”.

A não ser que o jogo de hoje corra mal, Nuno. Aí está tudo tramado e mandas-me logo a moral abaixo sem que eu consiga sequer pensar em puxá-la para cima. Não me lixes a rampa, Nuno!

Sou quem sabes,
Jorge