Entrevista a Vítor Pereira – Parte I

À imagem da entrevista (que publiquei de forma parcial a pedido do próprio) feita por Daniel Sousa a André Villas-Boas, segue uma entrevista feita por Pedro Batista em 2006, então estudante na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, ao nosso novo treinador principal, Vítor Pereira, no âmbito de um trabalho intitulado: “Organização defensiva: Congruência entre os   princípios, sub-princípios e sub-sub-princípios de  jogo definidos pelo treinador e a sua  operacionalização.”.

É sempre interessante perceber as ideias do nosso novo líder antes de ele mostrar o que vale como comandante da equipa mais representativa do nosso clube, por isso vou publicá-la em várias partes para não “encher” a vossa cabeça.

 

Pedro Batista (P.B): Acha que o princípio da especificidade deve estar presente em cada exercício de treino? Se sim, porquê?

Vítor Pereira (V.P): Quem quiser ser treinador e não tiver ideias sistematizadas não pode sê-lo, vai andar a trabalhar de forma avulsa. É importante ter ideias, sistematiza-las, e é importante saber operacionalizá-las num contexto. O que é que eu quero dizer com isto, é muito importante, de facto nós termos um modelo, eu costumo dizer que já fui fundamentalista do ponto de vista táctico, eu tinha ideias e queria de facto operacionalizá-las, sem tentar colocar essas ideias ao serviço dos jogadores, e isso é um erro terrível, que eu cometia mas que agora não cometo. É muito importante perceber as características dos jogadores para as potenciar, e então os princípios são fundamentais como norte para o nosso trabalho, os princípios que nós defendemos, no entanto eles têm que ter flexibilidade suficiente para a realidade em que trabalhamos. Eu vou explicar isto. Eu fui habituado a trabalhar no Porto durante 5 anos com os melhores jogadores e colocando o acento em dois momentos fundamentais do jogo, que era a posse e a transição ataque-defesa, eu assim ganhava os jogos todos, aqui não é assim. Aqui não trabalhamos com jogadores com a diferença de qualidade que tínhamos no Porto. Nós apanhamos campos horríveis, nós temos um comportamento táctico evoluído, mas esse comportamento nunca surge porque o adversário nunca nos coloca esse tipo de problema. Eu concretizo. Imaginemos que eu procuro criar uma zona pressing, com quebra de ligação no corredor contrário, promover um passe interior, para depois o adversário tentar ligar no corredor e ai nós recuperarmos a posse de bola. O problema é que nesta divisão quase nenhum adversário tem esta preocupação. Eu sei que para ter sucesso tenho que promover “engodos” tácticos, no ano passado eu sabia que todas as equipas já estavam à espera de um espinho assumido em posse, a expor-se constantemente a passes longos nas costas em transições rápidas para nos “entalar”. Mas isso é o que eles agora querem, mas eu tenho de promover comportamentos, pondo acento na posse, porque gosto de uma equipa que assuma o jogo, agora eu tenho de promover também aquilo que tenho, e tenho jogadores que em transição são fortíssimos, que matam o jogo em qualquer altura, então se eu pretendo ganhar algum espaço à profundidade, eu tenho de os convidar, baixar o bloco e convida-los, eu sei que em duas ou três transições bem feitas, está o resultado feito. Isto o que é? É eu perceber as características dos jogadores que tenho e para ter sucesso sem desvirtuar aquilo que penso, tenho de a contextualizar a minha ideia do “jogar” para ter sucesso. O modelo tem de ter flexibilidade no sentido de nós percebermos como é que ganhamos aqui.

P.B: De acordo com a sua experiência, diga-nos as ideias chave para que um treinador consiga fazer com que haja uma congruência entre o modelo de jogo que define para a sua equipa e a sua devida operacionalização em treino.

V.P: Primeiro é fundamental ter ideias de jogo, e depois fazer com que os jogadores acreditem nelas, é fundamental fazer os jogadores identificarem-se com essas mesmas ideias de jogo. Explicar e contextualizar os exercícios, os jogadores têm de perceber claramente para que comportamentos estamos a direccionar o exercício. No fundo e tal como eu disse o fundamental é ter ideias e fazer os jogadores acreditar nelas, os resultados são fundamentais neste processo. No nosso caso como aparecemos com uma metodologia nova, aparecemos com ideias de jogo bem definidas, temos de desmontar ideias consolidadas durante muitos anos, deparamo-nos com muitas dúvidas e muitas reticências. Para contrariar isto temos de contextualizar e direccionar muito bem os exercícios, temos de mostrar aos jogadores a importância dos exercícios, a importância do aparecimento de determinado comportamento para o nosso jogo.

P.B: Concorda com a ideia de que o exercício de treino é a forma que o treinador tem de transmitir aos jogadores os princípios de jogo que quer ver implementados?

V.P: São os exercícios e não só, eu posso dar aos jogadores uma ideia por imagens que depois com o exercício podemos chegar onde eu quero. Eu tenho outros processos, comunicação, visualização, vamos imaginar que eu quero fazer acreditar à minha equipa que é fundamental termos uma transição defensiva forte, eu posso pegar numa imagem de equipas de referência e provar-lhes que de facto aquele momento é trabalhado. Depois vamos para o terreno onde o exercício tem de ter potencial e potenciar, por vezes o exercício tem potencial mas não potencia aquilo que queremos. Quando a equipa tem os comportamentos que achamos indicados, reforçamos positivamente, isto é um processo lento que vai sendo construído ao longo do tempo.

P.B: Quando explica e orienta um exercício de treino quais os aspectos que foca com mais persistência, para que o exercício tenha o objectivo que pretende? Dê-nos um exemplo em relação a um aspecto defensivo.

V.P: Dou-lhe o exemplo da manhã. De manha estávamos a promover a nossa organização defensiva à largura e à profundidade. De um lado
estávamos a trabalhar por linhas, a linha defensiva e a linha média e no outro lado estávamos a trabalhar losângulos defensivos, sobre o corredor esquerdo, corredor direito e corredor central. O que é que eu expliquei? Que os objectivos vão ser os seguintes, reacção à perda, fecho dos losângulos, coberturas, equilíbrios e contenção sobre o “lado cego”. Os jogadores já estão identificados com aquilo que pretendo e eu direcciono os exercícios em função dos objectivos que pretendo atingir, hoje direcciono muito menos que no início da época, os jogadores hoje cometem muito menos erros do que no passado recente, o nível de intervenção não é sempre o mesmo, é em função do nível de exigência do momento.

1 comentário

  1. Too much information… para mim um jogo de futebol ainda são 11 jagunços de cada lado e ganha quem marcar mais golos. Agora a sério, pela primeira parte da entrevista parece-me ser um conhecedor do treino e da táctica, mas hoje em dia um treinador tem também que ser psicologo e gestor de recursos humanos. Como tudo na vida, são os resultados que traçam o nosso destino.

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