Baías e Baronis – FC Porto 5 vs 0 Nacional da Madeira

 

Leitura do Livro do Dragão, capítulo 23, versículo décimo: “E vendo o sofrimento do seu povo e a lamúria dos seus discípulos, Deus fez com que um grande dilúvio se abatesse sobre o Norte da Terra, fazendo as chuvas cairem do céu com intensidade de um remate do Celso e os ventos ecoarem por entre as árvores como uma corrida do Hulk. E o povo, que até lá sequioso olhava para sinais de esperança, viu a bendita água a deslizar pelos lençóis da VCI e agradeceu, porque as uvas não mais se transformaram em passas, o gado pôde voltar a pastar em verdejantes campos e os honrados guerreiros foram recompensados com o escalpe do derrotado. E Deus olhou, guardou o cachecol na gaveta, e foi ver um episódio do Dexter. Assim seja.“. Em poucas palavras, foi bom, não genial. Foram cinco golos, mais ou menos merecidos, mas acima de tudo fica na retina a intensidade diferente quando comparado ao que tínhamos visto na passada quarta-feira, com mais garra, mais fibra e acima de tudo maior jogo de equipa e entendimento. Vamos a notas:

 

(+) Belluschi + Defour Foi o meio-campo que melhor funcionou esta temporada que juntamente com Moutinho fizeram o que quiseram do Setúbal aqui há umas semanas. Os dois primeiros estiveram muito bem, complementando-se nas dobras defensivas e nunca fugindo da luta e das bolas divididas. Defour, mais sóbrio e mais inteligente no controlo do jogo, esteve bem no passe e bom na cobertura dos espaços que eram deixados vazios por Fernando que teve de ir muitas vezes ao flanco para compensar as subidas de Álvaro e principalmente o overlap criado na frente de Sapunaru. Belluschi impressionou-me pela atitude de líder, pela força e pela capacidade de criação de jogadas ofensivas da equipa, sempre a falar, sempre a mandar, sempre com os braços esticados a coordenar os colegas do meio-campo e da frente de ataque. Moutinho continua a ser a minha primeira opção para titular, mas parece-me lógico que gosta mais de jogar com outro ao lado dele que seja similar, desde que haja cobertura mais física na rectaguarda. Se assim fôr e voltarmos a ter a rotação que gosto…torna-se difícil decidir quem deve jogar.

(+) Varela Terá voltado o Varela do ano passado? Corrijo: o Varela do início do ano passado? É cedo demais para afirmar, mas o Silvestre que hoje vi a jogar pareceu diferente. Fiquei surpreendido de o ver a titular mas como o relvado estava molhado e muito rápido, compreendi a opção. E o rapaz rendeu, usando o apoio a meio-pau de Álvaro, claramente sem pernas para muito mais do que tem mostrado, mas Varela conseguiu manter uma posse de bola inteligente e acima de tudo mostrou entrega, luta, fibra, ajudou na defesa, participou na travagem do jogo do Nacional pelo lado esquerdo e ainda teve tempo para lançar contra-ataques perigosos. Ainda não o tinha visto assim esta época e fiquei satisfeito com o que vi.

(+) Mangala Para um rapaz de vinte aninhos, não está nada mal. Rápido, forte, rijo, difícil de contornar e quase impossível de bater pelo ar, tem tudo para ser uma presença regular no onze. Ao lado de Rolando, que continua a passar por algumas dificuldades no controlo de bola (o rapaz já devia ter melhorado em tantos anos) e no posicionamento perante adversários mais rápidos, Eliaquim manteve-se sempre atento às jogadas de assédio da área portista e nunca deixou que o adversário passasse por ele. Ainda assim, há pontos negativos na sua exibição, que se focam na aparente incapacidade de sair com a bola controlada de uma posição difícil. Mangala chegava perto do adversário, ganhava-lhe a bola…e depois colocava-se mal e perdia-a outra vez. Precisa de melhorar na concentração que precisa para render sempre a um nível consistente quando tem a posse de bola, porque perde-a tão depressa quanto a recupera.

(+) Walter É um jogador diferente de Kleber, sem dúvida. Retém muito mais a bola, controla a pressão dos defesas e consegue rodar o jogo para o extremo mais próximo com maior facilidade que o ex-Marítimo, só pecando pela lentidão que é inerente aos jogadores que possuem forma de planeta. Gostei da forma disponível com que rodou na pressão da equipa, atacando o adversário directo e ajudando os colegas no trabalho defensivo. O Walter do ano passado não fazia o que este faz e nota-se bem a diferença. Pode ser gordo, fóti, bucha, chamem-lhe o que quiserem. Mas têm marcado golos e anda mexido, com vontade de jogar. Por agora, vai chegando.

 

(-) Hulk Preferia não dar um Baroni a Hulk porque o rapaz anda esforçado. Podem dizer mal dele à vontade, podem até criticar o novo modelo “Songokhulk” que apareceu hoje no relvado do Dragão, mas continuo a apoiar Hulk pelo talento e pelo esforço. Vejo Hulk como um elemento fundamental, capaz de rasgar defesas e de furar os blocos de gelo mais refundidos do fundo do Ártico quando está em forma, mas hoje não foi um desses dias. Marcou um belo golo, é verdade, e tentou furar, tentou penetrar pelas barreiras defensivas do Nacional mas as fintas não saíam em condições e a incapacidade de produzir jogadas de perigo durante quase todo o jogo penalizou a equipa que vê tantas vezes nele um salvador da desinspiração colectiva. Mas o Baroni não é para a pouca produtividade, longe disso. Enervou-me mais vê-lo incapaz de estar calado perante qualquer gajo de preto, fosse o principal ou os que andam c’o pau na mão. Não gosto de ver jogadores constantemente a reclamar com os árbitros, tendo ou não razão para tal, e Hulk parece ter regredido nos últimos tempos ao Hulk de 2008, que dizia mais vezes “Ei, professô!” do que “Joga, joga aqui!”. Tens de ter calma, porra!

 

As alterações de Vitor Pereira correram muito bem e para lá de ter alguma sorte do jogo, o que foi mais interessante foi perceber que alguns dos rapazes que hoje apanharam com uma quantidade inusitada de chuva no lombo mostraram que estão ao nível dos habituais titulares. Estranha-se, portanto, que os titulares não mostrem um nível de jogo bem acima do que estes moços hoje fizeram. Só podemos tirar duas conclusões: ou o plantel é de facto composto por jogadores de valia equilibrada e que podemos continuar a rodar de jogadores quando fôr necessário por imperativos físicos ou tácticos…ou os principais nomes estão muito abaixo do que podem fazer. Gostava de apostar na primeira mas se puser o meu dinheiro na segunda sou capaz de facturar mais. De qualquer forma gostei da maneira como os rapaes se mostraram, com disponibilidade física, alguma inteligência e muito menos nervosismo do que estava à espera. Continuem, putos!

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Ouve lá ó Mister – Nacional da Madeira


Amigo Vítor,

Estou desiludido contigo. Quando saí do Dragão na passada quarta-feira parecia que uma grande tristeza se tinha apoderado dos meus pensamentos e só muito difícil consegui racionalizar os eventos das anteriores duas horas. Não pode ser, homem, não podemos continuar neste ritmo, com toda aquela passividade que mostraste ao lado dos teus pupilos. Sei que as coisas não estão fáceis e que está a ser complicado dar a volta à cabeça dos moços, mas acredita que nada vai ser mais tranquilo a partir deste momento. Pelo contrário.

Mas não interessa mesmo nada pensar que o Nacional é um papão que vem cá e come criancinhas como o Ceausescu na Roménia dos 80s. É mais uma equipa que tem de cair, é mais uma oportunidade que tens para mostrar que estás à altura de gerir uma equipa de cima para baixo e que consegues pô-los a fazer o que mais interessa aos adeptos: ganhar. Já reparaste que a malta começou, na sua infinita e absurda estupidez, a assobiar. Não consigo lidar com isto, pá, não te posso ajudar aí a não ser…não assobiando e apoiando. É o máximo que se pode exigir a um gajo como eu, que lá aparece semana sim, semana não, que sabe que não é fácil sobreviver num mundo onde a pressão existe sempre e onde por muito que tentes há sempre algo que corre mal. E na semana seguinte, se calhar ainda corre pior. Mas os grandes, Vítor, mais uma vez te digo, os grandes são aqueles que conseguem pegar no touro pela cornadura e dizer-lhe: “Ouve lá, ó touro, tu bate a bolinha baixa e não venhas para aqui armado em parvalhão. Down, boy! Quem manda aqui sou EU!!!”, para ver o bicho a fugir com a cauda caída e o mafrim murcho.

Tenho para mim que não vais fazer alterações à equipa. É só um feeling e pode estar totalmente errado, mas apostaria que pelas 18h15, os rapazes que vão entrar em campo com os casacos de fato-de-treino a proteger as camisolas vão ser exactamente os mesmos que fizeram o mesmo percurso contra o APOEL. Se isso acontecer, se fôr essa a tua forma de ver as coisas, nada contra. Mas promete-me o seguinte: convence-os que se fizerem o mesmo tipo de jogo que na passada quarta-feira…começa a ser difícil apoiar-te a 100%, Vitor, porque é sinal que nada mudou. Quatro dias é pouco tempo para alterações de fundo, mas hoje precisamos de ver algo de novo. Seja com os mesmos onze ou com outros, alguma coisa tem de mudar para melhor. Ou eles ou tu. Trata lá disso e boa sorte para o jogo!

Sou quem sabes,
Jorge

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Leitura para um fim-de-semana tranquilo

  • O Maillots de Sport publica a lista dos jogadores que mais camisolas vendem em Espanha;
  • Jonathan Wilson analisa a competitividade da Premier League;
  • As tácticas de Alan Pardew no meu querido Newcastle em análise pelo BBC Football Tactics Blog;
  • A aparente regressão do Lyon explanada no Planeta Axel;
  • O Soccermetrics revê alguns trabalhos publicados sobre análises ao trabalho físico e técnico dos árbitros;
  • A nova geração de guarda-redes na Premier League é escalpelizada no Ministry of Glove;
  • Para uma noção dos valores recebidos pelos clubes ingleses pela venda das transmissões televisivas, dêem um salto ao The Swiss Ramble;
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Pressão

A pressão é uma meretriz. Dá cabo de uma pessoa, rói as entranhas como a segunda cabeça do Alien e pode transformar o maior candidato a beato num poço de fúria descontrolada. É difícil de lidar com ela, como uma amante exigente ou um filho desgovernado, e só os muito fortes a conseguem olhar nos olhos e dizer: “Hoje não. Hoje quem manda sou eu e não me vais mandar abaixo. Nem que me rasgue todinho, hoje eu é que fico por cima, ouviste, Odete?”. Às vezes dá jeito dar nomes à pressão, quanto mais não seja para personificar uma imagem etérea num ente físico, como um saco de areia. Isso. Odete pareceu-me um bom nome. Adiante.

Vitor Pereira está neste momento a meio da escada para o fosso. Com um arranque de temporada abaixo das expectativas criadas pelo próprio clube, gerindo o maior orçamento da nossa história e pegando numa equipa que jogava bom futebol, dominava a relva em Portugal e no estrangeiro, o inexplicável afundamento está à vista de todos e não podemos negar que a fase que atravessamos é complicada. A gestão destes momentos é crucial e o futuro próximo é difícil de prever, mas há no entanto que tentar perceber como é que se chegou a este ponto que não sendo irreversível começa a ganhar contornos de pré-catástrofe na cabeça dos adeptos e da comunicação social, sequiosa por sangue como um vampiro a fazer dieta de pescoços carnudos.

Lembremo-nos do ano transacto. Chegado ao clube, Villas-Boas recebeu pouca pressão a não ser a que trazia já na bagagem. O discípulo de Mourinho, o seguidor de Robson, o informático e estudioso do Football Manager. Todos estes epítetos gozões foram lançados à cara do nosso treinador que, estoicamente, apanhou com todas as canas e voltou para mais. A equipa da altura, desagregada e acabada de sair de uma época que não sendo abismal a nível de resultados (dois troféus, outro perdido na final, um terceiro lugar no campeonato e a eliminação da Champions com uma humilhante derrota por cincazero em Londres perante o Arsenal), tinha ficado bastante longe do que o então tetra-campeão deveria ter feito. Elementos-chave da equipa estavam desagradados e manifestavam desejo de sair, que lhes foi concedido. Líderes de balneário foram vendidos e os adeptos, resignados, esperavam um ano de transição para novos métodos, novas ideias e acima de tudo parecia haver um clima de quase-serenidade principalmente após a vitória na Supertaça frente ao todo-poderoso Benfica que vinha exactamente de um ano em que tudo lhes tinha corrido bem. Villas-Boas conseguiu pegar neste grupo e transformá-lo numa formação dominadora, que impunha o futebol com força e talento, que pé ante pé conseguiu vencer consistentemente e sem contestação até se tornar rei por mérito próprio. A pressão que então existia era nula. A liberdade que os jogadores tinham, os excelentes jogadores que agora são insultados por tanta gente de azul-e-branco, permitia-lhes desenvolver o seu futebol, a sua melhor arma era a simplicidade e a maior valia era inquestionável. A pressão, repito, não existia. Começou a aparecer apenas quando chegámos a um ponto em que a semente foi gerada no fundinho do coração do maior pessimista, que germinava dizendo suavemente: “Este ano vamos ganhar tudo.”. E ganhámos. Com maior ou menor dificuldade, mais ou menos golos, melhores ou piores exibições, mas ganhámos.

Este ano, a pressão disparou. E aqui, minha gente, é que a curva foi feita para o poço. Porque no papel, tudo parece funcionar. Mas no campo, ali onde as coisas acontecem, nada está a acontecer.

Vitor Pereira está a ceder e rapidamente demais para o que algum de nós estivesse à espera. Como Fernando Santos em 1999 (que perdeu o balneário para as figuras principais e foi incapaz de lhes dar a volta) e Jesualdo em 2009 (idem), Vitor está a fazer desmoronar a confiança que todos tínhamos na nova temporada em meia dúzia de jogos. A pressão, baixa e fraca em 2010, cresceu este ano para níveis estratosféricos. Quando vemos uma exibição como a de quarta-feira, em que dez jogadores são os mesmos que no ano passado e apenas um foi trocado, só podemos questionar que uma grande parte do problema está a vir do topo. Os jogos parecem arrastar-se numa espiral descendente, onde os jogadores alinham com medo de jogar, com receio de falhar, com uma intensa falta de confiança nas suas capacidades (que existem porque já as vimos e eles já as mostraram tantas e tantas vezes) e a desagregação em campo é notória. Vemos Moutinho a forçar passes fracos quando nos habituámos a vê-lo a parar e escolher o melhor caminho para a bola; assistimos a um pobre Guarín que não consegue acertar uma bola em condições e se enerva à mínima contrariedade; presenciamos Álvaro, aquela flecha que raspava pelo flanco esquerdo em alta velocidade, transformado numa pobre desculpa para um Esquerdinha sem ritmo; até James ou Otamendi, peças que se esperavam fossem fundamentais na equipa este ano, parecem absortos, medrosos, tristes, infelizes. O próprio discurso de Vitor, que não tem a inspiração e a verve do seu antecessor (porque a personalidade não se compra e a seriedade por vezes é erradamente confundida com inépcia), não parece conseguir desligar-se dos eternos clichés da bola, traz uma imagem de resignação a que não estamos nem podemos estar habituados. E enquanto esta pressão vai aumentando, menores hipóteses têm os jogadores de se redimirem aos olhos dos adeptos, porque é muito mais penoso cair depois se estar lá em cima do que quando ainda se está a subir.

À medida que o tempo passa e nem os resultados nem as exibições melhoram, fico preocupado. Porque como tantos treinadores antes dele, Vitor Pereira está a entrar na espiral que leva ao desemprego. A pressão que está colocada em cima destes jogadores é altíssima e é algo que poucos deles estão habituados a enfrentar: provar que são tão bons quanto todos sabemos que são. E se o carvão demora uns bons milhões de anos até se transformar em diamante, estes nossos nacos de carbono, que já são diamantes por mérito próprio, estão lentamente a fazer o percurso inverso.

E é tão fácil passar de bestial a besta. O contrário é que é complicado.

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Baías e Baronis – FC Porto 1 vs 1 APOEL

Desde 2004 que vou religiosamente ao Dragão, depois de quase doze anos a fazer o mesmo no saudoso Estádio das Antas. Muitos jogos europeus me ficaram presos na mente para recordar rapidamente no intervalo de um café, como o bis de McCarthy contra o Man Utd, o 2-3 com o Artmedia ou os 4-1 à Lázio, os 3-2 ao Werder Bremen, o(s) 0-1 com o Panathinaikos ou o 2-1 ao Marselha com aquele golão do Tarik. Entre as dezenas de jogos europeus que já presenciei ao vivo, este entra directamente para a lista dos que não se esquecem. E pelos piores motivos, porque a exibição do FC Porto foi uma das piores que me lembro de ver desde há muito tempo. Foi má pelo resultado mas acima de tudo pelo futebol praticado e pelo ressurgimento daquele sentimento que me atravessava as veias nos tempos do Couceiro ou na última temporada de Fernando Santos e Jesualdo: assim não vamos lá. Foi tal a falta de fé que a meio do jogo, no meio de gritos aleatórios para este ou aquele jogador, só me colocava num imaginário banco portista, rodeado dos meus colegas e a pensar: “Mas como é que se dá a volta a isto?! O que raio se passa com eles?!”. Aqueles rapazes que hoje vi em campo, mais de noventa por cento da equipa que no ano passado me encantou, jogavam como se tivessem as mães raptadas e o adversário fosse o abdutor. Sem alma, sem empenho, sem coração. Com medo, com desnorte, com desalento. Fica o aviso: este vai ser um post longo. Vamos a isso:

 

(+) Hulk Deve ser difícil ver os colegas todos a temer ter a bola nos pés e a terem de recorrer ao rapaz da camisola 12 para resolver. E tem acontecido mais vezes do que deveria ser necessário, com Hulk a nunca fugir da luta. É frustrante, principalmente porque mesmo fazendo um jogo abaixo do que sabe e pode, Hulk é o melhor elemento da equipa. Porque tentou sempre, com remates de longe, cruzamentos ou arrancadas pela lateral, porque foi dos poucos que mesmo atrapalhado por gajos de laranja fluorescente (a sério, aquela côr devia ser proibida em camisolas de futebol e usada apenas por trabalhadores à noite na auto-estrada) tentou ir para a frente e descobrir uma forma de furar a defesa do APOEL. Se não fosse ele, mais ninguém o conseguiria. E Hulk, mesmo trapalhão, conseguiu um golo, com um paio do tamanho do falhanço do Chiotis, mas conseguiu. E compreendo a frustração dele por não ter conseguido mais.

(+) Fernando Apesar de ter saído mais cedo do que devia e ficar injustamente a ver Guarin a terminar o jogo, Fernando foi essencial para tapar o pouco que conseguiu dos ataques cínicos do APOEL. Quase sempre era o único homem a correr com a cabeça no sítio, usando o corpo para retirar a bola aos adversários e anulando várias jogadas pelo centro do terreno, especialmente em bolas pelo chão. Tentou algumas vezes arrastar jogo para a frente mas nunca o conseguiu porque insiste em enfiar-se na toca e ficar rodeado por adversários que, mais inteligentes a defender que ele a atacar, lhe tapam os espaços e o obrigam a recuar. Mas fez tudo o que podia para ajudar a equipa, o que hoje não foi nada mau.

(+) Adeptos do APOEL Eram aí uns três mil e cantavam como se fossem dez vezes mais. Fiquei impressionado pelo apoio permanente durante noventa minutos, com as cores fortes a inundarem o panorama sombrio de uma noite triste, e os sons que saíam das vozes e dos tambores bem sincronizados alegraram a festa, que só o foi para eles. Até o Poznan fizeram, seus demónios cipriotas! Ficam os meus parabéns e a homenagem ao que deve ser o apoio de uma claque nas deslocações da sua equipa, algo que as nossas também fazem mas sem o mesmo nível de sincronismo e perfeição. Estilos, cada qual tem o seu.

 

(-) Falta de empenho A primeira parte foi digna de Dario Argento. Os jogadores do FC Porto locomoviam-se com toda a intensidade de um nado morto, medo de tocar na bola mais que duas vezes e uma gritante incapacidade de gerar movimento e jogadas de ataque com estrutura e rotação de bola. O jogo de posse, como gostamos de dizer que aplicamos, assenta em dois pilares fundamentais: a posse e a procura incessante de linhas de passe para manter a posse. E o que hoje se viu foi uma equipa de matrecos humanos, em que a bola ressaltava de um para outro sem que houvesse movimentação lateral ou desmarcações para criar espaços ou para arrastar os marcadores directos. Não me vou focar num ou noutro jogador em particular porque o problema é colectivo e parece contagiar rapidamente todos os sectores. Se os defesas centrais, incapazes por natureza de criarem desiquilíbrios no ataque, se reduzem a trocar a bola lentamente enquanto a outra equipa se recoloca na posição certa, a jogada morre. Se os médios no centro do terreno ficam a observar a posição do adversário em vez de tentarem alterá-la, a jogada morre. Quando a bola chega ao extremo e não está lá o lateral ou o médio interior para lhe dar apoio, a jogada morre. E o que mais custa ver, para lá da falta de vontade de mudar o status quo, é o desinteresse. É o jogador que vê o adversário a chegar primeiro à bola com uma consistência granítica e recua porque já desistiu antes de tentar. É o defender um contra-ataque na lateral em vez de o fazer no centro para impedir remates. É ver bola atrás de bola a serem desperdiçadas porque o adversário empurrou ligeiramente o ombro e o corpo não resiste nem descobre força nem ânimo para ripostar. É tudo que fez do FC Porto o que é ser negado em noventa minutos de angústia. E é, perdoem-me o vernáculo, uma puta duma vergonha.

(-) Incompreensível ingenuidade competitiva Sou incapaz de perceber o que se passa a este nível. Seja o pontapé de bicicleta de Kleber, as hesitações de Moutinho ou o adornar excessivo de Otamendi, há qualquer tipo de vírus a afectar a confiança e a maturidade da equipa. Todo o jogo vi rapazes do APOEL a chegarem primeiro à bola e a recuperarem-na facilmente com um ou outro empurrão que faziam os jogadores do FC Porto desistir dos lances ao primeiro contacto. Quedas a mais, amarelos a mais e agressividade a menos, sinais evidentes que não se quer porque não se pode e não se consegue porque não se tenta conseguir. Houve um lance em particular que me deixou com vontade de comer uma caixa de Prozac: um jogador do APOEL está deitado na área, já para o final do jogo, não sei se caiu por falta ou se está a queimar tempo. A bola está na nossa posse e os jogadores vão rodando o esférico para a lateral até chegar a Varela. Os cipriotas, inteligentes, ratos, astutos e com a mentalidade de equipa pequena que ganha pontos, tiram a bola a Varela para dar um lançamento a nosso favor. Mal a bola sai, saem disparados também os mesmos laranjas a correr para o nosso Silvestre, a provocar, a picar, a empurrar e a pressionar. Típico, costumeiro, nada que nós próprios não façamos noutros jogos. E eu, na bancada, só pensava: “não se deixem cair no engodo, continuem a andar, não é nada convosco, não ripostem, não entrem no joguinho deles…”. Mas caímos. Varela tenta sair mas lá vem Belluschi e Sapunaru e Hulk, todos para o empurrão geral que só joga a favor de quem o cria, para perder tempo, para talvez conseguir um amarelo ou até um vermelho, se o outro jogador se enervar ainda mais. Nós, os anjinhos, aqueles ingénuos que ano passado ganharam a Europa League e o campeonato e deram cincazero ao Benfica, caíram como crianças por rebuçados com convites maldosos à porta da escola. Não esperava tanta ingenuidade.

(-) Vitor Pereira Já vi este filme a acontecer algumas vezes, inclusive no FC Porto (vide Fernando Santos e Ivic na segunda passagem). O treinador não consegue colocar a equipa a jogar bom futebol e vai criando uma atmosfera de desencanto na massa associativa ao ponto de a virar contra ele. Vitor Pereira está a caminhar rapidamente para esse abismo de onde é muito difícil sair, seja por arte própria ou por talento bem controlado. Hoje foi sintomático o que sucedeu na partida e é um bom exemplo do que pode vir a acontecer no futuro. A táctica original é adequada, com Fernando a tapar o meio-campo, James solto atrás de Kleber e Hulk a descair para uma das alas para dar profundidade ao ataque. Guarin com o corpo e Moutinho com a mente funcionam como harmónico no meio-campo e Álvaro desiquilibra no flanco quando James vai para o meio. No papel, tudo bem. No campo, nada. Automatismos e consolidação de métodos: zero. Capacidade moral de dar a volta a uma situação negativa: galheta. E depois, as substituições. Mais uma vez, no papel relativamente acertadas. Sai Fernando mas mantém-se um homem alto na frente da área (Guarín) que por acaso até sabe sair melhor com a bola controlada e entra um criativo. Abre-se o flanco com Varela para aproveitar o overlap de Álvaro. Mas tendo em conta o jogo que o público está a ver, nada disto faz sentido, porque Guarín está a jogar ao nível dos juvenis do Tourizense e o Álvaro não consegue avançar em velocidade porque neste momento não a tem. Moutinho continua num momento de forma atroz e fica em campo, juntamente com Guarín. A equipa, já de si nervosa, recebe dois elementos que nada trazem de novo para o jogo e os adeptos mostram a insatisfação. Vitor Pereira tem de perceber rapidamente que está a perder o apoio dos adeptos e que com isso traz pressão extra a uma equipa que ainda não consegue sair dela. Agora, cada vez mais, os jogadores sentem que têm de vencer para mostrar que estão vivos, mas o bloqueio mental e o medo de não o conseguir assolam-nos a cada pisada na relva. E o líder, do banco, pouco pode fazer durante o jogo. Antes e depois, talvez, mas enquanto a bola rola…está a afastar os adeptos.

 

Triste? Sim. Desanimado? Nunca. Porque é nestas alturas que é preciso dar um, dois, quinze murros na mesa e perceber o que se passa com a equipa ou com a sua liderança. O que vi hoje, o que todos os Portistas viram hoje foi uma imagem degradante de uma equipa que ainda há meia dúzia de meses caminhava orgulhosa e altiva pelos relvados da Europa. Os mesmos rapazes que viram hoje foram os que esmagaram o Benfica, destruíram o Villarreal, aniquilaram o Spartak e o CSKA e desfizeram o Guimarães (ordenei por impacto e importância). Perderam o mojo? Esqueceram-se de ter fé? Desistiram de acreditar nas suas próprias capacidades? Não creio. Não quero crer. É evidente que agora toda a gente virá com casos Walteres e Kleberes e porque é que se fez A e não se fez B e se optou por C em detrimento de D. “Hindsight is 20/20”, já dizem os amaricanos e muito bem. Mas lá que as coisas não vão bem lá isso é verdade, e quanto mais cedo se descobrir o que é que se pode fazer para mudar o rumo, tanto melhor. Estarei cá nessa altura.

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