Ouve lá ó Mister – Boavista

Señor Lopetegui,

Este é o primeiro Ouve lá ó Mister que escrevo antes de um jogo contra o Boavista. E se já ouviu algum do folclore e dos mitos urbanos que rodeiam estes confrontos, posso garantir-lhe que ouviu bem. É mesmo um derby, que nos faltava há vários anos e que é daquelas coisas que só sentimos falta depois de deixarmos de ter. Adaptado a este caso, é como se uma afta que o incomodava durante largas semanas o deixasse subitamente de afligir. Neste caso, é um sentimento de ausência que me batia bem lá no fundo e que fazia com que qualquer outro jogo com adversários próximos da Invicta fosse considerado como um jogo contra malta cá da terra. Não era, nunca poderia ser. Estes, mais que quaisquer rivais, são alvos a abater.

E por isso me surpreendeu a ausência de sentimento na publicidade ao jogo por parte dos teus chefes. Palavra que ainda não acredito que não queiram puxar ao lenço de papel para nos lacrimejarmos todos quando nos lembramos de tantos e tantos jogos que disputámos contra estes infiéis, contra aquelas camisolas de xadrez que cravaram uma seta de fel no nosso lombo em montanhas de ocasiões e que perfurámos com um fueiro bem afiado noutras cordilheiras de vezes. É o Boavista, Julen, mas ao que parece o Boavista não diz muito a tanta gente que hoje vai estar no Dragão, porque apanharam os hereges na sua fase descendente…alguns nem sequer se lembram de os verem como campeões, nesse ano de todas as misérias e horrores que deveria ter trazido um novo horizonte com a entrada do milénio mas trouxe apenas um profundo vómito pelo sucesso da equipa vizinha! E é a esses que temos de contar as histórias, Julen. Não podes ser tu, carago, acabaste de chegar, mas as histórias de como o Emerson e o Kulkov, o Fernando Mendes ou o Jardel esmagaram os malfeitores no Bessa e como Deco, Zahovic ou Lisandro os desfizeram no nosso campo. E isto é só no “meu” tempo, imagina as histórias que os mais antigos podem contar!

É por tudo isto que este tem de ser um jogo para ganhar. Não peço golos em avalanche, não peço goleadas épicas. Peço que venças, que mostres aos rapazes que são bem-vindos de volta mas que a cidade nunca teve mais que um dono a não ser em míseras e inequivocamente pontuais situações. E tira o sorriso do focinho do Petit, por todos nós.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – BATE

Señor Lopetegui,

Mais uma estreia. É hoje que vai sentir o que é entrar em campo na principal prova de clubes do Mundo, superior a qualquer campeonato ou taça que se disputa por esse planeta fora. Hoje, mais que na pré-eliminatória contra o Lille, é que se começa a distinguir a qualidade dos executantes e a valia que os clubes mostram para estar a este nível durante seis difíceis jogos que arrastam multidões e criam aquele nervoso miudinho que mais nenhuma competição consegue criar no nosso estômago.

E bem-vindo também às tradicionais noites de Outono na Invicta, caríssimo! Esta promete ser mais uma inclemente jornada nocturna, com as tradicionais entradas com aguaceiros, seguidas pelo primeiro prato de chuvinha no lombo e terminando com uma carga de trovoada e relâmpagos como sobremesa para levantar as almas ainda mais alto na sonoridade e beleza de uma noitada de vitórias europeias! Quem não se lembra de jogos à chuva como contra a Lázio ou das saraivadas contra o Áustria de Viena? É que essa conversa de verão já lá vai, por isso toca a calçar as galochas e a vestir a gabardine porque o Porto está como sempre esteve: molhado.

E as galochas também servem como metáfora para este jogo. Não conheço o BATE tão a fundo como o meu caro amigo, mas tenho a certeza de uma coisa: se jogarmos com a intensidade a meio-campo que fizemos no Domingo em Guimarães, bem podemos estar tramados com F grande porque não acredito que estes bielocoisos venham cá brincar ao futebol. Isto é malta de barba bem rija, uma espécie de Brian Wilson em cirílico que nos vai lixar se tiver a mínima hipótese. Fecha bem o centro do terreno e faz lá um favor à malta, tira o Herrera e mete o Evandro e aposta em mais estrutura e menos parvoíce. E aposta no Quaresma ou no Adrián numa das alas. É malta com calo nestas coisas e pode equilibrar a inexperiência dos outros putos do meio-campo.

Bate no BATE. É impossível fugir desta piada, Julen.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Guimarães

Señor Lopetegui,

Duas semanas sem futebol em condições. Duas semanas, caríssimo, e já me sinto como um drogadito a quem roubaram a dose, as agulhas e o amor-próprio. Já dei comigo a vasculhar os canais da nossa televisão às duas da manhã para ver se ainda apanhava um bocadinho do Gibraltar vs Polónia, só para tapar um bocadinho a vontade de ver de novo algum futebol em condições, mas não fiquei saciado, not in the least. E se estás a estranhar ler esta missiva tão antecipada em relação ao que é normal…é porque este fim-de-semana promete e explico-te porquê.

Vou passear e só volto no Domingo. Até lá, rodeado de algumas dezenas de amigos (família e putos ao barulho, e uso a expressão “barulho” com toda a propriedade, porque vai haver e muito) num retiro anual dos amigalhaços que jogam futebol aos sábados. E entre esses, alguns portistas, um benfiquista (herege) e uma multiplicidade de lagartagem que ainda hoje não entendo como é que o grupo se manteve unido e coeso com esta distribuição clubística tão aberrante. Mas lá nos temos vindo a manter unidos e até nas discussões sobre futebol, que são múltiplas e perenes, os ânimos raramente se animam para lá da parvoíce e acabamos todos amigos. E como tal, devo chegar a casa em cima da hora para ver o jogo de Guimarães! E à hora que te escrevo estas palavras, não sei sequer a tua lista de convocados, o que é uma enorme tristeza para quem tenta fazer a antevisão a um jogo, especialmente um tão importante como este. Não tenhas dúvidas, os gajos odeiam-nos com a força de duzentos bombas atómicas forradas a esterco, por isso convence os teus rapazes que não é preciso jogar muito, é só preciso jogar bem e serem rijos. A comandita à volta do relvado também tende a ser inclinada para a estupidez por isso vai preparado para levares com uma cabecinha de porco ou uma selecção variada de isqueiros. São coisas antigas, não tentes compreender.

Admito que alguns rapazes estejam cansadotes, por isso cheira-me que vais descansar um ou dois a pensar no jogo de quarta-feira. Não faças isso, ou pelo menos pesa bem o binónio talento/condição física, porque se não estás habituado a campeonatos, fica o conselho: perdem-se pontos nas primeiras jornadas que te lixam a classificação mas acima de tudo a moral, tua e dos teus. Tens opções que chegue para ir rodando, mas aconselho-te a encontrares as melhores rotinas entre os gajos que mais gostas, sejam eles quem forem. Vai haver muito tempo (e oportunidade) para rotações de plantel, não queiras fazer tudo de uma só vez!

Escolhe quem quiser. Mas entra em campo com espírito de vitória e esquece a próxima quarta-feira. Bate nestes e depois bates no BATE.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Moreirense

Señor Lopetegui,

Cá estamos de novo neste belo estádio e no que espero seja uma solarenga tarde de Domingo, para nos voltarmos a maravilhar com o que pode ainda vir a ser uma bela equipa de futebol, ainda por cima com as nossas cores ao peito! Todos esperamos um bom jogo e que os rapazes estejam com a cabeça no sítio depois de na terça-feira termos arrumado com o Lille e chegado à fase de grupos da Champions. Por isso, já agora, os meus parabéns.

Mas a verdade é que ainda não somos uma equipa que jogue bem. Sim, temos feito uns jogos aceitáveis mas nada de extraordinário. Temos sido práticos, moderadamente eficazes mas o futebol ainda não entusiasma para lá de duas ou três jogadas de bom entendimento no decorrer das partidas, o que não é suficiente para te manter descansado no banco e claramente não é suficiente para manter o povo entretido nas bancadas. Há muita expectativa para ver os teus moços a fazer jogos em condições durante noventa minutos e quanto mais tempo demorares até conseguires esse objectivo…bem, já sabes com o que podes contar. Assobiadelas parvas, críticas constantes e uma sede de vitória que não cede. Viste o que fiz ali atrás, com as parónimas, esse conceito gramatical absurdo? É só para veres quem é este que te escreve.

Também já vi que o Alex não vai jogar, por isso estou na expectativa para ver se vais avançar com o Marcano e puxar o Indi para a esquerda, ou se vais dar uma oportunidade ao Zé Anjo. Ainda não sei que tipo de treinador és, hombre, por isso espero para ver. Quanto ao Moreirense, só há uma maneira de motivar os rapazes que não falha: convence-os que são o primo esverdeado do Boavista. Mesmo que a grande maioria dos teus jogadores te perguntem: “Boaquem?”, acredita que o público se motiva e te vai apoiar ainda com mais entusiasmo!

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Lille

Señor Lopetegui,

Parece que ainda aqui estivemos, neste mesmo sítio, a dizer as mesmas palavras, aqui há uma semana. O título era idêntico e tudo, já viste?! Mas a disposição, essa está um bocadinho diferente. Não para pior, não penses isso, apenas mais confortável do que estava na semana passada, porque aquele golinho do Herrera pode ter ajudado e muito a colocar a malta na fase de grupo da Champions e limpou-te a primeira gota de suor “à animé” que podias pensar em verter da tua testa. Mas o trabalho ainda não está terminado, meu caro, por isso mãos à obra e vamos perceber o que temos de enfrentar hoje.

Os gajos são rijos. Já viste isso na semana passada, gostam muito da pisadela e do empurrão, são daqueles que a malta gosta de mandar abaixo com estrondo, se percebes o que quero dizer. E vi os teus moços com calma suficiente para perceberem que era essa a táctica do adversário e que não precisavam de baixar a esse nível. Continuaram a jogar o que sabem e lá marcaram e lá ganhámos e isso é que importa. Não interessa nada se os gajos são melhores que nós – neste caso, não são mesmo – mas mesmo que sejam, a mentalidade é que é preciso estar sempre em modo-vencedor. Hoje, quando entrarem em campo, lembrem-se dos jogos contra franceses no nosso passado. Da vitória em Lyon, a outra nas Antas contra o Marselha, naquele jogo sofrido com o Drogba a ganhar tudo que era bola aérea nos últimos vinte minutos. Mas lembrem-se do Nantes, que nos deu água p’la barba, e do Paris Saint-Germain, esses estupores que já nos lixaram várias vezes. Já sei que a malta não tem grande experiência (afinal, quando vi o primeiro jogo do FC Porto ao vivo contra uma equipa francesa, o Nantes, em 1995, o Ruben Neves era um brilho nos olhos do pai e o Óliver ainda andava de fraldas…), mas é preciso começar a meter-lhes na cabeça que aqui não há empatanços. É sempre, mas sempre para ganhar.

Tenham noção da nossa história e foquem-se em ganhar o jogo. Porque as minhas 3ªs e 4ªs têm de levar hino de Champions e o FC Porto tem de lá estar. E eu. E todos nós. E vocês também.

Sou quem sabes,
Jorge