Culpa

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Doeu. Nenhum portista que se considere ligado aos acontecimentos do clube com as vitórias e derrotas umbilicalmente ligadas à sua capacidade de gerar emoções é capaz de deixar de catalisar toda a vastíssima extensão de doidice que nasce, cresce e vive dentro de um homem nestes momentos. Diziam-me hoje que “é só um jogo de futebol”. Duas pessoas de idades, vivências e mundos diferentes (ambas mulheres, curiosamente ou talvez não) que me expuseram pelo que eu de facto sou: doente. Doente porque sofro com jogos como o de terça-feira e exulto com Falcao ao Villarreal, com Costinha em Old Trafford, com Derlei em Sevilha ou Celso em Kiev e porque sou o mesmo que ia voando por cima de dez degraus nas velhinhas Antas quando o Timofte enfiou aquela bola para lá do Silvino depois de oitenta e cinco minutos de nevoeiro. Sofro como no jogo com a Sampdoria onde fui gozado por todos incluindo por um professor que até apreciava e que a partir desse momento surgiu sempre com uma nuvem cinzenta em cima da cabeça depois de me chamar “amigo do Latapy”. Sofro com o Arsenal e as desnecessárias goleadas na década passada, com o Barcelona em 1994 ou o Manchester United em 1997, com o Tottenham nos noventas e o Sporting no início do milénio. Mas há algo que se tem tornado transversal e evolutivo à medida que os anos vão passando e os cabelos acinzentando.

Deixei de atirar culpas à sorte. Deixou de haver uma cabeça culpada, um nome que reunisse toda a fúria da minha indignação pela derrota, o Nuno André Coelho de Londres, o Costa de Manchester ou o Aloísio de Barcelona. Ou a nível dos treinadores, com as invenções de Jesualdo, Oliveira e Robson nos exemplos de cima. Todos eles foram nomes que ficaram marcados na história do nosso clube e que a glória que os cobriu noutros eventos nunca conseguiu lavar a mancha dessas falhas pontuais. Nevermore. Estou farto desse apontar de dedos que faz com que nos tornemos mesquinhos ao ponto de individualizar penas colectivas. Ninguém tem culpa. Todos tem culpa. Que interessa terem culpa? O que temos a ganhar ao estigmatizar A ou B por não terem conseguido fazer o seu papel? Perdem dinheiro no ordenado? Prestígio? Nome? Reputação? Bah.

Quem perde somos todos, tal como quem ganha são todos. Perde o Jackson como ganha o Reyes. Perdem Quaresma e Brahimi e às vezes vencem o Ricardo e o Aboubakar. Perde Lopetegui como também virá a ganhar. É assim que se faz uma equipa. E é assim que se faz um homem. Muito portista por aí fora precisa de aprender a perder para voltar a saber ganhar.

A culpa também é minha

CakjE

Há um nível de exigência que colocamos nas expectativas e na qualidade de jogo de qualquer equipa do FC Porto, em qualquer vertente e arena. Foco-me no futebol porque apesar de me manter portista em todos os quadrantes, não tenho acompanhado as outras modalidades como gostaria e os tempos de ir ver os lançamentos do Jared Miller, os remates do Carlos Resende ou as stickadas do Tó Neves (enquanto jogador, claro) já lá vão sem que haja um regresso marcado a breve prazo.

O jogo da Madeira, que serviu para pouco mais que um regresso a terra firme no seguimento de muitos dias de euforia pós-sorteio da Champions, deu que pensar e passei o feriado todo com aquilo na mona, depois de me ter deitado tarde, chateado e com pouco sono graças ao infortúnio. E hoje, mais a frio, comecei a colocar-me no lugar de um jogador do plantel do FC Porto e podia pegar em qualquer um dos que esteve no relvado dos Barreiros, sentado no banco de suplentes ou em casa a ver o jogo pela televisão.

Ora esse rapaz há meses que ouve adeptos, jornalistas e pior, dirigentes, a falar sobre a Taça da Liga como se fosse um parente afastado que se vê no Natal e que não se gosta muito. Daqueles que aparece aos putos uma vez por ano e lhes aperta as bochechas e pergunta como vão na escola e avisam para se manterem longe das carrinhas com cortinas nas janelas, os que oferecem agendas ou meias como prenda. Ouviu a família a desancar no Tio Rodolfo, que não vale nada e que tem um carro de trampa e que ninguém o vai ver a não ser que seja altura de partilhas e mesmo assim se hesita um bocado porque a casa é bafienta e o recheio só interessa à Remar ou à paróquia que vai herdar metade da quinquilharia. O Rodolfo não tem amigos influentes, não recebe bem nem tem boa conversa, o Rodolfo é ignorado por tudo e todos. O Rodolfo, no fundo, não vive, sobrevive. E toda a gente, de cima a baixo na escala hierárquica desta putativa e metafórica família, zurze no homem em público, manda piadas sobre ele à mesa de bilhar no café, sugere tramas rendilhadas sobre o modus vivendi do homem, amplifica as suas falhas e minimiza as virtudes. É um parente pobre, o Rodolfo, essa bestinha. E os putos, que ouvem esta ladaínha dia após aborrecido dia, enfia na cabeça que o Rodolfo não merece atenção, que se ninguém lhe liga então também não devem ligar. Muito mais importante é o Tio Ilídio, porque o Ilídio tem um Série Coiso na garagem e uma casa com varandas e até vai tomar o pequeno-almoço à Foz e fica a ver o mar e é interessante e conta histórias fixes e tem uma espingarda em casa que é do tempo da guerra e fotografias dele a matar leões em África e outra no cimo daquele monte no Peru que tem um nome parvo e tem libras em ouro e às vezes até as oferece aos sobrinhos, mesmo que não os veja durante anos. O Ilídio é fixe, o Rodolfo é um merdas.

Nós alimentamos isto em todos os jogos. Nós, que exultamos com o empate em Braga só com nove e que ficámos à espera que esse brio se repetisse em condições tão diferentes como as que se criaram para o jogo de quinta-feira. Nós, e incluo-me nesse lote, andamos a desancar na Taça da Liga desde que começou porque ninguém gosta dela. E continuo a não gostar. E sei que os jogadores do FC Porto não podem oscilar na moral e no empenho perante jogos de diferentes competições (entrar para ganhar em todos os jogos, yadda, e o treinador também, duplo yadda), mas também não lhes posso exigir que o façam quando descartei qualquer apoio extra e moralizações suplementares em virtude da fome por troféus mais significativos que levam a que abdiquemos dos outros. E se eles o fazem, não me sinto bem em voltar atrás e exigir que não o façam ao nível que seria expectável. Olhapróqueudigo e tal.

Perdemos e perdemos bem porque não fizemos por isso. E se fizéssemos e ganhássemos, alguém teria uma sexta-feira muito mais risonha?

Assobia se és portista!

Às vezes dá-me vontade de ir ao quarto de banho. Ou à casa de banho, se for do Sul. Ou se lhe apetecer usar termos alternativos para lugares tão comuns como o belo espaço onde o trono de porcelana espera por nós como um fiel amigo, como às vezes me acontece. De qualquer forma, há alturas em que a necessidade ultrapassa a natural resistência humana aos processos involuntários que nos ordenam a vida com um punho de aço e lá cedemos, mais uma vez, sempre mais uma vez, esperando não ser a última. Mas vou divagando como o Herrera com a bola nos pés, voltemos à história.

Saí do corredor e passei o cartão de identificação para abrir a porta de vidro que me separa do exterior. À medida que ia prosseguindo na direcção do alívio, noto que à minha frente vai outro comparsa da bexiga a caminho do mesmo local. Não reconhecendo a personagem, abstive-me de qualquer interacção e continuei no mesmo sentido, distraído com um folhear de páginas no feedly. E foi então que ouvi o fulano a assobiar. Um silvo ligeiro a início mas audível pelo eco que um corredor vazio cria e espalha pelos tantos outros corredores mais ou menos povoados das instalações. Tentei perceber o que era e nem meio segundo foi preciso para que começasse eu mesmo a trautear uma música que já por tantas vezes tinha passado pelos meus ouvidos que a mais fugaz percepção do mesmo som cria um efeito pavloviano de réplica que, por definição, não consigo evitar.

E ouço-a no Dragão. Cantada pelas claques, pelo povo, por todos. Era uma das tantas músicas sem nome, sem identidade nem letra, com pouco mais para a identificar que um “lá lá lá” mas que todos ouvem, todos reconhecem, todos cantam, com aquele espírito de ânimo e de objectivo comum que partilhamos e onde todos queremos chegar.

Aqui, aos 10 minutos:

Afinal, um portista a assobiar nem sempre é mau. Só tem de escolher o sítio certo.

Hipérboles

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Enervo-me imenso a ver o FC Porto. Tenho alturas em que o nervosismo se apodera de mim e é nesses momentos em que os que me conhecem sabem que me torno impossível de equiparar ao gajo tipicamente bem-disposto com que partilham momentos tranquilos e relaxados numa qualquer esplanada ou numa reunião de trabalho. Ainda outro dia, quando saiu um sonoro “oh foda-se!” mal vi a bolinha que dizia que ia ver Ribery e amigos ao vivo, a malta percebeu que a verbalização do sentimento geral tinha saído da minha matraca e percebeu logo o que se passava. Gente que me entende, felizmente.

Esta mesma malta admite sempre que o percurso de um portista é feito de altos e baixos, como o de todos os adeptos de uma equipa de futebol. Há alturas más em que todos parecem abandonar o barco e se ouvem frases como: “Jogámos ontem? Eh pá, nem sabia, tinha ido dar de comer à tartaruga e fiquei por lá, olha, que se lixe, ah ganhámos ao Beira-Mar com um hat-trick do guarda-redes não foi, pois é, mas mesmo assim não valemos nada, pode ser que pró ano lá vamos de novo e tal”, quando vamos na quarta ou quinta jornada. E há os doentes, os que vivem ainda mais que eu, os conspiratórios, os fanáticos, os imprudentes e os preocupados. São os maximalistas, os que polarizam as vitórias com loas de percursos sem derrotas depois de afastarmos o Senhora da Pita Viçosa United na Taça. Os que nos vêem a vencer por 3-0 com dois penalties e um auto-golo e afirmam que a nossa defesa é a melhor do Mundo e que nem Helenio Herrera nos seus melhores dias tinha sonhado de um esquema parecido. Os mesmos que depois de dois treinos e um golo às três tabelas logo aparecem a dizer que o rapaz vai ser vendido ao campeão da Coreia do Norte (porque não vendemos nada ao Sul, esses vendidos!) por 46 milhões de euros e um frango no espeto.

Esses, os hiperbólicos, são os mais difíceis de convencer e os ainda menos perceptíveis em relação ao estado mental. Bipolares, vão do extremo da alegria à profundeza da infelicidade numa questão de minutos e questionam sem saber os porquês, comparam sem recolher dados e facilmente se detectam pelo exorbitante uso das expressões “basta”, “nunca” e “se fosse eu”. Contextualizando: “Basta de jogadores mimados!”, “Nunca mais vamos ter outra oportunidade de nos chegarmos tão perto do Benfica!” ou “Se fosse eu o Lopetegui já estava a caminho de Espanha!”.

E enquanto vamos atirando estas parvoíces para o ar, nem reparamos numa coisa: já viram que vamos ter uns dias sem bola? Sem bola a sério, digo, porque vamos sempre ter de aturar Nuno “Ronaldo-assina-aqui-as-minhas-mamas” Luz a babar-se à porta do hotel, mas isso é um carnaval de outro nível. Vamos acalmar as coisas, esperar que nenhum puto venha lesionado das selecções e aguardar que a terceira viagem à Madeira (sim, a próxima) tenha melhor resultado que as duas primeiras. Derrota, empate…e agora vitória. Para ser equilibrado.

Não entendo nada disto

Hoje de tarde, em conversa com um amigo, falava da hipótese do Shakhtar poder usar os brasileiros do meio-campo para impôr o físico aos alemães e ainda conseguir uma brincadeira. Ele disse que o Bayern lhes dava 7. Mencionei que as equipas do Mourinho nestes momentos raramente fraquejam e nem que seja por meio a zero, costumam passar. Ele disse que não tinha a certeza.

Para a próxima estou calado. Ou digo que o FC Porto nunca poderá ser campeão, é impossível ganhar por seis na Luz quando lá formos e o Benfas não vai perder mais nenhum ponto até ao fim. Nunca se sabe, se calhar o estupor tem um dedo que adivinha.