Baías e Baronis – FC Porto 2 vs 0 Vitória Setúbal

foto retirada de desporto.sapo.pt

Parecia feito por encomenda. Os dois reforços que jogaram num onze bastante diferente do habitual (mas provavelmente idêntico ao que vamos ver no próximo Domingo contra o Leiria) acabam por marcar os golos da equipa, com o médio criativo a marcar de longe e o ponta-de-lança a fazê-lo quase em cima da baliza. Conto de fadas futebolístico no Dragão, povo animado, união entre adeptos e jogadores, aplausos, sorrisos, alegria. Alguém se lembra que aqui há quinze dias passamos um momento humilhante a 60 km deste mesmo estádio? No pasa nada e é surpreendente a forma como a chegada de Lucho foi suficiente para animar o povo portista. Ou pelo menos o povo portista que hoje foi ao estádio, uma amálgama de dragões indefectíveis, famílias completas com miúdos, pipocas e hamburgers e jovens casais que aproveitaram os preços baixos para irem ao futebol. Foi uma boa noite no Dragão. Sigam as notas:

 

(+) João Moutinho Enquadrou-se perfeitamente com o novo colega do lado, tanto o esquerdo como o direito tal foi a rotatividade que impôs ao meio-campo. Sempre o primeiro a criar lances ofensivos, a recuar para vir buscar a bola, foi o Moutinho que gosto de ver. O Xavi português, com o devido respeito ao catalão. E foi notória a preocupação de muitos adeptos em manter o apoio, o carinho, o respeito que todos já temos por Moutinho, especialmente numa altura em que a chegada de Lucho faz com que a atenção dos adeptos mude do 8 para o 3 como já se viu. Gostei de ver e Moutinho também deve ter gostado.

(+) Lucho Quem tivesse sido enfiado num bunker durante dois anos e meio e voltasse ao mundo nesta noite não estranharia em nada ver Lucho a jogar com os outros de azul-e-branco e pensaria que não tinha sequer saído. Jogou fácil, de cabeça levantada e a ver o jogo como sempre fez e tão poucos fazem. Se tiver forma física suficiente e se os colegas Moutinho (ao lado) e Fernando (mais atrás) se entenderem bem, este trio vai ser o melhor meio-campo da Liga a vários kms de distância de qualquer outro porque conjugam a técnica do argentino, a raça do brasileiro e a inteligência do luso. Lucho encaixa como uma luva, alterando o esquema de troca de bola a meio-campo mas sem criar clivagens na estrutura construtiva do ataque portista. Ah, e se continua a marcar golos daqueles…ainda ajuda a levar mais gente ao estádio.

(+) Danilo Se alguém imagina que Danilo vai ser a versão brasileira de Bosingwa nesta nova encarnação de Lucho, tire daí o pensamento. O nosso novo defesa-direito (porque imagino que não perca a titularidade) não tem a mesma velocidade mas anda lá perto e o que salta imediatamente à vista é a forma como descai permanentemente para o centro quando se lança em jogadas ofensivas. Várias vezes o vi a driblar num primeiro momento de construção e a avançar no terreno em tabelas com Lucho ou Varela, criando um desequilíbrio importante na defesa adversária, o que continua a ser um factor muito forte para a afirmação de um lateral no panorama europeu. Danilo tem todas as condições para o fazer e precisa de continuar a mostrar em campo para melhorar alguns pontos que foco em baixo. Vitor, não deixes este moço de fora.

 

(-) As ingenuidades dos laterais Qualquer um dos dois foi caro. Ao todo 23 milhões de euros + comissões que hoje jogaram nas laterais do FC Porto e nota-se que há ali talento. Talvez mais em Danilo que Alex Sandro pela versatilidade e capacidade ofensiva em força e em direcção porque tanto sobe pela ala como rompe para o centro. Ainda assim foram evidentes muitas falhas de concentração e houve um número excessivo de vezes em que foram, como dizem os ingleses, “caught in possession”, que é como quem diz “perderam a bola para o adversário porque se esqueceram que há alguns mânfios que gostam muito de aparecer pela socapa e sacar-lhes o esférico de couro”. Têm de melhorar nesse aspecto porque o Brasil já é passado e na Europa as coisas são mais rápidas.

(-) O trabalho inócuo de Rodriguez O tipo corre, desliza, patina, acelera, tackla, salta, foge, pincha, passa e corta. Mas a produção é curta e raramente consegue mais que um ou dois lances de real perigo para o adversário. É pouco para um extremo numa equipa como o FC Porto e começo a pensar que a expressão “bom esforço!”, tanta vez ouvida quando Rodriguez está envolvido no lance, foi criada especificamente para ele. A questão é que não chega ser esforçado, é preciso criar estatísticas positivas. Cruzamentos, passes perigosos, remates, coisas que dêem golos. E Cebola não está a fazer nenhum deles em condições, por muito que corra.

 

Vi o jogo num lugar diferente do normal. No meio da bancada central inferior, mesmo na linha do meio-campo. Não gostei. Já me apercebi que apesar da emoção que está invariavelmente contida numa partida de futebol, a minha forma de ver o jogo tornou-se gradualmente mais analítica e fria. As diatribes continuam a sair da minha boca como um estivador bêbado, é um facto, mas ver o jogo a partir do meu sector lá em cima é totalmente diferente e dá uma noção bem mais concreta da estratégia e da movimentação dos jogadores em campo. Dali, só mudo para um camarote porque às vezes tenho sede e não admito levantar-me do lugar para ir beber seja lá o que fôr. Ponto.

Baías e Baronis – Gil Vicente 3 vs 1 FC Porto

foto retirada de desporto.sapo.pt

Estaria a roçar o inadmissível ver um jogo destes numa pré-época. Se pensarmos que este é mais um numa série de jogos a não perder para evitar alargar a vantagem do Benfica no primeiro lugar, o impacto de uma exibição deste nível ganha proporções épicas e quase indeléveis. Como que voltando atrás uns meses ao jogo da Taça em Coimbra, onde um recorde de invencibilidade já tinha sido batido noutra competição, o FC Porto jogou em Barcelos com uma inércia assustadora, uma incapacidade de lutar, de vingar, de vencer e de mostrar que os momentos maus tinham já passado e que o futuro era nosso e só dependíamos da própria força para chegar vitoriosos no final da época. Não o fizeram e questiono-me até que ponto a vitória do Benfica na Feira, da forma que aconteceu, não levou a que os nossos rapazes entrassem em campo com a atitude derrotada com que pareceram jogar. Não vi nenhum do empenho que tinha vindo a reparar nos últimos jogos, onde mesmo que as coisas corressem mal parecia sempre haver um brilho nos olhos dos moços que me fazia acreditar neles. Neste jogo, perderam-me e perderam o apoio de muitos adeptos que os louvam e os defendem desde há tanto tempo. Inadmissível, mais uma vez, como no Chipre, como em Coimbra, como na Rússia. Inadmissível. Vamos, penosamente, às notas:

 

(+) Belluschi O único com discernimento no meio-campo. Com Moutinho a fazer uma partida ao nível de um mau jogador de boccia e Defour tão encostado ao flanco que parecia um bêbado numa discoteca, Belluschi entrou para ir ao choque, para criar os passes de ruptura a furar a defesa e a procurar levar a bola não só nos pés mas também a desmarcar-se por entre o ríjido meio-campo adversário por forma a descobrir o espaço que precisávamos. Conseguiu-o uma vez e deu golo. Mas tentou e rematou e passou e cruzou. Fez mais em 45 minutos que os companheiros do meio-campo durante todo o jogo. Juntos.

(+) Álvaro Pereira Fez-me muita mas muita impressão ver o Palito a jogar tão atrás no esquema de três defesas e o rapaz estava nitidamente frustrado por não conseguir subir no terreno pelo flanco como é hábito. Foi ainda mais enervante vê-lo a levantar os braços quando saía da defesa com a bola, a tentar fazer com que os colegas se mexessem, a incentivá-los a criar linhas de passe para arrastar os defesas do Gil ou a sair da marcação para abrir espaços de maneira a que conseguisse voar pela ala. Nunca o conseguiu mas tentou…e tentou…e tentou, até que percebeu que o apoio não ia chegar de lado nenhum.

(+) Varela Marcou um golo e tentou chegar à baliza quase sempre com pouco discernimento mas muita vontade. Nem sempre conseguiu correr com a bola presa aos pés e continua com uma incapacidade crónica de dominar uma bola e colocá-la rapidamente no relvado, mas ainda assim hoje foi dos poucos que pareceu genuinamente interessado em recuperar a desvantagem.

 

(-) Apáticos, tristes e derrotados Só tenho uma pergunta: porquê? O que se passou para que os mesmos fulanos que jogaram no Dragão contra o Guimarães no passado sábado tivessem entrado para o Cidade de Barcelos como meninos amedrontados no primeiro dia de aulas mas com três Prozacs no bucho. O que raio se terá passado?! Terá sido da mudança de capitão? (alguém me explique essa, já agora, porque por muito que prefira um jogador de campo como capitão, a mudança a meio da época parece-me no mínimo questionável). Da vitória do Benfica? Do recorde a bater? Da ausência de Fernando? Dos equipamentos contrários? Anybody? Ninguém sabe e ninguém pode saber a não ser os jogadores e o treinador. Seja o que foi que os afectou, fez com que regredissem até ao jogo de Coimbra e jogassem sem força nem vida, com toda a dinâmica de um dólmen e a agressividade de um éclair. Moutinho não criou perigo, Kleber quase não tocou na bola, Souza não obstruiu, Rolando não cortou e Defour não passou em condições. A ausência de jogadas de combinação com um mínimo de fluidez de jogo criava um vazio que ninguém preenchia e deixava-me ainda mais inerte e preocupado. Não falei durante o jogo todo, não me enervei, não me entusiasmei, não me emocionei. Inacreditável. A meio do jogo fui contagiado pela inércia e comecei a perceber que não íamos conseguir vencer o jogo, algo que raramente me acontece. Eu que sou daqueles crentes que fica até aos 8 minutos de desconto à espera do golo da vitória num zero-zero, que acredita que “vai ser este canto que dá o golo, vais ver!”, parei de acreditar. A equipa do FC Porto que hoje jogou em Barcelos fez-me perder a fé durante noventa minutos. Triste, cabisbaixo, emulei os jogadores. A diferença, a grande diferença, é que eu não estive naquele relvado. E dava tudo para poder lá ter estado com aquela camisola no lombo. Garanto que tinha lutado mais que a maior parte deles.

(-) Arbitragem Não é novidade para ninguém que Paixão é mau árbitro. Desde que o conhecemos, naquela mítica noite em Campo Maior em que Jardel passou o equivalente de uma sessão de S&M com um boxeur profissional, que sabemos que é uma bestinha. Uma besta autoritária, exibicionista e arrogante. E hoje não foi diferente, mas com ressalva para a parte técnica. O primeiro golo surge de uma falta que não o é, o penalty nasce de um lance em fora-de-jogo e até dou o benefício da dúvida para o eventual fora-de-jogo no início da jogada do terceiro golo. Mas o penalty sobre Defour é tão inacreditavelmente evidente que me questiono se o rapaz não estará a precisar de rever o livro das regras que qualquer árbitro deve pelo menos ter folheado uma ou duas vezes na sua vida. Decalco Vitor Pereira desta vez: foi uma vergonha. Mais uma. Não justifica a exibição, atente-se, mas não a ajudou.

 

Nada está perdido. É uma verdade e a matemática está sempre pronta a responder a afirmações cataclísmicas com a certeza dos números. Mas moralmente estamos de rastos, jogadores, treinadores, adeptos, portistas. O FC Porto que vi hoje em Barcelos não quer ganhar, não se quis revoltar contra a arbitragem de Paixão, não se enervou, não se indignou. Limitou-se a continuar a passar a bola de uma forma mais tosca que uma equipa de terceira categoria, resignados a um sentimento derrotista e miserável de quem não consegue virar uma situação desconfortável. E Vitor Pereira, com os erros que possa ter cometido e apesar de ter estado bem na flash onde criticou os jogadores, elogiou o Gil e desancou no árbitro, também não está isento de culpas. Porque aquela máxima parva das desculpas não se darem pois devem ser evitadas só funciona quando se faz por isso. E a anarquia que vi hoje e já vi tantas vezes não pode ser só atirada para os jogadores. Também, mas não só. E nem a falta de Hulk justifica toda a inépcia para praticar um futebol de um nível minimamente aceitável. Foi muito mau e há tanta ferida para lamber que nem sei por onde começar.