Terça-feira demora muito?

Detesto perder. Fico insuportável, com umas trombas do tamanho do maior elefante que possam imaginar. As pessoas falam na minha direcção e hesito em responder logo ou respirar fundo antes que me saia uma torrente de diatribes contra um ou outro jogador, o relvado, o treinador, o Mundo. Não consigo pensar, o raciocínio mais simples e frugal transforma-se numa impossibilidade técnica porque todas as sinapses disparam com a memória de uma tarde ou noite que deixam marcas profundas que se apagam só ao fim de várias semanas de carpideirismo de alto nível e meia-dúzia de vitórias convincentes. Custa-me perder, não estou habituado e apesar da idade me trazer uma experiência que não tinha quando comecei a ver o FC Porto a jogar, numa altura em que uma derrota já não era natural mas continuava a ser uma facada no lombo, a verdade é que sinto esses momentos como se a minha filha me dissesse: “não gosto de ti, és um gordo nojento e não te posso ver à frente! vou fugir com o Adérito!”. E eu nem conheço o Adérito, até deve ser um gajo porreiro, mas neste momento é um monte de estrume. Desculpa, rapaz, mas não vou à bola contigo.

Ontem, num dia bonito depois de tantos dias tristes e chuvosos, andei com as beiças de um puto que não pôde ir à piscina num quente dia de Verão. E só fico à espera que o final da tarde de amanhã chegue rápido para limpar toda esta sujidade que me invade os poros e me desfaz a moral.

Nunca mais é terça-feira.

Quatro putos numa carrinha

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Éramos quatro e íamos às Antas. O ponto de encontro era sempre o mesmo, à porta da casa do Telmo para arrancarmos ao início da tarde e tentarmos chegar o mais depressa possível, navegando pelo curto mar de trânsito que nos olhava de frente para nos dificultar a tarefa tão acessível e ao mesmo tempo tão complicada. Nenhum de nós tinha carro, claro. Nenhum de nós sequer pensava em conduzir, mas a vontade era tanta que convencíamos o pai de um de nós a levar-nos à bola.

“Não lhe custa nada, Toni, afinal também vai para lá, não vai? E então, não pode levar a carrinha? Não somos grandes nem fazemos muito barulho, a sério! A polícia não vê nada, acha que sim? Estão mais preocupados com as claques e com os arrumadores e os assaltos à volta do estádio, nem vão ver que leva aí quatro miúdos na parte traseira da carrinha! Nós ficamos abaixados para não haver chatice, a sério! Oh ande lá, oh por favor!”

E lá íamos. Dez ou quinze ou mil quilómetros separavam-nos do estádio, com quatro mini-mânfios enjaulados no cubículo traseiro duma Renault Express, a discutirem tácticas e opções do treinador, delineando nas suas jovens cabeças quem é que jogava no dia, quem ficava de fora, quais eram os suplentes (na altura só cinco no banco e só podiam entrar dois em campo…quão pouca escolha havia!), se o Kostadinov ia marcar mais que o Domingos ou se o Paulinho era o melhor médio do mundo ou se era só de Portugal, porque não te esqueças do “Matáuss” que joga pó Mundial. E se jogasse o Timofte? Estupor do romeno que punha a bola onde queria e onde todos queriam que ele quisesse. Nem o Semedo escapa, ou o Rui Jorge, até o Fernando Couto sem o cabelo todo. E os putos, incautos de SADs e parcerias e fundos e transições defensivas e músicas ao intervalo e cadeiras almofadadas e zonas para mulheres de jogadores e instagrams e warriors e portoscanais e bancadas com nomes e tudo o que não interessava para o jogo, lá iam. Com os olhos a brilhar, o imberbe corpo a pedir para ser esticado depois de espremido, saíam do carro e saudavam o doce ar de uma tarde de Domingo passada em boa companhia no melhor espectáculo do Mundo.

“Estamos nas Antas, rapazes. Querem ir ver os gajos a aquecer?”

Melhor frase jamais foi proferida.

Lá volta este camelo a berrar contra os que assobiam

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Caros idiotas que começam a assobiar a equipa quando ela está num ponto momentaneamente frágil,

Gostava de vos propôr uma experiência sociológica. Um destes dias, quando chegarem ao vosso local de trabalho, alapem a peida confortavelmente depois de irem tomar um café e conversarem distraidamente sobre o decote da gaja da contabilidade ou a aula de body zerkump que tiveram ontem. Depois de bem sentadinhos, liguem o vosso computador. Estou a assumir que trabalham num escritório, mas também pode servir para malta que trabalhe de pé, numa obra de condutas de gás ou a tentar vender seguros à porta dos supermercados. Não desdenho nenhuma destas actividades, como decerto não desdenharão a minha, seja qual for o que imaginam que faço durante o dia.

Conceptualizando a vossa profissão como tendo de usar um computador para fazer coisas que vos garantem o ordenado ao final do mês, imaginem que abrem o Excel. Depois dos logotipos aparecerem na pantalha e de vos surgir uma folha branca cheia de pequenos rectângulos, abrem um ficheiro onde costumam trabalhar. Uma folha de ordenados, turnos definidos, planos de investimento, you name it. E vão a tentar copiar uma das células para outra zona do documento, mas enganam-se no destino. Nesse momento, um grupo de quarenta pessoas que nunca antes tinha visto aparece directamente por cima do vosso ombro e começa a gritar: “És uma merda, Antunes, não sabes que não é para aí que devias copiar o A8? É para o C14, ó animal de merda, não é para o C13, é para o C14! Toda a gente sabe que é para aí! Morre, meu paneleiro, havias de chegar a casa e encontrar o teu cão morto e a tua mulher com nove pilas estranhas lá dentro!“. Não lhe parece mal, portanto, que um simples erro encontre tão vil tratamento? Encolhe os ombros e procede na demanda da deficiente cópia da maldita célula A8. E, por infeliz acaso do destino, quiçá causado pela urina que se vai acumulando nas suas calças de bombazina depois do susto que há pouco apanhou, torna a copiar a célula…mas engana-se de novo e espeta o valor do ordenado do Pereira na célula C15. Oh, inclemência, pensa enquanto as mesmas quarenta pessoas surgem como um coro de demónios atrás de si: “Outra vez, seu filho de treze putas e mil pais! Já não viste antes que não era assim que se fazia?! Nunca trabalhaste com um rato na vida? É o teu primeiro dia neste planeta, cabrão, e já estás a fazer mais merda que uma manada de vacas com diarreia? Não mereces viver, cornudo, não mereces respirar, sai já daqui, corre para os braços da tua mãe, se ela ainda te quiser depois da vergonha que a fizeste passar!“. Desolado, triste, trémulo, lá tenta pela terceira vez e, finalmente, o valor certo vai para o lugar certo.

Se alguém conseguir fazer um paralelismo entre esta pequena parábola e a atitude de tanta gente que foi ao Dragão na sexta-feira passada, talvez seja porque esteve lá e, como eu, achou absurda a reacção de tantos adeptos a uma sequência de hesitações entre Fabiano, Maicon e Indi. Repito o que tenho dito há alguns anos para cá: sócios destes? Não, muito obrigado.

Cores? Que cores?!

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Há alguns anos que cá ando a acompanhar o meu clube. Comecei a ver futebol nos longínquos anos 80 que parecem cada vez mais desaparecer na memória colectiva, mantendo-se vivos em imagens paradas no tempo de jogadores míticos de calções reduzidos e camisolas espartanas. E desde essa altura que me recordo de grupos de homens de diferentes nacionalidades começarem a aparecer no FC Porto. Brasileiros, como era habitual no nosso futebol, enchiam os cadernos com bandeiras diferentes da nossa, acrescentando a qualidade que nos faltava cá no burgo. Eram poucos no início, mas os números começaram a aumentar quando o mercado se tornou mais fácil e a adaptação menos complicada, e os salpicos de diferentes culturas e hábitos estranhavam-se antes de se entranharem. Lá aparecia um polaco e um belga, um jugoslavo ou um argelino, um sueco ou um uruguaio, trazendo com eles as vivências de urbes distantes, cosmopolitizando a cidade, a partilha de conhecimentos e tradições, ajudando o clube a universalizar-se ainda mais por entre os oh-tão-longínquos burgos da Europa que então parecia tão longe.

Quando Kulkov e Iuran se juntaram à formação em 1994, houve inclementes gritos de estranheza perante o clã russo que se tinha gerado na Invicta, conquistada então por dois bons jogadores que criaram uma atmosfera estranha de nunca óbvia xenofobia tão tradicional no Portugal pós-retornado. E gradualmente, mantendo um contingente interessante de brasileiros de variada utilidade e ainda mais variado talento, várias foram as épocas em que pequenos núcleos foram sendo criados. Era raro o jogador estrangeiro “singular”, havia sempre mais um compatriota a usar as nossas cores, numa forma tão portuguesa de receber para que não houvesse estranheza nos costumes e nas lides diárias, para que os homens de línguas e lides tão diferentes se transformassem em cidadãos com a mesma facilidade que um poveiro ou um gondomarense. E vieram, uns arrastados pela força do mercado, outros pela conjugação do binómio necessidade/oportunidade, sempre com as mãos dos treinadores nos ombros dos rapazes, protegendo os “seus” como se já fossem da casa há anos, ousando mesclar as gerações dos seus antepassados com as de malta das Fontaínhas ou de Campanhã. E sempre correu bem. Sempre correu bem. Sempre soubemos receber, acolher, empatizar com tantas diferentes cores de tão diferentes origens.

São capazes de me dizer qual é o problema então de ter quatro ou cinco espanhóis na equipa, depois de tantas vitórias em tantos anos com tantos brasileiros, argentinos, uruguaios e colombianos?

E começam as imbecilidades – versão 2014/2015

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Recupero um post que publiquei em Agosto de 2010, quando André Villas Boas pegava então no leme da equipa. Na altura, depois de duas derrotas no Torneio de Paris e alguns jogos menos conseguidos no resto da pré-época, uma imensa minoria de portistas insurgiu-se contra os métodos, os jogadores, as opções tácticas, a juventude do treinador, a careca de Pinto da Costa, os óculos de Antero e a tonalidade do relvado do Dragão. Aqui o tem: leiam para se recordarem.

Hoje, ao intervalo do jogo contra o Venlo, comecei a ver o reaparecimento desses abutres. Sem sequer ver o jogo para lá de um play-by-play num ou noutro site da especialidade, vi dezenas de tweets de portistas (sim, carago, de portistas, porque de adeptos de outros clubes nem se fala e nem interessa falar) a rirem-se do treinador, das contratações e das estratégias para o futuro. Houve um ou outro que disse qualquer coisa como: “Afinal o Tello não era tão bom e é para isto que veio?”. Numa palavra: patético.

Esqueçam lá essas tretas, deixem os homens trabalhar e julguem os resultados daqui a uns meses. Até lá, acompanhem a pré-época como eu tenho vindo a fazer, com um misto de excitação e desconfiança típicas de quem vê bons nomes a chegar mas não conhece o treinador que vai lidar com eles. Sigam estas fases preliminares com vontade de apoiar o clube e de incentivar jogadores e treinadores que representam as vossas cores, deixem os cinismos e os juízos antecipados de lado e tenham calma.

A seu tempo, tanto os grunhos e os racionais farão as suas análises. Com mais ou menos verborreia.