Entrevista a Vítor Pereira – Parte III

Terceira e última parte da entrevista do Pedro Batista a Vítor Pereira. Vale bem a pena.

 

P.B: – Quais os princípios defensivos que considera mais importantes no tipo de organização defensiva escolhido para a sua equipa?

V.P: Eu devo-lhe dizer que trabalhamos, sempre em todos os nossos microciclos, a contenção, as coberturas e os equilíbrios defensivos. Mas existem coisas fundamentais para além destas, como por exemplo a identificação de referenciais de “pressing”, existe o atacar o adversário pelo “lado cego”, promover a organização de uma zona pressing inteligente e organizada, no sentido de levar o adversário a sair a jogar de determinada forma na 1 fase de construção, retirarmos espaço e tempo de execução ao adversário, é importantíssimo saber defender por linhas, e estas são as nossas principais preocupações que temos no nosso trabalho semanal.

P.B: Fala em pressionar o adversário pelo “lado cego”, explique-nos o que é isso.

V.P: Pressionar o adversário pelo lado cego é o aproveitamento dum mau posicionamento do adversário, dum deficiente ajustamento dos apoios na recepção da bola que normalmente “fecha” o campo. O que é que eu quero dizer com isto, imaginemos o adversário a sair a jogar pelo corredor lateral direito com o médio centro ou o pivot defensivo a receber passe interior com os apoios virados para esse corredor, voltados para essa lateral, portanto está-nos a dar o “lado cego” e normalmente isso acontece sempre, acontece na linha defensiva ou na linha média. Recebem quase sempre a bola dando “lado cego” e é isto que temos de aproveitar com uma aceleração, com uma acção pressionante sobre o “lado cego”, mas para isso temos de convidar o adversário a entrar na “zona pressing” que estamos a organizar, para depois acelerarmos sobre o adversário e recuperar a posse de bola.

P.B: – Na sua equipa, pretende esperar pelo erro do adversário para recuperar a posse de bola, ou pelo contrário, procura que a sua equipa provoque esse mesmo erro, isto é, que a sua equipa tenha um papel passivo ou activo na recuperação da posse de bola?

V.P: Nós obviamente queremos promover o erro, para isso temos de ser inteligentes, por isso a nossa organização defensiva baseia-se numa organização por linhas, hoje em dia e com razão fala-se em muitas linhas, em função do lado estratégico que é preciso integra-lo no treino, em função da forma que queremos provocar o erro no adversário organizamo-nos nas linhas que achamos necessárias para criar as nossas zonas “pressing”, e esse trabalho é feito desde o nosso primeiro dia de treinos.

P.B: – Gostava agora que me falasse um pouco sobre os princípios defensivos que acha mais importante em cada sector da sua equipa.

V.P: Nós trabalhamos em todos os sectores, as coberturas, as contenções, e os equilíbrios. Dou-lhe um exemplo, no ataque neste momento estou a jogar com 2 avançados, estes 2 jogadores podem não executar muito bem as acções de cobertura, ao nível da contenção podem não ter a agressividade que eu pretendo, apesar de trabalhar estes aspectos, mas se eles em termos posicionais não estiverem bem, se eles não identificarem os referenciais de “pressing”, se eles não acelerarem no momento certo sobre o adversário, vai originar um desgaste dos restantes jogadores, vai originar ineficácia na zona “pressing”, logo vai abortar o plano colectivo defensivo.  Vamos imaginar isto, o nosso adversário joga com um homem entre linhas, entre a nossa linha defensiva e do meio campo, isto apesar de não alterar o nosso trabalho geral de coberturas e equilíbrios, isto exige que para eu ser eficaz em termos defensivos, preciso de um homem que vá jogar nesse espaço entre linhas para controlar esse mesmo espaço. Se pelo contrário o adversário não tem esse jogador entre linhas eu posso não precisar de controlar esse espaço, se calhar vou promover o jogo de coberturas de forma diferente. Eu posso ter um jogador forte, como pivot defensivo, a jogar entre linhas, que no jogo aéreo é forte, eu promovo o seu “encaixe” com a cobertura do meu defesa central ou defesa lateral, onde este homem em situações de finalização do adversário pode “entrar” na minha linha defensiva para me dar mais segurança e equilibrar-me a equipa. O importante é os jogadores saberem o jogo de coberturas, e nós treinamos estes aspectos para que os jogadores entendam o que têm de fazer. Mas o estratégico é fundamental, sem adulterar o trabalho que é feito semana após semana.

P.B: – Gostava que me explicasse os papeis defensivos mais importantes que dá ao médio(s) defensivo(s)/pivot, aos centrais, ao libero se ele existe e aos laterais.

V.P: Vamos imaginar que a minha equipa báscula do lado da bola, primeiro é preciso controlar o espaço, a bola e o adversário, na zona há uma responsabilização, existe um domínio do controlo do espaço, do controlo da bola, do espaço para o adversário e do espaço para o colega, é importante não existirem espaços inter-linhas e intra-linhas, é importante que todos os jogadores saibam controlar esses espaços, é importante os jogadores não “fecharem” o campo, o que é que eu quero dizer com isto, eu vejo equipas de nível com os jogadores a serem sistematicamente surpreendidos por estarem a “fechar” o campo, imaginemos que o meu lateral do lado contrario báscula do lado da bola, tem uma referencia de espaço, mas se tiver os apoios virados para o lado da bola está a “fechar” o campo, existe uma zona enorme de campo que ele não está a ver, se o adversário lhe aparecer com o campo fechado, vai surpreende-lo, isto parece um pormenor menor mais tem muita importância. Nós quando basculamos do lado da bola, eu estou sempre a dizer aos jogadores “abre o campo”, porque com o campo aberto consigo controlar o espaço, a bola e o adversário. Se eu virar os apoios para o lado da bola, basta uma entrada a um metro para não conseguir controlar. Outro aspecto que os jogadores devem dominar perfeitamente são os referenciais de pressing, devem também perceber quando a equipa deve ganhar espaços à largura e à profundidade, quando é que a equipa deve retirar espaços à largura e à profundidade. Imaginemos que temos um adversário de frente para nós, que está em boas condições de dar profundidade ofensiva ao seu jogo, todos os jogadores têm de perceber quando se deve retirar profundidade ofensiva ao adversário e quando não se deve. E como se trabalha isto? Trabalha-se identificando comportamentos, identificando momentos, quando a minha equipa está perante determinada situação tem que ter um comportamento adequado, o que nos trabalhamos é que para a identificação do momento devemos ter o comportamento adequado, isto não é um trabalho simples, mas é um trabalho que se consegue.

P.B: Fala várias vezes em referenciais de pressão. Dê-nos exemplos desses referenciais que dá à sua equipa.

V.P: Passe devolvido entre central e lateral, passe longo do adversário, passe devolvido pivot defensivo central, são momentos que nós queremos aproveitar colectivamente para “saltarmos” em cima do adversário. Nós no fundo tentamos promover determinada forma de construção de jogo do adversário e posicionamo-nos para que esses momentos que são referenciais de pressão para nós surjam, para nos aproveitarmos colectivamente, através de uma identificação colectiva. Não queremos pressões individuais, porque isso desgasta e abre o nosso bloco defensivo. Nós pretendemos que momentos como passes devolvidos, receber de costas, passes longos lateralizados sejam identificados como referenciais de pressing colectivos, sejam identificados como momentos em que temos de “saltar” em cima do adversário. Não queremos um tipo de pressão constante, se pressionarmos constantemente o adversário, ele não sai a jogar, o adversário bate a bola na frente, não nos permite criar condições para..então nós temos que diferenciar ritmos defensivos, ou seja, nós temos de lhes dar a ideia de um momento calmo para um momento rápido.

P.B: – De acordo com o que investiguei, a forma como se interpreta o conceito de “marcação” influencia claramente o tipo de organização defensiva. Para si o que é “marcar”? Quais as referências de marcação que dá a sua equipa?

V.P: – Fundamentalmente preocupo-me com espaços, o que eu procuro é que os meus jogadores percebam claramente como defender espaços, adversários nos espaços. No nosso caso para trabalharmos bem zona, devemos controlar os espaços, controlar a zona, controlar o adversário e a bola, controlar o espaço relativamente ao adversário e o espaço relativamente à bola. Nós defendemos da mesma forma em todas as zonas do terreno, quando a bola entra nos corredores laterais defendemos de determinada forma, quando a bola entre no corredor central já defendemos de outra forma, se o adversário nos obriga a juntar linhas e a reduzir o espaço à profundidade já defendemos de outra forma. O que eu acho importante e nós percebermos o momento em que estamos e termos o comportamento adequado em relação a esse momento. Temos de perceber claramente quando passamos de transição defensiva para organização defensiva, se uns jogadores tiverem comportamentos de transição e outros tiverem comportamentos de organização defensiva, então a confusão é total. Para tentar responder à sua questão aquilo que eu acho mesmo importante e nós sabermos claramente em que momento do jogo estamos, perceber claramente quais os espaços que devemos dominar, devemos também dominar o adversário e a bola.

P.B: – Podemos concluir que para si “marcar” é conquistar espaços vitais para o ataque do adversário.

V.P: – Sim, sem duvida nenhuma.

P.B: – Nunca um referencial individual do adversário?

V.P: – Nunca na minha vida entendi a organização defensiva dessa forma, se o adversário se apresentar com dois avançados, eu nunca na minha vida pedirei a um membro do sector intermédio para marcar um desses avançados, porque não faz sentido absolutamente nenhum para mim.

P.B: – Muda a sua forma de organização defensiva em função da organização estrutural do adversário? Por exemplo, se este joga com um ou dois avançados.

V.P: – O princípio organizacional não muda, esse não. Agora estrategicamente o tal controlo do espaço, o tal conquistar os espaços é muito importante. E muito importante estudar bem o adversário e operacionalizar sobre ele, e isso eu faço-o. Eu durante muitos anos joguei na 3 divisão, neste nível o referencial defensivo é o homem, então eu sendo pivot defensivo, sempre que o adversário jogava com dois pontas de lança, eu tinha que pegar num dos pontas de lança e andar atrás dele para todo o lado, o que me provocava um desgaste terrível, que me tirava discernimento e lucidez para o processo ofensivo, o meu único objectivo era claramente não deixar jogar, esta foi a minha formação, mas uma formação com a qual nunca me identifiquei, que me fazia confusão, durante anos e anos sentia que aquilo não fazia sentido absolutamente nenhum.

P.B: – A sua equipa é uma equipa que “encaixa” no adversário, isto é, preocupa-se num jogo de pares em função do adversário, ou pelo contrário, aquilo que pretende é conquistar espaços?

V.P: – Aquilo que eu lhe digo é que ando sistematicamente à procura de desadaptações, o que eu procuro é promover a minha organização defensiva de determinada forma, no sentido de a minha transição ofensiva e da minha passagem para posse de bola, desadaptar e desequilibrar o adversário. Eu quando penso na forma de como nos vamos organizar estou a pensar na forma de como vamos passar para os momentos seguintes, eu estou na minha organização defensiva a pensar de como vou passar para organização ofensiva e integro o estratégico neste trabalho.

P.B: – Então jamais pretende encaixar no que quer que seja.Por mais que o adversário mude, nunca quer o “encaixe”.

V.P: – Se o adversário tem 3 eu não procuro também meter 3, se o adversário mete 4 eu não quero meter 4, eu acima de tudo tento controlar e ganhar espaços, procuro reduzir espaço e tempo de execução ao adversário.

P.B: – Então tenta sempre uma “sobreposição” ao adversário?

V.P: – Fundamentalmente procuro trabalhar nos desequilíbrios e no erro do adversário, eu quando mando observar procuro sempre que sejam descobertas formas de surpreender o adversário. Tento sempre anular o melhor que eles têm e aproveitar o pior que eles apresentam.

Leitura para um fim-de-semana soalheiro

No fim-de-semana que agora se apresenta há imensas actividades que podem fazer e aposto que poucas incluem ler textos em blogs mais ou menos obscuros. Ainda assim, insisto:

  • O quasi-sempre genial Surreal Football tenta colocar um tom romântico na época 2011/2012 do FC Porto;
  • Com a Copa América a começar, o Who Ate All The Pies? apresenta uma lista de nomes a ter em conta quando estiverem a ver a SportTV às 2 da manhã. Não vou ser só eu, garanto!;
  • Observações tácticas sobre a época que findou, como perspectiva para a que está a começar, no Football Further;
  • Para levantar a malta do chão depois da surpresa que foi ver o River Plate a descer de divisão, o olhar fresco e renovado do Hasta El Gol Siempre perante a tarefa difícil que se avizinha;
  • A sátira bem aplicada do Arseblog sobre as ridículas especulações no mercado de transferências de Verão;
  • E termino com mais uma análise da forma como os adeptos olham para as novas contratações. Palavra ao Cacifo do Paulinho, sobre Onyewu.

O sorteio da Liga Zom. Sim, Zom.

Todos os arranques de temporada é a mesma coisa. Lá vem o sorteio da Liga totalmente ao contrário da sobriedade dos que são feitos na UEFA (como devem ser feitos, sem parolices), com as meninas bonitas vestidas como se fossem participar num qualquer desfile americano de Thanksgiving, discursos de circunstância, qualquer actuação estúpida de quem acha que vai ter imensa piada chamar acrobatas ou contorcionistas para um sorteio de um campeonato de futebol, muita malta que não tem absolutamente nada a ver com futebol e este ano até a Karen Jardel/Gaidão/(sei lá, Stempin, só para continuar nas modalidades?) lá esteve, com o genial sotaque brasileiro a converter o nome da nossa Liga numa onomatopeia. Zom. Foi assim que ela disse. Zom Sagres. Acaba por ser zen. Zommmmmmm. Enfim, o habitual festival de mediocridade que leva um banho de televisão em directo e que toda a gente pensa que é mau, mas nunca muda.

O que também nunca muda são as declarações do “temos de jogar contra todos”, “o que interessa é chegar ao final em primeiro”, “vai ser um campeonato muito equilibrado” e outras banalidades que os jornalistas podiam escrever em casa e tirar papelinhos de um chapéu para decidir quem tinha sido o autor. E é tudo uma treta e uma enorme falácia.

1ª Jornada: Guimarães vs FC Porto
2ª Jornada: FC Porto vs Gil Vicente
3ª Jornada: U. Leiria vs FC Porto
4ª Jornada: FC Porto vs Setúbal
5ª Jornada: Feirense vs FC Porto
6ª Jornada: FC Porto vs Benfica
7ª Jornada: Académica vs FC Porto
8ª Jornada: FC Porto vs Nacional
9ª Jornada: FC Porto vs Paços de Ferreira
10ª Jornada: Olhanense vs FC Porto
11ª Jornada: FC Porto vs Braga
12ª Jornada: Beira Mar vs FC Porto
13ª Jornada: FC Porto vs Marítimo
14ª Jornada: Sporting vs FC Porto
15ª Jornada: FC Porto vs Rio Ave
16ª Jornada: FC Porto vs Guimarães
17ª Jornada: Gil Vicente vs FC Porto
18ª Jornada: FC Porto vs U. Leiria
19ª Jornada: Setúbal vs FC Porto
20ª Jornada: FC Porto vs Feirense
21ª Jornada: Benfica vs FC Porto
22ª Jornada: FC Porto vs Académica
23ª Jornada: Nacional vs FC Porto
24ª Jornada: Paços de Ferreira vs FC Porto
25ª Jornada: FC Porto vs Olhanense
26ª Jornada: Braga vs FC Porto
27ª Jornada: FC Porto vs Beira Mar
28ª Jornada: Marítimo vs FC Porto
29ª Jornada: FC Porto vs Sporting
30ª Jornada: Rio Ave vs FC Porto

O sorteio pode parecer indiferente à primeira vista. Afinal não se sabe como as equipas vão estar na altura em que jogarmos contra elas, se vai haver um surto de diarreia explosiva na área do adversário (ou na nossa, Deco me livre), se os jogadores vão estar cansados depois de uma semana de jogos das Selecções…há tantas variáveis que seria um exercício cansativo e fútil tentar perceber se é bom ou não. No entanto, todos os campeonatos é a mesma coisa, já que ninguém fala do sorteio mas quando se chega à parte complicada da época é sempre “agora começa o ciclo da morte” e “vai ser um mês terrível para a equipa”. Ou seja, nessa altura já toda a gente admite que realmente o sorteio, para além de tudo, é uma questão de sorte. Há tanta pequena coisícula que podemos retirar de um sorteio e que vai bem para lá do “são sempre trinta jogos e as outras equipas são todas difíceis”. Vamos a isso, por tópicos:

  • Começamos fora. Em Guimarães, depois da Supertaça Cândido de Oliveira…contra o Guimarães. Pode ser chato;
  • Acabamos fora e o último jogo em casa é contra o Sporting. A correr muito bem já temos o campeonato ganho nessa altura, evitando uma deslocação difícil (como ano passado à Madeira), mas se correr mal não podemos depender do factor-casa para decidir o que pode ser o jogo do título. Pode ser chato;
  • Benfica na 6ª jornada no Dragão. Indiferente, mas agradável. É preciso ter em conta que o Benfica tem um percurso idêntico ao nosso até lá chegar;
  • Vamos a Alvalade no reinício do campeonato pós-Natal. A paragem pode prejudicar a equipa mas os outros não estão imunes. Só não queria era ter de jogar um clássico com os nossos gajos cheios de rabanadas;
  • Na segunda volta vamos, durante os meses de Março e Abril: Luz, Choupana, Mata Real, Braga, Barreiros. Muito, mas muito complicado, especialmente numa fase em que esperamos poder estar a lutar nos oitavos/quartos da Champions;

 

É verdade que temos sempre que jogar contra todos. Mas pelo que posso ver pela lista dos jogos…é preciso começar bem, porque dos quinze pontos que vão estar em disputa nas primeiras cinco jornadas…temos de conquistar quinze. Chegar à sexta jornada com um score de 5-0-0 é muito importante e o facto de termos montanhas de jogadores na Copa América e no Mundial de sub-20 não vai ajudar nada.

Esse, para além da Supertaça Cândido de Oliveira, vai ser para mim o primeiro grande teste a Vítor Pereira.

 

PS: aparentemente, Zom é uma personagem do universo Marvel. E lá para um dos livros, Zom, ele próprio uma entidade do Mal, vê o seu poder invocado pelo Dr.Strange para combater…exacto, adivinharam, o Hulk. E logo depois de lhe darem o prémio de melhor do ano, Karen, palavra que não compreendo…