Ouve lá ó Mister – Braga

Companheiro Nuno,

Um dos meus companheiros de bancada tem uma frase que repete desde há vários anos e que se tornou uma espécie de imagem de marca das nossas viagens até às Antas (que se transferiram para o Dragão quando fizemos esse upgrade de instalações que acarretou o downgrade de alma) e que era proferida por mim ou por ele, dependendo de qual de nós se lembrava primeiro. Era qualquer coisa como isto: “Tenho frio…tenho fome…foda-se.”. Esta frase, ou sequência de frasiúnculas se quiseres, é nossa. É uma representação daquilo que sentíamos durante aqueles longuíssimos jogos invernais onde se jogava mal, onde os passes eram fracos ou fortes demais, onde o vento que uivava a partir dos topos se abatiam sobre nós com a inclemência de um professor primário à antiga. E nós, miúdos, encontrávamos aí a forma de usar o vernáculo à vontade sem vigia de adultos, ao mesmo tempo que mostrávamos a nossa frustração pelo jogo não estar a corresponder às expectativas. Mas saindo de lá, tristes ou não, imediatamente fazíamos planos para voltar no próximo jogo, com a alegria da juventude e as faces ruborizadas de excitação por vermos o nosso clube.

Hoje em dia, a frase é parecida. Graças ao meu compincha, que transformou aquele conjunto de palavrinhas em algo um pouco mais composto e bem mais adulto, para não dizer idoso. Cá vai, sempre com vernáculo: “Oh meus amigos, não fodam mais esta merda porque fodido já está que chegue!”. É neste ponto que estamos. Com lamentos e sem desistências. Com infelicidades e sem miserabilizações. Com amor pelo clube e sem pena do clube. Com vontade de chegarmos ao dia seguinte com menos três pontos de distância para o líder e a lutar para lá chegarmos ainda mais depressa. E só depende de ti, Nuno. Só.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Belenenses

Companheiro Nuno,

Não vou ao jogo. Vou jantar a casa dos meus pais, em família, para a minha filha passar tempo com os avós que bem merece e eles também. Após o repasto, vou meter-me no carro e sigo para casa, trato das higienes todas que a canalha requer e espero, de dedos cruzados à puto, que ela se digne a adormecer cedo. Depois desse trabalho chega então a altura em que posso ver o jogo em diferido (ou em semi-directo, se me despachar ainda a maio da partida) e fá-lo-ei no conforto do meu lar. Sabes porquê? Porque um jogo às 21h15 numa terça-feira à noite não lembra ao cu de Azrael e acho que nem o Nuno Luz ia ver o Mourinho se ele jogasse a essa hora. É sinal de clube vendido à televisão, onde o que interessa não são os adeptos de bancada mas os de sofá. E hoje, ganharam, porque não vou ser o habitual portista da Porta (coiso). Ganharam. Ptooey.

Quanto ao jogo, não posso falar muito mais sem saber quem é que vais escolher para jogar. Se houver rotação de equipa, é giro para ver os “novos”. Se optares por usar os mesmos fulanos, sei lá no que pode dar. Outro zero-zero? Oh, the humanity!

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Belenenses

Companheiro Nuno,

 

Tudo me parece uma metáfora, rapaz. Enquanto me sento para começar a escrever esta missiva, chove imenso lá fora e é uma tristeza, uma calamidade ver tantos remates das nuvens a acertarem no alvo de uma forma tão natural. E quando vinha a caminho de casa tentava racionalizar o facto das mudanças entrarem tão suavemente no carro que quase nem era preciso trabalhar para que elas funcionassem de facto como uma máquina bem oleada. Ou o jantar que degustei com prazer, feliz na percepção que a carne foi escolhida com critério, colocada na brasa com experiência e levou a bom fim o seu destino, conquistando o meu palato com mestria.

Um sonhador, é o que eu sou. Um gajo que gostava muito que a sua equipa desse lições a todas as outras e que não se acanhasse perante montanhas humanas ou talentos indescritíveis. Mas ainda não estamos lá, pois não? Longe disso, meu caro, por isso cada passo que damos tem de ser um passo em frente e não para o lado. Temos de continuar a lutar como temos vindo a fazer mas precisamos de marcar golos porque as últimas partidas têm sido uma miséria em frente à baliza. Estou a contar que hoje seja diferente e seja quem for que consiga quebrar esse enguiço, que festeje como se fosse o último golo da vida dele…e marque outro logo a seguir. Acima de tudo vence o jogo porque os que aí vêm…amigo, são bem mais duros que este.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Copenhaga

Companheiro Nuno,

Grande tomateira. Enormes cojones. Severíssimos apêndices testiculares. Gigantescas orbes escrotais. Majestosas esferas pendentes. Sumptuosas jóias da família. Tudo coisas que pensávamos que ias ter mas que aparentemente ficaram no bolso de qualquer casaco que deixaste godknowswhere e que talvez tenhas corrido meio mundo à procura sem grande sucesso a não ser uma pequena manifestação de punho erguido mas braço recuado, sem chama nem pujança portista e, vamos lá ser honestos, humana. Porque não é preciso ser um Clough, um Holloway ou um Robson para chegares a uma conferência de imprensa e em vez de tratares aquela merda como o teu TEDx pessoal, desatares à estalada com qualquer jornalista que tivesse a distinta lata de dizer que qualquer um daqueles lances em Chaves não era penalty! Só te pedimos que sejas mais sanguíneo, homem!

E hoje, contra mais uns fleumáticos que nos enfiaram um falo DESTE tamanho ao empatarem no Dragão, vamos pagar-lhes numa moeda ainda mais tramada: ganhando-lhes, lá na casinha deles. Mostrar que Copenhaga só serve para cerveja e gajas e que isto de vir ganhar a Portugal tem consequências para todos e que a vingança se serve fresquinha, tão fresquinha como está a abóbada celeste em Copenhaga. Vamos fazer com que o último jogo não seja tão importante, sim? Vamos fugir das contas, sim? Por favor, sim?

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Chaves

Companheiro Nuno,

Mais uma moedinha, mais uma voltinha. E se menina não paga e também não anda, temos aqui uma sopinha bem gostosa de contradições, porque se tu estás a meter moedas na máquina e depois te portas como uma menina, perdes pau e bolas e vais todo choroso para casa. Não me interessa absolutamente nada jogar à campeão durante sessenta minutos para depois estar os outros trinta a lamentar-me num cantinho, com medo de um ídolo com patas de argila podre que não fez nada para amedrontar o David em que transformaste o potencial Golias. Não pode ser, homem, não pode mesmo ser assim que vamos continuar a gerir os jogos daqui para o futuro e as próximas semanas são demasiado importantes para as encararmos com cagaço. Nem com cagança, mas muito menos com cagaço.

E este jogo não é um treino. É uma nova oportunidade para mostrares que a equipa não parou de crescer, porque já vimos isso em campo e queremos confirmar o que vimos. Mas também queremos que tu mostres que estás a crescer e que já lá vão os tempos em que te encostavas ao cantinho do quarto porque a luz estava apagada e havia monstros atrás das cortinas. Monstro bem pior está nas bancadas do Dragão e morde-te o rabo se não lhe fazes peito. Força!

Sou quem sabes,
Jorge