Ouve lá ó Mister – Boavista

Companheiro Nuno,

As coisas não estão famosas, pois não? Este empate em Tondela, para lá de ter sido um jogo tão interessante como ver um presunto a adquirir sabor num fumeiro, acabou por te fazer perder algum capital de confiança que tinhas junto dos adeptos. É uma amante cruel, esta vida de treinador, não é? Tanto te leva a patamares de êxtase como os que tiveste em Roma como no minuto seguinte te enfia num poço de depressão onde a luz é tão difusa e longínqua que faz os cabrões na alegoria da caverna pensarem que são holofotes que criam as sombras. É tramado ser treinador do FC Porto nos tempos que correm.

Mas convenhamos que hoje pode ser um jogo diferente. Eu sei que o “processo de formação” está em curso e que a “eficácia” não é a melhor ou até que a “mentalidade competitiva” demora a assentar. Mas hoje é dia de derby, Nuno. Derby, carago, contra aqueles tabuleiros em forma de camisola que ousam colocar as patinhas no nosso estádio, conspurcando-o com a lama que pinga da alma suja e vil que detém. É calcá-los como se fossem trampinha de cão. Enfiar-lhes os dedinhos pelo esfíncter acima para que lamentem a existência e façam com que as mães chorem para os céus ao perceberem o destino que os filhos terão.

E no meio deste desterro, vê lá se ganhas o jogo. Um espectáculo dantesco sem uma vitória não vale de nada.

Sou quem sabes,
Jorge

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Baías e Baronis – Tondela 0 vs 0 FC Porto

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Mais ou menos pela hora que o jogo estava a ser disputado, estava eu a acabar de dar banho à catraia e a responder pela milésima vez a uma das perguntas-tipo cá em casa: “Estás bem, pai?”. E estava, estava mesmo bem. Agora se ela me perguntasse a mesma coisa à hora que escrevo estas palavras, a resposta seria qualquer coisa como: “Claro que não, minha linda ingénua, não vês que o clube que o teu pai apoia está a desmoronar-se num marasmo de ideias e incapacidades que não conseguem sequer mandar abaixo uma das equipas mais fracas da história da humanidade futebolística? Sim, querida, outra vez. Pois, eu sei, não consigo explicar, um dia mais tarde talvez percebas. E sofras.” Sigam as notas já abaixo:

(+) Casillas. Safou a equipa de uma derrota inconcebível e tentou comandar uma dupla de centrais que não se entenderam nada bem durante o jogo.

(+) Otávio. Em particular na primeira parte, foi talvez o único jogador que conseguiu furar entre o que parecia uma loja de camisolas verdes e amarelas com manequins plus-size que davam pancada em tudo que viam. E ele levou, oh se levou, mas levantava-se e continuava a lutar. Não chegou.

(-) Zero. Zero de ideias. Zero de capacidade de luta a meio-campo. Zero de remates perigosos de meia-distância. Zero de situações de perigo construídas em condições. Zero de entendimento. Zero de técnica na recepção da bola. Zero de atitude perante a absurda tentativa de perda de tempo do adversário. Zero de pressão sobre o árbitro que permitia toooooooooooooooda a agressividade e o abdicar de jogar futebol de uma equipa que coloca a sua equipa a jogar de uma forma tão feia quanto o seu espelho lhe mostra todas as manhãs. Zero de opções convincentes na troca de bola pelas laterais. Zero de entradas na área em combinações quando há tanta gente no meio-campo com talento. Zero na parte física onde anda tudo a arrastar-se pelo campo. Zero de mentalidade competitiva prática e intuição de golo. Zero. Zero. Merecemos o zero.


Zero-zero contra o Tondela. Zero-zero. Zero. Zero. Não será uma noite fácil para adormecer, garanto.

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Ouve lá ó Mister – Tondela

Companheiro Nuno,

 

Ora viva mais uma vez. Rica trampa o jogo de quarta-feira, não foi? Foi, pois. Apesar dos gajos não serem nenhumas espingardas fantásticas para a Champions, lá nos roubaram dois pontinhos que nos podem vir a fazer muita falta mais tarde e se não conseguimos vencer um dos dois jogos mais fáceis do grupo, quem nos garante que vamos conseguir ganhar os mais complicados? Pois é, rapaz, eu sei que são jogos difíceis e que o Copenhaga não é nenhum Tondela, mas as coisas complicam-se quando deviam ser simples e tens de arranjar maneira de resolver isso na próxima jornada, em Inglaterra. Cavaste o poço, agora sai dele. Mas hoje a conversa é diferente.

Estes filhos de mãe incerta, liderados pelo seu treinador que foi durante vários anos uma das figuras mais desprezadas que jogou em Portugal, pelo menos do nosso ponto de vista, vieram no ano passado gamar três pontos no Dragão. E ainda estou a espumar um bocadinho de revolta e com vontade de os empalar num prumo cheio de rebites, por isso deposito toda a minha confiança em ti e nos teus muchachos para conseguires sair da terra deles com o mesmo saco cheio que eles levaram em 2015/16. Acredito que vais conseguir e só te dou um conselho: luta. Oh pá, convence-os de que maneira quiseres que o meio-campo vai funcionar, os laterais vão estar atentos e práticos e que os avançados estarão eficazes e prontos a enfiar a bola na baliza. Seja o Depoitre, o André ou até o Felipe a ponta-de-lança, quero lá saber. Só me interessa é ganhar o jogo para voltarmos a estar confiantes e prontos para a próxima jornada que é de derby e que também quero ganhar com todas as forças. Vamos lá continuar a quebrar a má tradição amarela do ano passado. Abaixo e adiante!

Sou quem sabes,
Jorge

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Baías e Baronis – FC Porto 1 vs 1 Copenhaga

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Se há uma coisa que podemos tirar da surpreendentemente amena noite de hoje no Dragão é que ainda não estamos lá. Talvez ainda consigamos chegar lá, mas ainda não estamos. Lá. E onde é “lá”? Lá é um patamar de futebol consistente onde a bola se mexe mais que os jogadores e onde as posições são ocupadas em conveniência perante as dificuldades da partida, onde as rupturas acontecem sem pensar e as movimentações são fluidas e naturais. Como vimos, ainda não estamos lá. Estamos a caminho, mas com muitas curvas e poucas rectas. Vamos a notas:

(+) Danilo. Dos poucos que jogou a um nível superior esta noite, foi um dos principais responsáveis pelo combate no meio-campo e nunca se alheou dessa responsabilidade. Apesar do golo ter surgido depois de se deslocar da sua posição para lutar pelo ar contra um dinamarquês, pareceu-me que a culpa não lhe pode ser imputada porque não houve (mais uma vez) cobertura adequada para a sua ausência e Danilo tem recebido críticas que na minha opinião são injustas exactamente por isso: falta de cobertura dos colegas. Foi rijo, foi físico e foi o único a fazê-lo. Um dos únicos que consegue, é certo, mas fez o que pôde.

(+) O lance do golo. Recuperação de bola adiantada? Check. Bola para o avançado? Check. Tabelinha de costas para o médio que aparece em zona de remate? Check. Pum cá vai disto mete a mão ó guarda-redes se conseguires? Check. Would that it were so simple…

 

(-) A estratégia de acordo com a capacidade física. Não tenho dúvidas que Nuno sabe o que tem e o que não tem. Sabe que tem um meio-campo com enorme talento e potencial para trocar a bola como uma equipa grande. Sabe que os laterais podem ajudar a fornecer largura quando o jogo se tornar demasiado concentrado no miolo. Sabe que tem um avançado ágil e inteligente que se mexe bem entre as linhas e que busca a desmarcação com instintos Inzaghianos. Sabe também que o médio de cobertura é o único elemento com capacidade para lutar contra adversários fisicamente mais fortes e que sabem usar essa força. Isto para dizer que percebo a estratégia de abdicar da pressão alta e de permitir que o adversário troque a bola até os últimos 30/35 metros em frente à nossa baliza. Nuno assume que se tiver de lutar com hobbits contra orcs, os grandalhões vão levar tudo e não pagam a conta, por isso há essa atitude mais passiva de não tentar com todas as forças recuperar a bola porque os rapazes são pequenos e não tão combativos quanto isso. O jogo do FC Porto só funciona, em condições normais, quando a equipa tem a bola na sua posse. Aí sim, podemos rodá-la entre os homens do meio-campo com o apoio do(s) avançado(s), sejam dois na frente ou o tridente de hoje, acompanhados dos laterais. É o que consigo entender da forma passiva como o FC Porto 2016/2017 olha para o jogo: se não consegues bater-lhes no jogo deles, espera que falhem e aproveita. É conservador e até um pouco humilhante para um clube habituado a outros voos, mas é a forma como Nuno conseguiu contornar o problema de não ter elementos rijos no meio-campo. Mas a equipa não pode ser tão passiva. Não pode depender do adversário para pautar o seu jogo, tem de ser mais solidária na pressão, tem de ocupar mais espaços e fazê-lo de uma forma mais consistente e planeada. Não pode recuar depois de marcar um golo e jogar continuamente na espera das jogadas de ruptura para aparecer em 1×1 contra o guarda-redes contrário. Vendo o FC Porto assumir esta postura não me dá garantias de qualidade. Só me dá a imagem de um treinador que faz o que pode com o que tem. E o que tem, pelo menos por agora, é curto.

(-) Os laterais. Um jogo para esquecer de Layún e Telles, que não só tiveram de defender a dobrar pela pouca ajuda que Otávio e Corona lhes prestaram, mas especialmente porque a abertura de jogo pelos flancos fez com que estivessem em evidênvia pela incapacidade de construir jogo em condições e de cruzar a bola acertadamente para a área durante todo o jogo. Pareceu-me que tinham instruções para não bombear a bola à louco e assim cair na armadilha dos bisontes escandinavos mas a forma indecisa como Layún chegava perto da área e tentava o 1v1 quase sempre com maus resultados ou como Telles cruzava larguíssimo para o segundo poste ou directamente para as pernas dos defesas a cobrir o primeiro foram enervantes.

(-) A (natural) falta de rotinas. Há uma jogada na primeira parte que mostra bem do que falo. A bola está do lado direito, em Herrera (mais um belo jogo para emoldurar e enviar abaixo da sanita) ou Layún e aparece Corona e André Silva a fazerem diagonais…ao mesmo tempo, para o mesmo lado. Se André não tem culpa por ter o mexicano a fazer o mesmo nas suas costas, também Corona não pode ser culpado porque estava a deslocar-se para o “seu” sítio. Mas ainda falta muita comunicação entre sectores e ainda se nota mais quando essa comunicação não parece existir no mesmo sector. Tempo, precisa-se de tempo para os homens se entrosarem e é coisa que não há para gastar à toa.


Uma parte de mim acha que o empate se deveu ao facto de não ter tido tempo de tomar café no Bom Dia porque o trânsito estava impossível e cheguei mesmo em cima da hora ao estádio. Não é uma grande parte mas existe. Sim, sou tolinho, é o que temos.

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