É para ganhar, mister?

A garra nunca é sobrevalorizada. Nunca. Por muito que olhemos para os enquadramentos tácticos de uma estrutura como a nossa, com um meio-campo que ainda não se entende na perfeição, extremos que se balanceiam com hesitações e medos perante as subidas dos laterais ou com avançados que trabalham mas que vêem os esforços pender muitas vezes para o lado errado, muitas das vezes é a garra e a vontade de vencer que fazem a diferença entre um meio-resultado e uma conquista incontestável. E essa garra, essa vontade de vencer que nos pauta o dia-a-dia e faz de nós um clube temido internacionalmente tem de ser recuperada a qualquer preço. Não falo de dólares, mas de dentes cerrados e força férrea que manda abaixo qualquer adversário, bem ou mal intencionado.

Lopetegui está a começar a segunda temporada e fá-lo de novo com uma equipa em construção. Não sei quanto mais tempo vai levar a criar os automatismos necessários para que a equipa consiga criar um futebol fluido, dinâmico e produtivo. E não estou preocupado quanto à sua valia ou em relação ao talento que tem à sua disposição. Preocupa-me apenas alguma falta de audácia, essa vontade de vencer que apenas vi a espaços na Madeira. Lembro-me da época de AVB e do seu arranque tremido no campeonato depois do brilharete na Supertaça. Lembro-me dos inícios de época de Jesualdo, sempre com uma ou duas baixas mas a manter um nível exibicional aceitável. E lembro-me ainda melhor de Robson, onde os rapazes corriam que se fartavam mas não sabiam muito bem para onde. Quero estrutura. Quero táctica. Quero futebol. Mas quero, acima de tudo, vencer. E temo que essa mentalidade ainda não esteja bem vincada na cabeça dos nossos rapazes.

O campeonato ainda agora começou e temos tempo para limar arestas. Como se viu ainda ontem, perder dois pontos pode não ser muito grave quando se fizerem as contas finais. Mas se esses dois pontos se transformarem em múltiplos de dois, vamos começar a ter problemas, de dentro para fora.

O percurso é sempre o mesmo

Olho para as sapatilhas enquanto o pensamento voa a velocidades parvas, com sinapses a disparar pelo cérebro fora e penso: está na hora. Não há árbitro? Onde estão as equipas? Está na hora? Já está, cheguei aqui há mais de vinte minutos e já vi o Imbula a mandar uma bola prá bancada e o Alex a cruzar para o fim do mundo e até o Varela parece com vontade. Está bonito, está. Está na hora? Está quase.

Os momentos que antecedem um jogo do FC Porto são habitualmente joviais nestes primeiros jogos da temporada. Conversa-se para aqui enquanto as nádegas se vão reconfortando à cadeira que é nossa durante umas horas de um final de tarde de sábado. Uma hora ou coisa antes, saio do café de camisola no lombo, calorzinho na nuca e sorriso no rosto e começo a navegação automática que me leva ao Dragão. Já houve tempos em que fazia o mesmo percurso a caminho das Antas, anos depois de me fazer homem e de tomar café no mesmo sítio, com a mesma companhia e os mesmos tiques e nervosismos. Andava a passo apressado pelos meandros das ruas em que o estádio se via ao longe, percorria as ladeiras dos campos de treino e atravessava o apertado corredor a caminho da bancada que ficava mesmo por cima do relvado onde os rapazes aqueciam para o jogo que se seguiria. Outrora João Pinto, Semedo ou Capucho, agora Maxi, Imbula ou Brahimi. A nacionalidade muda mas o espírito permanece, sempre com força, sempre com brio.

Vejo muita gente a caminho, iguais a mim, diferentes de mim, altos e baixos, gordos e magros, barbudos e barbeados, sorridentes e sisudos, conversadores e mudos. Vamos todos para lá. Vamos continuar a ir todos para lá.

O jogo dos pronomes

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Nunca fui membro de uma claque. Juro que não foi por falta de tentativa, mas os meus pais sempre foram bastante rígidos com essas coisas e eu fui um teenager do menos rebelde que alguma vez existiu. Ia para as Antas e vi dezenas de jogos na Superior Sul com os Super ou os Dragões Azuis ou até junto da Brigada Azul, perto deles mas nunca dentro do grupo. Era um puto e ao ver algumas das picardias e arreliações que existiam lá no meio, o cagarola dentro de mim fazia com que me puxasse para trás, subisse seis ou sete degraus de cimento das velhinhas bancadas e continuasse a ver o jogo como era hábito. Mesmo quando ia ver jogos fora, habitualmente ao Bessa, ficava junto das claques mas tentava sempre afastar-me das chatices. Mesmo quando voavam autoclismos como vi a acontecer pelo menos uma vez.

Este prélio para afirmar que nada tenho contra o conceito das claques organizadas. Muitos deles são rapazes como eu, que adoram o clube e que estão dispostos a acompanhá-lo pelo país fora, pelo estrangeiro, investindo muito do seu próprio dinheiro para o fazer e tirando a satisfação do facto de poderem viver o clube e seguir as suas equipas com o FC Porto na alma, com menos peso na carteira mas muito mais no coração devido a ele. Mas há malta que me parece desfasada da identificação de uma claque como “grupo organizado de apoio a uma instituição” (definição minha) e não consegue perceber que alguns actos não são condizentes com esse mission statement. Não falo de um, de outro, de X ou de Y, não os conheço (mas gostava e um dia destes hei-de marcar um café para dar duas de treta) e não sei qual é a racionalidade por detrás de algumas das ideias. Mas parece-me mentalmente falacioso anunciar que “Somos Porto” e “O Porto somos nós” quando viram as costas a uma equipa que ficou a TRÊS pontos do primeiro lugar (não trinta, TRÊS), que levou o clube aos quartos da Champions e que por infortúnio ou por falta de consistência mental acabou por não conseguir melhor que isso. Mais que isso, foi o desrespeito por alguns homens que deram muito ao clube e que saíram do estádio com uma sensação de abandono e de desprezo que não mereciam.

Perguntava-me um amigo no final do jogo: “Com que cara vão estes gajos aplaudir no início da próxima época os mesmos homens que acabaram de vaiar e de votar ao abandono?”. Não sei, rapaz. Mas eu não dou para esse peditório. Aplaudo e incentivo ao mesmo tempo que critico. Mas nunca lhes virarei as costas. Se faz de mim melhor ou pior portista, não faço ideia. Não sei se é assim que “sou Porto” ou que “o Porto é meu”. Mas faz de mim um homem mais coerente com os meus princípios. E não pretendo mudar uma vírgula.

There will be pain

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Uma destas três frases é verdadeira:

  • Cheguei a casa, vi que o Benfica já tinha sido campeão. Abri a carteira, saquei de lá o cartão de sócio e com uma tesoura procedi a cortá-lo em pedaços tão finos que não conseguiam passar pelo recto de um caracol;
  • Vi o jogo todo e rebentei a televisão ao pontapé em cada passe falhado do Herrera e escorregadela do Quaresma ou bola entregue ao adversário do Alex Sandro. Acabei com os dedos partidos, muito vidro no chão e o olhar estupefacto da minha filha, provavelmente a pensar o que tinha acontecido aos bonecos animados que ali viviam;
  • Não vi o jogo em directo. Cheguei tarde a casa, mesmo a tempo de ver o fim do jogo do Benfica, já sabendo como tinha ficado o FC Porto. Gozei com a moura residente quanto ao facto de ganharem o campeonato com um empate. Jantei, fui deitar a piquena e voltei para a sala onde comecei a ver o jogo de Belém. Fiquei com uma neura do carago e dormi mal.

Quem já me conhece não duvida qual dessas frases representa o que se passou neste Domingo à noite. E ontem cheguei ao trabalho e fui, como fiz em todas as vezes que tal aconteceu, parabenizar a mourada com quem partilho o dia-a-dia e que está com a matraca aberta de orelha a orelha. Faço a minha parte como desportista, sem excessos. Um sorriso da cor da camisola do Gondomar, um “passou-bem” e está feito. Correcto sem euforias. There. E volta a neura.

Alguém hoje disse-me: “gostava que me explicasses porque é que estás triste” e não consegui responder. Há uma ligação emocional que não se quebra e creio nunca se quebrará e que estes momentos exacerbam ao ponto de nos transformar num naco de carne com as emoções à tona, incapazes de controlar o que dizemos e o que fazemos. Então escudo-me, fecho-me dentro de um casulo de profunda tristeza e melancolia por tempos passados (tinha logo de ser hoje que faz quatro anos disto, raios me partam mais a minha sorte), afastando a maioria das pessoas e abdicando de conversas da bola. E é uma ciclo que se repete sempre que não sou campeão, mas é curioso que não sinto qualquer agravante de perder o título para o principal rival. Não creio que sentisse melhor ou pior se o campeão tivesse sido o Sporting ou o Covilhã ou o FC Berlengas-Ao-Fundo, o que me dói é aquele vazio, aquela ausência de triunfo mental, a paz que surge ao fim de meses de luta e da busca por um resultado que parecia tão banal e que agora se torna cada vez mais desejado.

Disse aqui há uns tempos que tínhamos de nos habituar a perder para voltarmos a saber o que era ganhar. E é tudo muito bonito mas no papel soa bastante melhor que atravessar de facto este deserto momentâneo em que a boa disposição é ausente e a tristeza implacável.

O empirismo desportivo é uma merda.

 

Seis anos disto

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Há seis anos atrás, estava eu num daqueles empregos onde um gajo chega às oito e meia da manhã e começa a olhar para o relógio às nove. Decidi na altura arrancar um blog sobre o FC Porto e não tinha ideia que seis anos depois se iria tornar parte da minha vida, um dos hobbies que mais me agrada e que continuo com prazer. Uns dias mais que outros, mas foi-se apoderando de mim um sentido de dever, de catarse que me faz relaxar mais depressa depois de uma derrota e estender um pouquinho mais a alegria de uma vitória.

Foram seis anos de piadas foleiras, trocadilhos escatológicos, críticas a muitos, elogios a muitos mais, insultos que se transformaram em comendas e outras tantas que fizeram a viagem de regresso. Muita hipérbole, demasiada sanguinidade e a tentativa de ser imparcial quando nem sempre é possível. No âmago do motivo para a existência do blog, houve títulos, muitos e variados. Houve larguíssimas dezenas de jogos no Dragão, alguns fora de portas e uma viagem a uma final europeia. Houve golos, faltas, expulsões e penalties. Houve túneis, cincazeros, cincauns e romenos a dançar em cima de placards publicitários. Houve colombianos geniais, brasileiros doidos e portugueses brilhantes. Houve loucuras, nomes inventados, poesia e bandas desenhadas. Vários treinadores, montanhas de jogadores e centenas de comentadores. Evoluí a forma de ver futebol, conheci uma enormidade de pessoas neste estupendo mundo da internet que transpuseram a barreira da virtualidade para se tornarem genuínos companheiros fora do monitor. Transformei-me numa espécie de nano-celebridade conhecida pelo primeiro nome, logo eu que raramente tenho o prazer de receber esse tratamento devido à sonoridade e unicidade do meu apelido nos ambientes que frequento. Ajudei a organizar eventos para unir bloggers portistas por aí fora e discutir o clube e a sua vida. Contribuí para um livro e fui entrevistado na televisão (olá, Mãe!). Tornei-me mais activo no Twitter e divirto-me tentando divertir os outros.

Olhando para trás, depois de seis anos, cinco treinadores, quatro campeonatos, três empregos, mais de dois mil posts e uma filha, ainda cá estou. E estarei, enquanto me der gozo. Obrigado por ainda aí estarem a ler as deambulações parvas de um puto que nunca deixará de o ser. E continuo a não gostar do Briguel.