Ouve lá ó Mister – Shakhtar Donetsk

Señor Lopetegui,

Não te vou censurar pelo empate em Alvalade. Também não te posso dizer que estou em èxtase com o que lá aconteceu, depois de ver aquela primeira parte de nível inferior ao que estou à espera, mesmo à sexta jornada. Como já te disse no início do ano, tenho um sentido de dar rédea larga aos treinadores que aparecem fresquinhos no meu clube para que possam fazer o que lhes apetece, dispondo as peças com a mesma consistência de uma parede de betão ou de uma casa de palha que um lobo de fábula pode mandar abaixo com um almoço de couves e um rabo bem apontado. Ainda por cima quando apareceste aqui com uma carruagem de jogadores de variável talento, quase todos acima do que tínhamos cá no ano passado, entenda-se, mas com graus ainda mais variáveis de adaptação e percepção do que é o nosso futebol. Ou do que tem de ser, porque há diferenças e bem grandes.

Hoje, em Lviv (Lvov? Lvev? Lvv, pronto), estamos à espera de um mau jogo. Um jogo feio, com alguma cagança da parte deles e excesso de humildade da nossa parte. Aquele espírito do “o próximo paga” quando o FC Porto perdia pontos ou jogos nos dias anteriores está mais desaparecido que os brincos da Maddie e não me parece que regresse em força. Há muita coisa que ficou nos anos 90 e apenas a curtos espaços fez um verdadeiro comeback, na altura do Villas-Boas. Quer dizer, nem por isso, já que o animal nem sequer perdeu um jogo que fosse toda a época. Mas sabes uma coisa, Julen? Eu ainda acredito em ti, pá. Acredito que o espírito se está a criar, devagarinho mas certinho, nas almas daqueles fulanos que vão atrás dos tweets do clube e das entrevistas para os jornais e das flash-interviews que vão sendo mais marcantes, mais intensas, mais habituais. E vão começando a perceber que o equipa é deles e é feita deles e que podem fazer coisas muito bonitas se se começarem a entender em campo. Aí entras tu, homem, porque descoordenações como as que vimos em Alvalade têm de ser estudadas, entendidas e erradicadas. Três Es, Julen, como temos de ser hoje: espertos, eficazes e elásticos. Sim, porque se não abrimos um bocado mais as zonas de pressão do meio-campo e se não aproveitarmos os corredores deles para contra-atacar, temos a tarefa mais tramada.

Assim sendo, vai-te a eles! E não penses em mais nada senão em ganhar a esses fulanos.

Sou quem sabes,
Jorge

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Baías e Baronis – Sporting 1 vs 1 FC Porto

20140926 - SPORTING CP - FC PORTO

Um clássico que acabe em empate é sempre menos mau, especialmente fora de casa. Se tentarmos perceber a forma absurda como entramos em campo, especialmente depois do golo sofrido evidenciar a ausência de organização no nosso meio-campo e a forma como a equipa não consegue parar o adversário em zonas de construção. É essa a principal falha do FC Porto de Lopetegui, por agora, pelo menos até que a estratégia se mantenha a mesma com os intérpretes que a vão colocando em campo. Ambas as equipas tiveram oportunidades claras e o empate aceita-se. A notas:

(+) Óliver. É um jogador diferente, sem dúvida, e quando está em campo nota-se na perfeição a diferença que mostra em relação aos colegas. Raramente há passes falhados, desconcentrações na construção de jogo e desatenções defensivas. Pode trazer muito ao meio-campo (mais que na ala, creio) quando colocado a jogar por detrás do ponta-de-lança e preferia vê-lo sempre como dez recuado em vez de colocado na linha. Em forma, é titularíssimo.

(+) O controlo da posse de bola na segunda parte. Depois da entrada muito mais forte do Sporting, que nos encostou à área durante a primeira-meia hora, o jogo foi-se reequilibrando e a equipa assentou a cabeça e começou a trocar a bola de uma forma mais consistente e estruturada. Continuo a tremer quando a zona defensiva se amedronta perante o mais ínfimo sinal de pressão adversária, mas é essencial manter a calma e prosseguir na troca de bola tranquila enquanto a zona ofensiva vai criando espaços e linhas de passe coerentes, porque é especialmente em situações individuais que podemos mostrar o que valemos. Foi talvez o pior jogo que fizemos até agora, mas a segunda parte foi menos má que a primeira.

(-) A desorganização da zona de pressão defensiva. Desorganização. Alheamento. Desconcentração. Há muitas outras palavras que podia usar para descrever o que vejo na estrutura defensiva do FC Porto mas podia centrar tudo num conjunto de vernáculo que faria corar uma freira de clausura. É enervante perceber que os homens do meio-campo parecem constantemente mal colocados perante os adversários, não cobrindo os espaços de uma forma coerente e permitindo uma fácil construção de lances ofensivos com uma passividade e destrambelhamento que não parece natural numa equipa de topo. Desde o início da temporada que tem sido a área mais débil da equipa não só em termos físicos mas especialmente pela incapacidade de formar um bloco consistente para impedir que o adversário surja com a bola controlada e em progressão por uma zona onde se pode criar a maior quantidade de situações de perigo para a nossa baliza. Casemiro, Ruben Neves e Herrera, até agora, não estão a funcionar como conjunto.

(-) A ineficácia na finalização Em jogos deste calibre é uma infelicidade falhar golos feitos. Jackson e Tello mostraram isso mesmo, com os lances que tiveram na segunda parte a poderem ser decisivos na conquista de uma vitória que seria até então justa…pela maior eficácia que mostraríamos em frente à baliza, quando comparada com a mesma (in)eficácia nos lances de que o Sporting dispôs na primeira parte (para lá do petardo do Capel à barra). Estes jogos travam-se com fibra mas vencem-se por detalhes.

(-) Bolas paradas ofensivas. Mais uma vez tivemos uma batelada de cantos e alguns livres, com zero perigo criado. Há muitos, muitos anos que continuamos com este tipo de incapacidade de semear o caos nas defesas adversárias através de lances de bola parada e mantemos a tremideira quando a bola aparece na mesma situação mas do nosso lado. Um canto, um golo…uma vitória. Era giro, não era?


Três empates consecutivos não são bons para um campeonato onde os pontos perdidos se podem tornar tão importantes em fases mais adiantadas da prova. O próximo jogo tem de trazer três pontos para o cofre. Sem desculpas.

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Ouve lá ó Mister – Sporting

Señor Lopetegui,

Um gajo passa uma semana de cão quando não ganha. Mais que a chuva, o trânsito, o trabalho, a diarreia depois daquele almoço cheio de gordura, tudo é cacahuetes comparado com a memória de um jogo em que nada corre bem. Fica cá dentro, sabes, com um estupor duma persistência que nos tolha a mona e o espírito e nos faz ver tudo com tons de cinzento mais escuros do que o mundo nos proporciona. Uma merda duma semana.

Mas alimenta-nos a perspectiva do próximo jogo. Dá sempre um alento especial pensar que estamos só a meia-dúzia de horas ou minutos ou seja lá quanto for o diferencial de tempo que passa entre a altura em que leres isto e o início da partida (sinceramente, sempre pensei que esta era a última coisa que lias enquanto o Jackson aperta as botas e o Danilo vai fazendo alongamentos, mas pode ser produto da minha mente que anda de tal maneira underclocked que já nem distingue um Doriva dum Casemiro) e que podemos estar prestes a voltar a sentir aquele rush de emoção e de extrema alegria que nos é presenteado com uma vitória do FC Porto. Sim, mesmo em Alvalade, rapaz, olha lá que essa treta de emprenhar pelo ouvido é lixado e se vais andar a ouvir a propaganda da calimeragem, estás mesmo tramado.

Esta semana foi uma festarola lá em baixo. Eram bocas para o NGP, notícias de jornais sobre ambos os clubes, um que perde mas que afinal ganhou, outro que é investigado enquanto o outro deixou de ser. Jogadores a espetarem carrões, outros com ombros novos, meias-surpresas nos meios-campos e médias de idade erróneas. Houve de tudo, até um antigo treinador comum a ser convocado para o qualifying para o Mundial 2018. Lindo, este país, lindo mesmo. Mas alheia-te disto tudo, Julen. Fala aí com os muchachos e prepara-os para o gamanço de uma vida, que para os mais antigos será só mais um, mas os novos (e tantos novos que há este ano) ainda não passaram pelo real enrabanço que habitualmente ocorre aos azuis-e-brancos nessa latrina onde hoje vão jogar. Que deitem tudo para trás das costas: o árbitro, o jogo com o Boavista, a rotatividade. Nada disso interessa. Interessam os onze gajos que lá vão estar e que têm de dar tudo para ganhar. É um clássico e como tal ainda há menos vencedores antecipados, mas fico contente se derem tudo para ganhar. Mesmo que não o consigam.

Sou quem sabes,
Jorge

PS: Ainda por cima, azar dos azares, não sei se vou conseguir ver o jogo em directo e posso garantir que os B&Bs não saem na mesma noite, porque devo regressar a casa tarde e muito provavelmente inebriado. Para poupar o povo a um chorrilho vernáculo portuense cheio de gralhas, adio-a para sábado. Com mais calma e dois ou três guronsans no bucho. A gerência agradece a compreensão.

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