Ouve lá ó Mister – Braga

Señor Lopetegui,

Mas que bela dose de sportencavanço que demos aos verdes na semana passada, Julen! Foi bonito de ver a malta a cascar no Nani ou no Patrício, eles que são bons rapazes mas que nem sempre se dão bem com os ares aqui do Norte e ainda bem. Os meus parabéns pela vitória, pela exibição e pelo facto de nos manteres activos neste sonho de sermos campeões este ano. Mas…e tudo vem com um mas para dar aquele ar de tensão sublimada por uma ou duas frases inconsequentes a abrir um artigo…mas…se não ganharmos ao Braga, serviu para pouco mais que uma moralização temporária das tropas, aí dentro e cá fora.

Já sabes o que o Braga vale. Uma enormidade de defesas prontos a partirem as pernas a muitos dos nossos, agressividade a rodos no meio-campo e velocidade no ataque. São putos rijos, cheios de sangue quente que vêm, como nós, de uma batelada de jogos sem perder. Para lá de quatro, imagina, o que dá para ver que este campeonato não está a ser um modelo de consistência para nenhuma das equipas, mas ainda assim pode funcionar como um barómetro para percebermos que vão cair em cima de nós como caíram em cima do São Helton como no jogo da Taça da Liga. Por isso há que fazer reunir a malta, explicar-lhes que aquele tolinho que está do banco dos que jogam em casa é um tolinho, sim, mas já foi nosso tolinho. E sabe perfeitamente como é que há-de enervar os nossos, onde acertar e com que índice de força: canela-pum ou gémeo-trau. Mentaliza-os que vai ser mais um jogo de enfesto e que se preparem para ele mais afincadamente que a Umbelina na noite de se encontrar com o Nérso ali no banco de trás do Ford Fiesta kitado.

Ganha o jogo e passa um bom fim-de-semana a veres os outros. Também não é mau jogar antes do adversário de quando em vez.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Sporting

Señor Lopetegui,

Tenho muitos amigos sportinguistas e creio que deve ser um recorde no rácio entre amigos que partilham um campo todos os sábados e uma vida no resto dos dias da semana. Juntamo-nos na futebolada há dezanove anos (já viste a coincidência do númbaro?) e há sempre lagartagem ao barulho. Uns mais ferrenhos, outros menos, outros ainda que não conseguem dizer qual foi o onze do Sporting na temporada 2001/2002, que em circunstâncias normais os deveria fazer ruborizar de vergonha mas que é tolerado pelo resto da malta porque, para ser sincero, poucos são os que sabem essas coisas, seja de que clube forem. Mas o grupo é composto por mais de dez amigos e seis são do Sporting. Seis. No Porto e arredores. Somemos a essa comandita o meu chefe. É sportinguista. O meu chefe, Julen, o gajo que me avalia o desempenho, que me orienta o trabalho e que serve como bússola profissional nos tempos que correm. Lagarto de fé e alma, pouco praticante mas ainda assim verde até aos ossos. Estou, no fundo, rodeado desse povo estranho no trabalho e na camaradagem.

E dou-me bem com todos eles. Os amigos, como é evidente, com quem partilho um elo metaforicamente umbilical de curso e percurso, mas também o chefe, que é um tipo porreiro. És és, oh, deixa-te lá disso, as pessoas estão a ler, vamos lá. Partilhamos dia após dia as amarguras e exaltações de um trabalho complexo mas gratificante que se faz na secretária do emprego ou no relvado sintético com a bola a rolar ou à mesa com um bom conjunto de finos pela frente.

Mas garanto-te, Julen, que nada me saberia melhor que poder chegar na 2a feira ao trabalho ou no próximo sábado ao salutar convívio semanal com o gangue, de peito feito a poder dizer: “Então, gostaram do jogo? Quando entrou o terceiro não quiseram saber se já tinha começado a novela? E o quarto, foi giro? Reclamem do penalty, agora, que tal? E aquele túnel duplo a meio da primeira parte? E os cruzamentos perfeitos? E que tal as mudanças de flanco criteriosamente por cima do lateral? E as cabeçadas para a rede? Gostaram de tudo? A vingança é fodida, não é? É ou não é? O rabinho dói, não dói? Queres uma almofadinha para as nádegas, que devem estar todas rebentadinhas das marradas de piroco que foram apanhando! E um chá? Um chazinho quentinho, qualquer coisa para acalmar os nervos? Não serve? Não se metam com os grandes, caralho, que quando picam o bicho, este não pica de volta. Este enche-vos de sémen até ao duodeno! Todo lá dentro!!!”

Deixa-me poder dizer isto aos gajos. Anda lá, garanto que também te vai saber bem!

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Boavista

Señor Lopetegui,

Saudades, caríssimo, saudades de visitar aquele estádio onde já tive um arraial de emoções tão grande que a minha juventude passou por tudo. Alegria, nervosismo, medo, prisão de ventre, soltura…se fizer número na tradicional panóplia do sentimento humano, já passei por isso no Bessa. E garanto que não fui lá mais que meia-dúzia de vezes, mas houve sempre tanto para contar que enchia aqui umas páginas e tu tinhas uma manhã chatita a ler sobre as minhas desventuras em vez de estares a mentalizar o Herrera que não deve deixar parar o cérebro depois de receber a bola nos pés. E hoje vai ser bem necessário enfiares alguns conceitos na mona do nosso povo, porque os rapazes devem estar desmoralizados…senão repara:

  • Danilo, Alex Sandro, Casemiro estão de fora, castigados num jogo em que três dos nossos jogadores levaram amarelo. Guess who? Yup, eles.
  • Óliver re-estourou o ombro na Suíça e fica de fora mais dias do que devia. Devia ficar zero. Fica muitos.
  • É um derby e os gajos vão estar motivados para ver se nos lixam mais dois ou três pontos.
  • O Benfica ganhou o jogo esta semana com mais uma bela arbitragem.
  • Vão jogar num relvado sintético, que é giro para amigos aos sábados de manhã mas não é nada agradável para jogar à bola em condições.
  • O outro treinador é um dos mais feios da Liga e gosta tanto do FC Porto como o Rui Santos. Talvez menos.

Ou seja, está tudo contra nós. Se tudo correr mal, o Tello vai andar atrás da bola a pinchar como louca, o Quaresma vai levar uma ou oito charutadas nos primeiros 10 minutos e não vai resistir a dar uma de volta, o Jackson vai ser ensanduichado tantas vezes que vai mudar o nome para Jackson Mortadelinez, o Ruben vai ficar com as coxas em sangue depois de se raspar pela enésima vez à procura de cortar mais uma bola dividida no meio-campo e o resto…sei lá, Julen, só sei que não tenho um feeling muito bom para o jogo de hoje.

Apostaria numa equipa de combate, eu que sou medroso. Defesa com Ricardo, Indi, Maicon e Marcano. Meio-campo com Ruben, Herrera e Evandro, ataque com Brahimi, Quaresma e Aboubakar. Deixar os gajos cansados, dar a estocada nas alturas certas e esperar que comecem a stickar o nosso pobo. E depois…aplaudir os adeptos visitantes e sair pelo túnel, satisfeitos por um trabalho bem feito.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Basileia

Señor Lopetegui,

Que saudades destes momentos, caríssimo. E que saudades de estar nos oitavos de uma competição destas, onde já não colocávamos as nossas patinhas há dois anos, que é tempo a mais para quem já teve hábitos mais interessantes que os actuais. Viena ou Gelsenkirchen são ideias que nos estão presas na cabeça e que nunca de lá saem a não ser que possamos colocar mais uma…que é como quem diz chegar lá outra vez. É um sonho, não duvido, uma coisa a que os ingleses chamam “pipe dream”, algo que é quase impossível de atingir mas que se mantém perene nas mentes e almas de tantos que, como eu, pensam nisso sempre que ouvem o hino da Champions.

E é isso mesmo que hoje temos de volta, esse sonho que vivemos todos os Setembros e na boa parte de Fevereiros. De chegar tão longe como já duas vezes chegámos ou, em alternativa, derramar suor e sangue a tentar fazê-lo de novo. Ninguém te censura se ficarem por aqui. Podem chatear-te a cabeça mas em verdade te digo que a malta já ficou razoavelmente satisfeita por ter passado a fase de grupos. Mas que temos a esperança de poder chegar aos quartos, lá isso temos. E está ao nosso alcance, por muito que o Basileia tenha uma equipa jeitosa e firme e segura e competitiva, nós também temos. Aproveita bem os teus recursos, coloca os que achares melhores em campo e vê se não sofres golos. Marcar já não é mau e se conseguires dois ou três, ainda melhor. Foca-te neste objectivo e deixa o campeonato para segundo plano, pelo menos hoje.

Hoje, Julen, é dia grande. É dia de Champions. Joga à altura disso.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Guimarães

Señor Lopetegui,

Chegamos a um dos jogos que mais gosto me dá ver ao vivo. O Guimarães (ou o Vitória, se perguntares a qualquer um dos locais que apoia a equipa, que têm honra e um amor pelo clube como poucos neste país) é um inimigo daqueles que há muitos anos nos atormenta as tardes e noites em que os defrontamos. E se a estatística diz que o confronto tende a inclinar-se para o nosso lado quando jogamos em casa, a verdade é que a história e a minha experiência pessoal me conta um conto e acrescenta-lhe um ponto. Nem sempre três (ou dois, como antigamente) caem para o lado decente desta vida, por muito que me custe. E custa, especialmente contra estes gajos. É que nem o crescimento do Braga nos últimos anos faz com que me sinta menos motivado para este jogo em particular. Dá mesmo um gozo bestial esmigalhar o Guimarães contra uma parede, garanto-te.

Apesar de tudo, e sabendo que actualmente nos damos bem com aquele conjunto de malfeitores de branco e preto, pouco há de mais satisfatório no panorama desportivo nacional que bater-lhes. E bater-lhes com força, empunhando um cajado forrado às nossas cores e castigando-os por tudo que o Afonso fez no passado, sem perdoar a quantidade de facho que o fulano enfiou na mãe, abrindo portas para um manancial de desculpas para violência doméstica que continua a fazer mais cabeçalhos que as conferências de imprensa do JotaJota.

Por isso aproveita o lanço que levas, vinga os dois pontos perdidos lá no Berço com aquela imbecilidade do Jackson, deixa o Hernâni perceber que já não está no Kansas mas que chegou aos grandes e explica em campo ao Sami, ao Ivo e ao Otávio que estão lá muito bem…mas é deste lado que os queremos em condições. E ganha o jogo para continuarmos a picar o Benfas.

Sou quem sabes,
Jorge