
Ponto prévio: o homem não precisa de defesa. É um nome tão comum para o mundo do futebol como Ronaldo ou Messi e ninguém ousaria contestar a sua eterna presença na baliza do Real durante tantos anos até Mourinho chegar e optar pela política de terra queimada (com muito sal despejado nos escombros) que tem sido a sua imagem de marca nos últimos anos, com resultados a condizer. E desde a sua chegada no ano passado, Casillas tem sido criticado, alvejado, vilificado, pisado, cuspido e geralmente bode-expiatoriado por todos os quadrantes da nossa sociedade da bola, sejam portistas ou gente de fé alheia. E se me permitem, vou dizer umas palavrinhas sobre isto. Cá vai.
Casillas não é e nunca foi o melhor guarda-redes do Mundo. Está, diria, no top 10, há muitos anos. E não me vou esquecer que é limitado nalguns pontos e excelente noutros, como muitos outros experientes porteros da sua geração, porque nem todos podem ser Buffons e também preferimos que haja melhor que um Wosniak a guardar as nossas redes. Ao mesmo tempo não o endeuso. Não acho que por se chamar Iker Casillas, um nome que me habituei a ver e ouvir há tantos anos, tenha qualquer tipo de tratamento especial em relação ao que faz no relvado. É um bom guarda-redes, não genial. Salvou o Real Madrid ano após ano de humilhações épicas, numa equipa que normalmente ataca tanto que não se preocupa em defender. Porque sabem que está lá aquele puto, o capitão, o Iker. Esse mesmo.
Casillas está exposto ao ridículo não pelo que faz mas pelo que não faz. Porque todos parecem querer que Casillas seja sobrenatural e não falhe, que seja um Titã nas redes ou que exiba a elasticidade de um N’Kono, o poder aéreo de um Schmeichel e a capacidade goleadora de Rogério Ceni. Querem Pfaff, Arconada e Bats. Querem Zoff, Maier e Banks. Querem Yaschin. Querem tudo. Porque um guarda-redes, a entidade mais exposta à falha em todas as que vestem a camisola e entram em campo, nunca pode falhar caso contrário não serve para defender as nossas redes e se esse guarda-redes tiver nome então oh meu Deus que a Acrópole foi destruída e o nome que usavam para bater no peito com aquele poucochinho mais de força acaba por ser enviado directamente para o recto do universo. A pressão é absurda e só alguém com muita experiência como Casillas pode aturar esse tipo de piadas, comentários e jocosidades parolas por pessoas anónimas e comentadores públicos. Sim, o homem falha. Como Helton falhou várias vezes, ou Baía, ou Mlynarczyk ou Zé Beto ou Américo ou Barrigana. Como todos os guarda-redes falham e são mais visados quanto mais nome têm ou (oh martírio) quanto mais ganham.
Casillas tem falhas como qualquer outro. Mas é mais penalizado do que qualquer outro quando as comete e não devia. Um preço de uma fama ganha à custa de um campeonato do Mundo, dois da Europa e sei lá quantas taças espanholas e europeias pelo Real. Só isso, coisa pouca.
