Ouve lá ó Mister – Saint-Étienne

Señor Lopetegui,

Em nome de todos que vão estar hoje no Dragão, deixe-me dar-lhe as boas vindas. Sei que já o fiz no jogo contra o Genk, mas hoje é um dia especial para si porque este estádio onde hoje vai estar presente será a sua casa durante os próximos tempos. E como qualquer pessoa que se muda para um novo domicílio, convém entrar com o pé direito, com as superstições todas associadas a esse arranque que se quer tranquilo e bem humorado. É um dia diferente para todos os portistas que lá vão estar e que já não vêem a sua equipa a jogar no seu estádio há meses. MESES, meu caro! Custou, garanto-lhe.

E hoje é um dia especial para tantos outros que aparecem pela primeira vez para jogar no clube e que vão pela primeira vez mostrar o que valem em frente aos adeptos. O meu caro amigo ainda não sabe porque ainda não passou por isso, mas estes tolinhos de azul-e-branco que logo o vão aplaudir não são os mesmos que o vão acompanhar durante a época. É um dia especial porque as apresentações são sempre rodeadas de grande fausto, uma festa com dragões “verdadeiros” em campo, naquele habitual cerimonial de purgar os maus-olhados e as vibes negativas que ainda possam estar entranhadas depois da época passada e que todos queremos esquecer rapidamente. Por isso vai ser uma festarola cheia de famílias, malta simpática e bem-disposta, que estava disposto a apostar que na maioria dos casos nem sabe quem é o Brahimi e pensa que o Ricardo já foi guarda-redes do Sporting. Não leve a mal, aposto que é assim em todos os clubes grandes e nós não fugimos à regra. Mas também lá vão estar os dementes como eu, que vão abandonar a família às sextas-feiras à noite em dias de chuva para o ver a si e aos seus rapazes em jogos contra os Moreirenses e Rios Aves deste campeonato. Esses, meu caro, são os que servirão como juízes em causa própria daqui a uns meses.

Mas hoje, como já disse, hoje é uma rebaldaria de boa disposição. Uma vitória é sempre porreira mas o que interessa mais são as camisolas novas, as botas dos novos e os penteados dos antigos. Perceber se o treinador gosta de estar sentado no banco ou grita para o relvado de cinco em cinco segundos. Se faz substituições a qualquer altura ou se espera até ao último minuto. Esteja descansado porque ninguém lhe vai tirar a pinta hoje. Só queremos ver o FC Porto a jogar. It’s been too long.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Genk

Señor Lopetegui,

Ora então muito bom dia e bem vindo a esta que será a sua casa nos próximos meses, a não ser que a direcção se lembre de sacar um Del Neri e o ponha na rua ao fim de umas semanas. Bem vindo a um dos melhores clubes do Mundo, que luta pelo campeonato todos os anos, que tem um estádio belíssimo e uma massa adepta exigente, a um clube que tem arrecadado troféus atrás de troféus nos últimos quarenta anos. Bienvenido.

Não estando habituado a estas lides, fica a apresentação. E fica também uma palavra de estímulo e de parabenização pelo posto que agora ocupa e que enche de inveja tantos que o vêem todas os dias com o emprego de sonho de tantos portistas espalhados por esse globo fora. Quem é que não quereria partilhar balneário com Helton e Quaresma, quem é que não gostaria de trocar umas bolas com Óliver ou Alex Sandro, quem é que não sonha todos os dias a caminho do lúgubre e enfadonho emprego (não são todos, comparados com o seu?) que mais valia estar a escolher o onze que vai jogar a próxima partida do FC Porto? É por esta e por outras que o meu amigo Julen está numa posição privilegiada para mostrar o que vale e para se abraçar todos os dias ao espelho com a auto-congratulação de quem chegou ao big-time. Mas, qual Peter Parker catalão, também sabe que com grande poder também vem grande responsabilidade. E hoje é o primeiro dia do resto da sua vida, meu caro.

Ninguém espera muito destes jogos. Reformulo: as pessoas normais não esperam muito destes jogos. Nós, os pensantes, percebemos que são jogos para experimentar, para testar opções principais e alternativas, para dar aos jogadores algum entrosamento em campo e para que os treinadores percebam que tipo de matéria-prima ali têm para lá do que vêem nos treinos. Por isso venham de lá esses onzes, apareçam as jogadas, suem os corpos e trabalhem para mostrar serviço. Não lhe peço mais que isso.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Benfica

Estimado Professor,

Chegou o dia da despedida, ainda que temporária, da equipa aos seus adeptos. Aos adeptos que a seguiram sem cessar, que apoiaram sempre que puderam, apanharam chuva no lombo, granizo na nuca, que tostaram ao sol abrasador no Verão e suportaram o frio no Inverno em várias cidades por esta Europa fora, sempre a apoiar a malta de azul-e-branco que por vezes nem se apercebeu muito bem da importância e valia da camisola que usavam no lombo. Foram tantos jogos, tantos infelizes conjuntos de noventa minutos em que vimos pouco mais que uma amálgama de poliéster nos corpos e couro nos pés, a tentarem pela vidinha deles perceber o que faziam na vida, como uma espécie de filosofagem de dois tostões que nunca os levou a nenhuma conclusão decente. E vão continuar mais um mês, alguns deles, pelo menos.

Mas o jogo de hoje é especial, não é? Um clássico é sempre especial, carago, não ponha essa cara infeliz! Alegre-se, porque vem aí o Benfica e que melhor possível motivador poderá haver que defrontar o vencedor da Liga e recente erguedor de mais uma Taça do mesmo nome?! E é exactamente por isso que neste jogo achei que poderíamos fazer uma guarda de honra aos gajos, mostrar que também sabemos perder, que por debaixo da nossa tradicional arrogância suportada pelas vitórias também bate um coração que sabe quando foi derrotado e que presta honra aos vencedores. E já imaginou a psicologia da coisa? Eles, que nos viram vencer e apagaram as luzes, ligaram a rega, vieram chorar para tudo que era jornal, ávido de palavras chocantes e declarações vazias de sentido apenas com a fel com que foram proferidas, eles que recebem guarida de toda a imprensa, todo o país pseudo-civilizado e dezenas de programas de televisão…já imaginou a chapadona de luva branca que seria recebê-los como nunca nos souberam receber? Meu Deus, que orgulho me daria poder dizer: “Viram aquilo? Viram mesmo? Viram o que é uma equipa com honra mesmo que não consiga jogar em condições?”. E diria com toda a pujança e toda a cagança, porque seríamos grandes.

No entanto, como acho que não vai acontecer, só lhe peço o seguinte: diga aos jogadores que este é o último jogo que muitos deles vão fazer. E se querem sair por cima, se querem deixar um mínimo de boa imagem na hora da despedida…só têm de ganhar o jogo.

Só.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Olhanense

Estimado Professor,

Escrevo-lhe estas palavras quando as vozes dos nobres cantores do fado de Coimbra estão a ecoar nas paredes da Sé (ou da Relação, já nem sei onde é este ano…), enquanto milhares de estudantes, trajados até ao osso e metade já semi-alcoolizados vão ouvindo em silêncio (os que conseguem) alguns dos acordes que sinalizam o início do fim da sua vida académica. E estabelecendo um paralelismo com a sua carreira no FC Porto, presumo que acredite que mais garrafa, menos garrafa de tinto, os sinais são os mesmos e a rampa será idêntica. Ainda assim, não sabendo o que se irá passar nas próximas semanas, acredito que vai tentar fazer o melhor possível no tempo que resta.

Assim sendo, mesmo considerando que a equipa que gere está numa forma semelhante à que se encontrava quando pegou nas rédeas da mesma aqui há uns meses, não deixo de ficar surpreendido pela presença de vários Bs nos convocados. Tozé e Kayembe (mais o primeiro que o segundo) já fizeram o suficiente para merecer uma chamada, mas talvez houvesse espaço para mais um ou dois. Pedro Moreira, por exemplo, que não sendo um génio do futebol é lutador e tem sido um líder da equipa secundária; Ivo, um extremo como poucos que temos, que vai para cima dos defesas sem medo; Victor Garcia, para continuar a mostrar que pode ser alternativa a Danilo; Quiño, que nem está a fazer uma época extraordinária mas fazia com que não precisasse de inventar na lateral esquerda; ou Mikel, para jogar em vez de Fernando e dar descanso ao nosso guerreiro. Havia muitas alterações mais a fazer mas a opção é sua, será sempre sua e nós, que estamos de fora, é que gostamos de as analisar sem saber o que por aí anda na sua cabeça.

Muito bem. Faltam apenas 180 minutos para o fim do desterro e é mais que tempo para sacar duas vitórias. Acima de tudo vamos sair disto com a pouca honra que nos resta. É que perder com o último classificado, francamente, não lembra nem ao adepto mais pessimista.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Benfica

Estimado Professor,

Estive num festival de estúpida nostalgia enquanto me deliciava a ver os últimos dez minutos do jogo K de ano passado. Às vezes dá-me para estas coisas e como tantas outras pessoas que se apanham no youtube ao fim de uma hora, depois de apenas lá terem aparecido para procurar um video, perco a noção do tempo e começo a perceber que me estou a arrepiar todo mesmo que esteja relativamente morno aqui dentro de casa.

Fui à procura dessa recordação de uma das noites mais fantásticas que passei num estádio de futebol por razões que não lhe devem escapar. A necessidade de uma vitória, de me lembrar de uma estupenda vitória como aquela, é tão grande que me invade a alma e me impede de pensar em qualquer outra coisa que não a vontade de a trazer de volta. E mesmo o jogo da Taça contra o Benfica, que vencemos neste mesmo estádio onde estarei hoje à noite, trouxe-me alguma alegria…mas fui esmagado por aquela ignóbil demonstração de incapacidade competitiva há duas quartas-feiras atrás. Enfim, tem sido uma miséria e por muito que a Taça da Liga nos tenha escapado no passado e apesar de a termos desprezado a tal ponto que até Jesualdo levou uma equipa de juniores a Alvalade e no ano passado até jogamos com o Abdoulaye para dar uma chance ao Braga (e demos), este ano temos mesmo de pensar que pode ser o segundo troféu que conquistaremos. E é a única coisa para que os jogadores ainda podem jogar com alguma alma de vitória.

Por isso joguem a sério, sem fraquejar, sem ceder às pressões e sem permitirem que a cabeça fale mais alto que o coração. Sim, os rapazes são campeões. Mas já cá perderam e vão perder hoje também. Força, rapazes! Força!

Sou quem sabes,
Jorge