Ponto de situação – treinador

Está a ser uma semana difícil. Começou mal, com a trombeta da desgraça a soar bem alto e a salvação a aparecer nos pés de um jogador emprestado pelo Benfica, e terminou em Chipre, ilha dividida (como foi exaustiva e cansativamente anunciado como novidade pelos jornalistas da RTP) que nos dividiu ainda mais.

Não sou um portista muito antigo. Tenho 32 anos e apenas sou sócio há vinte. Passei por poucos momentos turbulentos quando me comparo com a malta da travessia de dezanove anos no deserto até o salvador Pedroto aparecer com o cajado por detrás do metafórico Sinai e a liderar o povo para longe da servidão. Mas atravessei algumas épocas de seca, entre o penta e Mourinho e depois do Zé (outro Zé, mas sem boné) sair, passando pela devassidão da época tri-partida e chegando ao último ano de Jesualdo. Passei de um futebol aborrecido mas vitorioso com Carlos Alberto Silva, segui com o entusiasmo ofensivo de Robson, a fleuma organizacional de Oliveira, o tédio de Fernando Santos, o exagero defensivo de Ivic e Octávio, a tranquilidade de Mourinho, o desespero de Couceiro, a loucura de Adriaanse, o tacto de Jesualdo e a dinâmica de Villas-Boas. E poucas alturas houve em que, olhando para um campo com onze jogadores de azul-e-branco (ou amarelo, ou laranja, ou ciano, ou violeta), tivesse ficado genuinamente desiludido com o que via. Porque nos piores momentos, nas fases mais negras da qualidade do nosso futebol, sempre se via algum lampejo de luta, alguma tentativa de mudar o que estava a ser feito para que deixasse de acontecer. Lembro-me de um miserável jogo contra o Artmedia em que os jogadores lutaram mas foram incapazes de se organizar; uma desesperada luta contra as forças do mal Manchesteriano onde tudo o que podia correr mal assim correu; um enervante jogo contra o Famalicão onde ao fim de cinquenta remates a bola não quis entrar. Passei por tantos desses jogos…e nenhum foi tão mau como o de terça-feira. E nunca desisti, nem vai ser agora que o vou fazer. Hell, no!

Vitor Pereira, o erro de casting que muitos chamam, aproveitando para ir agora buscar, numa atitude que tem tanto de lusitana como de cínica e oportunista, todos os erros que nunca apontariam se mesmo com derrotas houvesse uma imagem de luta e esforço, esse mesmo Vitor Pereira está a desiludir. Não só por algumas decisões em jogo, por algumas substituições falhadas ou pela incapacidade de colocar a equipa a jogar bom futebol, mas acima de tudo porque está a perder os adeptos pelo mesmo sítio onde Villas-Boas os conquistou: no discurso. É difícil colocar uma equipa de gente fraca a jogar bem. É mais fácil, dir-me-ão, pegar num grupo talentoso e fazer o mesmo. Pois o que temos visto nos últimos jogos é inegavelmente o desmoronar da imagem de um grupo de jogadores que chegou ao zénite do que podia fazer no ano passado à custa de trabalho, esforço, luta e empenho. Tudo o que deixámos de ver este ano e que servia para intimidar os nossos adversários antes mesmo da partida ter início, foi transformado em medo, lamento, infortúnio e desespero. Olhar para o nosso plantel, com a qualidade que ninguém pode negar que existe em quase todos os jogadores, e vê-los cabisbaixos, a perder luta atrás de luta contra jogadores com menos inspiração mas muito mais transpiração, é algo que me preocupa e deve preocupar todos os portistas. E apesar de Vitor Pereira ter a sua quota parte de responsabilidade, muito tem de ser atirado para o peito dos próprios jogadores, que parecem atirar com os braços para o chão à mínima dificuldade e não parecem ter o mesmo espírito que no ano passado nos enfeitiçaram. E Vitor, nos momentos mais importantes onde os adeptos precisam de ouvir o ruído do pai a entrar em casa quando o filho está à procura das bolachas que sabe não poder comer, está a falhar. Por muito que possa respeitar o trabalho nos treinos, a honestidade das opções e da orientação, é preciso mais. É preciso um discurso forte para dentro e também para fora, porque as falhas que se vão notando são exponenciadas quando as palavras são secas, sem alma, sem vida. Vitor Pereira não é Villas-Boas nem tão pouco Mourinho, mas não precisa de ser Fernando Santos.

Houve erros na organização da nova época? Talvez. Hubris em excesso? É possível. Apostas em falso? Provavelmente. Mas olhar para os factos depois deles terem acontecido é um exercício fútil e que só enobrece quem se acha bom antes de o provar. E eu, que sempre dei o benefício da dúvida a novos treinadores (como fiz com Del Neri, Jesualdo ou Villas-Boas), estou a perder a paciência com o nosso Vitor. E não achando que uma mudança de treinador a meio da época, com todas as cambiantes que acarreta, pode trazer algo de bom para a equipa, estou certo que esta linha é uma trajectória descendente da qual poucas ou nenhumas hipóteses haverá de salvação. Mas não desisto, nem nenhum portista o deve fazer. Porque é nos momentos maus que o espírito de luta deve vir ao de cima, é nestes momentos em que exigimos tanto dos nossos jogadores que temos nós próprios de dar a cara pelo clube e apoiar os nossos. Criticando, mas construindo. Apontando as falhas, para que sejam corrigidas, mas pensar em evoluir. Se os sócios estiverem dispostos a baixar os braços e deixar de ir ao Dragão, como tenho visto, ou insistir nas assobiadelas gerais ao primeiro sinal de pernas fracas, a moral que está tão em baixo lá permanecerá.

Tenho fé num futuro melhor. Acredito naqueles rapazes que compõem o nosso plantel porque já os vi a fazer tanta coisa bonita e só posso esperar que voltem a fazê-lo. Mas algo vindo de cima tem de mudar para que tal aconteça e há cada vez menos tempo útil.

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Baías e Baronis – APOEL 2 vs 1 FC Porto

 

Olhem bem para a fotografia no topo do post. Reparem na euforia do público, na celebração dos jogadores do APOEL e no ar cabisbaixo do nosso capitão. Por tantas vezes já olhei para fotografias idênticas e não fosse a diferença cromática, já fomos nós naquela posição, a festejar um golo, uma vitória, uma boa exibição. Já fomos nós que ouvindo o apito final do árbitro nos congratulamos com um jogo de raça, de correria intensa, de força de vontade, de fibra de vencedor e de empenho na vitória, na luta contra adversários hábeis, guerreiros, difíceis de bater e de ultrapassar. Aplaudimos já tantas vezes equipas de azul-e-branco no relvado ou no pelado, em directo ou diferido, ao vivo ou na televisão, já gritámos e cantámos até as nossas gargantas ficarem roucas. Hoje, depois de ver o jogo do Chipre, não me apeteceu gritar, saltar, cantar. Fiquei desiludido porque pensei que iríamos conseguir mudar a atitude e melhorar para subir o nível num jogo de campeões. Hoje, no Chipre, não mostramos nada de campeão. Nem perto disso. Notas abaixo:

 

(+) Mangala Gostei muito do puto hoje no Chipre. Foi dos poucos que conseguiu lutar de igual para igual com qualquer jogador do APOEL e conseguiu impôr o lado físico a partir do momento em que percebeu que o árbitro estava a permitir um jogo mais agressivo. Nunca encolheu os ombros e nem o penalty que lhe foi apontado fez com que ele desistisse da luta, que saísse das trincheiras como tantos dos seus colegas e fez o possível para evitar perigo para nossa baliza. O nosso melhor jogador, sem dúvida, o que diz muito do resto dos rapazes.

(+) Fernando Mais uma vez Vitor Pereira retira Fernando de campo e mais uma vez a rentabilidade do seu substituto é quase nula. Na primeira parte, para lá da forma atabalhoada como ataca todas as bolas, Fernando foi o único jogador daquela “coisa” que já um dia foi o meio-campo portista a conseguir mostrar interesse suficiente para lutar contra um adversário que trocava a bola com uma facilidade tal entre os seus colegas que parecia estarem a treinar entre pinos azuis-e-brancos. Fernando foi trapalhão mas rijo, tosco mas empenhado. E hoje, devia ter tido mais alguns como ele à sua volta.

 

(-) Falta de garra No jogo do Dragão contra o APOEL disse: “Os jogadores do FC Porto locomoviam-se com toda a intensidade de um nado morto, medo de tocar na bola mais que duas vezes e uma gritante incapacidade de gerar movimento e jogadas de ataque com estrutura e rotação de bola. O jogo de posse, como gostamos de dizer que aplicamos, assenta em dois pilares fundamentais: a posse e a procura incessante de linhas de passe para manter a posse. E o que hoje se viu foi uma equipa de matrecos humanos, em que a bola ressaltava de um para outro sem que houvesse movimentação lateral ou desmarcações para criar espaços ou para arrastar os marcadores directos. Não me vou focar num ou noutro jogador em particular porque o problema é colectivo e parece contagiar rapidamente todos os sectores.”. Não vejo necessidade nenhuma de alterar esta perspectiva, mas ela é agravada pelo simples facto de nada ter mudado. Se não fosse Mangala a encostar-se sempre aos avançados e a lutar contra eles com a força que Deus lhe deu e que o deixam aplicar, a grande maioria dos colegas perdia bolas consecutivas em duelos individuais, esperava que a bola viesse parar delicadamente às suas botas em vez de a atacar com a intensidade que era necessária e ficavam sempre atrás de qualquer anormal de amarelo que lhes tirava a bolinha como se tira um rebuçado a uma criança. Só que neste caso, a criança não chorava baba e muito ranho: apenas se resignava e voltava para trás à espera que lhe fosse oferecido mais um Mentho. E mais uma vez tive vergonha de ver aquela equipa a arrastar-se em campo, com uma lentidão e falta de intensidade enervante, sem vontade, sem moral, sem orgulho.

(-) Falta de manha Há semanas que vejo isto. Um jogador do FC Porto tem a bola nos pés, espera até ao ponto em que algum adversário se aproxima e perde a bola. Ninguém o avisa, ninguém procura criar uma linha de passe, deixam-no sozinho e pendurado de uma qualquer corda à espera da morte. Pior, o que tenho visto há algum tempo é uma ingenuidade tremenda. Sabem perfeitamente do que falo: o jogador que vai para a bandeira de canto para queimar tempo; o pontapé para a canela do oponente para ganhar o lançamento; o uso do corpo para proteger a bola; a tabelinha pensada e não apenas executada sem deixar a bola cair. Tantos truques, tanto futebol, tanta “ratice” que podia ser usada…e estamos permanentemente a tentar fazer as coisas bonitas em vez de as fazermos de uma forma prática e directa.

(-) Falta de noção táctica Se tiverem gravado o jogo ou conseguirem apanhar uma qualquer repetição, reparem na colocação do FC Porto em campo quando não têm a bola. A pressão alta é feita quase num 1-v-1, como se estivessem a jogar ao meiinho na escola ou num treino. Os extremos, que não recuam para ajudar atrás, ficam engolidos quando qualquer médio centro do adversário descai para uma ala para fazer uma tabela com um dos colegas e automaticamente há uma situação de desigualdade numérica. Os nossos médios, mandriões, recuam com medo da troca de bola fácil, ao passo que os laterais ficam colados atrás e não pressionam o adversário directo, chegando sempre tarde demais e incapazes de roubar a bola. São erros atrás de erros, infantilidades tácticas que impossibilitam qualquer jogo colectivo coerente. E se somarmos isso à indisponibilidade de ajudar os colegas em dificuldades, é impossível de tolerar. E a culpa é de quem está a olhar para eles e lhes permite que continuem a errar.

 

Aparentemente, pelo que me foi dado a analisar, ainda dependemos (quase) exclusivamente de nós. Temos de vencer os dois últimos jogos, com a condicionante que se o APOEL vencer o Zenit teremos de vencer os russos por forma a conseguir ter uma vantagem na diferença de golos. Ainda assim, este regresso às contas tão lusitanas é algo que me enche de vergonha, não tanto pela competência dos nossos adversários (que existe) mas pela nossa própria inépcia, pela nossa incapacidade de jogar um futebol condizente com a imagem que temos na Europa. Afinal de contas, estamos a dar razão a todos que pensam que a Liga Europa está alguns níveis abaixo da Champions. E até conseguirmos mostrar mais do que fizemos hoje…não fizemos a transição de volta. Vitor Pereira tem a tarefa muito difícil, mas a culpa começa a ser tanto dele como da má forma dos jogadores. Até para mim que acredito no trabalho sério e não no show-off, começa a ser complicado defender-te, mister. E não me estás a dar motivos para o fazer por muito mais tempo.

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Ouve lá ó Mister – APOEL


Amigo Vítor,

Em primeiro lugar, deixa-me ser o primeiro entre os autores do Porta19 a dar-te os parabéns pelas decisões no jogo contra o Paços. Devo ser dos poucos que acha que as presenças de Moutinho e James no banco não são consequências de nenhum castigo ou de uma censura competitiva directa ao comportamento fora de campo dos jogadores, mas sim por motivos tão mais banais que muitos não conseguem compreender por falta de bom senso ou por não aplicarem o princípio de Occam’s Razor às situações do dia-a-dia. Na minha opinião, tanto um como outro têm estado no banco…porque não estavam a 100% fisica e mentalmente. Também sou da opinião que tanto um como outro terão recuperado contra os “castores” alguma da confiança que lhes tinha vindo a faltar e acho que devem estar de volta no Chipre. Pode ser de mim, que tenho sempre fé nos jogadores e apelo sempre ao meu espírito de Padre Américo…até que me lixo e me desiludo. Não creio que corra esse risco com nenhum destes dois.

E o Givanildo, rapaz? Estiveste bem em tirá-lo e ele foi um traquina, o estupor. Mas como qualquer puto depois de partir uma chávena do serviço da Vista Alegre da mãe, foi pedir desculpa e levou uma palmada, ainda que metafórica, na patinha. Pois é, também é preciso fazer actos de contrição quando são necessários, e este foi um bom exemplo disso. Tu que o conheces deves saber melhor que eu que tipo de palha deves levar ao “burro” (não quero com isto chamar jumento ao rapaz, é só um provérbio, pá!) e por isso deixo nas tuas mãos a gestão dessas tretas. O que interessa agora, o que interessa mesmo, é o APOEL.

Mais que vencer o jogo e recuperar os pontos perdidos no grupo, acima de limpar a imagem e recolocar o clube no ponto mais alto do grupo da Champions, sinto um leve aroma a vingança no ar. Uma retribuição medieval, com forquilhas, alcatrão e penas, panelas de óleo a ferver ou snipers em torres de vigia. Qualquer coisa serve, Vitor, para pagarmos com juros o empate humilhante que permitimos aqueles rapazes. Usa o James como falso 10, o Djalma na ala, o Souza ao meio ou o Bracali na baliza. Ninguém quer saber qual é a equipa que vai entrar em campo, desde que a que saia do GSP Stadium possa olhar para o marcador e veja que o número da equipa da direita é maior que o da esquerda. Por um, três, quinze.

Temos de regressar à Invicta com uma vitória. Nada menos que isso.

Sou quem sabes,
Jorge

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The loneliness of the long distance runner

“Listen, my friend, there are two races of beings. The masses teeming and happy –common clay, if you like –eating, breeding, working, counting their pennies; people who just live; ordinary people; people you can’t imagine dead. And then there are the others –the noble ones, the heroes. The ones you can quite well imagine lying shot, pale and tragic; one minute triumphant with a guard of honor, and the next being marched away between two gendarmes.”

Jean Anouilh

Hulk. A alcunha leva-nos a pensar em grandeza, em fausto, na potência e na força do seu futebol, nas arrancadas e nos remates de longe, nos livres directos e nas pernas dos defesas, incapazes de manter o passo do número doze adversário. Desde 2008, quando cá chegou rodeado da dúvida e da incerteza sobre um rapaz que tinha acabado de aterrar vindo do Japão, Hulk é titular absoluto no FC Porto e é talvez a imagem mais reconhecida do clube no exterior, que mantém o público internacional curioso e interessado em qualquer lado onde joguemos. É o poster-boy da equipa, o homem da cláusula, o jogador dos golos fantásticos e agora até é aquele tolo que oxigenou a cornadura.

E a idolatria, aquela a que é votado por muitos adeptos, erguida à custa de trabalho e empolada por tudo que é imprensa, tão ansiosa por criar heróis ao mesmo tempo que espera por uma única brecha na armadura para os encher de setas, é uma pêga cara. Viu-se esta sexta-feira, quando Hulk foi substituído por Vitor Pereira e uma boa parte do Estádio do Dragão irrompeu em aplausos. O escárnio e a maledicência a que Hulk foi votado naqueles segundos, depois de dezenas de minutos seguidos em que nada saía bem, por muito que tentasse, ele, o homem que já nos salvou em tantas ocasiões, que ainda no ano passado jogava e fazia jogar, que brilhou com a força de mil sóis acima de tantos outros…acabou por ter o mesmo destino de Mariano ou tantos outros que vergados pela incapacidade ou pelo azar, saíram de campo sob vaias do público.

O episódio foi sanado e ainda bem. Pelo próprio Hulk, que pôs a mão na consciência e percebeu que a atitude tinha sido abaixo de estelar, abaixo de si, abaixo do seu nível. Só espero que Hulk se aperceba que aqueles que lhe forçaram o franzir do sobrolho são OS MESMOS QUE O APLAUDEM E SÃO OS PRIMEIROS QUE LHE CANTAM AS GLÓRIAS TODAS AS SEMANAS, os mesmos anormais que gostam de ir ao Dragão para assobiar a equipa ao primeiro passe falhado e que vêem o apoio ao clube como uma brincadeira, um show de noventa minutos por entre a conversa e um ou outro balde de pipocas.

Tenho ideia que Hulk tem os pés mais assentes na terra do que lhe dão crédito. Mas se ainda não entendeu isso, se ainda não entendeu que o público é exigente ao ponto de não compreender que os resultados não aparecem depois de um simples estalar de dedos, Hulk está pronto para seguir o mesmo caminho de Quaresma ou Jardel. Ficarão os números e as memórias dos lances mágicos, mas desaparecerá dos nossos corações. Se, como espero, já percebeu que a melhor forma de lidar com este tipo de povo está na calma, no sentido prático e no passe, sacrificando um pouco da estrela que tem dentro dele, vai-se adaptar melhor, como Maniche, Lisandro ou tantos outros. Jogadores mais inteligentes, mais cerebrais, menos geniais. Resta saber se é isso que todos querem: um Givanildo triste e prático ou um Hulk explosivo e que tem direito a falhar como só os génios falham?

Como de costume, no meio está a virtude.

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Baías e Baronis – FC Porto 3 vs 0 Paços de Ferreira

 

Imaginem-se atrás de uma mesa de carpintaria. Têm à vossa frente uma tábua que está suplicando para que seja penetrada por um prego. Agarram um dos respectivos e colocam-no em cima do respectivo naco de madeira e por algum milagre o cilindro de ferro com a ponta achatada equilibra-se perfeitamente a topo do ex-tronco. Nesse momento, procedem a despejar água a partir de um regador em cima do prego durante quarenta e cinco minutos, esperando que por qualquer magia que descendesse dos céus, o prego se enfiasse dentro da tábua. Passado esse tempo e mais quinze para pensar numa melhor forma de romper os veios da lenha, eis quando surge a ideia: “E se eu usasse um martelo?”. Pum. Pum. Prego lá dentro. Simples, prático, quase bonito. E para que raio precisamos, tanto nós como eles, de sofrer tanto?! Vamos a notas:

 

(+) Moutinho Fez apenas metade do jogo mas esteve na metade que interessou. Conseguiu fazer em meia-dúzia de minutos o que Defour tentou durante toda a primeira parte: rodar a bola para os flancos com critério e bom posicionamento. Nota-se bem que é um jogador diferente dos outros pela postura, a frieza e a capacidade de movimentar a bola e os colegas para o melhor local, pela melhor trajectória e com o melhor intuito. E não está sequer perto do melhor que já o vi a fazer, porque se estivesse ao nível do ano passado, aposto que a equipa não estava tão órfã de ideias e estrutura no meio-campo. Marcou um golo de garra, de força, de empenho e por isso está ali em cima no topo do post. No ar, mais perto dos deuses, onde merece.

(+) James Completa noção de espaço, de área, de movimentação com bola e de localização no terreno de jogo. Vitor Pereira está a apostar nele pelo centro, a focar as jogadas para que a bola passe sempre pelos seus pés quando os lances de ataque se estão a desenrolar seja por que ala fôr, já que James é um perigo permanente para a baliza quando recebe o esférico porque ninguém sabe o que vai fazer a seguir. Não é Messi e nunca será, mas tem o mérito próprio de ser um jogador muito acima da média. Nota-se que os colegas já sabem que quando a bola está nos pés dele, a movimentação é sempre a de tentar furar a defesa, procurar a diagonal para enganar os laterais e confundir os centrais, o que ajuda a empurrar o adversário para trás e deixar James brilhar. Quando aprender a rematar em condições…vai ser ainda mais perigoso.

(+) Álvaro Pereira (na segunda parte) Na primeira parte foi dos poucos que tentou rasgar pelo flanco, já que Hulk e Varela, apagados, não conseguiam romper para o centro. Na segunda parte apareceu nalguma da glória que já nos mostra desde 2009, com arrancadas fulgurantes e cheias de intenção ofensiva, particularmente depois de perceber o desgaste de Manuel José que lhe abriu a ala quase na totalidade. Os cruzamentos continuam a não sair perfeitos mas o nosso Palito parece estar com vontade de voltar aos muito bons velhos tempos do passado recente. De um vencedor da Copa America não se espera menos.

(+) Hulk (depois do jogo) É nestes pormenores que se percebe que um jogador de futebol é, acima de tudo, um homem. Por muito endeusados que sejam, aplaudidos até as mãos ficarem vermelhas e aclamados com gargantas arranhadas, continuam a ser feitos de carne, osso e nalguns casos, gordura em excesso. Hulk esteve mal durante o jogo, sabia disso e não conseguiu dar a volta por cima. Tudo saía mal e nada do que tentava fazer resultava em qualquer coisa de positivo para si ou para a equipa. Saiu, substituído por Vitor Pereira, o homem que todos adoram odiar, que teve a lata de o tirar do jogo e muito bem. Abafado pelo irónico aplauso de meio estádio, aparentemente repleto de anormais que de Portistas só devem ter um cartão de sócio e pouco mais, Hulk saiu chateado, com ele e com o mundo, retirando-se para o balneário sozinho e sem passar pelo banco nem pela casa de partida nem receber dois mil escudos. Fez mal (ler abaixo). Depois do jogo, a falar para as rádios (eu ia a caminho de casa e foi aí que ouvi as palavras dele), penitenciou-se, sem pedir desculpa aos adeptos (concordo) mas fazendo-os aos colegas e à chefia, aos que têm de conviver com ele diariamente e poderiam ficar incomodados com o que tinha passado. Atitude digna, humilde e humana de um super-herói que por trinta minutos desceu ao nível dos mortais.

 

(-) Passividade Ao nível do jogo contra o APOEL, com a agravante do adversário ser mais fraco (mas atenuado pelo resultado ser positivo), a primeira parte foi uma das exibições mais abjectas do FC Porto que me lembro de ver. Quase todos os jogadores a praticarem um futebol absurdamente mau, sem ritmo, sem vida, com falhas técnicas anormais, inconsequências permanentes nas bolas ofensivas, falhas inadmissíveis na defesa e uma imagem de desânimo e falta de confiança que fariam o Velho do Restelo parecer um optimista. Mau demais para aqui narrar, entre as bolas que saltavam em frente a jogadores hesitantes, alívios para o ar em ângulos de 80 graus e ressaltos a mais para pernas a menos, é este tipo de jogos que afastam os adeptos do estádio. Sapunaru esteve horrível e com desatenções infantis, Varela lento e trapalhão, Fernando atabalhoado e trémulo, Belluschi sem acertar um passe, Defour a fazer pior que Belluschi e Hulk…ver abaixo. A primeira jogada de jeito aconteceu aos 51 minutos. E a partir daí as coisas mudaram. Felizmente.

(-) Sapunaru O jogo mais fraco da época para o romeno. Em bom português, Cristian, não deste uma prá caixa. Não subiu pelo flanco como devia, pareceu excessivamente nervoso durante grande parte do jogo mas acima de tudo o que me impressionou foi a incapacidade de se entender com Rolando, eles que jogam juntos desde…ora deixa-me cá ver…2008. Falhas infantis na defesa, terrível posicionamento perante o adversário e uma sensação durante todo o jogo que se a bola fosse para o lado dele, qualquer coisa havia de acontecer de muito mau para a nossa equipa. Atina, homem!

(-) Hulk (durante o jogo) Foi um jogo fraquíssimo de Hulk, onde nada correu bem. As fintas saíam muito próximas dos defesas quando o seu ponto forte continua a ser o drible em progressão rápida, com a bola bem adiantada para que usando a força e a velocidade consiga chegar primeiro que o defensor. Nunca o fez e perdeu-se em meandros recuados, com bola atrás de bola a ficar para qualquer tipo de amarelo que lhe aparecia à frente. O público fartou-se e pegou no assobio que parece sempre trazer na matraca e começou a apitar. É evidente que a insatisfação era notória, mas Hulk levou a peito e ainda conseguiu fazer pior, saindo chateado e sem dar cavaco aos colegas nem ao treinador. Não lhe ficou nada bem e ainda no estádio temi que pudesse ter havido outro tipo de consequências decorrentes desta atitude. Quando estes jogos começam a correr desta forma, Hulk tem de mudar para o estilo mais prático, mais passador e com menos bola. Caso contrário vai apanhar muitas mais destas assobiadelas monumentais, porque a gente que lá está parece exigir mais dos outros do que exige a si própria.

 

A maneira surreal com que chegamos ao intervalo, numa mistura estranhíssima de assobios e aplausos, não fazia prever que a segunda parte tivesse um nível de produção tão acima da primeira. E o que mais surpreende é que nem foi assim nada por aí fora para o que já vimos a maior parte destes rapazes a fazer no ano passado, mas os níveis de confiança dos adeptos nesta equipa que temos visto são tão baixos e a expectativa é tão reduzida que um jogo banalíssimo contra o Paços de Ferreira, combativo mas inconsequente, acaba por deixar a malta satisfeita. Ou talvez não. O ambiente no final da partida era soturno, triste e cheio de lamentação. Não estamos a jogar futebol a sério, a equipa nota-se que mostra uma intranquilidade enorme com a bola e ainda maior sem ela, e o facto de continuarmos a vencer jogos deste calibre com resultados deste género mostra muito sobre a competitividade do nosso campeonato. Melhores tempos virão, estou certo, tempos de maior estabilidade e futebol mais condizente com o nosso nível. Looking forward to it.

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