Baías e Baronis 2013/2014 – Os guarda-redes

Helton não teve vida fácil este ano. Para lá da lesão em Alvalade que o arrumou da competição a meio de Março, teve uma primeira parte da temporada em bom nível e só pontualmente teve algum tipo de culpa em lances que deram golo ou desestabilizaram a defesa (ainda mais que o normal). Um total de 6 Baías acabam por provar que continua a ser a primeira opção para a baliza, porque com 36 anos não vejo ausência de frescura física nem maceração muscular durante os jogos. Vejo, sim, o habitual excesso de confiança que fez com que sofresse alguns golos que talvez fossem defensáveis…mas contraria isso com um jogo de pés ao nível de poucos no Mundo e uma boa presença na equipa. Este ano foi incapaz de levar o balneário ao seu happy place, infelizmente. Fabiano entrou para o seu lugar em Março depois de já se ter mostrado e de que maneira, com uma estupenda exibição em Alvalade que nos ajudou a manter na Taça da Liga. O jogo em Nápoles foi mais uma mostra da extraordinária elasticidade de Fabiano na baliza, que terá de trabalhar a comunicação com os defesas nas saídas de bola e acima de tudo o jogo de pés. Estamos mal habituados com Helton, meus caros…

HELTON: BAÍA
FABIANO: BAÍA

Baías e Baronis 2012/2013 – Os guarda-redes

Helton é uma personagem. Vai de viola às costas nos estágios como um puto no secundário, faz gestos constantes de apoio e agradecimento para com os adeptos, é baterista numa banda e finta avançados. E estas personagens trazem um sal extra a este maravilhoso mundo da bola, como uma travessa de espargos a acompanhar um prato de caça. São os pormenores do jogo com os pés, a facilidade com que lida com uma pressão mais intensa de um ou outro adversário mas acima de tudo a calma que mostra quando coordena uma defesa que parece ficar mais nova à medida que ele fica mais velho. E a PDI ainda não lhe começou a afectar os reflexos nem o julgamento, porque está mais experiente que nenhum outro no plantel (só ele é responsável por aumentar a média de idades do grupo aí uns dois ou três anos…) e mostra-o em campo, quando impõe a disciplina defensiva nos colegas, com graus variáveis de eficácia mas sempre com a convicção que é o dono daquela zona recuada. E Fabiano, que já mostrou ter bons instintos, excelente elasticidade e presença na baliza (ainda tem de melhorar o jogo com os pés, especialmente tendo em conta o padrão do “puto” que está à frente dele na ordem natural de escolha), vai ter de esperar pela reforma ou pela viagem de regresso ao Vasco da Gama, que parece não estar marcada para 2013. Helton foi Helton durante toda a temporada. Brincalhão, tranquilo, seguro. Não posso pedir mais a um guarda-redes.

HELTON: BAÍA
FABIANO: BAÍA

Vectores do potencial insucesso: táctico

O segundo vector que merece análise é o táctico. E aqui sou um dos defensores de Vitor Pereira desde que começou a introduzir o estilo que hoje pauta o jogo do FC Porto, pelo menos nos dias bons. Gosto de ver a equipa a pausar com a bola nos pés, a rodar pelo meio dos meios-campos adversários enquanto procura o espaço para o passe que devia ser constante mas certo, para a melhor opção, a melhor posição, a melhor oportunidade para maximizar o sucesso da aventura. E foi notória a mudança desde o estilo…em pânico do ano passado, com menos bom futebol e mais “atira a bola pró Hulk” que se viu em 2011/2012, que só resultou no campeonato graças à forma fantástica do brasileiro, bem apoiado por Moutinho e James, que com o regresso de Lucho viram o meio-campo estabilizado e mais fiel ao tipo de jogo que o treinador queria colocar a equipa a jogar. Este ano, livre do “refugo” visto pela SAD e pelo treinador como supranumerários, com nomes como Hulk, Janko, Fucile, Guarín, Belluschi e Álvaro a serem despachados com mais ou menos lucro, a filosofia foi assente em peças escolhidas a dedo, apostas arriscadas e versatilidade de posições e alternativas encontradas dentro do próprio plantel. Foi esse o “rationale” com que arrancámos a temporada.

Mas o estilo não agrada a todos. Há muita gente com quem falo que desgosta do jogo horizontalizado, com rotação de bola excessivamente lenta, com menos remates e mais posse, uma estrutura ofensiva baseada no centro do terreno com os laterais subidos ma non troppo, os extremos que não o são e os centrais a levar o jogo para a frente. Uma boa parte do povo vê-se no meio de uma máquina do tempo parada no mesmo, sem que o sumo que é espremido dos lances de construção arrastada possa saciar a gula ofensiva que pauta o ataque portista. Talvez por isso, juntamente com a crise e os jogos às sextas-feiras e domingos à noite, tenha servido para afastar a gente do estádio. Talvez. E a verdade é que o jogo só muito raramente agradou a todos e trouxe a alegria do futebol-espectáculo às massas.

E há mais.

Os jogadores não parecem gostar. Vejo-os tristes, resignados a um jogo de toque curto com movimentações tantas vezes infrutíferas, enredados em teias montadas por equipas hiper-defensivas que povoam o meio-campo com tantos homens quanto a lei lhes permite, tapando todos os buracos por onde a bola pode passar. E os próprios jogadores, alguns mais espertos que outros mas em grande parte lentos, com pouca aptidão física e mental para deambulações aparentemente sem rumo, muitas vezes parecem parar no relvado à espera que a bola lhes seja endossada para que possam participar do jogo. Vi tantas vezes o flanco direito sem o apoio que um lateral ofensivo poderia dar e que Danilo, por não o ser, não o faz. Izmailov, que chegou para ser um James quando James não estava, perde-se muitas vezes nas próprias simulações e é incapaz de recuperar a bola, o ânimo e a vontade. Jackson está tantas vezes sozinho que começo a questionar se não estará em formação para eremita. E nos últimos jogos temos visto os centrais, quer Mangala ou Otamendi, a arrastar o jogo com a bola nos pés, tentando criar o desiquilíbrio que os outros seis à sua frente são incapazes de gerar.

A táctica é ambiciosa mas tem falhas. Tem falhas por um motivo muito simples: é bonito querer jogar à Barcelona. É audacioso pensar que o podemos fazer. E é utópico pensar que o conseguimos facilmente ao fim de meia-dúzia de meses.

Vectores do potencial insucesso: físico

Serão quatro posts consecutivos sobre o que pode ter levado à queda de produção do FC Porto desde Fevereiro. O primeiro lida com a parte física.

É triste ver o FC Porto em Março de 2013. Quando comparamos este mesmo FC Porto com o que enfrentou o PSG no Dragão em Outubro, o Marítimo (sim, este último que nos roubou dois pontos) no Dragão em Novembro, o Benfica na Luz em Janeiro ou foi a Guimarães em Fevereiro, as diferenças são tantas que é um exercício quase doloroso tentar analisar. Temos jogadores em clara baixa de forma física, com lesões a enfiarem-se pelo meio, como é normal em cada época. É? Talvez seja, talvez não, a verdade é que há jogadores que estão com dificuldades em manter níveis físicos que possibilitem que dêem o contributo em pleno à equipa.

Alguma quota das lesões que foram ocorrendo podem-se dever a razões de exagero físico. Não sou médico nem tenho grandes conhecimentos de anatomia e do sistema muscular, limito-me a dizer “ai” quando me magoo, sei que tenho uma ruptura no menisco e para lá disso não vou, nem quero. Mas se formos atrás, a Agosto de 2012, e constatarmos que o plantel foi construído com princípios de rotatividade e de multi-funcionalidade de alguns jogadores, percebemos que há algumas lacunas devido a apostas exageradas num ou noutro jogador que acabam por desgastar A e sub-utilizar B. Exemplos mais evidentes destas duas apostas: Moutinho e Kelvin, respectivamente A e B no exemplo anterior. Moutinho foi utilizado non-stop em jogos consecutivos, intercalados com viagens pela selecção onde nunca antes tinha jogado tanto, com partidas em que está em campo noventa atrás de noventa minutos, com poucas paragens. A movimentação que o lugar dele obriga a introduzir no meio-campo e em toda a dinâmica ofensiva da equipa é tão evidente que todos notam quando não está presente. Cansou, estourou, a equipa rebentou. O outro rapaz é um dos exemplos de apostas em elementos de rotação que caíram ao lado. Kelvin, tanto como Iturbe e Kleber, foram apostas que nunca conseguiram vingar numa equipa onde chegaram a entrar por diversas vezes mas que por não conseguirem mostrar o serviço necessário, foram baixando na ordem de selecção, desaparecendo para um limbo difícil de contrariar e ainda mais difícil de habitar. Saíram da equipa (e alguns do plantel), obrigando outros a esforço mais intenso.

A profundidade do plantel não é grande. Nunca foi e a aposta seria nisso mesmo. Nem o mercado de inverno, que poderia servir para colmatar falhas no planeamento ou lesões prolongadas, nem a equipa B, que fornece um ou outro jogadores de uma forma excessivamente pontual para o plantel principal, serviram como consolo às falhas dos titulares. Danilo continua sem alternativa directa, bem como Alex Sandro, obrigando a adaptar um central em caso de emergência. Defour foi obrigado a jogar como trinco, médio-volante, médio-ponta e até como extremo nalguns jogos, para tapar ausências importantes. Castro joga a espaços e dez minutos de cada vez. Jackson continua a fazer todos os minutos porque a alternativa que está no banco para o render não parece colher o entusiasmo do treinador. Liedson já jogou pelo FC Porto? Meia-dúzia de minutos. (Kleber jogou mais, fez menos, saiu e não voltará tão cedo…) Entretanto, como o plantel é curto, aparecem as lesões. James, Moutinho, Atsu, Varela. Ah, e Maicon, Alex Sandro, Fernando e Mangala. São lesões a mais, na maioria musculares, que minam as escolhas do treinador e o obrigam a inventar soluções no meio de jogadores cansados, sem capacidade para se esticarem mais do que conseguem durante um jogo, sem pensar no próximo que vão ter de fazer entretanto. Não conseguimos aguentar o ritmo, o corpo ressente-se e os resultados são o que se vê. Uma equipa presa por arames tão finos como teias de aranha-bébé, sem força para piques, sem intensidade para duelos contra formações agressivas, de defesa subida, com pernas e força e garra superior à nossa.

O tanque esvaziou-se cedo demais por culpa de um planeamento arriscado, apostas que saíram ao lado e azares consecutivos que nunca poderiam ser debelados porque se estimou que Murphy não apareceria na pior altura para fazer o maior estrago.

Amanha: a parte técnica.

Não desisto, carago, não desisto!

Queixei-me no ano passado por ter havido tantos jogos em que entregávamos o jogo ao adversário e o deixávamos a tentar porfiar numa qualquer jogada de ataque. Parece que havia uma determinada altura do jogo em que recuávamos para uma posição mais atrasada e nos deixávamos ficar por ali, à espera que o tempo se esgotasse e que desse destino feliz à magra vantagem que na altura tínhamos no marcador. Um golo, talvez dois, e o recuo. Na altura disse: “Parece que estamos a perder a arrogância positiva que devíamos impôr em cada confronto em que estamos envolvidos, aquela exclamação que todos os portistas têm em todos os jogos: “É para ganhar, carago!”.” Foi assim em jogos demais, e a malta chateava-se.

Este ano, o problema é outro. Temos posse de bola em rácios absurdos, mantemos o jogo que o treinador já admitiu ser a sua preferência, conquistamos a bola no meio-campo do adversário e temos a melhor defesa do campeonato. Mas as exibições são inconstantes, cheias de erros, com uma consistência nas falhas técnicas que me preocupam e preocupam todos os adeptos. Já foi assim em jogos demais e a malta, como no ano passado, chateia-se.

Mas peço que se lembrem que estes mesmos rapazes são capazes de bem melhor do que vimos em Alvalade e é nestas alturas que temos de unir esforços para voltarmos a fazer esse tipo de exibições. Lembrem-se do jogo em Guimarães e na Luz ou dos jogos no Dragão contra Málaga e PSG, lembrem-se da pressão alta, das jogadas combinadas, da tal arrogância positiva no controlo do jogo, do domínio da bola em zonas recuadas e avançadas, da incredulidade dos adversários em perceber como nos tirar a bola, a atitude, a força e a vontade. Lembrem-se de tudo isso antes de começarem a espingardar em todas as direcções, a estupidificar na caixa de comentários (de onde só neste fim-de-semana já tive de censurar bem mais que uma dúzia, e só um vinha de verde-e-branco vestido mas com exagero na linguagem) ou a pedir que todos sejam despedidos a torto e a direito.

E lembrem isso tudo aos jogadores, já agora na sexta-feira contra o Estoril. Mas lembrem-lhes com gritos de incentivo, não com assobios.