Not a single fuck shall be given

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Andava já desde segunda-feira para escrever umas linhas e enquanto ia adiando a prosa, o Tribunal antecipou-se (mais uma vez, numa saga que acompanho silenciosamente e que me faz sorrir por pensar que alguém pensa de uma forma semelhante à minha. e ainda bem!) e falou de um assunto que me tem vindo a chatear um bocadinho. Várias pessoas já me vieram dizer durante a semana que é uma miséria se ganharmos o jogo no sábado porque vamos oferecer o campeonato ao Benfica e que “mal por mal antes o Sporting” e nem quero imaginar o que vai acontecer se os vir outra vez a festejar e ai os cavaleiros do apocalipse e as pragas bíblicas todas juntas com urina extra pelas perninhas abaixo. Ó minha gente, gente boa, gente racional q.b. e que considero mentalmente estável ao ponto de manter uma conversa durante alguns minutos, leiam bem o que aqui escrevo e que tenho dito a quem quer que seja que me atira com mais uma dessas imbecilidades que nem o Nuno Luz se lembraria: eu não quero saber quem é que ganha o campeonato. Juro. Pode ser o Guimarães, o Unidos à Ponte da Badalhoca de Baixo ou o Benfica. Não. Quero. Saber. Se não for o FC Porto a conquistar mais um troféu de campeão para o museu, dou-vos a minha palavra de honra e que me cortem os tomates e os sirvam ao Putin no meio do borscht se estou a mentir: não quero saber quem ganha. Não vou festejar de qualquer forma.

Mas nunca, NUNCA me digam coisas como: “mais vale perder contra o Sporting porque assim ainda têm hipóteses de roubar o campeonato ao Benfica”. Começa-me a subir um calor pelo pescoço acima e enche-se-me logo o saquinho da pachorra (que já de si é bem curto) e só me apetece mandar gente para zonas com conotações fálicas. E tal como quando disse que um portista que seja digno do seu nome nunca assobia a equipa no Dragão, também posso avançar com outra: portista com um mínimo de orgulho quer que o seu clube vença todos os jogos. Todos. Podem ter os vossos odiozinhos de estimação, rezarem a um altar negro com velas negras e galinhas negras e naperons negros e até chamas negras se encontrarem material para isso, mas nunca pensem que é melhor perder para que esses ódios passem à frente do vosso amor. Soa powerpóintico a mais, mas não é com essa intenção.

Por isso no sábado vão até ao estádio. Afinal será o penúltimo jogo do ano no Dragão e não vão querer desperdiçar a hipótese de verem o Jesus a ajoelhar outra vez, pois não? Claro que não.

PS: para quem está excitadíssimo com os jogos do Atlético porque “estes é que jogam”, deixo também a minha opinião aqui, num off-topic que é bem on-topic. Nada me daria mais prazer que ver o Atlético a levar sete ou oito batatas em todos os jogos, com o Simeone a chorar no banco. É uma equipa de bullies, com onze Carlos Martins em campo que dão pancada em tudo que vêem, queixam-se de qualquer toque mínimo que sentem como se tivessem sido empalados pelo Vlad e só jogam futebol no intervalo do molho. Posses de bola na ordem dos 30%, mentalidade mais defensiva que o segundo Porto do Ivic e um grupo de imbecis que só apetece esbofetear com os dois lados das mãos em sucessão. Salvo dois: Saúl e Griezmann, por motivos diferentes. O resto é uma cambada que privilegia o cinismo e se alheia do futebol, por muito que gostem de os ver correr.

McClellan e os barcos largos

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Sou aquilo que se pode chamar um “buff” da Guerra Civil Americana. Leio blogs e artigos sobre o assunto, ouço podcasts, palestras e tertúlias, compro livros com mapas, descrições das batalhas físicas e políticas, um bocado de tudo que consigo descobrir. Fascina-me o conceito da guerra fraternal e acima de tudo a forma como os eventos se desenrolaram, desde os combates políticos do “antebellum” até à rendição em frente ao edifício do tribunal de Appomattox, continuando pelos eventos da reconstrução que fez do país um outro inferno no pós-guerra. Muito há para dizer sobre o assunto e não há teclas com resistência suficiente neste portátil onde escrevo para aguentar o que se poderia contar sobre isto. Ainda assim, vou tentando, pedaço a pedaço.

Um dos generais mais famosos da União (os do Norte, que vestiam de azul, vejam lá a coincidência) era um jovem que dava pelo nome George B. McClellan. Formado em West Point, seguia uma escola napoleónica de comando e assumiu uma pose quase messiânica em relação ao exército que comandava, “The Army of the Potomac”, em homenagem ao rio que atravessa Washington, a capital do país. Era idolatrado pelas tropas desse mesmo exército e foi chamado por Lincoln para comandar todos os exércitos da nação, uma espécie de Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, após um primeiro desaire numa incursão a sul, onde se travou a primeira batalha da guerra. Impiedoso nos comentários em relaçao aos seus iguais e até superiores, tinha um ar e um porte arrogante, febril com o poder que lhe era atribuído e ciente que o peso da responsabilidade às suas costas lhe dava uma liberdade para agir dessa forma quando outros nem perto lá chegavam. A uma dada altura, decidiu nomear um chefe de gabinete o seu próprio sogro, Randolph Marcy, debaixo do qual tinha servido alguns anos antes.

Ao planear uma movimentação de tropas para procurar bloquear o reforço de posições sulistas nas margens do rio Potomac, onde baterias de artilharia estavam já bem colocadas e impediam o tráfego normal de barcos nortenhos pelo rio abaixo (ou acima, francamente não me lembro, mas creio que seria abaixo), McClellan ordenou a construção de vários barcos para que pudessem transportar algumas dezenas de milhares de homens através de pontes construídas e colocadas pelos departamentos de engenharia. Tanto ele como Marcy ficaram responsáveis pelo plano e pela construção dos mesmos barcos, que transportariam as pontes para que os homens pudessem atravessar o rio em segurança, bem como o material que os auxiliaria no terreno. Ora acontece que os barcos foram construídos para passar através dos vários canais que conduziam o fluxo natural do rio, interligados por sistemas de comportas, um pouco como o nosso Douro. Ora o que aconteceu é que os barcos chegaram às comportas e não passavam porque tinham umas dezenas de centímetros de largura para lá do que seria possível enfiar pelas portinholas. Resultado: uma operação que tinha demorado meses a preparar e afinar foi (se me perdoam a piadola) afundada e mais de um milhão de dólares gasto para nada, tudo fruto da incompetência de meia-dúzia de homens vistos como figuras incontornáveis no panorama actual do país.

Não vou sequer fazer paralelismos com a nossa situação actual. Quem quiser, esteja à vontade.

O próximo é sempre mais complicado

Não é de agora e não creio que vá parar por aqui. Esta forma muito peculiar das equipas grandes abordarem os jogos contra outras que no plano teórico lhes serão inferiores é algo que me massacra a alma desde há muitos anos (vejo futebol desde o meio dos 80s e sempre fiquei lixado com estas tretas) e, mais uma vez, não me parece que termine a curto ou médio prazo. E este tipo de irracionalidades acontece por uma enormidade de razões possíveis, típicas de quem errou sabendo que não podia errar. É a Champions, pela dificuldade do jogo seguinte e pela montra para possíveis transferências a fazer com que o jogador tire o pé ou faça um sprint a menos; é a parte física, que não está ainda em condições e que impede o esforço extra; é o desconhecimento das características dos colegas, que fazem com que haja menor entrosamento; é a táctica que não entendem e a movimentação que não compreendem.

Bollocks.

É facilitismo, apenas isso. É a hubris de um grupo de homens que vê o adversário como um alvo fácil, como se a maçã do Guilherme Tell fosse uma abóbora e o seu filho fosse Tyrion Lannister. É ver o jogo como uma sucessão de passes e remates até que o próximo certamente vai entrar e o(s) golo(s) serão suficientes. É sempre isto e não consigo engolir esta casca de melancia que se atravessa na garganta quando olho para o resultado e vejo que sofremos dois golos evitáveis de uma equipa que está em lugares de descida, que se bateu com garra e com força contra nós e que não conseguimos mostrar em campo que somos melhores que ele no papel.

E decepciona-me ver que Lopetegui não consegue mudar esta maré.

A histeria em torno da histeria em torno de André André

Há uma componente do futebol moderno que surgiu há algum tempo e que invadiu o mundo como um exército de Átila depois de uma semana de pousio sem esventrar romanos. Proliferaram os analistas, desde o mais banal “X está a mais no meio-campo”, passando pelo típico “a namorada de Y tem uma influência tremenda na sua capacidade de marcação de livres directos como pode ser visto pela roupa que usa e as poses ousadas com que se deixa fotografar” acabando no “a emoção e a paixão são evidentes e caracterizam a sua conveniente tendência jungiana para o drible em zona central”. Há de tudo para todos, como deve ser.

Mas há entre esta neo-malta um núcleo que me enoja quase tanto como o Briguel de bikini: os que só sabem dizer mal. E há um em particular que está a atravessar um bom momento na sua perspectiva de “o mundo é uma merda e são todos uma merda e eu sou o único que não sou uma merda” é o Nuno do Entre Dez. Não o conheço e devo dizer que a ideia não me atrai. No último post que publicou, desatou em mais uma tirada sobre as qualidades de André André e que a caixa de Pandora do mundo da bola está exactamente no louvor às qualidades (inexistentes, na sua opinião) do agora nosso jogador, com ressalvas para “estes casos absurdos de jogadores sem o mínimo de talento que entusiasmam plateias inteiras”, “André André não tem talento”, “A sua decisão é sempre a mais óbvia” ou “André André é o típico médio de que se gostava muito há 15 anos”. E até tem razão na abordagem com que suporta estas afirmações, mas é a forma como as faz que me deixa a espumar. É aquela arrogância de quem sabe a teoria e não a põe na prática, de quem critica quem falha a esquadria que nunca existe no mundo ou de quem desenha um círculo perfeito apontando o dedo aos outros que, sabendo não existir tal coisa, se limitam às elipses que a vida nos põe pela frente.

Para Nuno e para tantos Nunos, só há equipas com Beckenbauers atrás, Pirlos ao meio e Zicos na frente. Tudo o resto é trampa. Não se deixem enganar pelos teóricos. Pensem por vocês e quando vos aparecer um André pela frente, com toda a falta de talento que tem, expliquem aos Nunos o quão embaraçante pode ser para uma equipa perfeita perder contra uma outra que corre um bocadinho mais. É só isso que é preciso para baixarem a puta da crista.

É para ganhar, mister?

A garra nunca é sobrevalorizada. Nunca. Por muito que olhemos para os enquadramentos tácticos de uma estrutura como a nossa, com um meio-campo que ainda não se entende na perfeição, extremos que se balanceiam com hesitações e medos perante as subidas dos laterais ou com avançados que trabalham mas que vêem os esforços pender muitas vezes para o lado errado, muitas das vezes é a garra e a vontade de vencer que fazem a diferença entre um meio-resultado e uma conquista incontestável. E essa garra, essa vontade de vencer que nos pauta o dia-a-dia e faz de nós um clube temido internacionalmente tem de ser recuperada a qualquer preço. Não falo de dólares, mas de dentes cerrados e força férrea que manda abaixo qualquer adversário, bem ou mal intencionado.

Lopetegui está a começar a segunda temporada e fá-lo de novo com uma equipa em construção. Não sei quanto mais tempo vai levar a criar os automatismos necessários para que a equipa consiga criar um futebol fluido, dinâmico e produtivo. E não estou preocupado quanto à sua valia ou em relação ao talento que tem à sua disposição. Preocupa-me apenas alguma falta de audácia, essa vontade de vencer que apenas vi a espaços na Madeira. Lembro-me da época de AVB e do seu arranque tremido no campeonato depois do brilharete na Supertaça. Lembro-me dos inícios de época de Jesualdo, sempre com uma ou duas baixas mas a manter um nível exibicional aceitável. E lembro-me ainda melhor de Robson, onde os rapazes corriam que se fartavam mas não sabiam muito bem para onde. Quero estrutura. Quero táctica. Quero futebol. Mas quero, acima de tudo, vencer. E temo que essa mentalidade ainda não esteja bem vincada na cabeça dos nossos rapazes.

O campeonato ainda agora começou e temos tempo para limar arestas. Como se viu ainda ontem, perder dois pontos pode não ser muito grave quando se fizerem as contas finais. Mas se esses dois pontos se transformarem em múltiplos de dois, vamos começar a ter problemas, de dentro para fora.