Ouve lá ó Mister – Benfica

Companheiro Nuno,

É hoje, rapaz. O jogo que está nas nossas cabeças desde há várias semanas e que parecia nunca mais chegar. É hoje. Vais entrar para noventa dos minutos mais difíceis da tua vida e com a certeza que o resultado vai ditar muito do futuro dos teus rapazes e, convenhamos, também do teu. É hora de juntar a malta no balneário, sentar toda a gente e começar a conversa. Não é tempo para medos, receios, cagufa. Não é tempo para arrogância, sobranceria, gabarolice. É tempo de trabalho, de suor e de esforço. E é acima de tudo tempo para tomateira bem rija e bem grande.

Não há estádio mais complicado em Portugal que este que hoje vais pisar com os teus rapazes, se excluirmos o nosso. É um ambiente pesado, com dezenas de milhares nas bancadas a torcerem contra ti e a desejarem que pises excremento sempre que mexeres os pés. Vão estimar que a tua mãe fornique babuínos, que os teus filhos sejam alvo de bullying com prumos e maçaricos e que os teus cães faleçam em acidentes envolvendo fogo e metal derretido. Vão insultar-te, aos teus e ao teu clube. Vão fazer tudo para que não consigas ganhar o jogo. Não te deixes ir abaixo. Não cedas à pressão do medo fácil e mesmo que o sintas, não o transmitas aos teus rapazes. Para eles, tanto como para ti, é um jogo em que só homens resistem e só homens conseguem vencer.

Ninguém te pede uma vitória e tu sabes disso. Mas pedimos-te que sejas audaz, que sejas inteligente e que consigas fazer a gestão do jogo de uma forma esperta, com os timings certos e a dose correcta de cinismo e sentido prático que precisamos para vencer este jogo. Tens de tentar vencer. Tens de tentar vencer. TENS. DE. TENTAR! E depois, seja qual for o resultado, cá estaremos para apanahr as canas ou, em alternativa, rebentar os dedos com o resto dos foguetes. Força, Nuno! Força, equipa! Força, Porto!

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – FC Porto 1 vs 1 Setúbal

“Estou? Sim? É o FC Porto? Olá, viva, daqui fala a Realidade. Exacto, essa mesma. Calma, tenha lá calma, era só para lembrar que estão com os pés elevados há tempo que chegue e que era prudente abaixar as gâmbias para ficarem um bocadito mais…vá, normais. Não leve a mal, a sério, mas há alturas em que parece que estão a colocar os acabamentos todos catitas e pode – não estou a dizer que é, apenas que pode – ser que ainda falte erguer as paredes. E os alicerces também. E as sapatas. E os prumos e por aí fora. Sim, isso. Ah, muito bem, estamos de acordo. OK, logo combinamos para daqui a quinze dias e voltamos a falar nessa altura, pode ser? Impecável, um abraço!”. Notas, já abaixo:

(+) Brahimi. Acabou o jogo exausto, furioso com o mundo, a vida e a relva, frustrado por um resultado que não correspondeu ao que fez em campo. É terrível olharmos para o campo e pensar que Brahimi, como Deco, Quaresma, Hulk e tantos outros, é “o” gajo para quem os colegas olham quando constroem lances de ataque mais rápidos e directos. E Brahimi recebe a bola seja aos oito ou aos oitenta minutos e espera-se que consiga ter o mesmo discernimento e a mesma explosão na forma de executar. Muito fez ele durante todo o jogo e tentou, quase sempre com pouco ou ineficaz apoio, furar a defesa do Setúbal. Raramente conseguiu mas foi dos jogadores mais activos da equipa e não se podia pedir mais.

(+) O golo, de Óliver a Corona. Sublime. A forma como Óliver recebe a bola nos pés, olha para cima e envia a bola por cima dos defesas para o remate perfeito de Corona. Juro que no estádio fiquei a pensar: “Oh homem, tanta força, o Soares não chega lá e nao está ninguém do outro lad…” …e depois vi o Corona. Sim, eu não vi o Corona de uma posição elevada na bancada. Mas Óliver viu, no meio dos corpos e das pernas todas na frente dele, com a bola a rolar e a pressão dentro da área. Não é para todos, não senhor.

(-) Ansiedade. Há duas diferenças muito grande entre este jogo e os diversos jogos que o antecederam: em primeiro lugar, estava em jogo o primeiro lugar; e segundo, a bola não entrava. Os jogadores entraram em campo com o intuito de resolver depressa e despachar rapidamente o adversário e nunca conseguiram acalmar o jogo de uma forma consistente para que a estratégia conseguisse ultrapassar a anti-estratégia (mais sobre isto, bem mais, ali em baixo) do oponente. E foi notória a forma ansiosa, nervosa, aos tremeliques, que a equipa viu os minutos a passar e os lances perto da baliza do Setúbal a acumularem-se sem que se conseguisse enfiar uma lá dentro. Se pensávamos que o excelente golo de Corona podia ter acalmado o povo, a verdade é que o golo que sofremos foi um murro do qual a equipa não mais recuperou e que obrigou a que o desespero tomasse conta dos jogadores, que se deixaram enredar no cinismo do adversário e na sua própria incapacidade de escolher o melhor caminho para chegar à baliza contrária. A verdade é mesmo esta: podia ter sido um jogo como o que aconteceu contra o Rio Ave, onde recuperámos a desvantagem e conseguimos sacar os três pontos. Não foi porque a bola não entrou quando podia ter entrado e porque nos enervámos demais por causa disso.

(-) Danilo. Talvez o pior jogo do ano para um dos melhores jogadores do campeonato. Complicou demais na fase de construção e foi talvez aí que começámos a não conseguir ganhar o jogo, porque no esquema que Nuno apresentou hoje, semelhante ao que já fez em várias partidas, é pedido a Danilo que consiga ser mais vertical e assim faça esquecer o facto de haver apenas um médio de construção. Não conseguiu e a falta desse elemento volante no meio-campo (habitualmente André^2) fez com que o trinco tivesse de levar a bola para a frente mais metros do que é necessário. Somando a isso, teve um jogo trapalhão, com várias hesitações e alguma incapacidade de cobrir o terreno do costume com a habitual eficácia. Foi um mau jogo que veio na pior altura.

(-) Setúbal e o anti-jogo. A dada altura comecei a desejar que alguém tivesse a coragem de ficar “full Joe Pesci” durante o jogo e pegasse num pau, entrasse no campo e rebentasse as rótulas do Bruno Varela e assim provocasse de facto uma lesão que os médicos pudessem tratar, porque a quantidade de vezes que o jogo esteve parado para assistir lesões fantasma do guarda-redes e dos seus muitos seguidores morais que hoje estiveram no Dragão foi qualquer coisa que deve ter dado para bater recordes. Compreendo, como qualquer pessoa que vê futebol há muitos anos, que equipas pequenas tentem gastar tempo para acalmar o jogo dos maiores, mas não entendo como é que esse é o foco primário da estratégia para um jogo de futebol. Foi nojento e os doze minutos de descontos (cinco na primeira, sete na segunda) foram poucos para o que hoje se viu no Dragão. Estimo, do fundo do coração, que o Setúbal precise de ganhar um jogo para se manter na Liga e encontre uma equipa igual do outro lado. E que, perdendo o jogo, desça de divisão, com todos os seus jogadores a chorar em pleno relvado enquanto são atingidos por sacos cheios de estrume em chamas arremessados pelos adeptos que entretanto invadiram o relvado. E que afundem o clube com eles, de uma vez por todas.


Depois de tudo ter mudado, nada mudou. Continuamos em segundo e temos de ir ganhar à Luz. A pausa das selecções afinal pode ajudar, ou não. Seja como for, nunca mais são daqui-a-quinze-dias!

Ouve lá ó Mister – Setúbal

Companheiro Nuno,

Estou a fazer dieta. É verdade, depois de muitas agressões ao meu fígado, estômago e vizinhos abdominais, decidi-me finalmente a fechar a matraca e a fazer algum exercício para que, daqui a uns aninhos, possa finalmente olhar para baixo e ver a pixota para o espelho e ter algum orgulho no que vejo. É raro acontecer e a barba de indigente, somada à despreocupação geral para com o meu aspecto, ajuda a que me foque no interior para que se reflicta qualquer coisa no exterior.

E como em todas as dietas, o que custa é abdicar das coisas mais habituais e forçar aquelas que não são tão habituais. Arroz em vez de massa, iogurtes magros em vez de bolachas, leguminosas em vez de batatas fritas, esse tipo de tralhas que deixam um gajo deprimido e a pensar na vida. Caminhar em vez de enfardar, exercitar em vez de enfrascar, tudo actos que afastam um gajo do prazer de estar vivo e que levarão, espero, a um fim nobre mas através de caminhos tortuosos e infelizes. *suspiro*

Isto tudo para te dizer: não deixes que o meu esforço seja em vão, Nuno. Permite-me gritar e saltar com os golos do FC Porto neste Domingo porque para lá de gastar mais umas nove ou dez calorias com o entusiasmo, sempre me pode trazer alguma alegria e força para o futuro próximo. Porque na Luz, já sabes: se ganhar, que se lixe a dieta, vão finos abaixo quer a pança queira quer não queira!

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – Juventus 1 vs 0 FC Porto

Não gosto de perder. Ninguém gosta. Nao gosto de perder quando mereço ganhar e também não gosto de perder quando mereço perder. Lido bem com a falha mas não me agrada. E não gosto de perder jogos a sério contra equipas a sério, mas perder contra esta Juventus não é uma derrota. É uma naturalidade ligada à segunda lei de Newton, que diz que a força é igual à massa vezes a aceleração: e quando compararem as duas massas e capacidades de aceleração de ambas as equipas, facilmente percebem que as forças são ridiculamente díspares e o resultado é, como disse, natural. Vamos a notas:

(+) O empenho de todos os rapazes. Não gosto muito de dizer coisas como “estou orgulhoso dos nossos rapazes” num jogo em que perdemos. Mas a verdade é que estou, porque conheço ambas as equipas e os jogadores que as formam e se a eliminatória não fosse ganha pela Juventus, algo de muito importante teria acontecido ao longo dos 180 minutos. Mas fizemos pela vida, sem desorganizações loucas, sem perderem a cabeça nem a noção do ridículo e mostrando que este grupo de jogadores que parecia tão destrambelhado aqui há uns meses pode mesmo ter cimentado uma equipa. Estivemos no limite das capacidades físicas, com luta tremenda a meio-campo (André² deve ter acabado o jogo a vomitar de tanto ter corrido, o mesmo para Danilo e Soares), solidariedade no apoio defensivo (Marcano desviado para a esquerda, André Silva para a direita, Óliver a lutar por bolas aéreas…raios, até Brahimi ajudou enquanto pôde!) e uma tremenda vontade de mudar as coisas para conseguirem subir ainda mais alto (Marcano e Felipe nas subidas pelo centro ou pela ala esquerda ou em permanente atenção perante uma frente de ataque com Higuaín, Dybala e Mandzukic – SÓ! COISA POUCA!) fizeram com que possa dizer: ferido, mas não no orgulho. Ferido na alma pela derrota, mas orgulhoso pelo esforço.

(+) O apoio do público. Ouvi, como todos devem ter ouvido, cânticos portistas em Turim. Durante largos minutos fomos mais sonoros, mais vocais, mais entusiastas que os homens da casa, que estariam satisfeitos pela qualificação e com pouca vontade para gastar a garganta em apoio desnecessário. Mérito para os nossos, que fizeram pela vida e foram apoiar a equipa a Itália e a equipa só lhes pode agradecer. Terá oportunidades para isso muito em breve.

(-) Corpo. Nota-se em quase todas as jogadas: eles são maiores que nós. São mais altos, mais fortes, mais largos, mais rápidos. Cobrem mais terreno, avançam mais depressa, tapam melhor as zonas vazias do meio-campo e desdobram-se com uma elegância de movimento que lhes permite colocar em campo o melhor futebol desta eliminatória a dois sem que se tenham de preocupar muito com a oposição. Porque quase não houve, não por nossa culpa, mas porque temos um plantel curto fisicamente e incapaz de lidar com esta malta. Teríamos de conseguir jogar de olhos fechados (algo que eles quase conseguem) para fazer a bola rodar ao ponto de não a verem. E ainda estaremos um pouco longe de o conseguir.

(-) Mente. Outra coisa que nos falta é mesmo esta mentalidade competitiva que vimos na Juventus. Jogaram a passo, com jogadas tranquilamente gizadas, ao alcance de jogadores de calibre bem superior ao nosso e que não podemos, a curto prazo, tentar emular. Mas apenas o faziam quando tinham a bola em sua posse, pois mal a perdiam, logo se lançavam em modo “oficial” para tapar as nossas iniciativas, compensar falhas dos colegas, agindo com velocidade, agressividade e com noção táctica muito acima da (nossa) média, para conseguirem rapidamente retirar a bola aos nossos rapazes e ficar com ela para reiniciar o processo. Dois exemplos simples: a forma como o flanco direito conseguiu “roubar” lançamentos ao FC Porto quando tínhamos jogadores mais bem colocados para receber a bola e quando confrontados com a maior agressividade (mental, não física) dos italianos, perdíamos o confronto antes sequer de o tentarmos travar. Uma vez foi Dani Alves a fazer isso a Layún e na outra foi Cuadrado, depois de encostar Brahimi para fora do campo, tirando-lhe a bola. E Brahimi “respondeu”, no limite da falta…


Aquela entrada de carrinho do Telles sobre o Lichsteiner (que hoje nem jogou) acabou por deitar por fora qualquer hipótese que poderíamos ter de vencer a Juve. A partir daí…foi um bom esforço mas ficaram visíveis diferenças enormes entre as duas equipas e o resultado final é natural. Venha a Champions do próximo ano onde, salvo qualquer catástrofe, voltaremos a estar!

Ouve lá ó Mister – Juventus

Companheiro Nuno,

Todos assistimos ao jogo do Barcelona da semana passada e o deleite de ver duas enormes equipas a batalhar num evento de luta intensa foi incrível. Foi incrível ver uma equipa que tinha sido pisada alguns dias antes a crescer e a espezinhar o adversário numa exibição cheia de querer e vontade de vencer. Foi incrível assistir ao entusiasmo dos jogadores, ao sangue a ferver com a emoção de poder chegar só um bocadinho mais longe para levar de vencido o oponente. Foi incrível constatar que mesmo um resultado tão negativo pode ser virado se houver talento, determinação e uma fé inabalável no resultado de um esforço conjunto que nos leva a repensar na nossa vida e nas pequenas escolhas temerárias que fazemos pelo “menos mau” e pelas “vitórias morais”. Foram homens, aqueles que venceram o PSG, não foram titãs de uma mitologia passada ou seres de dimensões alternativas, com quinze olhos e scuds em cada uma das oito mãos. Gente, como eu e tu, como o Herrera ou o André, o Maxi ou o Soares. Rapazes trabalhadores que com uma pontinha de sorte associada a um trabalho laborioso, esgotante e iamculado, podem conseguir o que parece impossível e trazer uma alegria tremenda na viagem de regresso para a Invicta.

Sou da opinião que é menos provável passarmos a eliminatória do que me crescer um útero cheio de gladíolos e relva cor de rosa onde o Dave Mustaine esteja a fazer um solo de harpa ao mesmo tempo que lança no ar a massa para uma pizza de queijo. Mas espero que estejas preparado para cair para o lado antes de desistires!!!

Sou quem sabes,
Jorge