Baías e Baronis – FC Porto 2 vs 1 Sporting

Isto sim, é um clássico! Duas equipas lutadoras, cada uma com as suas armas, bons golos, tensão de início a fim, um árbitro com trabalho relativamente jeitoso (ai ai Marvin que sacaste uma à Layún, meu estupor), momentos de brilho intenso de alguns jogadores (Soares e IKER, IKER, IKER!!!) e um ambiente estupendo em todo o estádio. Vencemos bem mas um empate não teria surpreendido ninguém, tal foi a reacção do Sporting na segunda parte depois de uma extraordinária exibição de eficácia e cinismo na primeira. Demos tudo e ficamos com os três pontos. Uff. Vamos a notas:

(+) Soares. Ora então eu ando aqui em Guimarães e tal, lá vou marcando uns golitos, os chineses vêem-me a jogar e até me oferecem guito suficiente para comprar os Clérigos e fazer lá um shopping mas decido ir para o Porto, afinal a cidade é bonita e o Deco diz que lá se vive bem e a malta é cool e trendy e eu sigo para lá e decido fazer o quê no meu primeiro jogo? Para lá de entrar de início, lá vou eu enfiar duas batatas ao Sporting, uma de cabeça e outra em que finto o guarda-redes e tudo. Ainda não satisfeito ainda me pus a correr a todas as bolas e a morder os calcanhares aos defesas todos, ganhei bolas pelo ar, segurei o jogo na frente e ia marcando um terceiro. Para estreia não está mal. No biggie.

(+) A entrada de André² e Teixeira. Apesar de achar que Nuno esperou tempo demais para fazer entrar qualquer um dos médios, a verdade é que entraram muito bem e conseguiram segurar a bola durante mais tempo do que qualquer um tinha feito até então. E se Teixeira se perdeu um bocado em excessos driblatórios, a verdade é que arrastou bem o jogo para a frente quando a equipa precisava de respirar um pouco. E André esteve impecável no transporte da bola pela relva, estabilizando o meio-campo numa altura em que o resto dos colegas estava quase sem fôlego.

(+) Aquela defesa de Casillas. Se Soares foi o MVP da partida, votado pelos adeptos no estádio, Casillas foi sem dúvida outro MVP. No caso do guarda-redes espanhol, atribuo-lhe o meu MVP: Most Valuable Putaquepariuquedefesaquetufizeste! Ainda estou, horas depois de ver a defesa ao vivo, a relembrar-me da quase inacreditável defesa de um guarda-redes nos seus trinta e muitos, a voar para tirar a bola quase de dentro da baliza e a salvar a vitória da equipa. E a forma como celebrou o final do jogo, de joelhos no relvado e braços erguidos para o céu. É. Um. Senhor.

(-) Incapacidade de combater no meio-campo. Vamos lá ver uma coisa de uma vez por todas. Tivemos, temos e teremos sempre jogos muito complicados contra equipas fortes no meio-campo porque os nossos homens não conseguem dar conta do recado. Eh pá, esqueçam lá as utopias e os clichés de “a vontade ultrapassa as limitações”, porque não é verdade e a prova disso são estes jogos em que os adversários nos batem aos pontos na velocidade de execução e na cobertura das zonas centrais, fazendo ambas melhor que nós em vários momentos consecutivos. Porque não se pode esperar que um Óliver consiga cobrir tanto terreno como um Palhinha ou um Adrien, não se pode esperar que Danilo faça o trabalho de três nem que os extremos consigam fazer corredores todo o jogo e ainda tapar no meio. O Sporting subiu na segunda parte especialmente porque deixou de usar o pivot holandês e começou a trocar a bola e a fazer-nos recuar para a nossa área porque não estávamos (mais uma vez) a ser capazes de segurar a bola nem tão pouco de interceptar as jogadas adversárias num ponto adiantado do terreno. Temo, com o medo de uma criança que não sabe nadar e é atirada ao Douro, os jogos com a Juventus. Italianos dão-se bem contra equipas que os deixam gerir o jogo ao seu ritmo…

(-) Cansaço. A equipa está com uma carreira física notável este ano e o facto de praticamente não haver lesões musculares dever-se-á ao trabalho da equipa médica e também ao preparador físico. Não sei até se aqueles mini-aquecimentos públicos no arranque das segundas partes não terão ajudado a melhorar a capacidade física e muscular da equipa, mas o que é certo é que têm andado tudo muito jeitoso. Mas…as pernas nem sempre vão conseguir aguentar. Temos feito jogos muito exigentes e continuo a achar que corremos demasiado e não produzimos em proporção, por isso é lógico que haverá jogadores que entraram neste ciclo complicado com as pernas presas por arames. Brahimi, Corona, Óliver e André Silva estão desgastados e será preciso trabalhar muito bem para os recuperar já para o jogo de sábado. É algo que me preocupa no futuro próximo.

(-) Telles. Jogo muito fraquinho de Telles, raramente conseguindo acertar na marcação. Em qualquer marcação, diga-se, porque marcar Gelson foi quase impossível e apesar do puto ser mesmo muito bom jogador, Telles não teve capacidade de ser mais esperto e astuto, foi demasiadas vezes “comido” por tomar más decisões e permitir que o adversário arrancasse e passasse por ele em corrida. E falhou também na marcação de tudo que foi bola parada, porque entre um canto com a bola a sair directa e livres marcados com pontaria desafinada, Telles teve um jogo que foi uma espécie de antítese do que tinha feito contra o Rio Ave. Há dias assim.


Primeiro lugar à condição e continuamos a depender apenas de nós para conseguirmos manter-nos lá. E são jogos destes que se fazem equipas campeãs, amigos, por isso continuemos o caminho e mantenhamos a cabeça erguida! We still can!!!

Ouve lá ó Mister – Sporting

Companheiro Nuno,

 

Daqui a umas horas vou sair de casa, meter-me no carro e por-me a caminho do Dragão. Depois de passar algum tempo a tomar um café e a beber uns finos com amigos, vou vestir o casaco, colocar o gorro na careca e o cachecol ao pescoço e vou seguir viagem pela Alameda abaixo até entrar na minha porta (que não é a 19 porque essa estará ocupada por gente de verde e branco) e eventualmente sentar-me no meu lugar. Uma mijinha, um cigarro, uma garrafa de água para equilibrar a cerveja e humedecer a garganta, algumas conversas nervosas e siga lá para dentro. Tudo isto acontece nos jogos normais e é uma rotina que me agrada, que me acalma, que me faz sentir que o mundo é normal, pelo menos aquele que eu controlo. Mas este não é um jogo normal, Nuno. É um dos grandes. É daqueles que a partir do momento em que o árbitro bota os lábios no assobio, tudo muda. Fico tenso, intranquilo, distante, como se estivesse fechado numa redoma em forma de estádio onde o tempo é infinito e a capacidade de sofrimento aumenta exponencialmente à medida que o jogo vai decorrendo. Raro é o clássico em que me divirto e não prevejo que este seja muito diferente.

Mas há uma forma de me transformar num adepto, digamos, normalzinho: jogar a sério e ganhar. Pensa que se venceres tens o Sporting a noventa mil pontos de distância somados à vantagem no confronto directo. Pensa que pode ser o primeiro clássico que vences. Pensa que pode ser o primeiro jogo que vences o senhor otchentchaeotcho. Pensa que é a tua primeira grande hipótese de limpares a imagem de medricas que ficou desde o último clássico que jogaste no Dragão. Pensa em morder os calcanhares ao Benfica e só vencendo o conseguirás.

Pensa nisso tudo. Transmite aos rapazes essa mesma ideia e entrem em campo para ganhar de início a fim. É só isso que te peço.

Sou quem sabes,

Jorge

Dezanove dedos de treta com o Mestre de Cerimónias (oartistadodia.blogspot.pt)

Em semana de clássico…uma conversa com o inimigo. Um inimigo muito especial, autor de um dos blogs mais reconhecidos e de maior qualidade do nosso panorama futebolístico (e não só) nacional: “O Artista do Dia“. Usa o nom de plume “Mestre de Cerimónias” e tem uma cadência de escrita ao nível de uma aceleração do Hulk e uma sagacidade e inteligência na prosa que só se equipara a um Lucho em frente a um teclado. Decidi meter conversa com ele a poucos dias de distância de um dos jogos mais importantes do ano para perceber como pulsa o coração de um leão na véspera de se deslocar a um dos estádios mais complicados do país. Fica a conversa, comprida mas agradável, para lerem e imaginarem que o futebol também pode ser assim. Rivais durante o jogo, gente que sabe conversar fora dele. Siga a rusga:

Jorge: ora viva! como vai s/exa?
Mestre de Cerimónias: Olá Jorge! Bem, e o Dr.?
Jorge: Engº, faça favor, haja respeito
Mestre de Cerimónias: Peço desculpa, Engº.
Jorge: kidding, detesto essas merdas. títulos só no desporto.
Mestre de Cerimónias: Eu sou coerente, não quero nada com títulos em nenhuma faceta da minha vida.
Jorge: damn, acertei mesmo no sportinguista certo, és a personificação da imagem icónica que o resto do mundo tem
Mestre de Cerimónias: ahahah
Jorge: então comecemos pelo mais recente: que tal este mercado? mais fortes ou mais fracos?
Mestre de Cerimónias: Não acho que vá mudar grande coisa. O problema do Sporting não está no onze inicial, mas sim nas alternativas que (não) existem para certas posições. Em teoria, os regressos do Palhinha, do Podence e do Geraldes são positivos, mas a época do Sporting resume-se a apenas mais 15 jogos… logo, não me parece que existirão oportunidades suficientes para se notar a diferença em relação aos que saíram.
Jorge: mas há elementos em subrendimento que podem ser trocados e ajudar a preparar eventuais (certas) saídas
Mestre de Cerimónias: Sim, isso sem dúvida. Numa perspetiva de futuro, foram as movimentações certas.
Jorge: e dependendo do resultado no Dragão, não achas que essas alterações vão ser catalisadas? especialmente em caso de resultado negativo…
Mestre de Cerimónias: Não estou a ver o Jesus a mudar a estratégia em função do resultado de sábado, sinceramente. Será sempre a condição física e as suspensões a ditarem as oportunidades que os jogadores de banco terão. A não ser que existam instruções de cima, claro.
Jorge: e achas que ele cede a isso? mesmo com as eleições aí à porta? nunca me pareceu gajo para se deixar enredar nessas coisas
Mestre de Cerimónias: Depende da natureza das instruções, suponho. Quando falo em “instruções”, não me refiro a nada em específico, apenas em fazer ver ao treinador que é importante em recuperar o tempo perdido na valorização de determinados jogadores. Não me passa pela cabeça que alguém da estrutura faça imposições de quem tem que jogar. Já agora, como viste as movimentações de mercado do Porto?
Jorge: equilibradas. quem não tem dinheiro tem de abdicar dos vícios e foi um approach consistente. continuo a achar que nos faltam opções aos actuais desequilibradores, especialmente nas alas, mas estou moderadamente satisfeito com o plantel actual. curioso para ver como o Soares se vai safar nos próximos tempos. mas temos um plantel completamente diferente dos últimos que nos deram títulos, muito menos experiente, com muito e bom espírito de luta mas pouca fibra mental, pouco calo para grandes combates. temo o que pode acontecer contra a Juve, especialmente no jogo em itália.
Mestre de Cerimónias: Pois, nomeadamente lá na frente, só putos. Com muito potencial, mas putos. Para quem está habitado a Jacksons e Falcaos, é uma grande diferença.
Jorge: completamente de acordo. é um dos grandes problemas do FC Porto actual, este processo de desmame em relação aos planteis de luxo que tivemos. a malta está muito mal habituada mas já se vêem sinais de melhoria na relação dos adeptos com a necessidade de vencer depois de um período de seca
Mestre de Cerimónias: Nós, finalmente, decidimos abrir (e bem) os cordões à bolsa para a posição de ponta-de-lança. Os 10 milhões do Dost foram muito bem gastos.
Jorge: esse cabrão, pá. Jardel holandês, é o que é! espero que o Felipe o seque bem sequinho mas não vai ser fácil
Mestre de Cerimónias: O meu principal medo com o Felipe é quando ele for à nossa área.
Jorge: é um gajo jeitoso e está a evoluir muito. faltou-nos isso nos últimos anos, um central rijo que olha nos olhos e acerta se for preciso e que não se põe a brincar na defesa
Mestre de Cerimónias: O Sporting tem estado mal nas bolas paradas defensivas. Vocês estão on fire nas bolas paradas ofensivas. Até o Marcano já parece jogador.
Jorge: estamos on fire…kinda. foram só os últimos jogos, houve aí muito jogo com demasiados cruzamentos indecentes. o Marcano é um case study: gajo certinho, que inventa pouco, joga para o colectivo, para o grupo, nunca para ele…mas no ano passado viu-se que cede com facilidade à pressão que ele próprio coloca em cima dos ombros. desde aquele lance ridículo na Choupana, nunca mais foi o mesmo até acabar o ano.
Mestre de Cerimónias: Nunca imaginei no início da época que o Porto conseguisse ter uma defesa tão pouco batida. O Marcano não dava grandes garantias, o Boly foi uma contratação estranha e o Felipe a ter que se adaptar ao futebol europeu…
Jorge: tu e eu! o Danilo tem ajudado muito! esse gajo foi tão bem “roubado”!
Mestre de Cerimónias: Estou muito satisfeito com o meu 6. Não é tão forte a defender, mas dá outras coisas à equipa. Mas agora está em má forma, no entanto. Foi um dos sacrificados por não ter backup decente.
Jorge: e o Palhinha? devo dizer que me surpreendeu no Moreirense, está a ficar um jogador a sério. mais Katsouranis que William, mas com cabeça.
Mestre de Cerimónias: Já sigo o Palhinha desde o último ano de junior. Gosto muito dele. Um cavalão, muito agressivo na abordagem aos lances, e que sabe progredir com bola. Foi, provavelmente, o grande erro do Jesus nas dispensas que fez. Ainda bem que voltou. Há que o preparar para ser o 6 titular na próxima época.
Jorge: concordo, francamente. mas estreias em clássicos são sempre complicadas…ou achas que o miúdo se safa bem? ele já jogou com o Paços, mas num Dragão cheio…
Mestre de Cerimónias: Ele é um miúdo mentalmente forte. E deu-se bem nos jogos que fez com o Porto nesta época. Acho que se vai dar bem. O meu principal medo em relação ao Palhinha é a questão disciplinar. Mas o árbitro é o Hugo Miguel, que é um árbitro que poucas vezes puxa do cartão… isso pode favorecê-lo.
Jorge: ou seja, prevês um clássico dos bons, um jogo mais físico a meio-campo beneficia o Sporting, não tenho dúvida…
Mestre de Cerimónias: Vai ser interessante, é um jogo de tripla. Não é como há uns anos, em que o Sporting entrava no Dragão quase derrotado. As últimas vitórias que conseguimos aí foram importantes para atenuar essa desvantagem psicológica. Na minha opinião, o Sporting vai tentar (e conseguir) mandar no jogo, porque não sabe jogar de outra forma, mas há a questão psicológica: o Porto está moralizado e vai ser paciente, enquanto o Sporting está com dificuldades em dar a volta a situações adversas.
Jorge: esse é o meu medo. que o Nuno se deixe amedrontar no caso de ter de defender uma vantagem
Mestre de Cerimónias: Pode parecer paradoxal, mas acho que o Sporting tem mais hipóteses se não marcar cedo.
Jorge: essas dificuldades podem existir, mas quando o adversário permite que ocupes grande parte do terreno, a mobilidade e agressividade podem fazer o resto. ou então fiquei muito marcado pelo empate com o Benfica
Mestre de Cerimónias: Não sou grande apreciador do estilo do NES (nem quando está no banco, nem quando está à frente de um flipchart), mas por acaso acho que foi um pouco vítima das circunstâncias nesse jogo com o Benfica.
O anormal foi o Benfica ter empatado jogando o que jogou. As substituições do NES foram de marcha atrás, mas a verdade é que o Benfica é muito mais perigoso se tiver oportunidades de contra-ataque do que se tiverem a iniciativa de jogo. Percebi a ideia de fazer marcha atrás e convidar o Benfica a avançar no terreno.
Jorge: não estavas lá na bancada, caso contrário acho que mudavas de opinião. foi muito frustrante ver uma equipa a controlar o jogo e a ser obrigada a recuar pelo medo que lhes era transmitido do banco. acho que o Nuno melhorou desde esse jogo, está mais ousado, pode ter uma visão própria mas espero que não volte a esse estado. ainda assim…em clássicos…as coisas tendem a ser diferentes. a questão é que ele não precisava de o fazer, tinha o jogo na mão.
Mestre de Cerimónias: És um gajo ambicioso. Eu fico contente com um 0-1.
Jorge: neste momento só queria anular a vossa vantagem. ou seja, 1-0 chega. já vieste ao Dragão alguma vez?
Mestre de Cerimónias: Se nos ganharem, já não te precisas de preocupar com a vantagem dos confrontos diretos. Só fui uma vez ao Dragão, para ver o Portugal – Grécia no Euro. Correu bem. #not
Jorge: vá lá, se fosse a final tinha sido um murro maior.
Mestre de Cerimónias: Só fui ver dois jogos no Euro… esse e o seguinte, contra a Rússia, na Luz. Também foi a única vez que fui a esse estádio.
Jorge: na nova Luz só fui ver um único jogo, aquele em que o Rentería falhou de baliza aberta. no vosso estádio nunca entrei, acreditas? no antigo sim, mas o novo ainda não teve o ilustre prazer de me ver lá dentro.
Mestre de Cerimónias: Só fui ver o Sporting à Luz uma vez, à antiga Luz. Ganhámos 3-1 para a Taça, em 2000.
Jorge: esses jogos é que eu gosto. vocês e a vermelhagem a matar-se aos bocados! sentadinho, cerveja na mão, a apreciar!
Mestre de Cerimónias: Ahahahah, o sentimento é mútuo, quando vos vejo a jogar com eles. Eu e o balde de pipocas. Infelizmente, agora andam muito amigos, Sporting e Benfica.
Jorge: estes clássicos no Dragão são muito stressantes, pelo menos para mim, é daqueles jogos em que entro para o estádio, arranca a partida e eu só quero que acabe rápido. não há diversão nenhuma, só tensão.
Mestre de Cerimónias: Ahahah, comigo é igual. E o pior é quando os jogos são num domingo à noite, passa-se o raio do fim-de-semana num completo estado de nervos. Sendo ao sábado, para o bem ou para o mal, pode-se aproveitar o domingo com outras coisas.
Jorge: concordo absolutamente. há duas semanas tivemos um jogo às 16h. que prazer! estádio quase cheio, montes de gente bem disposta, fez lembrar os bons tempos das Antas.
Mestre de Cerimónias: Sim, é inevitável não recordar com saudade o horário dos jogos de há 20 anos. 15h no inverno, 17h perto do verão, não tinha nada que enganar.
Jorge: pá, tão bom, que saudades! nós, os tolinhos que lá vamos seja de tarde ou de noite, é que damos valor a isso
Mestre de Cerimónias: Pronto, havia o pequeno pormenor dos banhos que se levava quando chovia. Aposto que nisso sofreste mais do que eu.
Jorge: uff, tantos! chegar a casa ainda a pingar…
Mestre de Cerimónias: O velhinho Estádio de Alvalade tinha uma bancada coberta. Só fui para lá uma vez. Acho que foi num Sporting – Leça, chovia torrencialmente, o relvado parecia uma piscina, estavam meia-dúzia de gatos pingados a ver o jogo. Na altura o presidente era o Santana Lopes, disseram ao pessoal que se podia deslocar para debaixo da pala.
Jorge: lindo. lembro-me bem desses jogos, com equipas pequenas, onde estavam poucos milhares (se tanto). houve um Porto vs Braga em que toda a bancada reservada aos visitantes estava ocupada por um único gajo que andava para lá a saltar como um demente
Mestre de Cerimónias: Ahahah
Jorge: na altura que o Braga tinha gajos tipo Karoglan, Zé Nuno Azevedo e afins. nada de Mendesices.
Mestre de Cerimónias: Eheh, outros tempos. O Zé Nuno I e o Zé Nuno II. Isso é que eram nomes de jogadores.
Jorge: era um marco das cadernetas de cromos. só tinha pena do II, para marketing era uma treta…marketing no futebol português nos anos 80, olha o que me fazes dizer
Mestre de Cerimónias: Marketing? Sabiam lá o que era isso na altura.
Jorge: temos a visão tão deturpada actualmente
Mestre de Cerimónias: Mudou muita coisa. Algumas para melhor, algumas para pior. Hoje em dia os jogadores vivem numa redoma. Mete-me confusão a falta de contacto entre adeptos e jogadores… agora só com sessões de autógrafos, normalmente associados a uma marca, com zero de espontaneidade.
Jorge: sinal dos tempos, infelizmente
Mestre de Cerimónias: Sim, verdade seja dita, há mudanças que eram inevitáveis.
Jorge: mas isso é algo que nós, como adeptos, temos vindo a perder e não prevejo que recuperemos. dá-se demasiada importância ao nome, à aura do ícone e esquece-se a humanidade básica. os clubes só tinham a ganhar com isso, mas os jogadores são tratados como se fossem de cristal. “vais para o twitter se quiseres, não vás é tomar um café à baixa senão lixas-te”. é mais fácil de gerir.
Mestre de Cerimónias: É isso, e também a forma como os jogadores olham para o clube. É cada vez mais difícil surgirem símbolos, verdadeiros símbolos, jogadores que são efetivamente doentes pelo clube, que ficam tão ou pior que estragados por perderem como nós.
Jorge: aqui estamos a tentar voltar a esses tempos mas é complicado manter essa miudagem cá, especialmente quando há muito talento ao barulho. sabes que o Ruben Neves foi a Estoril no meio dos Super?
Mestre de Cerimónias: Não sabia.
Jorge: espero que não tenha sido ele a atirar os petardos
Mestre de Cerimónias: É normal que os jogadores se libertem desse sentimento de ser adepto. Com os agentes a fazerem-lhes a cabeça, com os próprios clubes ansiosos por terem lucros astronómicos com eles, é normal que também pensem mais na carreira deles do que noutra coisa.
Jorge: perfeitamente normal, não contesto isso. mas hoje em dia exijo que muitos desses miúdos tenham juízo e não se deixem enfeitiçar pelo primeiro vendedor de banha da cobra que lhes aparece à frente. temos de recultivar os valores, não só os financeiros
Mestre de Cerimónias: Concordo.
Jorge: ser um Buffon é muito mais importante que ser um Schmeichel, se me permites a comparação. claro que isto é lírico, mas há um equilíbrio que se pode tentar atingir.
Mestre de Cerimónias: Sim, percebo-te. Um Gerrard ficará para sempre na história. Outros do mesmo nível, não serão lembrados da mesma forma ao fim de alguns anos. Ou um Totti.
Jorge: exactamente
Mestre de Cerimónias: Pensas no Milan e ainda hoje é impossível não nos lembrarmos de um Maldini, de um Baresi.
Jorge:  exacto, mas ninguém se vai lembrar do Balotelli daqui a uns anos a não ser pelo enésimo Lambo que espetou contra um muro
Mestre de Cerimónias: Exato.
Jorge: rapaz, estava aqui a falar mais umas horas, mas não pode ser. para terminar: boa sorte para o ambiente e para o espectáculo, que ninguém se mate dentro de campo. quanto ao resto…fuck off
Mestre de Cerimónias: Ora bem! Que ganhe o melhor, e que o melhor seja o Sporting!


Bom jogo, Mestre. E já sabes, tens um fino à tua espera!

Baías e Baronis – Sporting 2 vs 1 FC Porto

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Primeira coisa, logo para começar: o Sporting ganhou bem. Foi melhor na luta do meio-campo, aguentou com mais força durante mais tempo, aproveitou as nossas falhas defensivas e a permissividade do árbitro para impôr um jogo mais duro que nós e conseguiu ficar com a bola em momentos-chave da partida. Saímos de Alvalade sem pontos mas houve uma pequena luzinha que não se apagou ao contrário do que tinha acontecido noutros anos em que parecíamos ajoelhados a um místico poder verde sobre nós. Não temos ainda equipa, mas estamos a caminho. Estamos a caminho, meninos. Esperem pela volta. Vamos a notas:

(+) Voltamos a jogar em Alvalade para ganhar. Nos últimos três anos que visitamos a sanita mais conhecida do país, saímos com um ponto no total, com apenas um golo marcado (nesse mesmo jogo, há dois anos). As exibições foram incrivelmente frouxas, sem vontade e garra, sem força física e acima de tudo mental para bater o adversário em jogo de tripla. Desta vez não vi essa ausência de alma. Vi uma equipa que deu o que tinha e lutou para conseguir um resultado positivo apesar da ausência de opções válidas em sectores importantes e da ineficácia que é fruto da falta de rotinas. Vi um grupo de homens que não são de combate porque não têm físico para isso mas que tentaram o que puderam (e o que lhes deixaram) para vencer o jogo. E nestas circunstâncias não posso pedir mais que isso. Dizem-me que estamos demasiado confortáveis com a perspectiva da não-vitória este ano, mas pelo que tenho visto até agora, há algo de novo: vontade. E pela amostra dos últimos anos, é um passo em frente.

(+) Pressão alta no meio-campo, enquanto houve pernas. Mais uma vez afirmo o que já disse no passado recente: não temos andamento para estas coisas, pelo menos por agora. E notou-se que quando os homens do centro quebraram (André² e Herrera deram o litro que para eles anda aí pelos 674 mililitros) houve um recuo na equipa e a pressão, que até aí tinha funcionado, desmoronou-se e o Sporting tomou a dianteira para não mais a largar. Nuno mexeu (tarde, mas compreensível tendo em conta a pouca profundidade de opções centrais lutadoras no banco) mas não conseguiu elevar a equipa a melhores níveis e a pressão desapareceu. Boa tentativa, de qualquer forma.

(+) Danilo. Não foi gigante mas fez tudo o que conseguiu para evitar que o Sporting subisse em bloco pelo meio-campo fora e não fosse o facto de estar sempre bastante recuado no terreno e teríamos conseguido ser mais assertivos na recuperação da posse de bola. Ainda tentou algumas vezes sair com a bola controlada sem grande sucesso e por isso acabou por recuar e tentar jogar de trás para a frente deixando os colegas para o trabalho mais subido. Precisávamos de outro Danilo lá mais para a frente…mas não temos nem teremos.

(-) Falta de força no meio-campo. Podemos exigir trabalho, equilíbrio táctico e colocação de peças em campo por forma a taparem linhas de passe ou construção avançada do adversário. Podemos exigir que passem bem a bola, que sejam práticos e eficientes durante o jogo. Mas não podemos exigir que o André ganhe em corpo ao William ou o Otávio ao Marvin. Isso é quase impossível e por muito que tentem forçar o contacto vão perder 99 em cada 100 vezes. Como se resolve isso? Fácil: ter a bola e rodá-la entre os nossos e quando a perdermos, conseguir interceptá-la mais depressa que o adversário a conseguir passar. Fácil, não é? É, pois, mas precisamos de trabalhar exactamente esses vectores, porque uma equipa pequena e franzina tem de saber os terrenos que ocupa de uma forma mais inteligente do que uma que usa canastrões (com beneplácito arbitral, ainda por cima) para levar a sua avante, sob pena de perder todas as bolas e ficar de braços no ar a pedir falta, que aconteceu hoje por várias vezes sem grande motivo.

(-) Falhas defensivas nos golos. Ambos os golos foram absurdos e foram a prova evidente que ainda há trabalho a fazer, especialmente na mioleira da malta. O primeiro golo surge porque a equipa ficou estática no recuo para apanhar uma bola perdida, com os centrais a abanarem os braços a pedir uma mão que pode ou não ter acontecido…mas o que aconteceu de facto foi um alheamento do lance para tentar pedir uma falta, o que não faz sentido a este nível. Não podemos (e ao que parece cada vez menos) estar dependentes de árbitros, minha gente! Já o segundo golo foi pior, porque o corte de Felipe foi o contrário do que deveria ter feito, independentemente da bola ter ou não ido ao braço do adversário. Rapaz, ouve lá, uma bola daquelas corta-se para o ar. Pões a mona debaixo da trajectória da bola e quando ela embater no teu crânio tem de subir. É dinâmica básica de objectos, tens de jogar mais snooker em vez de andares a ver gajas na net e vais ver que percebes do que falo!

(-) Arbitragem, logicamente, em Alvalade. Não é nada de novo e não me parece que alguma vez o seja: o árbitro lixa-nos em Alvalade, de uma forma ou de outra. Falemos das mãos nas bolas ou bolas nas mãos. Não me parece evidente nenhum dos lances à vista desarmada e é só assim que consigo ver o jogo, porque essa imbecilidade de ver os lances com repetição e analisá-los a posteriori é uma bela duma trampa…mas também é verdade que o próprio Sporting anda a reclamar o video-árbitro desde que o Sansão foi ao corte e que me enfiem sete SCUDs no rabo se pelo menos um daqueles lances não seria considerado que a mão ou o braço desviou a trajectória da bola. Com mísseis anais ou não, passemos às trancadas. Sim, amigos, porque o Sporting as deu com mais força que um proverbial vizinho num apartamento com paredes finas. Bruno César, que tem a boca aberta mais vezes que uma pêga na Via Norte, tratou de andar a arrancar raízes de amarelo vestidas durante todo o jogo, Slimani e William adoraram os queixos dos nossos rapazes e se o Adrien pode andar a dar patadas à vontade, também devíamos ter uma palavra a dizer sobre isso. São estas as arbitragens que nos lixam e que dão cabo dos jogos, aquelas que deixam passar tudo para um lado e o outro raramente tem um free pass. Se um certo polaco que visitou Roma há uns dias tivesse estado hoje em Lisboa, garanto que o Sporting não teria acabado o jogo com onze. Nem dez. Talvez nove. Talvez.


Ninguém morre depois de perder em Alvalade. O campeonato ainda está no arranque e se a única derrota da época tiver acontecido à terceira jornada, não me faz comichão nenhuma. Há que recuperar a malta durante a pausa para a Selecção e voltar em grande na próxima ronda. Força, rapazes.

Ouve lá ó Mister – Sporting

Companheiro Nuno,

Um arranque de temporada destes tinha de culminar com o jogo mais complicado do ano, pelo menos no plano teórico. Não, não é o jogo na Luz que considero o mais difícil, por muito que os gajos sejam tricampeões, porque podiam ter quarenta e sete (cruzes, canhoto e um dildo com rebites no esfíncter) e não me lixava tanto as contas como jogar em Alvalade. Há qualquer coisa naquele campo que me desinquieta e me deixa de alma nas mangas e coração a roçar a úvula de cada vez que lá vamos, porque parece que os gajos se exaltam todos contra nós e gostam mais de nos ganhar do que o Rochemback gostava de picanha ou o Cadete de Vidal Sassoon. É uma loucura quando lá vamos e como ainda por cima têm saído por cima há vários anos, habituaram-se a esta boa vida e não querem outra coisa.

NO MORE. Estou farto disto e estou farto de lá ir e sair a pingar dos olhos e a desejar que houvesse um buraco onde me pudesse enfiar cheio de vergonha de estar vivo. Ouviram, Janelas, Furas, Mini, Barros, Perguntas, Zé e outros imbecis verdes-e-brancos com quem partilho a minha vida pelo menos duas horas todas as semanas a jogar futebol? (já viram a minha cruz?!) It ends today, bitches!!!

Sou quem sabes,
Jorge