Ouve lá ó Mister – Chaves

Companheiro Nuno,

Podes encarar este jogo de duas formas diferentes. A primeira envolve uma boca a espumar de revolta, o doce sabor da vingança nos lábios, a sensação de cumprir o dever que foi esquecido aqui há umas semanas numa fria noite transmontana que nos tramou o espírito e nos fez salivar durante mais uns jogos por um miserável golo que parecia estar escondido das nossas mentes e das nossas almas. Essa forma de encarar o jogo é engraçada mas utópica e pode levar a chatices porque quando metes emoção ao barulho há sempre hipótese de deixares que ela comande os teus pensamentos quando as coisas não correm bem nos primeiros minutos. Há, portanto, uma outra forma.

Jogar futebol em condições. Entrar em campo com a vista focada no resultado, com tranquilidade e paz de alma, trocando a bola decentemente, furando quando é preciso furar, rematando quando houver oportunidade para o fazer e acima de tudo com eficácia na rotação do meio-campo, assertividade no controlo da zona defensiva e mais importante que tudo: não adormecer se conseguirmos uma vantagem no resultado. O Chaves pode vir sem treinador (ou com treinador a prazo, ainda não sei muito bem) mas os onze que estarão em campo vão lembrar-se do que nos fizeram na Taça e têm a lição bem estudada para o repetir. Não os deixes.

Sou quem sabes,
Jorge

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Baías e Baronis – FC Porto 2 vs 1 Marítimo

Numa noite de chuva e frio, tão tradicional nesta cidade que é tão minha como de qualquer um dos outros poucos milhares que hoje estiveram no Dragão, vimos um FC Porto que continua a evoluir mas que o faz de uma forma mais lenta do que seria expectável para uma equipa que tem já quatro meses de preparação no lombo. O resultado não podia ter sido outro mas pecou por escasso e com um final desnecessariamente enervante. Growing pains, indeed. Vamos a notas:

(+) Óliver. Ah, ser um caga-tacos em terras de ogres gigantes. Eh pá, eu gosto deste miúdo, gosto mesmo. Gosto da forma como joga de cabeça levantada, como CORRE de cabeça levantada, gosto da maneira como retira a bola do olhar dos adversários, escondendo-a atrás do seu franzino corpo. Gosto da visão periférica que mostra e de o ver a encontrar aquele buraquinho certo para onde faz rodar a bola. Gosto do espírito de luta que o faz procurar sempre recuperar uma bola que possa ter perdido (e hoje fê-lo várias vezes). Gosto deste puto. Quero ficar com ele por cá muitos anos e quero que tenha filhos e fique portista e depois de acabar a carreira quero colocá-lo em cima de uma coluna dentro do Museu para ir lá fazer-lhe uma vénia e agradecer o trabalho. É aproveitar enquanto por cá o temos.

(+) Brahimi. Quando está bem, é maravilhoso, mas mesmo quando está em dias menos fulgurantes é um jogador vital e só peca por tardia a sua recuperação mental para voltar a entrar com a nossa camisola em campo. Um golo de ângulo quase impossível e uma assistência ditam uma estatística fria e digital, mas a variação analógica ao longo do jogo é bem mais interessante de ver, até porque, como disse, não foi dos seus melhores dias. Mas tê-lo em campo é sempre diferente do que ter qualquer outro jogador do plantel actual. Mesmo Otávio, que tem talento mas não é Yacine. Quando Yacine quer, como todos os grandes talentos.

(+) O arranque em versão Star Wars. Quem me conhece sabe que sou um cromo. No bom sentido, claro. Acho eu. Sou um geekzinho a tender para o nerd e em relação a Star Wars faço parte da comunidade que conhece, discute e analisa ao pormenor as coisinhas mais parvas da saga. Tenho um bobblehead do Darth Vader ao lado do monitor no meu local de trabalho, que se soma a mais uma data de parafernália semelhante em casa, incluindo um Tie Fighter da First Order, uma Speeder Bike usada pelo Império em Endor, um stormtrooper em peluche, um R2D2 telecomandado, camisolas do confronto Han vs Greedo (Han shot first indeed), modelos em 3D do Millennium Falcon e de um X-Wing e um porta-chaves da Death Star. Entre outras coisas. E adorei o arranque para o jogo e o alinhamento das equipas em homenagem à estreia do Rogue One. Chamem-me cromo. Vá lá, chamem. Estou habituado e aceito com orgulho.

(-) Controlar um 2-0 não implica ignorar o jogo. Já vi equipas do FC Porto a alhearem-se do jogo como se estivesse completamente terminado com um resultado de 2-0. E já lamentei os empates (ou derrotas, fucking Artmedia) que acabaram por sair desse alheamento e que é completamente desnecessário. E hoje houve ali 15 a 20 minutos, depois do golo de André Silva, em que a equipa simplesmente deixou de jogar em tensão. E não falo da tensão má, daquela que faz falhar penalties ou tropeçar na própria perna porque a bola começa a fazer confusão de tão esférica que é. Refiro-me à atenção que o jogo exige, ao estado de alerta e de domínio da própria zona e ao controlo da zona dos colegas. E vi equipas do FC Porto a terem esta mesma atitude quando os jogadores tinham muito mais maturidade e experiência que estes rapazes que hoje jogam com as nossas cores, por isso não é nada de novo. Mas, tal como acontecia nessas alturas, chateia-me que tenhamos de passar um mau momento porque não houve cabecinha para gerir melhor o jogo e deixar passar mais vinte minutos que fossem com o jogo nas mãos.

(-) Consistência nas más decisões dentro da área. Não sendo tão radical como um dos meus colegas de bancada que insiste que os jogadores devem rematar mal entram na grande área, devo confessar que também me chateia que não apareça ninguém a espetar uma biqueirada na bola de vez em quando ao invés de estar a fazer passes de dois metros para o colega do lado. Verticalizar o jogo de forma definitiva acaba por ser importante para desbloquear algumas situações complicadas e a falta de instinto para isso leva a complicar lances potencialmente perigosos com excesso de cerimónia. Chutem a bola de uma vez, malta!

(-) Horários e falta de cultura de clube. Falta-nos cultura desportiva quando vemos um jogo do FC Porto a ser presenciado por poucos milhares de espectadores. Chegaram aos vinte mil? Não sei mas não me pareceu ver mais do que esse número nas bancadas. Há excesso de comodismo e ausência de cultura de clube, que se está a agravar quando há tanta gente que não vai porque não dá jeito ou porque chove ou porque vão fazer compras ou porque está frio. Vi demasiados lugares anuais comprados e vazios. Não gosto.


Mais três pontos e mais um jogo que começou bem e acabou razoavelmente bem. A jogar contra onze é mais complicado, sem dúvida…

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Ouve lá ó Mister – Marítimo

Companheiro Nuno,

Por esta não esperava eu. Um jogo para o campeonato a uma quinta-feira à noite, seguido por outro a uma segunda-feira, também à noite. Não há feriados, não há quaisquer finais da Champions para as quais estamos a descansar, com o campeonato já ganho. Não há previsões de extermínio da humanidade num futuro muito próximo, a VCI não vai romper-se numa chuva de alcatrão e prumos afiados nem a torre dos clérigos está em risco de tolher a malta a pedir um latte no Costa. Ou seja, não faço puto de ideia porque é que estamos a enfiar os jogos todos num espaço tão curto antes do Natal até porque nos arriscamos a lixar a boa sequência que temos vindo a ter. Temos pernas para isto? Para esta sequência à inglesa? Ou vais começar a inventar e a rodar a malta? É que nesta altura podemos lixar tudo que temos vindo a (re)construir e são dois jogos seguidos em casa que nos podem dar seis pontos e manter na luta…ou arrumar-nos de vez. Outra vez.

Pá, tou ansioso e sou um pessimista do carago, não sou, Nuno? Convence-me do contrário.

Sou quem sabes,
Jorge

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Baías e Baronis – Feirense 0 vs 4 FC Porto

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Não há fome que não dê em fartura, mas não estava à espera de um resultado tão positivo hoje na Feira. A expulsão de Ícaro ajudou e muito mas hoje houve mais uma vez eficácia, sentido prático e inteligência em jogo, algo que faltou em vários jogos até ao confronto contra o Braga. É de notar exactamente isso, a tranquilidade com que a equipa esteve em campo e a forma como encarou o jogo de uma forma séria mas sem o peso da necessidade de obter um resultado positivo durante uma hora e meia…talvez por ter conseguido chegar lá aos três minutos. Foi jeitoso e merecido. Bora lá a notas:

(+) Óliver. Gostava de ter os teus pés, Óliver. E também gostava de ter a tua visão de jogo, a tua capacidade de rotação em posse e a tua inteligência em campo. Gostava também de ter uma máquina para poder extrair essas tuas mais-valias e colocá-las na cabeça de tantos outros moços que por cá passaram e que não conseguem mostrar em campo um microscópica parte do que tu fazes regularmente no relvado com tanta naturalidade. Perfeito, perfeito!

(+) Danilo. Quando virem uma bola do adversário a ser enviada para a frente em ataque organizado ou em lançamento longo e virem uma enorme parede núbia a deslocar-se rapidamente para a intercepção, é possível que estejam a fazer contas e a acreditar no insucesso da iniciativa. Porque Danilo estende-se pelo campo e consegue colocar entraves suficientes à construção de lances ofensivos de uma forma constante, especialmente na cobertura do espaço que tão bem tem vindo a fazer. Mais um excelente jogo.

(+) Brahimi. Dinâmico e acima de tudo dinamizador, esteve muito bem na criação de lances ofensivos individuais (um golo e várias outras tentativas) mas também brilhou na forma como se entendeu com os colegas e com o “seu” lateral, que o apoiou sempre muito bem. Presumo que Nuno já tenha decidido de vez que Otávio não pode ser opção daquele lado…mas estou à espera de saber quem lá vai jogar quando o Yacine for para a CAN em Janeiro…

(+) Defesa a zeros. Montanhas de minutos consecutivos sem sofrer um único golo para o campeonato; cinco golos sofridos em treze jogos; sem sofrer um golo fora desde Agosto. São números interessantes de uma defesa que se está a mostrar segura, prática, intensa e rija. Marcano e Felipe em bom destaque mas Maxi e Telles (com Layún também ao barulho) em bom plano até agora. Só posso esperar que continuem assim.

(-) Não podemos lamentar a sorte e passar a depender dela. Vários jogos sem golos, com penalties roubados e/ou não concretizados, ineficácia absoluta e superioridade no relvado a não se fazer reflectir no resultado. Depois, milagre, tudo se encaixou, os golos começaram a entrar, os penalties também e a superioridade numérica, que no período negro já se tinha visto (em casa contra o Belém para a Taça da Liga) e não tinha ajudado, tem sido figura omnipresente nos últimos dois jogos do campeonato. Curiosamente, vencemos ambos. Não questionando nenhuma das expulsões (ambas semelhantes e legítimas, do que me lembro, se bem que me podem sempre relembrar a tripla punição e o facto de poder ou não ser usada), é preciso reaprender a jogar contra onze e não contar com este facilitismo numérico. Sim, posso estar a exagerar mas fica já o aviso.


Venha o que vier da Luz…nunca será mau de todo. Fizemos o nosso trabalho e estamos de parabéns por isso. Agora, venha o Marítimo na quinta-feira para continuar a boa onda!

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