Odeio clichés. Estou a usar a palavra “odeio” para me referir a clichés, para verem a força da minha aversão ao uso desses recursos. Nunca estou “à beira de um ataque de nervos”, “perto do precipício” ou “com fogo no rabo”, não dou “uma no cravo outra na ferradura”, não sou “amigo da onça”, não choro “lágrimas de crocodilo” nem “faço das tripas coração”. Evito-os como um acrófobo foge dos telhados de arranha-céus.
É em grande parte devido a esse escárnio pela muleta fácil de qualquer língua que me incomoda a grande maioria das notícias dos nossos jornais. A sequência de lugares-comuns é tão escabrosa e entediante que deixa qualquer um com o nível de tédio tão alto que apetece ler um bocado de Kafka só para desempoeirar o cérebro. Salvam-se alguns cronistas que por muito antagónicas que sejam as posições defendidas perante os mais diversos assuntos do panorama da bola quando comparadas com as minhas, há alturas em que cedo à qualidade da retórica e penso para os meus bot…(não, Jorge, clichés não, és superior a isso)…e penso: “Ah, seu malvado. Confundes-me com esta retorcida verborreia e colocas-me perante a periclitante posição de ter de ceder às tuas vontades. Não deixarei que a tua vil eloquência me conquiste, pulha!”. Depois passa-me a fúria e mudo de página.
Tanta parvoíce para dizer o seguinte. Estou farto do termo “estofo de campeão”. A primeira vez que ouvi essa alarvidade fiquei a pensar que estavam a falar de um sofá muito caro, mas aparentemente é aplicada no mundo do futebol, quando uma equipa consegue chegar a uma determinada altura da época num lugar perto do topo e com possibilidades de chegar ao final em primeiro lugar. E o Braga, admito, é uma equipa que tem…aham…estofo de campeão. E nós? Toda a gente nos diz desde o início da temporada que não o temos. Que o perdemos, que o deixamos no Metro, sei lá, mas de qualquer forma a imagem que tem sido constantemente passada por jornalistas e analistas (raios, até pelos próprios adeptos!) é a de que o FC Porto é uma equipa sem técnica, sem liderança e à rasca para se manter viva e na luta pelo título, ao passo que o Braga está pujante e vibrante, com a força de duzentos sóis e a energia de duzentos mais.
Não suporto isto. Estamos em primeiro no campeonato e dependemos só de nós para sermos campeões. As exibições não têm sido geniais? Too fucking bad. Só lá estamos porque os outros têm perdido pontos inesperados? Também nós. O Braga joga melhor futebol que o FC Porto nesta altura? Veremos.
Só há uma coisa a pensar até Sábado: quem vencer o jogo mostra que tem estofo de campeão. Mas sejamos nós ou eles a sair do Axa com os três pontos, a outra equipa não é automaticamente “desestofada” porque até ao fim ainda há mais quatro jogos. O único pensamento até Sábado, repito, tem de ser este: vamos ganhar este. E depois vamos ganhar os próximos.








