TV ad nauseam – parte II

Não sou uma pessoa com cultura de café. É raro conseguirem encontrar-me depois de jantar no paleio com amigos no tasco da zona a beber meia dúzia de finos ou a disputar algumas amigáveis partidas de bilhar. Nunca fui assim e não censuro quem o é, mas não tenho pachorra. O que não quer dizer que não combine de vez em quando com alguns amigos um ou outro rendez-vous caféeiro onde se possa conversar um bocado, pôr as notícias em dia e discutir os temas prementes da actualidade. Acontece que quase sempre que dou um salto a um café, há malta a falar de futebol. E se me puser à escuta (discretamente, sem dar nas vistas para não me insultarem), raramente o tema incide sobre tácticas ou estratégias de jogo, ou grandes jogadas de equipa. O normal, é falarem de árbitros, de presidentes, blá-rumores de transferências ou yadda-penalties.

É o paradigma da grande maioria da nossa sociedade que acompanha um desporto, em grande parte influenciada pelo que vê e lê. Se os jornais andam constantemente à procura de fogos que possam atear, a televisão não se mostra como um meio mais nobre para divulgação e análise de situações concretas e directamente ligadas ao jogo. Preocupam-se muito mais com o poder, o que se passa atrás dos panos, as influências, o compadrio, tudo o que o futebol não devia ser. Caso simples aconteceu recentemente na RTPN, agora RTP Informação e brevemente Ex-RTP, onde o único programa onde de facto se discutia futebol e não se focava em temas de bastidores, o “Pontapé de Saída”, foi retirado da grelha de programação por ter perdido o lugar na nova estrutura do canal após restruturação. Anunciou na altura um eventual ressurgimento noutro formato, sem dúvida recheado de Larissas Riquelmes e reportagens fófínhas como o MaisFutebol da TVI, que com a bacoquice e pseudo-elitismo se vai mantendo como um dos poucos programas que falam de futebol per se. Tem o pormaior de ser exibido numa das estações mais parolas do mundo, que faz do baixo nível dos comentários em directo uma espécie de bandeira de qualidade, como se Manha estivesse no Valhalla da bola e Valdemar fosse o Coro dos Deuses.

É com Trios de Ataque, Dias Seguintes e Prolongamentos que vamos andando. Ouvindo famosos que só o são porque os chamam, tendo de aturar advogados aos berros, estatísticos que não sabem o nome dos jogadores do clube e o Fernando Seara. Se fizessem um ranking para ordenar esta malta, só se safava o Miguel Guedes. E o resto, mais palhaço menos palhaço, faz tudo parte da mesma cartilha, daqueles que eu vejo no café, a insultar um amigo porque o clube X não é coincidente na febre do futebol de que ambos sofrem. E o futebol, o meu mundo do futebol, aquele em que se dá importância a uma finta do Hulk, uma desmarcação do Aimar, um carrinho do Rinaudo ou um remate do Helder Barbosa, vai morrendo. Pelo menos até que um deles faça um anúncio para a Nike ou afogue um gato na banca da cozinha. Aí vão-lhes dar importância.

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TV ad nauseam

Monsieur Nuno, o meu olheiro em terras dos coqs (bem soletrado para evitar chatices com a fonética, porque eu sei que não és desses), chamou-me a atenção para um artigo publicado no blog de Daniel Riolo, jornalista da RMC (Radio Monte Carlo). O meu francês já não é o que foi na altura do meu ensino secundário e está ao nível de um turista a passear em Paris que sabe ler as placas e alguns panfletos para festas underground (clandestins, peut-être), mas até me safei bem e percebi o que lá está prosado.

A posta prende-se com o excessivo enfoque da televisão actual, através dos seus realizadores, na visão redutora e curta do que é de facto um jogo de futebol. Estes números, contabilizados por Daniel Riolo e referentes às repetições exibidas no decorrer do jogo, são conclusivos e preocupantes:

  • França vs Alemanha, Mundial 1982 – 34
  • França vs Brasil, Mundial 1986 – 24
  • França vs Brasil, Mundial 1998 – 89
  • PSG vs Brest, Ligue 1 – 91
  • Lyon vs Rubin Kazan, Champions League 2011/2012 – 127 (!!!)

Riolo avança (tradução é minha, quem achar que está errada ou falaciosa pode visitar o artigo e corrigir-me à fartazana):

“A televisão ignora cada vez mais as situações de jogo em que a bola não está presente, as movimentações sem bola ou desmarcações que são essenciais no futebol. Tendo isto em conta, no próximo jogo reparem bem como são filmados os lançamentos laterais, é inacreditável. Há muitas coisas que hoje em dia já não conseguimos ver, há muitas repetições, demasiados grandes planos, jogadores filmados ao perto e isolados de qualquer contexto. E o futebol é um desporto colectivo!”

Touché. Com a mediatização excessiva que o futebol atravessa, com um ênfase exagerado nas pessoas que vêem futebol com as pessoas que estão de facto a VER futebol, que leva a que o jogo em si seja desconsiderado para agradar a todos. E a vertente financeira é a que mais lucra, porque um plano apertado do Cristiano Ronaldo vende muito mais que todo o meio-campo do Barcelona durante 10 minutos e a camisola justa do Totti é muito mais importante que a organização defensiva do Milan, por muito que não devesse ser o caso para quem gosta de facto de ver futebol.

Riolo continua:

“Infelizmente, o tema “Futebol e Televisão” é um enorme tabu devido aos esmagadores desafios financeiros, ao enorme poder das estações e à dificuldade crónica que há em falar do meio da televisão em si. E as estações nunca convidam pessoas que possam aparecer nos seus programas para os criticar. No entanto, parece que vivemos numa democracia…”

É verdade que a técnica melhorou e é hoje muito mais fácil exibir uma repetição rápida ou focar num cruzamento para avaliar a velocidade ou trajectória da bola que é disparada do pé de qualquer indivíduo. Mas um dos problemas é que leva a críticas instantâneas a árbitros ou jogadores e tantas vezes cínicas e pouco fundamentadas, fazendo com que o público em geral, que habitualmente acaba por comer o que lhe dão sem questionar, como acontece no futebol e noutros ambientes na nossa sociedade, se lance em demandas imediatas e não pare para pensar um pouco no que de facto se passou e se foi mesmo o que lhe foi permitido ver. É assim que o meu pai me dizia: “Este Lucho não joga nada, pá, parece que nem sem mexe em campo e nunca vejo o gajo perto da bola!”, que no ano passado transformou em “Oh, o Moutinho é que parece que não faz nenhum, anda para ali e nunca o vejo muito tempo com a bola nos pés…”. Isto vindo do mesmo homem cujo ídolo futebolístico era…Beckenbauer, que raramente tinha a posse da bola durante mais de dois ou três segundos de cada vez. Mas na altura, o meu pai via de facto o homem com a bola, porque não se filmavam pessoas com cartazes “XXXXX, dá-me a tua camisola”, ou meninas bonitas ao telemóvel nas bancadas, nem se apresentavam os penteados todos ao pormenor enquanto o jogo estava a decorrer. Chamem-me saudosista, vá lá.

É por estas e por outras que o futebol tem de ser visto ao vivo. A televisão, agregadora e universal, traz-nos o desporto para a sala e facilita que vejamos tudo dentro de um jogo. Mas esse tudo é só o que querem que vejamos.

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Less will be more

A época está agora a começar e rapidamente vamos ser re-inundados pelos programas da praxe, aqueles púlpitos em forma de cadeiras forradas com as cores de cada pregador, onde os eméritos juízes em causa própria manifestam o gáudio ou a indignação pontual e sempre bem fundamentados em factos bem adaptados à defesa da situação em análise (naquela semana, porque se mudarmos a agulha e invertermos os actores, a argumentação muda e o prego vê-se revirado mais depressa que o Dí Maria a cair na área do adversário), prosseguindo semana após penosa semana em cruzadas pessoais travestidas de interesse comum a favor ou contra qualquer moínho quixotesco que lhes tenha apetecido inventar na altura.

E nós, os não-mediáticos membros da prole que gosta da bola, sofremos com as muitas idiotices que rodeiam as efémeras pérolas de inteligência futebolística e análise fria dos acontecimentos para nos perdermos em discussões estéreis em que ninguém nunca pode sair vitorioso, porque quando uma posição se torna de tal forma inflexível não admite, por definição, o contraditório, e somos arrastados para o marasmo da opinião alheia, criando cada vez mais anti-corpos sem motivo e abdicando do pensamento próprio.

No more, I say, no more.

Declaro aqui a firme intenção de alterar a minha rotina semanal que fui mantendo nos últimos anos e deixar de ser um espectador bovino destes programas com o interesse quase religioso que tinha no passado. Não vou cortar “cold-turkey” (ou seja, a 100%), ainda posso deitar o olho de vez em quando em situações em que me sinta tentado a perceber, caso tenha ocorrido qualquer situação fora do comum, mas quero dar mais importância ao futebol e cada vez menos a algumas figuras que só o prejudicam. Fica desde já o meu pedido de desculpas ao Miguel Guedes, um dos poucos que mereceria maior atenção da minha parte. Miguel, dude, estou certo que compreendes. Os programas de análise da bola, como o Jogo Jogado ou o Pontapé de Saída, ainda posso ir ouvindo/vendo, mas o resto vai deixar de ser uma parte permanente das minhas noites semanais.

Só me fica uma certa pena de uma coisa: perder o inesgotável filão de estupidez que vai sair das bocarras de alguns elementos dessas homilias em directo, personificadas por aquelas personalidades que sem ser preciso grande empenho aprendemos a odiar. Enfim, lá vou eu ter de arranjar maneira de me indignar com os cruzamentos falhados do Palito ou os cortes inconsequentes do Maicon…

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All great things have small beginnings

Ainda é muito cedo para começar a tirar conclusões sobre o que será o “novo” Porto Canal, mas devo dizer que gostei do estilo. Sóbrio, sem hipérboles nem exageros, informativo e directo ao assunto. O Super Flash funciona bem como bloco informativo e o Somos Porto, apesar de não ter mostrado o que virá a ser no futuro, mostra potencial para ser um programa com comentário inteligente.

Pinto da Costa esteve bem, calmo, a focar-se bem mais no FC Porto que nos outros e a debitar alguma informação interessante, particularmente no que diz respeito à política de transferências e de formação. Gostei da forma como nos distanciou desde já do modelo seguido por muitos outros clubes e especialmente do Benfica, com o canal a funcionar mais como ponto de vergonha de uma instituição que merecia ter uma cobertura menos acintosa do dia-a-dia das suas equipas. Foi talvez das entrevistas mais bem conseguidas para quem como eu se interessa mais no bem do meu clube que no mal dos outros.

O projecto arrancou. Vamos deixá-lo crescer, melhorar e daqui a uns meses volta-se a fazer um ponto de situação.

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