Ouve lá ó Seleccionador – Dinamarca

Amigo Paulo,

Não estás habituado a receber estas missivas da minha parte, tens razão. Compreendo que não me conheças, porque apesar de já ter falado de ti e sobre ti, nunca até hoje tinha falado contigo ou para ti. Hey, Paulo, it’s me Jorge. Apresentações feitas, adiante.

Acho que posso falar em nome da maioria da população que sabe que na selecção há mais jogadores para lá do Ronaldo, porque o resto dos vedetófilos só querem saber se o puto joga bem ou mal e não se interessa pelos outros. Já sei que não gostas, mas que podes fazer? Aguenta, como tens feito. E continua a convencer todos os que vão entrar hoje no Parken que são um grupo dos melhores da Europa, mas fá-los ver que têm de provar isso em campo. Podemos não estar ao nível da Espanha ou da Alemanha, mas temos de ser capazes de lutar contra Franças e Holandas sem ter medo dos gajos e a Dinamarca está abaixo deste segundo grupo. E imagina como vai ser bonito ver o país unido atrás da Selecção, mas lembra-te que desde que o Scolari enfeitiçou o povo luso com promessas de grandiosidade e espírito nacional (kudos para a ideia, palmada para a execução), nunca mais houve harmonia. É triste mas é verdade. E por isso estamos todos à espera de podermos voltar a bater palmas com entusiasmo às nossas cores, mesmo a rapazes como o João Pereira ou o Postiga, porque se tu os escolheste é porque achas que são melhores que os outros que deixaste de fora. E se conseguires vencer, rapaz, os meus parabéns pela ousadia.

Só me resta desejar-te boa sorte para hoje. Se ganhares és um herói porque pegaste numa equipa de rastos e sem grandes alterações conseguiste fazer um bom trabalho. Se perderes e ficares em segundo, já sabes o que te espera. Afinal, estiveste uns aninhos no Sporting.

Só te faço um pedido: se vires que o jogo está resolvido, seja a nosso favor ou contra, faz-me um pequeno favor: oferece um rebuçado ao Sereno e dá-lhe a alegria de poder ser internacional A pelo país dele. Quando o mandares entrar, diz-lhe: “Estás a ver aquele grandalhão louro na frente? Sim, o Bendtner. Trata de lhe espetar uma cotovelada na nuca!”. Fazias de mim um homem feliz. Não gosto daquele gajo nem coberto de compota de mirtilo.

Sou quem sabes,
Jorge

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TV ad nauseam – parte II

Não sou uma pessoa com cultura de café. É raro conseguirem encontrar-me depois de jantar no paleio com amigos no tasco da zona a beber meia dúzia de finos ou a disputar algumas amigáveis partidas de bilhar. Nunca fui assim e não censuro quem o é, mas não tenho pachorra. O que não quer dizer que não combine de vez em quando com alguns amigos um ou outro rendez-vous caféeiro onde se possa conversar um bocado, pôr as notícias em dia e discutir os temas prementes da actualidade. Acontece que quase sempre que dou um salto a um café, há malta a falar de futebol. E se me puser à escuta (discretamente, sem dar nas vistas para não me insultarem), raramente o tema incide sobre tácticas ou estratégias de jogo, ou grandes jogadas de equipa. O normal, é falarem de árbitros, de presidentes, blá-rumores de transferências ou yadda-penalties.

É o paradigma da grande maioria da nossa sociedade que acompanha um desporto, em grande parte influenciada pelo que vê e lê. Se os jornais andam constantemente à procura de fogos que possam atear, a televisão não se mostra como um meio mais nobre para divulgação e análise de situações concretas e directamente ligadas ao jogo. Preocupam-se muito mais com o poder, o que se passa atrás dos panos, as influências, o compadrio, tudo o que o futebol não devia ser. Caso simples aconteceu recentemente na RTPN, agora RTP Informação e brevemente Ex-RTP, onde o único programa onde de facto se discutia futebol e não se focava em temas de bastidores, o “Pontapé de Saída”, foi retirado da grelha de programação por ter perdido o lugar na nova estrutura do canal após restruturação. Anunciou na altura um eventual ressurgimento noutro formato, sem dúvida recheado de Larissas Riquelmes e reportagens fófínhas como o MaisFutebol da TVI, que com a bacoquice e pseudo-elitismo se vai mantendo como um dos poucos programas que falam de futebol per se. Tem o pormaior de ser exibido numa das estações mais parolas do mundo, que faz do baixo nível dos comentários em directo uma espécie de bandeira de qualidade, como se Manha estivesse no Valhalla da bola e Valdemar fosse o Coro dos Deuses.

É com Trios de Ataque, Dias Seguintes e Prolongamentos que vamos andando. Ouvindo famosos que só o são porque os chamam, tendo de aturar advogados aos berros, estatísticos que não sabem o nome dos jogadores do clube e o Fernando Seara. Se fizessem um ranking para ordenar esta malta, só se safava o Miguel Guedes. E o resto, mais palhaço menos palhaço, faz tudo parte da mesma cartilha, daqueles que eu vejo no café, a insultar um amigo porque o clube X não é coincidente na febre do futebol de que ambos sofrem. E o futebol, o meu mundo do futebol, aquele em que se dá importância a uma finta do Hulk, uma desmarcação do Aimar, um carrinho do Rinaudo ou um remate do Helder Barbosa, vai morrendo. Pelo menos até que um deles faça um anúncio para a Nike ou afogue um gato na banca da cozinha. Aí vão-lhes dar importância.

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Leitura para um fim-de-semana tranquilo

  • O Entre Dez analisa a validade do habitual falatório sobre transições no futebol;
  • Filipe Vieira de Sá tenta perceber a evolução dos guarda-redes, no Letra 1;
  • Para quem ainda não viu, pode assistir à reportagem da SportTV sobre Pedroto no Mística do Dragão
  • A estatística do Soccer by the Numbers comprova que na Premier League moram os avançados mais certeiros;
  • Ben dá-nos os parabéns no cahiers du sport;
  • O excelente In Bed with Maradona traz-nos a verdadeira homenagem a Romeo Menti, histórico jogador do Torino nos anos 40;
  • Dêem uma vista de olhos pelo talento para o kitmaking no Switch Image Project;
  • Quase não precisam de legendas para perceber o baile dado a Tevez no Studs Up;
  • Fora do futebol, para desanuviar, a relação de amor/ódio do What’s Your Damage, Heather? com o Twitter;
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TV ad nauseam

Monsieur Nuno, o meu olheiro em terras dos coqs (bem soletrado para evitar chatices com a fonética, porque eu sei que não és desses), chamou-me a atenção para um artigo publicado no blog de Daniel Riolo, jornalista da RMC (Radio Monte Carlo). O meu francês já não é o que foi na altura do meu ensino secundário e está ao nível de um turista a passear em Paris que sabe ler as placas e alguns panfletos para festas underground (clandestins, peut-être), mas até me safei bem e percebi o que lá está prosado.

A posta prende-se com o excessivo enfoque da televisão actual, através dos seus realizadores, na visão redutora e curta do que é de facto um jogo de futebol. Estes números, contabilizados por Daniel Riolo e referentes às repetições exibidas no decorrer do jogo, são conclusivos e preocupantes:

  • França vs Alemanha, Mundial 1982 – 34
  • França vs Brasil, Mundial 1986 – 24
  • França vs Brasil, Mundial 1998 – 89
  • PSG vs Brest, Ligue 1 – 91
  • Lyon vs Rubin Kazan, Champions League 2011/2012 – 127 (!!!)

Riolo avança (tradução é minha, quem achar que está errada ou falaciosa pode visitar o artigo e corrigir-me à fartazana):

“A televisão ignora cada vez mais as situações de jogo em que a bola não está presente, as movimentações sem bola ou desmarcações que são essenciais no futebol. Tendo isto em conta, no próximo jogo reparem bem como são filmados os lançamentos laterais, é inacreditável. Há muitas coisas que hoje em dia já não conseguimos ver, há muitas repetições, demasiados grandes planos, jogadores filmados ao perto e isolados de qualquer contexto. E o futebol é um desporto colectivo!”

Touché. Com a mediatização excessiva que o futebol atravessa, com um ênfase exagerado nas pessoas que vêem futebol com as pessoas que estão de facto a VER futebol, que leva a que o jogo em si seja desconsiderado para agradar a todos. E a vertente financeira é a que mais lucra, porque um plano apertado do Cristiano Ronaldo vende muito mais que todo o meio-campo do Barcelona durante 10 minutos e a camisola justa do Totti é muito mais importante que a organização defensiva do Milan, por muito que não devesse ser o caso para quem gosta de facto de ver futebol.

Riolo continua:

“Infelizmente, o tema “Futebol e Televisão” é um enorme tabu devido aos esmagadores desafios financeiros, ao enorme poder das estações e à dificuldade crónica que há em falar do meio da televisão em si. E as estações nunca convidam pessoas que possam aparecer nos seus programas para os criticar. No entanto, parece que vivemos numa democracia…”

É verdade que a técnica melhorou e é hoje muito mais fácil exibir uma repetição rápida ou focar num cruzamento para avaliar a velocidade ou trajectória da bola que é disparada do pé de qualquer indivíduo. Mas um dos problemas é que leva a críticas instantâneas a árbitros ou jogadores e tantas vezes cínicas e pouco fundamentadas, fazendo com que o público em geral, que habitualmente acaba por comer o que lhe dão sem questionar, como acontece no futebol e noutros ambientes na nossa sociedade, se lance em demandas imediatas e não pare para pensar um pouco no que de facto se passou e se foi mesmo o que lhe foi permitido ver. É assim que o meu pai me dizia: “Este Lucho não joga nada, pá, parece que nem sem mexe em campo e nunca vejo o gajo perto da bola!”, que no ano passado transformou em “Oh, o Moutinho é que parece que não faz nenhum, anda para ali e nunca o vejo muito tempo com a bola nos pés…”. Isto vindo do mesmo homem cujo ídolo futebolístico era…Beckenbauer, que raramente tinha a posse da bola durante mais de dois ou três segundos de cada vez. Mas na altura, o meu pai via de facto o homem com a bola, porque não se filmavam pessoas com cartazes “XXXXX, dá-me a tua camisola”, ou meninas bonitas ao telemóvel nas bancadas, nem se apresentavam os penteados todos ao pormenor enquanto o jogo estava a decorrer. Chamem-me saudosista, vá lá.

É por estas e por outras que o futebol tem de ser visto ao vivo. A televisão, agregadora e universal, traz-nos o desporto para a sala e facilita que vejamos tudo dentro de um jogo. Mas esse tudo é só o que querem que vejamos.

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