
Já não é o primeiro nem será o último que me pergunta: “o que é que tu tens com o Lopetegui que raramente o criticas?”. E acaba por ser mais uma forma de desencadear uma auto-análise que me faz perguntar o que faz com que não seja tão crítico do nosso actual treinador como fui no passado de Fonseca e durante algum tempo, de Vitor Pereira.
Gosto de treinadores que trabalham. Um treinador não é apenas uma figura de cartaz, um busto para colocar por cima da lareira para ficar bem e mostrar que temos ali um belo dum enfeite que transforma uma mera sala num monumento para a posteridade e para ser fotografado no “Bustos Semanais”, que podia mas nada tem a ver com seios. Gosto de poder olhar para uma equipa e verificar que há trabalho a ser feito, que as ideias que germinam na cabeça do seu criador estão a passar para o relvado para serem executadas pelos seus pupilos, bem ou mal, demore mais ou menos tempo a chegar a um desenlace em que a produtividade prática excede a teórica. Gosto de treinadores que se defendem e que defendem os seus e gosto de fulanos que mantém uma linha ideológica interessante, ainda que polvilhada de quando em vez por incongruências e hesitações. Gosto de treinadores que são humanos, que não deslizam pela vida pública como entidades robóticas que repetem tudo o que devem repetir, usando lugares-comuns tão banais como vejo tantos a fazer e lamento que não consigam ter a inteligência e retórica de perceber que raramente funcionam, pelo menos perante gente pensante como eu e não em frente ao olhar bovino de qualquer leitor do Correio da Manhã. E também gosto de ver gajos com personalidade a admitir as falhas.
E foi por verificar muitas destas pequenas transformações que apoiei Vitor Pereira no seu segundo ano, porque apesar de ver a equipa a sofrer de uma notável incapacidade de desenvolver um futebol atraente e ofensivo, via que havia ali trabalho e evolução. Era notória a vontade dos jogadores e a sua transformação de humanos em deuses menores acontecia a espaços e não quando o povo queria. O mesmo que nunca aconteceu com Fonseca, onde as ideias de jogo se perdiam tão depressa quanto o próprio Fonseca perdia o balneário para nunca mais o recuperar. Castro, um interino que pouco mais conseguiu que deixar o nome na estatística, nem sabia por onde pegar naquele grupo destroçado que recebeu nas mãos e não o culpo por isso. Fez o que pôde, o pouco que pôde, e também não o culpo por isso.
Lopetegui mereceu carta quase branca na primeira época. E não será assim na segunda, apesar de o manter ainda num estrato de intocabilidade perante a construção de uma equipa quase nova, com muitos elementos ainda a tentarem perceber a melhor forma de cá jogarem e de mostrarem que são bons, porque o são. E podem achar que sou benevolente, calmo e exageradamente tranquilo nas análises do jogo e da forma como Lopetegui gere o plantel e a equipa. Mas como faço com todos os treinadores desde os tempos de Jesualdo (quando arranquei o blog), dou-lhes tempo para mostrarem o que valem. Lopetegui ganhou, por força das circunstâncias da construção do plantel, um novo fôlego.
Lá para Outubro ou Novembro podemos voltar a falar. Sem exageros, gritarias e insultos gratuitos.






