Ouve lá ó Mister – Rio Ave

Camarada José,

Faltam três jogos para terminar a época e estou triste. Triste pelo momento da equipa, triste pela forma como encaramos as partidas e acima de tudo triste por chegarmos a este momento do campeonato e estarmos a jogar para aquecer. E hoje quer-me parecer que esta metáfora vai ser mesmo concreta, porque pela maneira que o tempo tem andado, um joguinho em Vila do Conde, com chuva tocadinha a vento, vai ser bem bonito de ver. Pum, bola pró ar e quem estiver a favor do vento é abrir alas e rematar que a bola pode até ir lá para dentro com um chouriço que ninguém estava à espera. É assim todos os anos e este não será diferente.

Ainda pro cima já sei que vais andar a experimentar os rapazes e a tentar arranjar o melhor onze para ainda conseguires chegar à final da Taça e sacar alguma coisa desta miserável temporada. Inventa lá o que quiseres porque o terceiro lugar já ninguém nos tira (suspiro…) e só há uma coisa que interessa até ao fim do ano: ganhar no Jamor. Já desisti de pedir que puxes pelo orgulho dos teus homens porque está mais no fundo que um naco de carne podre atirado para o Douro. Assim sendo, lutem pela vitória mas tentem perceber qual é a melhor maneira de darmos a volta ao Braga daqui a duas semanas. E se conseguirem ganhar, menos mal. É assim que estamos, mister. Na trampa.

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – SL Benfica 1 vs 2 FC Porto

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Não acredito que muitos portistas estivessem à espera disto. Eu certamente não estava. Passei o dia nervoso, com uma sensação de desastre iminente que pairava sobre mim como uma nuvem carregada de negativismo. Disse a um colega de trabalho que sou pessimista porque assim o impacto das notícias positivas é maior. E se foi. Uma vitória do trabalho, da eficácia e da força de vontade, de um grupo de homens que há uma semana estavam arrasados mentalmente, com o peso do mundo às costas. Hoje mostraram que estão vivos e deram uma alegria enorme a tantos que os apoiam. Notas, com um sorriso enorme, já abaixo:

(+) O orgulho não está morto. Exceptuando Maxi e Chidozie, estes foram os mesmos homens que jogaram contra o Arouca. Foram estes que desperdiçaram uma oportunidade estupenda de se aproximarem do primeiro lugar e quase deitaram o campeonato fora no passado fim-de-semana. E se calhar já está mesmo fora do nosso alcance, mas os nossos jogadores entraram em campo como se não acreditassem que algo estivesse perdido. Lutaram como raramente os vi a fazer este ano, acabando o jogo com as faces ruborizadas do esforço, os calções cobertos de manchas de relva e o corpo empastado com o suor de noventa minutos doidos de correria e orgulho que recuperaram pelo menos durante uma noite. O futuro dirá se a montanha-russa vai continuar ou se o planalto está próximo.

(+) Casillas. Se havia noite para brilhares, Iker, era esta. Que jogo estupendo, com pelo menos quatro defesas maravilhosas a remates adversários (Pizzi, Jonas, Gaitán e Mitroglou) e uma intercepção absurda de Indi que Casillas atirou para trás da barra com reflexos de gato e que parecia ter voltado dez ou quinze anos atrás, tal foi a facilidade com que saltou e reagiu. Não vencemos por causa dele, mas podíamos ter perdido se não estivesse lá. Enhorabuena, hombre!.

(+) Herrera. Herrera é isto. Oito ou oitenta. Topo ou fundo. Puxando a brasa aqui para perto, Baía ou Baroni. É a representação em campo do estado anímico da equipa e surpreende-me perceber o quão estamos ligados às suas exibições, quer queiramos quer não. Quando Herrera está bem, o FC Porto está melhor, porque é através dos seus pés que as jogadas surgem mais fluidas e a bola rola com mais propósito. Em constante movimento e a procurar o espaço dado pela defesa benfiquista que jogou sempre bem subida, tentou vários passes a desmarcar colegas, quase sempre com pouca sorte. Ainda assim, foi lutador e ajudou a desenvolver o contra-ataque portista durante todo o jogo.

(+) Danilo. William Carvalho parece ser o ungido por Deus e pelos arcanjos para ser o próximo trinco da Selecção Nacional, mas Danilo tem metido o sportinguista num bolso. Excelente na luta física e na protecção da bola, quase perfeito nas dobras rasteiras e a aguentar o meio-campo defensivo quando apanhava com três ou mais jogadores do Benfica, qual deles o maior no jogo de braços. Danilo aguentou tudo e ainda conseguiu ter forças para arrastar a equipa para a frente sempre que pôde. Que jogador estás a ficar, rapaz.

(+) Chidozie. Temi, como tantos outros, que tremesse na estreia. Nada disso. Calm, cool and collected, Chidozie mostrou a tantos outros jovens que o que é preciso para entrar numa equipa como o FC Porto é ter talento, calma e confiança nas suas capacidades. Não foi genial mas nunca inventou à Maicon, nunca passou à Marcano e nunca facilitou à Indi. Dezanove anos. Não sei se continuará a ser titular (não está inscrito na Europa League) mas pode ser opção para o jogo contra o Moreirense e se mantiver o estilo simples e eficaz, começa a ser complicado não apostar em mais jovens da equipa B nos próximos tempos.

(-) Posicionamento deficiente, especialmente na primeira parte. Chocou-me a quantidade de vezes que Mitroglou descia para tabelar com Sanches, Jonas ou Pizzi, rompendo pelo centro sem que lhe fosse obstruída a passagem ou causado algum incómodo. Chateei-me quando via Brahimi longe do lateral quase em overlap ou Layún a recuar perante André Almeida. Aborreci-me sempre que via o Benfica a passear pelo noso meio-campo e a conseguir furar a estratégia defensiva quase sem precisar de suar muito. Enervei-me quando os laterais contrários conseguem quase sempre cruzar em condições e os ressaltos acabavam por ir ter aos pés dos colegas, sem que conseguíssemos sair com a bola controlada. A segunda parte melhorou mas se não fosse Casillas, um segundo golo naquela altura podia ter morto o jogo de vez. Ufa.

(-) Expulsões perdoadas, mais uma vez. Sempre a somar. Jonas entra à Van Damme por cima de André. Sanches joga toda a primeira parte com os braços esticados, acertando várias vezes nos adversários sem grande malícia mas com risco para a integridade física do adversário, só apanhando amarelo depois de um pontapé em Aboubakar com a bola bem longe. E a bola também estava longe quando Carcela tem uma entrada por trás sobre Layún (creio), que era para vermelho directo. Soares Dias não teve uma má noite, longe disso, mas o critério disciplinar inclinou-se muito para os rapazes da casa.


Ganhámos na Luz depois de vários jogos em que lá fomos para não perder. Desta vez, os rapazes fizeram pela vida e tiveram a recompensa merecida. Não sei se somos melhores que eles como equipa. Mas hoje, no campo, fomos mais eficazes e os três pontos cá estão. Parabéns, rapazes!

Ouve lá ó Mister – Benfica

Camarada José,

Ando com fome, homem. meti-me a ver se faço uma dieta para mandar abaixo os pneus e esta merda mexe com o raciocínio, a boa disposição e estou convencido que está a fazer de mim mais burro do que já era. Efeitos secundários de bolachinhas de água e sal ou de chá de adenóide de gafanhoto ou lá o que caralho é que metem nas ervas, o que eu sei é que me andam a roer por dentro e por fora. E ainda por cima mandam-me correr e fazer exercício e andar por aí feito retardado a ver se consigo calcar mais alcatrão que uma pêga na circunvalação. Não gosto disto. E como não gosto, quem leva és tu porque o Maicon é bem maior e era menino para me rebentar o focinho, senão mandava-me a ele.

O jogo de hoje não é só um jogo. É uma batalha, um confronto de gigantes, uma luta sem tréguas que dura há umas dezenas de anos e que tu acompanhaste desde que começaste a obrar no pote. Francamente não sei se és portista ou benfiquista ou se gostas mais é do berlinde, mas aqui ninguém perdoa quem entra para estes jogos sem a noção do que eles significam para a alma da nossa gente. Pergunta ao Co e ao Lope, eles dizem-te. E depois do jogo de Domingo estamos todos meios acagaçados com o que pode vir por aí, mas se falares com qualquer portista, TODOS te vão dizer: “é para ganhar, mister!”. Seja com o Chidozie, o Jaime Magalhães ou o Deco, só há uma vontade: ganhar o jogo.

Tens opções complicadas para tomar hoje, mas não as tornes mais difíceis do que já são. Tenta ganhar e não te vão censurar. Se fores para lá para não perder, lixas-te com eles e connosco. A escolha é tua.

Sou quem sabes,
Jorge

Baías e Baronis – FC Porto 1 vs 0 SL Benfica

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Na altura em que André recebe a bola de Varela, deixei de conseguir ver o lance e só conseguia imaginar a bola dentro da baliza. Na altura que a bola entrou, já estava no ar, a saltar de braços erguidos para o céu e a agradecer que o “velhinho” pai tivesse conseguido gerar um filho que nos desse, tantos anos depois, uma alegria tão grande. Um jogo complicado, com duas partes distintas em que houve uma equipa que tentou vencer (nem sempre bem) e outra que quase nos impedia de o fazer. Um clássico à antiga e uma vitória que só podia ser nossa para vingar a injustiça do ano passado. Sigamos para as notas:

(+) André. Pois ora então cá vamos: GRANDE! GRANDE! Encheu o campo todo, percorrendo quilómetros num papel bem mais condutor da bola do que estaria à espera, arrastando defesas e procurando quase sempre perceber onde podia colocar a bola para o avançado mais próximo. Falha poucos passes e perde poucas bolas porque usa bem o corpo e tem uma invulgar capacidade de retenção da bola de costas para a baliza enquanto espera pelas subidas dos colegas e recua como um João Pinto na ajuda à defesa. Aqui vai disto: se no ano passado tivéssemos comprado este rapaz em Janeiro e ele estivesse nesta forma, talvez tivéssemos conseguido ser campeões. Marcou um golo que não vai esquecer tão cedo e ninguém mereceu mais que ele.

(+) Casillas. Duas estupendas defesas na primeira parte depois de dois lances pelo ar que a defesa, mais uma vez, não conseguiu contrariar. Mostrou, mais uma vez, que entre os postes é um guarda-redes ágil e com excelentes reflexos. Apenas uma falha num pontapé para a frente que lhe saiu mal.

(+) Ruben Neves. Mostrou que um trinco não precisa de ser um animal de força e de estatura para poder jogar com fibra e garra naquela zona, empenhando-se sempre a 100% na disputa das bolas, tanto aéreas como rasteiras. Estupendo na rotação de bola para as laterais, é um jogador sempre de cabeça levantada à procura do melhor que pode fazer, optando tantas vezes bem por não fazer o quase impossível para se manter pelo exequível. É titular por mérito próprio.

(-) Estratégia no arranque. Lopetegui entrou como tinha feito em Kiev, com dois avançados e André encostado à linha, provavelmente para ajudar Maxi a parar Gaitán. Ou seja, entrou a medo. Acabou por mudar a estrutura aí pelos 25 minutos porque o Benfica tapava muito bem o meio-campo e as alas não rendiam como era esperado (que grande jogo do Nelson Semedo a tapar Brahimi). A somar a isto, um espaço ENORME entre Ruben/Imbula e os jogadores da frente faziam com que o médio que pegava na bola pelo centro apanhasse um magote de vermelhos e quatro homens abertos lá na frente. Não funcionou e Lopetegui demorou a perceber isso.

(-) Bolas paradas defensivas Mudam os anos, mudam os treinadores e o problema mantém-se, como um primo que bate à porta na altura do Natal a pedir esmola para os jeovás. Com mil petardos, não há de haver uma forma de conseguirmos aprender a defender bolas paradas?! Os grandes lances de perigo do Benfica surgiram deste tipo de lances e é algo que me arrelia profundamente perceber que sempre que há um livre ou canto contra nós, aqui d’el Rei que lá vou eu roer as unhas, mas quando temos alguma coisa parecida do outro lado do campo, lá vou eu beijar a camisola e rezar a mil santos para a bola ir parar perto de um gajo de azul-e-branco. Treino específico, todos os dias.

(-) Soares Dias Fica já assente: eu também acho que o Maxi devia ter recebido dois amarelos. Aliás, ando a dizer isto há sete anos. Mas o problema de Soares Dias não foi (apenas) esse. Foi a forma como permitiu o anti-jogo do adversário desde o início do jogo, compactuando com as atitudes absurdas de Eliseu, Samaris, André Almenda, Gonçalo Guedes e companhia, constantemente preocupados em parar o jogo, agarrar a bolinha depois da marcação de faltas, atirar a bola para dentro de campo depois de sair pela linha lateral…este tipo de postura que já nos habituou há que tempos e que continua a passar sem que um árbitro lhes faça ver que esta merda é para jogar, não para arrastar. Soares Dias, com a complacência que mostrou, ajudou a que o jogo ficasse (mais) feio.


Uma vitória contra o Benfica é sempre motivo de felicidade e esta soube bem, especialmente por ter vindo numa altura em que já tudo parecia encaminhar-se para um triste empate. Ufa.

Ouve lá ó Mister – Benfica

Señor Lopetegui,

Tudo porreiro? Espero que sim. Dormiste bem? Espero que sim. Estás pronto para um pequeno-almoço tranquilo? Espero que sim. Logo vais ganhar o jogo? Espero mesmo que sim.

Tem sido um arranque de temporada simpático, com jogos razoáveis e outros menos conseguidos, mas tens levado a nau a um porto agradável, sem Adamastores a tentarem copular com as tuas velas, Bigfoots a rasgarem-te a pele ou gigantescos abutres que te amarrem a uma rocha para te comer o fígado à espera que ele cresça de volta. Não creio que haja bichos no teu armário ou monstros debaixo da tua cama e garanto-te que os palhaços, por muito assustadores que possam parecer, não são tão Stephenkinguescos como mostram nos filmes. Não há papões, Julen, acredita. O que há é um adversário de nome e de talento, com um futebol que pode ser mais ou menos consistente do que no ano passado e que aparece aqui no Dragão com vontade de nos sacar os três pontos que podem e devem ser nossos. Não há que ter medo, não há que urinar pelas pernas abaixo nem esconder por detrás da mini-saia da mãe (porque a mãe, nesta história, até é bem jeitosa e tem umas coxas que prendem a atenção) à menor dificuldade. É um jogo diferente, não tenhas dúvida. É um jogo de tripla, como se diz por cá, onde as possibilidades de vitória são quase iguais para cada um dos lados. Mas tens uma coisa do teu lado: os cinquenta mil que vão estar nas bancadas que te vão dar o apoio todo que conseguirem se tu e os teus mostrarem que estão aí para ganhar o jogo. Nada mais te peço, Julen. Ganhar não é o único resultado possível, mas é o único que te vai reabilitar aos olhos de muitos adeptos que ainda não te vêem como um homem ganhador.

Muda-lhes a mentalidade. Ganha o jogo e deixa-nos dormir descansados hoje à noite com a noção de dever cumprido. Parece complicado mas eu sei que está ao teu alcance.

Sou quem sabes,
Jorge