Ouve lá ó Mister – Benfica

Estimado Professor,

Chegou o dia da despedida, ainda que temporária, da equipa aos seus adeptos. Aos adeptos que a seguiram sem cessar, que apoiaram sempre que puderam, apanharam chuva no lombo, granizo na nuca, que tostaram ao sol abrasador no Verão e suportaram o frio no Inverno em várias cidades por esta Europa fora, sempre a apoiar a malta de azul-e-branco que por vezes nem se apercebeu muito bem da importância e valia da camisola que usavam no lombo. Foram tantos jogos, tantos infelizes conjuntos de noventa minutos em que vimos pouco mais que uma amálgama de poliéster nos corpos e couro nos pés, a tentarem pela vidinha deles perceber o que faziam na vida, como uma espécie de filosofagem de dois tostões que nunca os levou a nenhuma conclusão decente. E vão continuar mais um mês, alguns deles, pelo menos.

Mas o jogo de hoje é especial, não é? Um clássico é sempre especial, carago, não ponha essa cara infeliz! Alegre-se, porque vem aí o Benfica e que melhor possível motivador poderá haver que defrontar o vencedor da Liga e recente erguedor de mais uma Taça do mesmo nome?! E é exactamente por isso que neste jogo achei que poderíamos fazer uma guarda de honra aos gajos, mostrar que também sabemos perder, que por debaixo da nossa tradicional arrogância suportada pelas vitórias também bate um coração que sabe quando foi derrotado e que presta honra aos vencedores. E já imaginou a psicologia da coisa? Eles, que nos viram vencer e apagaram as luzes, ligaram a rega, vieram chorar para tudo que era jornal, ávido de palavras chocantes e declarações vazias de sentido apenas com a fel com que foram proferidas, eles que recebem guarida de toda a imprensa, todo o país pseudo-civilizado e dezenas de programas de televisão…já imaginou a chapadona de luva branca que seria recebê-los como nunca nos souberam receber? Meu Deus, que orgulho me daria poder dizer: “Viram aquilo? Viram mesmo? Viram o que é uma equipa com honra mesmo que não consiga jogar em condições?”. E diria com toda a pujança e toda a cagança, porque seríamos grandes.

No entanto, como acho que não vai acontecer, só lhe peço o seguinte: diga aos jogadores que este é o último jogo que muitos deles vão fazer. E se querem sair por cima, se querem deixar um mínimo de boa imagem na hora da despedida…só têm de ganhar o jogo.

Só.

Sou quem sabes,
Jorge

Why England Lose…again!

Vi o Inglaterra-Itália com os dentes a ranger e uma emoção a encher a minha alma de futebol, daquele futebol que gosto e anseio nunca deixar de gostar. Perdido o Espanha-França graças ao perfeito timing de um casamento agendado para o mesmo dia, jurei não abdicar deste confronto de gigantes e ainda bem que o fiz. O jogo foi dinâmico, vivo, duro, excitante, bom. E a Itália mereceu ganhar, por incrível que possa parecer se olharmos para o que tem sido a Itália até agora. O cinismo dos seguidores morais de Herrera abriu-se, desabrochou num festival de técnica perfeita, excelente controlo da bola e das emoções e tudo contra uma Inglaterra que é sempre mais fraca do que nos querem fazer pensar. Tiveram sorte de chegar aos penalties e já foi demais. Mereciam ter ido para casa com alguns no saco.

Lembrei-me de imediato de Simon Kuper e Stefan Szymanski, autores do “Why England Lose“, livro com que arranquei a rubrica “Na estante da Porta19“, aqui há quase um ano. Nele, logo nos primeiros capítulos, os autores explanam aquilo a que chamam “Why England Loses And Others Win” e que acabou por dar nome à obra completa. Eis os tópicos que na altura se aplicavam a um campeonato do Mundo mas que se podem transferir para um campeonato da Europa sem dificuldade:

  • Fase 1: Antes do torneio – a certeza que a Inglaterra vai vencer o Campeonato
  • Fase 2: Durante o torneio, a Inglaterra defronta um antigo inimigo numa guerra
  • Fase 3: Os ingleses concluem que o jogo foi alterado devido a um azar que só a eles poderia acontecer
  • Fase 4: Para além disso, todos os outros fizeram batota
  • Fase 5: A Inglaterra é eliminada sem sequer ficar perto de vencer a Taça
  • Fase 6: No dia depois da eliminação, o regresso ao dia-a-dia
  • Fase 7: Encontra-se um bode expiatório
  • Fase 8: A Inglaterra arranca para o próximo Campeonato com a certeza que o vai vencer

Fase 1? Check. Sempre com a maior das arrogâncias
Fase 2? Ainda hoje vimos isso, check.
Fase 3? Talvez, porque falharam dois penalties. Ainda por cima dois gajos chamados Ashley. Só a nós, yadda yadda. Check.
Fase 4? Claro, a Espanha é sempre beneficiada e o Platini quer que a Alemanha chegue à final. Check.
Fase 5? Quartos-de-final. Check.
Fase 6? To be confirmed…
Fase 7? Vai uma aposta? Rooney e a suspensão de dois jogos, Capello demitiu-se, a polémica Terry/Ferdinand…aposto num check.
Fase 8? Nem preciso de esperar muito, vem já aí a próxima fase de qualificação para o Mundial 2014. Espero pelo check.

Ou seja, Kuper e Szymanski estão quase perfeitos na análise. Sic transit gloria mundi. Ou no caso dos bifes…not so much.

PS: Pirlo. Meu Deus.

Maicon ou como conquistar os adeptos pelo trabalho

Estas foram as duas últimas análises ao trabalho de Maicon que mereceram destaque aqui no Porta19:

 

“Simples. Prático. Eficaz. Dominador. Controlador. Marcador. Vitorioso. Nosso. Maicon está a ser uma excelente surpresa não só pela qualidade de passe e pelo controlo emocional durante o jogo (juro que se fosse eu que tivesse tido o Gaitan com a cabeça colada à minha tinha-lhe dado uma cornada de tal força que o mandava procurar o nariz na nuca), mas principalmente pela evolução que tem vindo a mostrar. “É o próximo senhor trinta milhões”, disse-me o meu amigo ao lado. Não sei. Mas que está nitidamente a crescer como jogador, não tenho dúvida.”

Baías e Baronis – SL Benfica 2 vs 3 FC Porto, 2/Março/2012

“Foi o melhor em campo com alguma margem de distância para os colegas. Sóbrio na defesa, rápido na intercepção e forte no contacto físico com a bisarma que veio da Feira para a relva do Dragão. Acaba por ser notável perceber que Maicon parece mais inteligente que Rolando quando tem a bola nos pés, é mais preciso nos passes longos e joga com uma aparente calma que deveria contagiar os colegas e impedir a estupidez em que muitos insistem em mostrar a toda a gente. O golo (que eu adivinhei num momento de raríssima presciência) acabou por mostrar que Maicon é sem dúvida o homem mais perigoso do FC Porto nas bolas aéreas, mais até que Janko.”

Baías e Baronis – FC Porto 2 vs 0 Feirense, 27/Fevereiro/2012

 

Agora reparem o que o mesmo cronista (eu) falou sobre Maicon há dois anos:

 

“Meu Deus. Como é possível aquela falha no segundo golo?! Como disse no jogo contra o Estoril, Maicon é lento demais e acaba por ser ainda pior vê-lo a correr ao lado de um avançado qualquer que lhe passa à frente. Fraco.”

Baías e Baronis – FC Porto 2 vs 2 Olhanense, 6/Março/2010

“É lento demais, passa a bola com força a mais e é sempre um susto quando a bola vai para perto dele e tem um adversário a pressionar. Eu que sou do tempo de ver jogar o Alejandro Díaz, digo: não serve.”

Baías e Baronis – Estoril 0 vs 2 FC Porto, 25/Janeiro/2010

“Maicon é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito leeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeento…em demasia para uma equipa como a nossa, que já não tem jogadores muito rápidos no centro do terreno. Ou ganha ritmo e velocidade ou não pode ser opção.”

Baías e Baronis – FC Porto 1 vs 0 Leixões, 5/Janeiro/2010

 

Apesar de gostar de acreditar que a forma de ver as coisas vai mudando ao longo do tempo e eu como frequente visitante do Estádio do Dragão e habituado a ver os jogadores em campo já tenho alguma bagagem que me permite ser correcto nas análises e tento sempre manter uma visão fria e analítica no que escrevo. Mas é inegável que no caso deste rapaz as circunstâncias foram-se alterando ao longo do tempo de uma forma notória e inesperada. Maicon é hoje em dia melhor jogador que era quando cá chegou.

Não sou capaz de apostar em qual dos treinadores terá tido o maior efeito na evolução de Maicon. Em três épocas e três treinadores diferentes, Maicon passou por diversas situações de treino e preparação física e táctica, arrancando com Jesualdo, passando por Villas-Boas e continuando agora com Vitor Pereira, o brasileiro foi continuamente escolhido como alternativa a Bruno Alves ao lado de Rolando, titularizado ao lado de Otamendi e Rolando no ano passado e este ano como titular no centro da defesa e com uma passagem longa pela lateral direita. Nunca o ouvi a reclamar mais oportunidades, a protestar por ser utilizado numa posição fora do habitual, levou continuamente com pancadas morais intensas, assobiadelas monumentais dos próprios adeptos, críticas e mais críticas por tantos oh tantos colunistas notáveis que fizeram dele um dos alvos da injúria pública. Também eu o critiquei bastante pelas exibições menos conseguidas, tanto no passado como na actualidade, pela aparente inadaptação ao flanco. De Maicon, nem um pio.

Nesta temporada têm-se verificado um crescimento no jogador que tanto gostamos de detestar. Maicon continua a não ser um lateral-direito e nunca vai render o que esperamos de um “natural” naquela posição, mas faz o que lhe pedem com o máximo de afinco e o mínimo de estardalhaço. Seguro na defesa e trabalhador na construção de jogo, é evidente que rende mais no centro mas o que é ainda mais óbvio acaba por ser a evolução na forma de jogar. Está mais prático, inventa menos e cria menos problemas aos colegas. É jogador de “chuta pró ar”, um pouco à imagem de Jorge Costa, mas sabe quando pode controlar a bola e quando a deve enviar para a frente. Tecnicamente superior a Rolando, largamente superior nos passes longos e responsável já por vários golos este ano, alguns deles vitais – e nenhum mais que este último na Luz. Fora-de-jogo, é um facto, mas ainda assim apareceu lá para cabecear e dar a vitória ao FC Porto depois de mais uma excelente exibição – Maicon é hoje em dia titular de pleno direito no FC Porto, especialmente numa altura em que Danilo está lesionado e Sapunaru continua sem merecer a confiança plena de Vitor Pereira. Numa altura em que pedimos esforço dos jogadores, ambição e espírito de sacrifício, poucos como Maicon estão a dar tudo o que tem em campo para que a equipa saia vitoriosa de todos os terrenos. Não é brilhante, talvez nunca o será, mas é um jogador importante em várias situações de jogo quando precisamos de alma e de força na zona recuada.

É também uma lição para todos os adeptos: nem sempre o que parece mau o é. Às vezes temos de reconhecer o mérito naqueles que acreditam nas qualidades de um jogador porque trabalham com ele todos os dias ao contrário de nós que só os vemos uma vez por semana.