
Acho que ninguém esperava um jogo tão fácil como este. É certo que o Arouca não é o Bilbao, que Bruno Amaro não é titular do Zenit ou do Shakhtar e que o David Simão, no alto da sua arrogância nojenta que dá vontade de cuspir em cima, não tem o talento de um Pirlo cego e paralítico. Mas esperava ao mesmo tempo mais do Arouca e menos do FC Porto. Foi uma vitória tornada fácil pela eficácia do nosso ataque, que andava tão fugida nos últimos jogos. Quintero no centro, Brahimi e Tello nas alas mas especialmente Jackson na frente estiveram muito bem e tornaram simples algo que às vezes parece tão complicado. E um cincazero é sempre giro e traz memórias engraçadas, como devem compreender. Vamos às notas:

(+) Jackson. Trabalha como poucos pontas-de-lança vi a trabalharem em todos os plantéis do FC Porto, mantendo as características de um ponta-de-lança que trabalha fundamentalmente na área. Houve Pena, Derlei, Lisandro, entre outros, mas nenhum deles era um Jardel, um Falcao. Jackson, em dias bons, combina as qualidades dos dois tipos de avançado: a mobilidade e progressão em drible dos jogadores que não são tão vocacionados para jogarem na área; o oportunismo e a capacidade de desmarcação que dão nome a um matador. Somemos a isto uma excelente capacidade para reter a bola em zonas mais recuadas enquanto aguarda pela subida dos companheiros…e vendemo-lo no final da época por 35 milhões a qualquer clube. Mesmo com 29 anos.
(+) Quintero. Dez. Dez. E talvez Dez. É esta a posição que Juanfer Quintero deveria sempre ocupar em campo quando estivesse ao serviço do FC Porto. Na selecçao colombiana podem pô-lo a jogar como defesa direito, durmo bem na mesma, mas colocá-lo na linha para flectir na diagonal interior não é a mesma coisa que vê-lo a levantar a cabecinha e a projectar as trajectórias que podem levar a um golo que parece fácil. Vai falhar muitos mais passes, inventar até levar o povo ao desespero. Mas uma vez, de vez em quando…pode dar a vitória à equipa com um singelo toque na bola. A continuar.
(+) Casemiro, finalmente. Um bom jogo de Casemiro, que até incluiu um golo e tudo, de cabeça depois de um canto. E para quem achar que estou a tentar incluir o maior número de conceitos claramente falsos sobre o FC Porto 2014/2015, asseguro-vos que tudo aquilo aconteceu ontem em Arouca. Ao fim de vários jogos com produção claramente negativa, finalmente o brasileiro mostrou-se estável no meio-campo, a tapar bem a dupla de orcs que compõem a zona central da equipa adversária, com Bruno Amaro e David Simão ambos a caírem perante a superioridade evidente de Casemiro e até de Herrera (meu Deus, os eixos inverteram-se!). Bom jogo, espero que continue.
(+) O gesto de Aboubakar para Quaresma depois do golo. Acabou de marcar o primeiro golo ao serviço do clube no campeonato. Celebra rapidamente e faz o quê logo a seguir? Vai cumprimentar Quaresma e acena para o público congratular o Ricardo pela assistência, como que dizendo: “sem ele este golo não entrava!”. Esperto, o nosso Vincent, heim?

(-) Os contínuos erros defensivos. Como se atravessassem um campo de minas de tacões altos. Como se estivessem a pescar num lago gelado no início de Junho. Como se tentassem atravessar uma linha de combóio sem guarda de linha enquanto vendados e com os pés atados. Assim foram os primeiros quinze, vinte minutos da equipa. Como se acabassem de saltar de um avião sem confirmar se o pára-quedas não tinha buracada. Tivemos sorte que o Arouca estava em dia não, porque aqueles momentos de passes mal guiados, recepções duvidosas, sobre-complicadices na defesa e pontapés para a frente directos aos pés de um adversário…continuamos com grandes problemas na saída da bola da defesa e o meio-campo pareceu melhor mas ainda sem conseguir uma produção consistente. A eficácia no ataque ajudou a mascarar as contínuas dificuldades na construção de jogo e a excessiva dependência em jogadores como Brahimi e Tello para impôr velocidade. Só quando o adversário está desgastado e desposicionado é que conseguimos fazer com que Danilo e Alex Sandro subam em apoio ao ataque e se até agora tem corrido razoavelmente bem e de uma forma produtiva…o jogo torna-se aborrecido e pouco agradável de seguir. Futebol bonito…ainda vai demorar a ser regular. Por agora, só a espaços.
Continuamos a evoluir. Devagarinho, sem pressões, é o que precisamos para criar uma estrutura que nos permita lutar pelo zénite (o outro) até Maio. Com alguma sorte, com mais alguns cincazeros destes.



