Ouve lá ó Mister – Feirense

Companheiro Nuno,

É uma trampa quando ficamos dependentes de terceiros, não é? Roemos as unhas com o nervosismo que nos invade o corpo e nos tolhe o raciocínio e a vontade de vencer por intermédio de outros é uma situação que não me agrada nadinha. Mas é o buraco em que estamos e se queremos sair dele temos de fazer o nosso trabalho e esperar que os outros não façam o deles. Não adianta chorar, Tibi, como dizia o outro.

Este é mais um jogo desses, em que temos de vencer para conseguirmos encostar mais um bocadinho ao Benfica e criar a ilusão que ainda podemos chegar lá. E eu acredito, Nuno, a sério que acredito, mas tens de me dar motivos para isso. Tens de colocar os jogadores em campo sem medo, sem preocupações excessivas com os jogos dos outros e focar a malta para que consigam levar a estúpida da água ao tal moínho de que todos falam e que parece ficar sempre tão longe que me enerva só de pensar na viagem. O Feirense não é uma Juventus (está perto, afinal jogam com camisola e calções e…ficamos por aí, vá) mas são meninos para nos lixar a vida se não formos competentes. E se o Barge jogar, vê lá se alguém lhe rapa a barba ao estalo porque aquele gajo é do tipo de jogadores que faz o Schelotto parecer o Dani Alves. Ugh, Brigueis, pá.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Braga

Companheiro Nuno,

A matemática começa a apertar e os números são cada vez mais fáceis de contabilizar. Os alinhamentos das últimas jornadas fazem com que seja acessível perceber que uma derrota em qualquer ponto daqui até ao final do campeonato pode ser uma sentença de morte para as aspirações que todos temos e por isso se usa aqueles termos absurdos de “x finais até ao fim”. É duro, é letal, mas é o que temos.

Este jogo em Braga é sempre complicado. Os estupores lutam como dementes para sacar todos os pontos em disputa e se não nos acauletarmos em condições, vamos ficar pelo caminho antes do que pretendemos. Hoje temos de fazer uma exibição suficiente para ganhar. Não quero saber se é bonito, se é elegante do ponto de vista técnico ou táctico, mas temos de vencer o jogo. Não há tempo sequer para pensar noutro resultado e se queremos estar nos Aliados em Maio temos de vencer todos os jogos, em casa ou fora. E o Braga é só mais um desses jogos. É tramado mas é só mais um.

Entra em campo com vontade de vencer. Tenta marcar cedo e explorar o contra-ataque quando puderes. Não abuses do jogo mastigado no meio-campo, sê rápido e prático, apoia os flancos e roda a bola com certeza. Joga em condições. Joga com os olhos na outra baliza. Ganha o jogo. E depois preocupamo-nos com as outras finais.

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Belenenses

Companheiro Nuno,

Acompanha-me num exercício, se fizeres o obséquio. Vamos tentar fugir um bocadinho da normalidade semanal da bola portuguesa. Procuremos o alheamento dos insultos, das tiradas sarcásticas, da forma truculenta com que os intervenientes se tratam uns aos outros e onde o que parece normalmente é. Fujamos pois para um mundo mais calmo, pacífico, com nuvens brancas passeiam descansadas na frente de um céu azul e sorriem para os comuns mortais cá em baixo. Estamos em paz, olhamos para o futuro e para o horizonte com um sorriso nos lábios, um copo de boa cerveja e amena cavaqueira, enquanto ouvimos o Dark Side of the Moon e sonhamos em chegar lá ao fundo com mais um poucochinho de tranquilidade nas nossas almas.

E será assim no Dragão hoje à tarde, quando o Belenenses entrar no estádio com a nossa bandeira a ser transportada por alguns dos seus jogadores, preservando a tradição que começou há tantos anos e que já cumprimos na primeira volta do campeonato, no Restelo, com a coroa de flores depositada com solenidade aos pés do mini-mausoléu erguido a Pepe. Será mais um dos raros momentos de sintonia extra-futebol, da união das massas por um bem maior e que nos puxa, mesmo que apenas por alguns minutos, para fora deste lamaçal competitivo que nos inunda o dia-a-dia.

Depois…venham eles. Caiam eles. Fiquemos nós de pé, prontos para mais uma boa tarde de sábado e que a vitória nos sorria. Esqueçamos o jogo da semana passada. O que conta é sempre o próximo, Nuno!

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Benfica

Companheiro Nuno,

É hoje, rapaz. O jogo que está nas nossas cabeças desde há várias semanas e que parecia nunca mais chegar. É hoje. Vais entrar para noventa dos minutos mais difíceis da tua vida e com a certeza que o resultado vai ditar muito do futuro dos teus rapazes e, convenhamos, também do teu. É hora de juntar a malta no balneário, sentar toda a gente e começar a conversa. Não é tempo para medos, receios, cagufa. Não é tempo para arrogância, sobranceria, gabarolice. É tempo de trabalho, de suor e de esforço. E é acima de tudo tempo para tomateira bem rija e bem grande.

Não há estádio mais complicado em Portugal que este que hoje vais pisar com os teus rapazes, se excluirmos o nosso. É um ambiente pesado, com dezenas de milhares nas bancadas a torcerem contra ti e a desejarem que pises excremento sempre que mexeres os pés. Vão estimar que a tua mãe fornique babuínos, que os teus filhos sejam alvo de bullying com prumos e maçaricos e que os teus cães faleçam em acidentes envolvendo fogo e metal derretido. Vão insultar-te, aos teus e ao teu clube. Vão fazer tudo para que não consigas ganhar o jogo. Não te deixes ir abaixo. Não cedas à pressão do medo fácil e mesmo que o sintas, não o transmitas aos teus rapazes. Para eles, tanto como para ti, é um jogo em que só homens resistem e só homens conseguem vencer.

Ninguém te pede uma vitória e tu sabes disso. Mas pedimos-te que sejas audaz, que sejas inteligente e que consigas fazer a gestão do jogo de uma forma esperta, com os timings certos e a dose correcta de cinismo e sentido prático que precisamos para vencer este jogo. Tens de tentar vencer. Tens de tentar vencer. TENS. DE. TENTAR! E depois, seja qual for o resultado, cá estaremos para apanahr as canas ou, em alternativa, rebentar os dedos com o resto dos foguetes. Força, Nuno! Força, equipa! Força, Porto!

Sou quem sabes,
Jorge

Ouve lá ó Mister – Setúbal

Companheiro Nuno,

Estou a fazer dieta. É verdade, depois de muitas agressões ao meu fígado, estômago e vizinhos abdominais, decidi-me finalmente a fechar a matraca e a fazer algum exercício para que, daqui a uns aninhos, possa finalmente olhar para baixo e ver a pixota para o espelho e ter algum orgulho no que vejo. É raro acontecer e a barba de indigente, somada à despreocupação geral para com o meu aspecto, ajuda a que me foque no interior para que se reflicta qualquer coisa no exterior.

E como em todas as dietas, o que custa é abdicar das coisas mais habituais e forçar aquelas que não são tão habituais. Arroz em vez de massa, iogurtes magros em vez de bolachas, leguminosas em vez de batatas fritas, esse tipo de tralhas que deixam um gajo deprimido e a pensar na vida. Caminhar em vez de enfardar, exercitar em vez de enfrascar, tudo actos que afastam um gajo do prazer de estar vivo e que levarão, espero, a um fim nobre mas através de caminhos tortuosos e infelizes. *suspiro*

Isto tudo para te dizer: não deixes que o meu esforço seja em vão, Nuno. Permite-me gritar e saltar com os golos do FC Porto neste Domingo porque para lá de gastar mais umas nove ou dez calorias com o entusiasmo, sempre me pode trazer alguma alegria e força para o futuro próximo. Porque na Luz, já sabes: se ganhar, que se lixe a dieta, vão finos abaixo quer a pança queira quer não queira!

Sou quem sabes,
Jorge