Down, boy. Up, boy. Up and at them!

Não sou um trend-setter nem um trend-follower. Sou, quando muito, um trend-avoider. Nos cinco anos e meio que este blog tem de actividade, a evolução tem sido na direcção de seguir uma certa passividade perante assuntos fracturantes, uma espécie de tranquilidade que se foi assumindo como imagem de marca e da qual não pretendo divergir nos tempos vindouros. A não ser que se fale do João Pereira ou das vezes que o Maxi não foi expulso quando o merecia com menos dúvidas que o Cavaco teve na altura que proferiu o soundbyte da sua vida.

E acompanhei durante uma agitada semana o depauperar do discurso e a degradação de uma visão de futuro que todos deveríamos ter e que deveria ser sempre baseada na experiência de um passado mais ou menos recente. A defesa ou culpabilização de Tozé, vinda de recantos insuspeitos desta bluegosfera que aprendi a cultivar, foi dos momentos mais absurdos que me lembro de viver desde há vários anos a esta parte. A vilificação de Adrián, que em dez jogos pareceu transformar-se de uma compra grande num habitante de um dos círculos dantescos do local onde o enxofre não pára e as forquilhas abundam. Nem o treinador, que atravessa uma enorme montanha-russa no coração dos adeptos, a criar anti-corpos por decisões acertadas ou erradas ao nível das exibições de Belluschi ou Maniche, que tanto deliciavam como enervavam. Pouco riso, ainda menos siso.

Uma sabática não faz mal a ninguém e esta última semana foi um período de descanso bem saboroso. Pessoal, porque o grupo só ficou a perder.

No olhar de um adepto

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No olhar de um adepto, todas as jogadas contam. Há um restinho de quase-nada que se ergue do fundo da nossa alma e começa a puxar pela nossa voz, pelas fibras de todo o nosso ser futebolístico, que nos faz abrir os olhos e focar no homem que tem a bola e que começa uma qualquer incipiente jogada a partir da sua defesa ou no meio-campo. A bola, quer esteja sob o seu controlo ou fora do seu alcance, torna-se o ponto focal de toda a visualização do jogo, toda a esquadria que se vai desenvolvendo como se uma grid de Terminator caísse sobre os nossos olhos, transformando-os em miras telescópicas enquanto procuramos entender a melhor forma de levar o esférico para a frente. Para a vitória, para a baliza, para o idílio.

Maicon recebe a bola de Fabiano. Progride com calma. Calma demais, penso da cadeira do Dragão que me aloja e me permite olhar para o central com a autoridade de quem se acha superior e gere essa arrogância de uma forma tranquila até ao ponto da explosão em milhares de pedaços que rebentam com o nervosismo de quem, no fundo, é impotente para parar o que se desenrola em campo. Mas voltemos ao calvo brasileiro. Maicon recebe a pelota e olha para a frente. O raciocínio é difícil e ao mesmo tempo tão natural, tão habitual que o recurso à memória dos treinos e da esquematização da táctica, que deveria entrar em primeiro lugar na fila, senta-se no fundo da plateia à espera que a infrutífera revisão das recordações o activem. Passe lateral, para Danilo? Está livre, é possível, já o fiz no passado tantas vezes, o risco é quase nulo, ele recebe e se não conseguir subir com a bola pode devolver-ma ou entregar ao trinco. Not bad. E se eu rodar e enfiar a bola pelo meio para o Casemiro? Ou para o Herrera? Há mais risco, mais pernas, mais relva a trilhar, mais oportunidade de me assobiarem se falhar. Ao mesmo tempo ganho terreno, crio desequilíbrios, abano os adversários, faço-os tremer. Hmm. Ponder, ponder. O Indi está ao meu lado mas ainda são vinte metros e o outro parvo está ali perto. E se falho o passe? E se tropeço? E se a bola pára de rodar, se as leis da Física se suspendem durante dois segundos e a bola trava sozinha? Não, para ali não, hoje não, agora não. E se mandar a bola para longe? Para muito longe? Para o Tello, aquele pontinho azul-e-branco que está ali a quarenta metros? Cinquenta! Não, setenta! Mil! Está a sete quilómetros de distância e talvez seja a melhor forma de me safar disto. Já aí vem o avançado, raios te partam que tu és rápido, não parecias nada, como é que chegaste aqui tão depressa, maldito. É isso mesmo, vou mandar a bola para longe, assim não me chateiam, não me insultam. Haverá mais destas, muitas mais. Esta é só uma que já passou. Cá vai.

E normalmente a bola perde-se pela linha. Por culpa dele. Por nossa culpa. Por culpa dos demónios na cabeça. Podia ser qualquer outro jogador, o processo seria o mesmo.

Terça-feira demora muito?

Detesto perder. Fico insuportável, com umas trombas do tamanho do maior elefante que possam imaginar. As pessoas falam na minha direcção e hesito em responder logo ou respirar fundo antes que me saia uma torrente de diatribes contra um ou outro jogador, o relvado, o treinador, o Mundo. Não consigo pensar, o raciocínio mais simples e frugal transforma-se numa impossibilidade técnica porque todas as sinapses disparam com a memória de uma tarde ou noite que deixam marcas profundas que se apagam só ao fim de várias semanas de carpideirismo de alto nível e meia-dúzia de vitórias convincentes. Custa-me perder, não estou habituado e apesar da idade me trazer uma experiência que não tinha quando comecei a ver o FC Porto a jogar, numa altura em que uma derrota já não era natural mas continuava a ser uma facada no lombo, a verdade é que sinto esses momentos como se a minha filha me dissesse: “não gosto de ti, és um gordo nojento e não te posso ver à frente! vou fugir com o Adérito!”. E eu nem conheço o Adérito, até deve ser um gajo porreiro, mas neste momento é um monte de estrume. Desculpa, rapaz, mas não vou à bola contigo.

Ontem, num dia bonito depois de tantos dias tristes e chuvosos, andei com as beiças de um puto que não pôde ir à piscina num quente dia de Verão. E só fico à espera que o final da tarde de amanhã chegue rápido para limpar toda esta sujidade que me invade os poros e me desfaz a moral.

Nunca mais é terça-feira.

Quatro putos numa carrinha

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Éramos quatro e íamos às Antas. O ponto de encontro era sempre o mesmo, à porta da casa do Telmo para arrancarmos ao início da tarde e tentarmos chegar o mais depressa possível, navegando pelo curto mar de trânsito que nos olhava de frente para nos dificultar a tarefa tão acessível e ao mesmo tempo tão complicada. Nenhum de nós tinha carro, claro. Nenhum de nós sequer pensava em conduzir, mas a vontade era tanta que convencíamos o pai de um de nós a levar-nos à bola.

“Não lhe custa nada, Toni, afinal também vai para lá, não vai? E então, não pode levar a carrinha? Não somos grandes nem fazemos muito barulho, a sério! A polícia não vê nada, acha que sim? Estão mais preocupados com as claques e com os arrumadores e os assaltos à volta do estádio, nem vão ver que leva aí quatro miúdos na parte traseira da carrinha! Nós ficamos abaixados para não haver chatice, a sério! Oh ande lá, oh por favor!”

E lá íamos. Dez ou quinze ou mil quilómetros separavam-nos do estádio, com quatro mini-mânfios enjaulados no cubículo traseiro duma Renault Express, a discutirem tácticas e opções do treinador, delineando nas suas jovens cabeças quem é que jogava no dia, quem ficava de fora, quais eram os suplentes (na altura só cinco no banco e só podiam entrar dois em campo…quão pouca escolha havia!), se o Kostadinov ia marcar mais que o Domingos ou se o Paulinho era o melhor médio do mundo ou se era só de Portugal, porque não te esqueças do “Matáuss” que joga pó Mundial. E se jogasse o Timofte? Estupor do romeno que punha a bola onde queria e onde todos queriam que ele quisesse. Nem o Semedo escapa, ou o Rui Jorge, até o Fernando Couto sem o cabelo todo. E os putos, incautos de SADs e parcerias e fundos e transições defensivas e músicas ao intervalo e cadeiras almofadadas e zonas para mulheres de jogadores e instagrams e warriors e portoscanais e bancadas com nomes e tudo o que não interessava para o jogo, lá iam. Com os olhos a brilhar, o imberbe corpo a pedir para ser esticado depois de espremido, saíam do carro e saudavam o doce ar de uma tarde de Domingo passada em boa companhia no melhor espectáculo do Mundo.

“Estamos nas Antas, rapazes. Querem ir ver os gajos a aquecer?”

Melhor frase jamais foi proferida.

Lá volta este camelo a berrar contra os que assobiam

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Caros idiotas que começam a assobiar a equipa quando ela está num ponto momentaneamente frágil,

Gostava de vos propôr uma experiência sociológica. Um destes dias, quando chegarem ao vosso local de trabalho, alapem a peida confortavelmente depois de irem tomar um café e conversarem distraidamente sobre o decote da gaja da contabilidade ou a aula de body zerkump que tiveram ontem. Depois de bem sentadinhos, liguem o vosso computador. Estou a assumir que trabalham num escritório, mas também pode servir para malta que trabalhe de pé, numa obra de condutas de gás ou a tentar vender seguros à porta dos supermercados. Não desdenho nenhuma destas actividades, como decerto não desdenharão a minha, seja qual for o que imaginam que faço durante o dia.

Conceptualizando a vossa profissão como tendo de usar um computador para fazer coisas que vos garantem o ordenado ao final do mês, imaginem que abrem o Excel. Depois dos logotipos aparecerem na pantalha e de vos surgir uma folha branca cheia de pequenos rectângulos, abrem um ficheiro onde costumam trabalhar. Uma folha de ordenados, turnos definidos, planos de investimento, you name it. E vão a tentar copiar uma das células para outra zona do documento, mas enganam-se no destino. Nesse momento, um grupo de quarenta pessoas que nunca antes tinha visto aparece directamente por cima do vosso ombro e começa a gritar: “És uma merda, Antunes, não sabes que não é para aí que devias copiar o A8? É para o C14, ó animal de merda, não é para o C13, é para o C14! Toda a gente sabe que é para aí! Morre, meu paneleiro, havias de chegar a casa e encontrar o teu cão morto e a tua mulher com nove pilas estranhas lá dentro!“. Não lhe parece mal, portanto, que um simples erro encontre tão vil tratamento? Encolhe os ombros e procede na demanda da deficiente cópia da maldita célula A8. E, por infeliz acaso do destino, quiçá causado pela urina que se vai acumulando nas suas calças de bombazina depois do susto que há pouco apanhou, torna a copiar a célula…mas engana-se de novo e espeta o valor do ordenado do Pereira na célula C15. Oh, inclemência, pensa enquanto as mesmas quarenta pessoas surgem como um coro de demónios atrás de si: “Outra vez, seu filho de treze putas e mil pais! Já não viste antes que não era assim que se fazia?! Nunca trabalhaste com um rato na vida? É o teu primeiro dia neste planeta, cabrão, e já estás a fazer mais merda que uma manada de vacas com diarreia? Não mereces viver, cornudo, não mereces respirar, sai já daqui, corre para os braços da tua mãe, se ela ainda te quiser depois da vergonha que a fizeste passar!“. Desolado, triste, trémulo, lá tenta pela terceira vez e, finalmente, o valor certo vai para o lugar certo.

Se alguém conseguir fazer um paralelismo entre esta pequena parábola e a atitude de tanta gente que foi ao Dragão na sexta-feira passada, talvez seja porque esteve lá e, como eu, achou absurda a reacção de tantos adeptos a uma sequência de hesitações entre Fabiano, Maicon e Indi. Repito o que tenho dito há alguns anos para cá: sócios destes? Não, muito obrigado.